A nova vida de uma alma sem lembranças
87 Capítulo 87 - Técnicas de espada contra monstros.
Notas iniciais
Metade do dia já havia passado.
Eu estava completamente exausto de tanto correr.
Embora não tão fadigado, por conta das magias, o uso constante da minha energia estava me deixando psicologicamente cansado.
Minha perna estava mole, mas mais do que isso minha cabeça parecia girar.
Como eu não precisava encantar as magias, acabei aprendendo a controlar duas magias diferentes simultaneamente.
Então para correr o mais rápido possível eu uso magia de ar em minhas costas me empurrando para a frente, fazendo minhas pernas não realizarem tanto esforço e apenas usá-las para guiar a corrida.
Enquanto isso eu também uso magia de vento à minha frente para cortar o ar e criar quase um vácuo, para que não haja resistência aerodinâmica enquanto eu corro o mais rápido possível.
Eu também usava essa magia na frente de Huskie, para ele também ter mais vigor enquanto me acompanhava.
Meu estomago parecia querer digerir a si mesmo.
Não por menos, pois era horário do almoço e eu só havia bebido água desde o café da manhã.
Depois de recuperar um pouco o fôlego eu me ajeitei ao lado da estrada e comecei a preparar alguma coisa para comer.
Eu não iria cozinhar naquele lugar, por isso eu trouxe alimentos que pudessem ser preparados sem fogo.
Assim que terminei de comer e de alimentar Huskie eu tentei me levantar.
Minhas penas simplesmente não me obedeciam.
Eu tentei pensar em alguma coisa para me ajudar com a situação, mas nada vinha em minha mente.
Pensei até em usar magia e foi quando eu notei que minhas energias estavam quase se esgotando.
Então eu decidi parar e meditar um pouco.
Nunca havia feito para esse objetivo, pois sempre precisei expelir o excesso de energia, porém dessa vez eu meditava para tentar absorver a energia que ficava à minha volta.
Enquanto meditava eu não pude deixar de sentir a magia de tudo que estava à minha volta.
Felizmente a metrópole estava muito distante agora e eu podia apenas sentir o acúmulo de magia que vinha de sua direção sem afetar meus sentidos.
Eu sentia a magia da natureza à minha volta, pequenas árvores espalhadas pela planície, pequenos animais que estavam nas redondezas.
Até que eu senti uma carroça ou carruagem se aproximando vindo do sul.
Como eu estava meditando decidi não perder o foco e continuei com os olhos fechados e imóvel.
O som das rodas na estrada e das patas do cavalo acabaram com o silêncio que me deixava com apenas o barulho do vento percorrendo pela vegetação.
Quando o veículo puxado por um cavalo estava à apenas alguns metros de mim ele parou.
Eu consegui sentir 5 pessoas e o cavalo.
Um deles se aproximou de mim.
— Está tudo bem, criança? — A voz rouca de um homem me fez abrir os olhos. — Você está perdido ou algo assim?
— Olá! Desculpe por atrapalhar a viagem de vocês. — Eu sorri e olhei em seus olhos, mas continuei na minha posição de meditação. — Estou viajando para o sul, para El, e só parei para comer e descansar um pouco.
— Entendo. Mas... Hmmm. — O homem parecia inquieto com a situação. Notei que ele segurava uma lança e se apoiava nela enquanto conversávamos.
— Não se preocupe com a minha aparência. Eu pareço ser uma criança, mas eu já sou um aventureiro. — Eu acho que era isso que incomodava, então mostrei meu colar da Guilda de Aventureiros.
— Aah sim! Está tudo bem então. — Ele se curvou como um cumprimento. — Desculpe atrapalhar seu descanso. Tenha uma boa viagem.
— Tenham uma boa viagem também. — Eu respondi.
Era uma carroça de comércio, assim como a de Taime.
Inclusive, o mercador era bastante parecido com o meu conhecido.
O homem que conversou comigo era um aventureiro também, lembrava Louyi em aparência, embora fosse muito menor em estatura, também muito mais novo.
Devia estar próximo dos 20 anos de idade.
Portava algumas peças de armadura de metal, no peito e nos ombros.
Em suas costas estava também um escudo retangular de metal nas bordas e madeira no meio.
Ele voltou para a carroça e sentou-se em seu lugar.
A carroça voltou a andar e passou por mim.
O cocheiro passou me olhando com um leve sorriso, como que me desejasse um bom dia sem dizer nada.
Respondi com o mesmo sorriso.
Os outros Guardas de Carga que estavam na carroça me olharam após passar por mim.
Junto com o Lanceiro havia um Elfo da Floresta segurando um arco.
Dentro da carroça eu pude ver uma mulher humana da mesma etnia do lanceiro, com um belo cabelo cacheado preso em um coque.
Não consegui ver que tipo de arma ela usava, acreditei que ela devia ser vanguarda por estar usando uma armadura de metal no peito e no ombro.
O quarto guarda estava em uma posição que não me permitia enxergá-la.
A carroça era extremamente semelhante com a de Taime, porém parecia mais curta.
Eles passaram e continuaram seu rumo.
Antes que eles pudessem desaparecer no horizonte eu já havia fechado os olhos e voltado a meditar.
Acho que meia hora havia se passado eu percebi que já havia meditado o suficiente.
Tentei mexer minhas pernas e, embora ainda estivesse meio difícil, eu já podia me levantar.
Comecei a andar normalmente pela estrada seguindo meu caminho.
Quando meu corpo começou a esquentar por conta da caminhada, eu comecei a correr.
Ainda não tão rápido, uma corrida para soltar os músculos.
Pouco tempo depois eu já pude voltar a correr em uma boa velocidade.
Não acho que consegui continuar correndo na minha velocidade máxima, mas creio que seja o suficiente no momento.
Algo como 2 ou 3 horas havia se passado, eu havia feito mais algumas pausas para me hidratar, quando comecei a sentir a presença de pessoas.
Também conseguia ver as construções da cidade aparecendo em meio a vegetação.
Pouco mais de 30 minutos até que eu chegasse definitivamente na cidade.
Embora demorou um pouquinho mais, pois eu parei de correr usando magia ao me aproximar, pois não queria espantar os moradores de El.
A cidade contava com um pequeno muro de proteção, pouca coisa mais alta que o muro que eu criei para o fazendeiro Tacio.
As casas da cidade eram bastante simples, como deviam ser as casas de uma pequena cidade como essa.
O sol ainda estava no céu quando eu cheguei na casa do prefeito.
Como era uma cidade pequena, não existia um edifício específico como uma prefeitura, apenas a casa do prefeito.
Quando o prefeito era alterado, apenas trocava-se a casa do prefeito.
Depois de me hidratar mais uma vez eu bati em sua porta e pedi para Huskie ficar comportado.
Uma senhora atendeu a porta e me encarou por alguns instantes antes de falar.
— Boa tarde! Como posso ajudar? — Senhora parecia Ma'am, mas ela era mais alta e mais magra.
— Boa tarde! Me chamo Dinus. Eu vim pela agência para realizar a missão do Gato de Dupla Orelha. — Eu disse, mostrando também meu colar da Guilda.
— Entendo... — Ela me encarou por mais um momento, mas pareceu se convencer por conta da Tag da Guilda. — Só um minuto, vou chamar o prefeito.
Ela fechou a porta com delicadeza e então eu pude ouvir ela andando.
Depois de alguns segundos a porta se abriu novamente.
— Boa tarde! Eu sou o prefeito Esk'el, muito prazer. — Um senhor atendeu a porta, ele devia ter seus quase 50 anos, já tinha os cabelos e barba acinzentados, mas sua pele morena ainda parecia jovem e era bastante bonita. — Você deve ser Dinus, certo?
— Muito prazer, senhor Prefeito. Isso mesmo, estou aqui pela missão da agência.
— Sim. E pensar que o próprio Dinus viria. Estamos com sorte. — Ele deu um grande sorriso. — Vamos, entre. Deixe-me dizer os detalhes.
— O senhor já me conhece? — O que será que ele sabe?
— Sim, rumores sobre um garoto Elfo Negro que foi condecorado pelo imperador já chegaram por aqui. Pode se sentar aqui.
Então o prefeito já deve ter ouvido falar da minha participação da campanha contra os Orcs.
Ele deve conversar bastante com o nobre responsável pelas terras, e o nobre deve ter participado do dia que fui condecorado, então deve ser o normal ele saber sobre mim.
O primeiro cômodo da casa do prefeito era basicamente uma sala de estar, com uma mesa baixa no centro e dois sofás em lados opostos.
A sala era relativamente bonita, havia tapetes de diversos tamanhos pendurados nas paredes e um grande e belo tapete ao chão onde ficavam os sofás e a mesa de centro.
Não havia um grande lustre como na casa de Louyi, mas os candelabros eram numerosos e bem ornados.
Provavelmente por precisar receber alguém da nobreza ele tenha que deixar esse espaço bem luxuoso, pois difere bastante com a aparência simples do exterior.
Esk'el me falou sobre os relatos e aparições do monstro na redondeza da cidade.
O gato de dupla orelha comum é tão grande quanto um gato doméstico deveria ser.
Eu descobri isso pois na casa de Esk'el havia um animal doméstico dessa raça.
A diferença é que quando é um monstro ele fica maior por conta da mutação que acontece pela magia maligna dos Orcs.
Em contrapartida, pela não necessidade de se camuflar, esse monstro era albino e tinha os pelos bem brancos, então deveria ser fácil de encontrá-lo.
O bicho de estimação do prefeito também tinha o pelo branco e os olhos azuis, como ele descreveu o monstro, e ele inclusive usou o próprio mascote para demonstrar como seria meu alvo.
A cidade tinha bastantes moradores, mesmo assim eu tentei usar meus sentidos mágicos para sentir as redondezas.
Foi ruim, por conta da quantidade de pessoas que eu senti, mas eu consegui sentir um rastro de magia maligna próximo à cidade, então conversei com o prefeito e já comecei a rastrear o monstro.
Antes do pôr do sol eu já havia localizado o monstro na vegetação a uns 5 quilómetros da cidade.
Como de costume eu comecei a me esgueirar para tentar uma aproximação furtiva.
Eu usava magia de vento para que ele não pudesse sentir meu cheiro, técnica que aprendi com os caçadores de Khuma.
Como não havia árvores nas redondezas, eu não poderia me ocultar nelas.
Naturalmente eu empunhei meu arco e preparei uma flecha assim que senti que estava próximo.
Quando eu finalmente vi o monstro em meio ao mato, que puxei a flecha, foi que lembrei que meu trabalho era abatê-lo usando minha espada.
Com isso eu precisaria me aproximar ainda mais dele.
Guardei meu arco, minha flecha e saquei a minha curta espada.
Eu não me lembro de ter cortado algum monstro com essa nova espada.
Quando eu voltei para Khuma eu até encontrei monstros no caminho, mas com ajuda de Huskie e usando o Arco eu não tive problemas com aqueles.
Os únicos cortes que eu fiz com essa espada foi contra Orcs.
Aliás, eu deixei Huskie na cidade, pois ele não era tão furtivo e poderia denunciar minha localização, além de quando ele ataca um alvo, ele machuca bastante com sua mordida, rasgando a pele e quebrando ossos, e eu precisaria deixar o corpo do monstro o mais intacto possível.
Analisando a posição do monstro e procurando uma maneira de me aproximar eu tive a ideia de atraí-lo com o meu cheiro para uma posição que facilitaria meu ataque.
Comecei a procurar algum grande objeto do qual eu pudesse me esconder e encontrei uma grande pedra por perto.
Então eu comecei a direcionar a magia de vento para empurrar levemente o meu cheiro para o monstro.
Ele começou a se mover e eu me movi para a grande pedra.
Assim que cheguei na pedra, eu direcionei o meu cheiro para o outro lado dela, para pegar o monstro por trás e pelo lado.
Talvez eu conseguisse acertar diretamente o pescoço dele enquanto ele procurava pelo meu cheiro.
Quando o monstro estava vindo em direção da pedra foi que eu encarei os olhos dele pela primeira vez.
Os olhos eram azuis como o céu, da maneira que deveria ser um gato albino, mas existia um brilho roxo em seus olhos, como uma pequena chama que queimava lá no fundo da íris.
No momento que eu olhei aqueles olhos eu travei.
Eu estou com medo?
Por quê?
Eu já enfrentei monstros mais fortes, como o Urso de Espinhos e o Lobo de Chifre.
Aquele brilho roxo, ele me lembrava os olhos daquela coruja, a Grande Harpia.
Todo monstro tinha esse brilho roxo no olhar e isso parecia mexer com o meu psicológico.
O monstro não me percebeu e continuou seguindo o rastro de cheiro que deu propositalmente deixei para que ele passasse ao meu lado.
Ele era grande, para um gato, e seu enorme corpo estava bem ao alcance da minha lâmina, mas eu não pude fazer nada.
Minha força havia sumido.
Foi quando ele me encontrou.
O grande monstro gato me atacou com um pulo e com as garras abertas, como fazem os tigres e leões.
Se eu não fizesse nada ele me acertaria.
A adrenalina correu rapidamente pelo meu corpo e eu finalmente consegui me mover.
Eu já havia treinado aquele contra-ataque várias vezes.
Consistia em analisar a rota do ataque do adversário, se esquivar movimentando o mínimo possível para sobrar espaço e tempo suficiente para cortar o adversário, ou de baixo para cima, ou de cima para baixo na diagonal.
Os ataques de Necifran eram tão ferozes contra mim em seus treinos que o ataque do monstro parecia ser lento.
Minha espada estava abaixo da minha cintura, à minha frente, eu apenas movimentei para a minha direita, para deixar o monstro entre mim e a pedra, e apliquei o ataque, de baixo para cima, acertando o pescoço do monstro.
Eu não lembro de ter aplicado tanta força no ataque, então deve ter sido pela qualidade da espada do anão-ferreiro Morek, minha espada atravessou a garganta do monstro com facilidade e o monstro continuou a trajetória de seu salto para simplesmente cair morto no chão.
Não podia acreditar na facilidade que foi, talvez eu tenha me enganado, então eu mantive a guarda alta e me aproximei do monstro para ver se ele se mexia.
Sua cabeça estava a quase um metro de distância do resto do corpo e o sangue negro escorria na terra em volta da grande pedra.
Eu limpei o sangue da minha espada e guardei-a na bainha, mesmo assim fiquei impressionado com o quanto eu evoluí.
Não importa o quão fraco era esse monstro para mim, não devia ser tão fácil assim para simplesmente decapitá-lo com a espada.
Isso quer dizer que as aulas de Necifran estavam realmente fazendo uma grande diferença nas minhas habilidades.
Quando a adrenalina deixou meu corpo foi que notei o quanto eu suei.
Eu estava mais suado do que quando cheguei em El depois de tanto correr.
Caçar um monstro com uma espada é muito mais difícil que usando um arco.
Parece muito mais arriscado, pois ele estará do seu lado, enquanto com o arco você sempre terá uma certa distância para correr.
Será que eu fiquei assim ao lutar contra os Renegados no covil da floresta negra?
Bom...Não tenho como lembrar, pois daquela vez eu fui atingido e desmaiei antes da batalha acabar.
Por um instante eu fiquei bem feliz com o resultado, mas o sol já estava se pondo e eu precisava voltar à cidade com o corpo do monstro.
Eu removi todo o sangue que pude do monstro, colocando uma parte dele em um frasco de vidro para que o pessoal da academia pudesse estudá-lo.
Então, com uma grande sacola de pano que eu havia trazido, eu levei embora o corpo do monstro.
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