A partida

1 Irmão mais velho Sam


Sam Winchester olhou pela janela o Impala se afastar. Era noite e Dean preferiu seguir sozinho até a Universidade Stanford em Palo Alto, na Califórnia. Esta era uma das vantagens de ser maior de idade e responsável pelo próprio destino. Sam, como irmão mais velho, não tinha essa vantagem nas mãos. Seu pai estava no andar de baixo, decepcionado e amargurado pela partida do caçula, se embebedando e aguardando o tempo passar. Pela manhã Sam e seu pai também iriam partir, para mais uma missão perigosa, tenebrosa e impiedosa. A caçada a criaturas supernaturais nunca tinha fim.

Sam lembrou-se do irmão tão jovem e tão bonito. Sempre tão otimista e auto-confiante, como se pudesse tudo e o mundo lhe tivesse sido entregue de bandeja. Dean era a chama que iluminava e aquecia aquela família. Ele era o único que enxergava aquela vida como deslumbrante e glamourosa. Sam sorriu. Dean era ingênuo e inocente sobre alguns aspectos da vida. Quem mais podia sentir-se um super-herói só porque matava monstros?

Sam fechou a janela e ficou por algum tempo segurando o trinco. Encostou a cabeça no vidro da janela. Como irmão mais velho ele sempre cuidara de Dean. Sempre seguira dois passos atrás para salvaguardar a vida do irmão. Dar um safanão em algum idiota que olhasse torto para o traseiro do irmão, ou quebrar a mandíbula de algum universitário que embebedasse seu irmão até a inconsciência, para poder fazer sei lá o que com ele.

Dean nunca sofreu bullying na escola. Sam se encarregou de dar uma surra em todos os valentões da classe dele. Sam não tivera a mesma sorte quando era um aluno novato e magrinho, tendo sido trancado no armário, ou arremessado na lixeira incansáveis vezes. Ele aprendeu a lutar com seu pai. Trabalhou os músculos e usou o raciocínio rápido para encerrar uma luta rapidamente. Acima de tudo, ele pensava no irmãozinho quatro anos mais novo, que precisava de alguém que tomasse conta dele.

Sam desceu para o andar térreo. Morar em casa alugada era uma comodidade a que iriam dar adeus, logo, logo. Com a saída de Dean para a universidade, seu pai não via mais motivo para fazerem de conta que eram uma família feliz e normal. Ele e seu pai agora viveriam no modo "caçador" em tempo integral. Sam suspirou. Ele não gostava daquela vida, não mesmo. Ele gostaria de ter ido para uma universidade também, há quatro anos, assim que concluiu o ensino médio, mas bastou um olhar no seu belo, inocente e confiante irmão caçula, para ele saber que nunca o abandonaria sozinho naquela vida desregrada, sujeito a todo tipo de perigo ao lado de seu pai.

Ele não poderia seguir o próprio destino e dar vazão ao desejo de se educar, ser um pessoa normal, igual a todo mundo. Não. Ele tinha que tomar conta de Dean. E dar a Dean a chance que ele não tivera. Dean se formaria com mérito, viveria em uma aprazível cidade, teria família, engordaria, ficaria careca, e morreria de câncer aos oitenta anos, como todo o resto do mundo. Ele não morreria vítima de um vampiro, ou um Djinn. Não seria devorado por um metamorfo, nem despedaçado por um lobisomem. Dean seria um civil.

Quanto a ele ... Bem, Sam não duraria muito nessa vida, nem seu pai. Ambos estavam num relacionamento sério com a morte. E esta bela deusa um dia os tomaria para si, um por um. E ambos iriam viver na terra dos "pés juntos". Sam sentiu um pouco de nostalgia. Suspirou novamente. Foi até a cozinha onde seu pai já estava na metade da garrafa de uísque. Ele pegou um copo no armário e se serviu também, enquanto olhava para o pai, como a um colega de pelotão, antes do dia D.

"Ele não voltará mais, Sam."

"Eu conto com isso."

"Você acha que consegue continuar nessa vida sem tê-lo por perto?"

"Quem se importa?"

Sam deu de ombros e entornou um copo cheio. Pai e filho beberam a garrafa toda e um pouco mais até ficarem inconscientes. Pela manhã, arrumaram as mochilas e partiram na caminhonete de John Winchester, em direção ao Norte, seguindo uma pista sobre um ninho de vampiros. Nunca mais falaram em Dean, a não ser quando este ligava para saber deles e dar notícias de sua vida acadêmica. Sam sempre se recusava a falar, mas ouvia avidamente tudo que seu pai relatava.

Sam tinha medo de falar com Dean e fraquejar, pedindo ao irmão que voltasse pra casa, e isso era a última coisa que ele queria. Tudo estaria bem, desde que Dean conseguisse sair da vida de caçador e se tornasse um civil. Isso lhe bastava.