A pedra no meu sapato
1 A minha primeira manhã em Rolland
Notas iniciais
Respirei fundo e adentrei o belo jardim da escola de Rolland. Era a primeira instituição de ensino que eu conhecera, que tinha um jardim florido com entradas bem cuidadas — o que era de se esperar para a melhor escola da cidade.
Rolland, a pacata e pequena cidadezinha no interior do Canadá. Era perfeita — para meus queridos e presentes pais. A propósito, me chamo Sarah Trow. Tenho 16 anos e moro sozinha, a partir deste ano. Meus guardiões legais resolveram me emancipar e me jogar para viver sem ninguém num apartamento no meio de uma cidade cheia de desconhecidos.
Subi alguns degraus de frente para a porta de entrada. Girei a maçaneta e dei meu primeiro passo oficialmente dentro do corredor principal de Rolland School, que por sinal estava vazio. Deixei com que a porta se fechasse sozinha. Passando em frente as salas eu podia ouvir murmúrios.
Os números que localizam as salas de aula estavam em ordem crescente, então eu precisaria dar mais alguns passos para achar o número daquele cômodo em que eu ficaria por pelo menos mais dois anos. Caminhei até o corredor ter fim. Uma escada me levaria ao segundo andar. Subi os degraus, e logo me deparei com o número que eu procurava, lá, bem na minha frente: 221.
Abri a porta e ninguém pareceu notar minha presença. Todos os alunos estavam sentados e desesperadamente — provavelmente — contando o que aconteceu nas suas emocionantes férias, ou sei lá o que. Movi os meus olhos a procura de uma classe.
Quase todas estavam ocupadas, mas achei uma no canto direito da sala. Era a última da fila. E, me aproximando rapidamente, percebi que havia outra ao lado dela. Duas classes vazias: Com qual eu ficaria? Oh. Pare com esses pensamentos estúpidos Sarah. Tô até parecendo a Rebecca Black, tipo "Em que banco eu vou senta-aar?". Joguei minha bolsa logo em cima da classe que ficava recostada na parede e me sentei.
Em menos de cinco minutos um homem de estatura média, cabelos e olhos negros entrou na sala e largou seu material na mesa do professor.
— Me chamo Tom, como a maioria já sabe. Darei aula de matemática para a turma de vocês. — Ele ajeitou os óculos. — Algum aluno novo?
Droga. Por quê? Aí a gente levanta e diz "Me chamo fulano, gosto disso e daquilo, minhas qualidades são essas, meus defeitos são esses, bla bla bla..." Eu odiava isso. Definitivamente era a pior parte de estar em uma escola nova. Eu levantei.
— Sarah Trow. 16 anos. — Dei um sorriso super forçado e me sentei.
Um garoto levantou-se em seguida e se apresentou. Nem prestei atenção e por isso nem sei seu nome. O professor mandou abrir o livro na página sei lá qual, e eu não fiz isso, porque eu não estava afim. Não estava afim de ir para uma escola nova, não estava afim de morar sozinha, não estava afim de lavar minha roupa, não estava afim de nada. Não naquele dia. Ui, que rebelde você está hoje, Sarah. Você não passa de uma mimadinha que briga consig..
"Toc Toc": Minha discussão comigo mesma fora interrompida por batidas na porta. Eu queria saber o que era. Sou muito curiosa. Tom dirigiu-se até ela e a abriu.
— Oi. — Pude ouvir uma voz masculina.
— Atrasado no primeiro dia? — O professor falou em um tom brincalhão. — Entra aí rapaz.
O "rapaz" entrou na sala com uma cara super séria. E era lindo. Alto, loiro, de olhos azuis. Super gato. E parecia ter músculos definidos. Eu observei ele caminhar até o meu lado e sentar-se na última classe que sobrara. Eu o encarei, e ele percebeu.
O "rapaz" me lançou um olhar que.. Nem consigo explicar o que era aquilo. Fuzilante, alguma coisa do tipo "vou te matar agora sua vadia" "pare de me olhar babando desse jeito" "tomara que você morra". Rapidamente desviei o olhar e até abri na página que o professor pediu.
Depois daquele corte olharsal — peraí, essa palavra não existe, Sarah!! —, eu nunca mais olharia para ele novamente. O tempo passou rápido. Já era o recreio. O sinal bateu e eu continuei sentada. Eu ficaria por lá mesmo, o que, para mim, era melhor do que passar longos 25 minutos totalmente sozinha.
De repente, uma garota entrou como um foguete dentro da sala. Realmente, ela tinha cabelos vermelhos e olhos azuis.
— Sarah, querida! — Ela sorria alegremente enquanto vinha na minha direção.
— O-oi — Eu mal consegui responder e a menina já veio me abraçando.
— Prazer, Julie. — Ela se afastou e estendeu a mão para que eu a cumprimentasse.
— Sarah. Quer dizer, você já sabe. — Eu ri.
Deixa de ser ridícula, Sarah.
— Tenho mais pessoas para te apresentar. — Ela me puxou, fazendo com que eu me levantasse da cadeira. — Vamos até o pátio?
— Sim. — Eu sorri. Julie pegou minha mão e eu embarquei no foguete até o pátio.
Que menina rápida, cruzes. Nos aproximamos de uma rodinha de pessoas. Chegando lá, ela cutucou um dos rapazes.
— Este é Henry. — Ela fez uma pausa e virou-se para mim. — Esta é Sarah.
— Olá. — Ele sorriu e apertou minha mão.
— Meu namorado. — Sorriu Julie e lhe deu um beijo na bochecha.
— Oi. — Eu tentei parecer simpática.
Henry era alto e tinha cabelos loiros. Seus olhos eram cor-de-mel. Mas antes que eu pudesse analisar mais, Julie me puxou para o lado e chamou mais um menino.
— Este é...
— Louis. Prazer. — Ele a interrompeu e me deu um beijo na bochecha.
— Oi. Sarah. — Eu senti minhas bochechas avermelharem. Ele era muito bonito.
Louis tinha cabelos negros como a noite e olhos azuis da cor do céu. Era alto também.
— Ele é solteiro. — Um murmúrio quase inaudível entrou nos meus tímpanos.
Virei-me para trás e Julie piscou, dando alguns risinhos para mim. Eu mal a conheço e ela já vem me jogando para cima dos amigos dela? Louis era realmente lindo, mas, o que eu menos queria agora era entrar num relacionamento.
— Aqui, Sarah. — Julie me chamou de novo. Me virei para ela.
— Sou Math. — Um menino de estatura média, cabelos e olhos castanhos me cumprimentou.
— Olá. Sou Sarah. — Eu sorri.
— Bom, você já conheceu os meninos. — Julie me segurou pelos ombros e me fez dar alguns passos em direção a uma menina ao lado de Louis.
— Esta é Lucy.
— Olá, Sarah. — Lucy me cumprimentou com um beijo na bochecha, parecendo simpática.
— É um prazer, Lucy. — Eu sorri e ela devolveu um olhar de "tanto faz". Que mal humor.
Julie e eu conversamos um pouco com os meninos. Cada um mais simpático que o outro. Era impressionante como eles conseguiam ser lindos e queridos.
Um flash em meus pensamentos me lembrou que eu deveria descobrir onde ficam os armários e já guardar meus livros já usados nos períodos anteriores.
— Alguém pode me dizer onde ficam os armários? — Eu não queria incomodar, mas...
— Eu te ajudo, Sarah. — Louis sorriu.
— Obrigada. — Agradeci, ele já pegou minha mão e assim me levou até nossa sala.
— Pegue o material que você quer guardar. Te espero aqui. — Ele soltou minha mão.
— Ok. — Eu respondi e abri a porta.
No canto da sala, sentado em cima da minha classe estava o "rapaz" loiro dos olhos azuis. Com uma cara de tédio. Na sua frente tinha uma garota que parecia... Não. Ela estava chorando. Eu fiquei parada olhando para eles. Meio que sem reação. O que teria acontecido?
— D-desculpe, Peter! — A menina berrou e em meio a soluços passou correndo por mim. Foi para o banheiro chorar mais, de certo.
Eu entrei na sala e fui até o "rapaz", que agora eu sabia que se chamava Peter. Quando cheguei em sua frente ele me lançou aquele olhar novamente. Aquilo me deixou sem reação.
— Minha mesa. — Eu o encarei.
Ele suspirou e sem soltar um murmúrio saiu de cima da minha classe e assim da sala. Peguei o material que eu havia usado e fui até Louis.
— Por aqui. — Louis começou a andar para o fundo corredor. Estávamos quietos.
— Peter. Quem é esse? E, por que aquela menina estava chorando? — Dobramos para direita, entrando em outro corredor.
— Ele é muito popular, por ser bonito. Eu não sou gay. Ele se faz de durão porque o pessoal quase não vê ele sorrindo, sem contar que dá fora em todo mundo, o que foi o caso daquela menina que chorava. É comum ver meninas se declarando e chorando por terem sido rejeitadas por ele. Ele é legal, ao mesmo tempo que é um babaca. — Louis fez uma pausa. — Por quê?
— Fiquei curiosa, por ver aquela cena. Só isso. — Eu olhei para ele e sorri.
— É aqui. — Ele parou de caminhar, eu olhei para o lado e vi vários armários. — Você lembra qual o número do seu armário?
— É... Trinta — Eu localizei o número e tirei um cadeado do meu bolso. O sinal bateu.
— Eu vou indo. Preciso ir mesmo. — Louis se aproximou e beijou minha testa. — Vejo você na aula, Sarah.
Assenti com a cabeça. Eu tinha de arrumar minhas coisas rápido. Larguei os livros no chão e coloquei o cadeado no armário para ver se cabia. Perfeito. Sorri sozinha e juntei o meu material no chão.
Esqueci o que devia fazer com eles.
Tranquei o armário e andava calmamente até a sala.
Não, espera. Eu tinha que guardar isso.
Voltei correndo para o armário e joguei tudo no chão novamente. Tirei a chave do bolso e destranquei o cadeado. Juntei os livros do chão e toquei tudo lá dentro. Fechei rapidamente e corri para a sala.
Quando meus pais vieram me matricular a diretora foi bem específica: Nada de entrar depois do professor, ou era suspensão.
Ao lembrar disso eu corri mais ainda. Mesmo sendo emancipada meus pais combinaram com a velha que se algo desse tipo acontecesse eles deveriam ser comunicados. Acelerei o passo mais ainda.
Ao dobrar o corredor, acelerei mais ainda e...
Uma pancada arrebentou minha cabeça e meus pensamentos. Tudo estava meio embaçado.
"Você está bem, sua retardada?"
A batida fora tão forte que eu não atinava em nada. A dor na minha testa era muito forte. A pessoa que estava falando comigo era um homem. Segurou nas minhas costas e me ajudou a levantar.
De pé, esfreguei os olhos, e consegui enxergar direito novamente. Olhei para o lado e vi quem era o menino.
Peter.
Ele me guiou até a enfermaria. Aquele menino era realmente sério. Não demonstrou nenhuma emoção o tempo todo. Mas sua voz era muito sexy. Droga.
Pare de pensar merda, Sarah.
Chegando na tal enfermaria, não havia enfermeira. Que escola maravilhosa.
Peter me empurrou numa poltrona, por sinal muito confortável. Ele começou a remexer nos armários e nas caixas de remédios. Ele sabia o que estava fazendo?
— O que você.. — O cansaço tomou conta até da minha voz. — está...
— Procurando algo útil para colocar na sua testa. — Ele parou e me olhou. Com aquele olhar, sedutor e fuzilante. — Não sei se você notou, mas está com um galo enorme.
Ele voltou a mexer no armário sem me dar importância, em quanto eu arregalei os olhos.
Puta merda! Um galo? Eu deveria estar horrível. Se bem que.. Isso explicava o por que de estar doendo tanto. Eu apenas recostei a nuca na poltrona e fechei os olhos. Os barulhos cessaram.
— Sarah. — Ele me chamou. Abri os olhos. Ele estava me estendendo uma bolsa de gelo — Aqui. Pega.
— Obrigada. — Eu agradeci e segurei a bolsa na mão.
Espera. Pra quê serve isso mesmo? Hmmm...
— Droga. — Ele tirou a bolsa violentamente da minha mão. — Você é burra.
Eu ri. Ele sentou no braço da poltrona e tirou o cabelo da minha testa. Colocou a bolsa sobre o machucado.
Eu gemi. Droga.
Estava doendo, o que eu poderia fazer? Ficamos em silêncio. Aquilo estava entediante.
Tão entediante que eu cochilei.
Pareceu um piscar de olhos. Acordei ouvindo o sinal. Nós poderíamos entrar na próxima aula dizendo que tínhamos nos atrasado na enfermaria. Olhei para o lado e Peter dormia com a cabeça apoiada na parte de cima da poltrona. Tão lindo... Eu poderia ficar o dia todo admirando-o.
Mas, eu tinha de acordá-lo.
— Peter... — Eu tentei manter um tom de voz mediano. — Acorda.
Nada. Coloquei a mão no ombro dele e sacudi.
— Peter. — Cheguei bem perto do ouvido dele e o chamei — Peter.
Ele abriu os olhos vagarosamente e me encarou. Me afastei dele rapidamente. Vai que o garoto pensava que eu poderia, sei lá, estar assediando ele enquanto dormia.. Não.. Não é essa a palavra. Mas com certeza ele não acharia que eu estava tentando estuprá-l..
— Sarah. — Até seu murmúrio era sedutor. Oh meu Deus. — Que horas...
— Hmmm.. — Enquanto ele bocejava eu olhei no relógio de parede que ficava ao lado do armário de remédios. — Meio dia e... Trinta.
— Quê? — Ele levantou rapidamente, ajeitando a camisa amassada por estar deitado. — Perdemos toda a aula.
— Como assim? — Eu me dei por conta que a aula acabava exatamente neste horário.
— Ah.. — Ele emitiu um riso sem sorrir. — O que você fez comigo?
— Eu? — Sorri, enquanto ele se aproximava e.. Opa, ele estava perto demais.
Eu fui me afastando, me afastando, até bater na parede. Ele colocou a mão acima da minha cabeça e outra mão no meu queixo. Meu coração estava quase saltando pela boca. Ele aproximou seu rosto do meu, mas não perigosamente.
— Você me ferrou. — Ele estava sério.
Eu igual um pimentão.
— Hm? — Eu soltei. Estava sem reação.
— Eu quase fui expulso ano passado por faltar às aulas. E agora, você já me fez perder três. no primeiro dia. — Ele acariciava suavemente meu queixo.
Eu vou morrer. Ele sabe exatamente como seduzir uma pessoa.
Mas não, espera.
Quer saber? Não vou me deixar levar pelos joguinhos de Peter. Eu acho que já poderia presumir esse tipinho. Ele provavelmente queria me seduzir para me dar um fora na frente de todos depois.
— Desculpe. — O vermelhão já havia se ido. Fiquei séria e com um olhar fuzilante. Assim como ele. — Não queria lhe causar problemas.
Tirei sua mão do meu queixo. E continuei séria.
— Eu não vou cair na sua, Peter. — Eu falei, desviando do seu imenso corpo. Saí da enfermaria.
Mas, eu não sabia para onde ir.
Eu ouvi Risos.
— Espera aí. — Ele veio correndo. — Te levo na sala.
Não respondi. Apenas o segui. Não demorou muito e chegamos na sala. A minha bolsa de gelo ficou para trás.
Que menino imbecil. Tentando ser ousado, safado. Não passa de mais um idiota tarado no mundo. Quando nos aproximamos da porta que já estava aberta, eu entrei primeiro.
— Sarah! — Julie veio em minha direção junto de Lucy. — Onde você...
Ela parou de falar quando viu que Peter havia chegado junto a mim na sala. Todos estavam guardando o material. Lucy pareceu ficar furiosa. Mas o que...
— Sarah. — Peter me chamou. Me virei para ele e o encarei. — Você precisa disso.
Ele estendeu a mão segurando a bolsa de gelo. Eu soltei um sorriso falso e peguei a bolsa de sua mão.
Eu definitivamente não vou cair na dele.
Fui até minha mesa e peguei minha mochila. Na verdade era uma bolsa, que eu usava como mochila. Eu não precisei guardar o material já que eu não havia usado nada.
Comecei a andar em direção a porta.
— Espere! — Ouvi a voz alegre de Julie. Ela chegou do meu lado. — Então, o que aconteceu?
— Eu acidentalmente dei uma dura cabeçada no Peter. Ele me levou até a enfermaria e não tinha enfermeira. Então ele me ajudou. Só isso.
— Só isso? — Ela sorriu maliciosamente.
— Sim, só isso. — Eu a encarei seriamente.
Lucy nos alcançou e ela e Julie foram conversando até chegarmos no portão. Lá elas perguntaram para que lado eu ia e por acaso era o mesmo que as duas.
Mas Lucy me encarava de um jeito, que, parecia que me mataria a qualquer instante. Então começamos a caminhar.. Cada uma para sua casa, mas todas juntas.
De repente ouvi gritos do meu nome. Lucy parou e olhou para ver quem era. Ela bufou.
— Seu namoradinho. — Ela me encarou. Só faltou me bater, e saiu correndo na frente.
— Lu... O que deu nela? — Perguntei para Julie. E nos viramos para trás.
— Ela já namorou o Peter. — Julie riu.
Ué.
— Sarah. — Peter já estava na nossa frente. — Eu vou com você.
— Como assim?
— Vou almoçar na sua casa, ué.
Agora eu que bufei. Nem sei que cara eu fiz, mas foi feia. Julie arregalou os olhos e ficou boquiaberta enquanto ria.
— Não. — Eu disse, voltando a caminhar. — Vai pra sua casa.
— Você não manda em mim. — Ele foi atrás de mim. — E, depois de eu ser tão generoso contigo, você tem que me deixar ir até a sua casa.
— Não, Peter.
— Sim. — Ele repetiu. — Sou maior que você. Não tem nada que a senhora possa fazer.
O maldito do Peter foi até a minha casa. Não tenho palavras para descrever o nojo que eu estava sentindo dele.
Fale com o autor