A nova vida de uma alma sem lembranças
53 Capítulo 53 - De volta à Khuma.
Notas iniciais
Como minha chegada não era esperada por ninguém, principalmente durante a noite, não havia ninguém aguardando na entrada da vila.
Os muros de madeira de Khuma protegia contra monstros, mas como não havia monstros nas redondezas, não existia algo como uma guarda por lá.
Se houvesse uma tropa de Renegados por perto, essa aldeia seria facilmente devastada.
Mas nela também vivia um ser extremamente forte.
Talvez o ser mais forte de Oriohn.
Umbaku era da raça mais poderosa conhecida em Oriohn.
Ele era um dragão.
Eu não o vi lutar em nenhum momento, mas a história que eu ouvi da minha professora Mayuna foi que os dragões possuem uma estrela dentro de seu corpo, assim eles conseguem soprar o fogo dessa estrela para fora.
Apenas com esse detalhe eles já seriam os seres mais fortes, mas eles também são inteligentes, ágeis e ótimos guerreiros.
As histórias dizem que quando um dragão é corrompido ele fica com apenas dez por cento de sua força total, mesmo assim um dragão corrompido pode se tornar uma calamidade.
Um ataque de um dragão ainda consciente poderia ser dez vezes mais devastador.
Ou seja, se Mayi era uma das maiores heroínas da história e ela tinha o mesmo poder de um dragão corrompido, um dragão consciente seria dez vezes mais forte que Mayi.
Isso considerando apenas a parte mágica.
Em força bruta não existia comparação, definitivamente não exista nada tão forte quanto um dragão.
Então, com um dragão morando em Khuma, claramente ela havia se tornado uma aldeia pacífica.
Acho que algo entre oito ou nove meses havia se passado desde minha última visita à minha casa.
Quando eu entrei na aldeia, alguns Elfos que ainda estavam fora de suas casas me olhavam e me cumprimentavam, como se eu nunca tivesse saído de Khuma.
Eles não queriam saber como havia sido minha viagem, nem se eu estava bem.
Os Elfos Negros apenas não se importavam com essas coisas.
Meus olhos estavam até desacostumado em ver esse povo.
Acho que como eu estive muito tempo fora isso acabou se tornando mais incomum para mim, mas parecia que eles eram mais magros do que eu me lembrava.
Os Elfos de Khuma pareciam desnutridos e famintos, como se estivessem com alguma doença terminal.
Eles não pareciam saudáveis de modo algum, mas eu sabia que aquilo era o normal.
Eu mesmo era muito mais magro que um humano e relativamente mais magro que as crianças das outras raças de Elfos, mas eu ainda era bem mais encorpado que os meus conterrâneos de Khuma.
Logo a estranheza passou e eu já estava na porta da casa dos meus pais.
Eu já não considerava aquela a minha casa.
Para mim, eu já havia saído da casa dos meus pais, já não morava mais com eles.
Eu passaria um tempo aqui, para estar presente quando meu irmão mais novo nascer, mas eu não ficarei aqui por muito tempo.
Encarando um pouco a casa, que parecia um pouco diferente do que eu lembrava, eu bati à porta.
— Dinus? Dinus! — Minha mãe se espantou quando atendeu a porta. — Quanto tempo meu filho. Nossa, em menos de um ano, veja quanto você cresceu!
— Quanto tempo mãe. Eu estava com saudades. — Eu respondi, respondendo também ao abraço que ela me deu. — Eu posso entrar?
— É claro filho, você está em casa afinal. — Ela respondeu com um sorriso.
Aquele sorriso.
Acho que aquele sorriso era a coisa que eu mais sentia falta.
Fora o delicioso aconchego da minha cama durante as noites, o sorriso da minha mãe era o que mais importava em Khuma para mim.
É claro que eu amava muito essa vila e todos que nela viviam.
Foi meu lar durante 8 anos afinal.
Mas o sorriso de minha mãe fazia toda a diferença.
Perguntei a minha mãe onde nós deixaríamos Huskie e ela permitiu que o cachorro ficasse dentro de casa.
Minha mãe estava com um enorme barrigão e andava um pouco devagar.
— Você acabou de chegar? Está faminto? Quer um chá? — Minha mãe me encheu de perguntas quando entramos.
— Estou bem mãe, eu só vou deixar minha bagagem no quarto e vamos sentar e tomar um chá para conversar, se você puder.
— Claro que eu posso. — Minha mãe respondeu e eu fui para meu antigo quarto.
Meu quarto estava bem diferente.
Minha cama ainda estava lá, mas o quarto havia ficado muito maior e havia um grande e belo tapete no chão que parecia muito macio.
Entendi que era para Umbaku dormir.
Agora ele cabia dentro do quarto depois de se transformar de volta em dragão.
Também havia uma janela enorme e totalmente diferente da janela original.
— Dinus! Quanto tempo criança. — Umbaku estava no quarto no momento em que entrei, em sua forma humanoide.
— Umbaku, uma honra revê-lo. — Eu o cumprimentei e me curvei da maneira que ele não gostava só para provocá-lo.
— Vamos criança, levante essa cabeça. Você sabe que eu não preciso disso. — Ele respondeu envergonhado da maneira que eu achei que ele ficaria.
— Sim, você é como um irmãozão para mim. — Eu respondi com um sorriso.
— Conte-me, como foi sua viagem? Gostou de Vegúrlia?
— Sim! Foi muito divertido. Eu finalmente aprendi a ler e escrever por lá. — Eu respondi, depois de deixar a mochila em um canto e sentando-me na cama. — Encontrei também um professor de espada e até a minha mestra Mayi.
Quando eu falei o nome de Mayi o sorriso desapareceu do rosto de Umbaku.
— Desculpe, eu falei algo ruim? — Eu percebi, mas primeiramente não sabia o que eu havia falado e ruim.
— Não. Está tudo bem. É que... — Umbaku olhou para o lado. — Eu sei quem é Mayi. Meu irmão mais velho também foi corrompido e foi nas mãos de Mayi que ele finalmente encontrou o descanso.
A palavra que ele usou foi "Disgast" que significa morrer ou acabar, mas quando alguém sofre muito durante a vida nós também dizemos que ele "chegou ao Disgast" para dizer que ele finalmente encontrou o descanso para sua vida.
— Eu não sabia. Eu sinto muito. — Eu respondi, agora também cabisbaixo.
— Está tudo bem. Na verdade, eu deveria agradecer Mayi por acabar com o sofrimento de meu irmão. Mas ainda é triste para mim.
— Eu entendo. — Eu coloquei minha mão no ombro de Umbaku para confortá-lo — Eu vou deixá-lo com seus pensamentos e vou falar com a minha mãe, okay? Me desculpe mais uma vez por tocar nesse assunto.
— Está tudo bem, não precisa se preocupar. — Umbaku respondeu com um sorriso amargo.
Eu estava um pouco chocado.
Então o dragão que Mayi matou era irmão de Umbaku.
Parece que esse mundo é tão pequeno.
Pelo meu conhecimento até agora, eu sei que Mayi não é natural daqui.
Pelos detalhes de sua etnia que Mayuna me contou, Mayi deve ter vindo do sul do continente.
Mayi era de uma etnia parecida com a da Europa ocidental.
Mas mesmo vindo de longe, muita coisa parecia girar em torno dela.
Enquanto pensava, eu vi minha mãe terminando de colocar o chá na mesa.
— Dinus. Seu pai e irmão devem estar voltando em breve. — Minha mãe comentou.
— Eles foram caçar?
— Sim, mas era um monstro. — Ela suspirou de leve. — Muitos monstros têm aparecido ultimamente.
— Sim. — Umbaku apareceu na sala. — Acho que por conta dos Renegados, a quantidade de monstros aumentou muito nessa região. Precisamos encontrar logo o covil desse Orcs e atacá-los para não ficar muito perigoso.
— Nós avisamos a capital sobre os Renegados. Você participará da caçada também? — Perguntei para Umbaku.
— Sim! Geralmente os Elfos Negros são chamados para esse tipo de caçada e Targo sempre participa, então eu participarei também.
— Entendo.
— Vamos tomar um chá? — Minha mãe disse, sentando-se à mesa.
Então eu contei um pouco sobre minha estadia em Vegúrlia.
Falei da entrevista e da criação do passaporte.
Enquanto dizia, me lembrei da carta de recomendação e fiquei com vontade de lê-la, já que agora eu conseguiria.
Ela estava na minha mochila de viagem, mas eu havia colocado lá desde o dia que entrei em Vegúrlia, então acabei esquecendo-a lá.
Quando eu estava dizendo sobre a primeira bebedeira do grupo de guardas meu pai e meu irmão chegaram.
— Dinus! Você está em casa! — Meu pai disse quase que gritando e com um enorme sorriso.
— Oi, irmão. — Metz estava um pouco sério, ele também estava com o braço enfaixado e segurando seu braço com a outra mão, como se doesse.
— Metz? O que aconteceu? — Minha mãe já ficou preocupada.
— Nada muito grave. — Meu pai respondeu com um riso. — Ele se machucou de leve enquanto caçávamos um Urso de espinhos e não pôde continuar caçando.
— Um Urso de espinhos? Igual aquele que eu lutei antes? — Eu perguntei.
— Sim! Não... Esse era um pouco maior que o que você lutou. Mas no fim era a mesma coisa. — Respondeu meu pai.
— Mas você está bem filho? — Minha mãe perguntou.
— Estou bem. Não é grave. Está doendo um pouco, mas é só isso. — Ele respondeu sério.
— E você conseguiu atingir ele? — Eu perguntei enquanto olhava para Metz. Ele parecia estar mais alto, também mais musculoso, embora ainda fosse magro como um Elfo Negro.
— Sim, eu acertei algumas flechadas, mas não pareceram machucá-lo. — Ele respondeu ainda sério.
— É, a pele desse urso é muito ruim de acertar com a flecha. — Eu respondi sorrindo para tentar descontrair um pouco, ele parecia chateado. — Mas contem-me, eu fiquei sabendo que muitos monstros estão aparecendo, parece que eu peguei a parte tranquila no meu treinamento e você ficou com a difícil, acho que você vai ficar muito melhor que eu.
— Sim! Todo dia tem um monstro para caçar, está ficando bem perigoso, mas graças ao Umbaku, os monstros mais difíceis não nos dão problema. — Meu pai respondeu e meu irmão pareceu ficar menos sério.
Depois de se trocarem, todos nos sentamos à mesa e conversamos até cansarmos.
Contei que aprendi a ler, que conheci a casa de Kurio e seu irmão Faror, o cavaleiro, e que conheci a casa de Louyi também.
Falei sobre como o Faror se disponibilizou para pagar minha estadia enquanto eu estudava por ter ajudado a salvar Kurio.
Também falei que Kurio já havia se recuperado e eles voltaram a trabalhar.
— Faror parece ser muito forte, Myuka me contou que ele é capitão de um batalhão da cavalaria do reino. — Eu estava contando sobre Faror.
— Então ele deve ser uma pessoa séria. — Minha mãe comentou.
— Até que não. Ele é bem alegre e brincalhão, pelo menos ele foi assim comigo e Myuka, mas deve ser sério enquanto está trabalhando. — Eu respondi.
Depois eu contei sobre Necifran e que eu comecei a treinar espada.
Eu busquei minha nova espada e mostrei para todos.
Falei que deixaria minha velha espada em casa para guardá-la como recordação.
Eles concordaram e ficaram feliz com isso.
Então eu contei que encontrei Mayi.
— E ela está bem? — Meu pai parecia um pouco preocupado com Mayi. — O que o reino queria com ela?
— Ela está bem sim, como se não tivesse envelhecido um dia sequer. — Eu respondi com um sorriso para tentar despreocupá-lo. — O príncipe Namir também nasceu com Estil, como sabiam que ela havia me salvado, chamaram ela para cuidar dele também.
— O príncipe de Seti? Eu não sabia que havia nascido um príncipe. — Meu pai contou.
— Sim, ele é bem novinho, deve ter uns 3 anos de idade.
— Então Melion finalmente se tornou Rei "Consorte"... — Meu pai comentou.
— Rei "Consorte"? — Eu perguntei.
— Isso...é difícil dizer. — Meu pai tentou responder. — Rei ou rainha consorte é alguém que não é da família real e se casa com o Rei ou com a Rainha. No caso, a Rainha de Seti é a pessoa com sangue real e Melion era um nobre que se casou com ela e se tornou Rei, mas ele só poderia receber o título de Rei se um filho entre eles nascesse, para garantir a descendência dele.
— Ah sim, entendi. Então a Rainha era a filha do antigo Rei e ela assumiu o trono? — Eu completei.
— Isso mesmo! É claro que você ia entender. — Meu pai disse com um riso.
Então Na'am'mi era de fato a Rainha com sangue real, o marido dela apenas se tornou o rei por se casar com ela.
Eu não sabia que funcionava dessa maneira.
Na verdade, eu nunca parei para pensar como funcionava a realeza, já que faria pouca diferença na minha vida.
Nós continuamos conversando.
Eu falei que como eu já havia aprendido a escrever, eu poderia enviar cartas para Murio de Trucia para que eu pudesse mandar notícias para casa, assim meu pai só teria que visitá-lo.
Eles ficaram felizes com isso, já que eles não teriam que aprender a ler.
Eu falei de fazer dessa maneira pois já imaginei que eles não iriam querer aprender a ler mesmo.
Então nós decidimos continuar conversando no dia seguinte, pois já estava ficando muito tarde, e fomos dormir.
Fale com o autor