A nova vida de uma alma sem lembranças

34 Capítulo 34 - Bebida entre amigos.


Notas iniciais
Postagem: 2020/12/07 21:06 Revisão: 2025/12/11 15:30

A rua principal do portão de Vegúrlia era bem movimentada, mas também era bem fedida.

A quantidade de cavalos que passavam diariamente por lá devia ser imensurável, consequentemente, a quantidade de dejetos também.

Mas quando eu saí da principal para entrar na rua que ficava a estalagem o cheiro melhorou bastante.

As ruas secundárias aparentemente eram mantidas limpas pelos elfos da planície, enquanto as principais não tinham muito o que fazer a respeito.


Logo que eu virei a esquina já foi possível enxergar a estalagem.

Até porque Myuka estava fora dela olhando para minha direção.

Nesse ponto eu já não podia usar a detecção mágica para encontrá-los, pois a quantidade de seres que eu encontrava com a detecção era enorme e me deixava mais perdido do que ajudava.

Myuka acenou para mim e eu apertei o passo em sua direção.


— E aí garoto, deu tudo certo no "interrogatório"? — Ela se abaixou para falar comigo.

— Sim. Eles foram bem gentis comigo. — Então eu mostrei meu passaporte.

— Olha só, 8 anos de idade mesmo. Era muito difícil acreditar nisso, mas com o passaporte não tem como negar. — Ela viu minha plaqueta sem pegá-la de minha mão. — Vamos entrar, suas coisas estão aqui dentro.


Então eu entrei na estalagem.

Havia alguns degraus da rua para a varanda e na varanda estava a porta.

Passando pela porta eu avistei Louyi e Kurio já bebendo alguma coisa em grandes canecas de madeira.

O primeiro cômodo era um bar, com várias mesas e cadeiras, tudo em madeira, com exceção ao balcão, que tinha uma grande peça de uma pedra branca bem lisa e brilhante.

Todas as prateleiras eram suspensas por belas mão-francesas de pedra trabalhada e cheia de detalhes.

Fora isso as mesas e cadeiras eram simples e com linhas retas sem muitos detalhes.

Ao balcão havia um alto homem de pele escura, careca e com um pouco de barba preta. Ele servia uma caneca com um líquido avermelhado e entregava para uma das pessoas sentadas no balcão.

Muitas pessoas de diversas raças e cores estavam no bar, mas ele não estava cheio.

Havia até um Minotauro, que eu havia ouvido falar, mas nunca havia visto.

Também vi Afaeor sentado em uma das mesas com uma roupa diferente.

Eu sabia que os elfos eram muito semelhantes entre os da mesma raça, mas eu aprendi distinguir, então eu tinha certeza de que aquele era o rosto de Afaeor.


— Aquele não é Afaeor? — Eu perguntei baixinho para Myuka.

— Afaeor? Não! Aquele é seu irmão, Afaenor. — Ela respondeu com um riso. — Então você foi entrevistado pelo Afaeor? Que sortudo.

— Sortudo? — Eu acabei não entendendo o que ela disse.

— Afaeor é o chefe dos fiscais do portão leste. É difícil ser entrevistado pessoalmente por ele, embora ele seja muito inteligente e focado em seu trabalho, ele é bastante gentil. — Me respondeu Myuka.


Os elfos param de envelhecer aos 20 e poucos anos, depois disso eles mantem a mesma aparência durante centenas de anos. Por isso irmãos podiam ser muito parecido, mesmo com décadas de diferença de idade. Desde que fossem filhos exatamente dos mesmos pais.

Eu mesmo, por exemplo, era extremamente parecido com Metz, eu só tinha mais músculos que ele quando ele tinha a minha idade.

Afaenor vestia-se como um caçador, com roupas de couro e metal, porém com algumas partes de madeira também, mas ele estava desarmado.


— Vamos Dinus. Entregue sua arma que eu vou colocar com o restante da bagagem. Não podemos entrar no bar portando nossas armas.

— Okay. — Eu respondi entregando minha espada para Myuka.

— Venha garoto. — Kurio me chamou na mesa levantando sua caneca de bebida. — Venha beber conosco.

— Ele não pode beber conosco. — Respondeu Louyi. — Ele ainda não tem idade.

— Claro! Claro... Quero dizer... Eu já não tinha intenção de dar bebidas para ele mesmo.

— Kurio parecia estar um pouco alegre. — Eu estou falando de Sangue de Mel.

— Sangue de Mel? — Eu perguntei quando cheguei na mesa.

— Ah sim! — Disse Louyi. — Claro. É uma bebida de frutas vermelhas silvestres e mel de abelha imperial. Ele é bem doce, mas não é alcóolico.

— É muito caro? Eu quero experimentar, mas tenho pouco dinheiro comigo. — Eu perguntei já me sentando em uma cadeira.

— Não é muito caro, mas o primeiro é por minha conta, se você gostar você pede mais. — Kurio quase derramou um pouco de sua bebida em mim enquanto me abraçava de lado. — Ei. Essa cadeira é muito pequena para você.

— Verdade. Bavar! — Gritou Louyi com seu vozeirão enquanto olhava para o barman. — Vocês têm uma cadeira mais alta?

— Já vai. — Respondeu o alto barman.

— Vocês já entregaram para ele? — Nesse momento Myuka sentou-se conosco.

— Estávamos esperando por você para entregar. — Respondeu Louyi. — Aqui está. Esse é seu pagamento.

— Parabéns pelo seu primeiro pagamento. — Myuka e Kurio me parabenizaram.


Louyi colocou uma bolsa de moedas na mesa.

Ela fez um barulho maravilhoso de moedas sacudindo.

Havia um monte de moedas de cobre e algumas de prata.

Eu até pensei em contar, mas percebi que seria chato fazer na frente de todos e deixei isso para depois.

Taime foi direto para a Guilda dos Mercadores e não pode me pagar em mãos, mas aquele era o pagamento pelo serviço de guarda de carga.

Minha algibeira não comportava tantas moedas, então eu teria que comprar uma nova ou então fabricar com couro de algum animal.

De qualquer maneira todos queriam aproveitar o momento e eu acabei só deixando o dinheiro de lado.


No fim das contas Sangue de Mel era extremamente doce e não agradou meu paladar.

O sabor era muito bom, mas o excesso de doçura o deixava enjoativo.

Talvez crianças humanas adorassem essa bebida, mas eu já não gostava muito.

Acabei descobrindo uma outra bebida mais cítrica, também misturada com frutas vermelhas.

É muito difícil eu comparar com algum sabor da terra, pois eu não tinha recordações de cheiros e sabores da minha vida anterior, mas era bem saboroso.


Era uma cena um pouco diferente para mim.

Eles nunca beberam álcool durante a viagem, provavelmente por precisarem estar sempre prontos para o combate.

Vê-los se divertindo e bebendo juntos finalmente me trouxe o sentimento de serviço finalizado.

Embora Myuka não bebesse álcool, ela gostava muito de Sangue de Mel e ela ficava bem elétrica quando bebia, com as pupilas dilatadas e com o rosto vermelho.

Talvez o excesso de açúcar acelerasse muito o metabolismo dela e deixava-a hiperativa ou algo assim.

Em meio as conversas, histórias, piadas e risadas, nós ficamos satisfeitos.

Depois que paramos de beber, eles me mostraram o alojamento onde dormiríamos.

Eles passariam algum tempo na cidade até que Kurio tivesse seu braço curado antes de voltar a trabalhar.

Taime provavelmente contrataria outros guardas para continuar sua viagem.

Caso Kurio não melhorasse, provavelmente eles deixariam esse serviço e procurariam outra coisa para fazer da vida.

Myuka já deve ter participado de outros grupos de guardas anteriormente. Não tenho certeza, mas acredito que ela tenha mais de 300 anos, então para ela não seria incomum procurar outros guardas para continuar trabalhando.

Já Louyi e Kurio eram muito unidos, eles cresceram juntos e tudo mais, creio que se Kurio se aposentasse dessa profissão, Louyi faria a mesma coisa, mas não tenho como ter certeza disso.


Depois de um cochilo de quase 30 minutos, Kurio acordou sóbrio e sério. Se arrumou e saiu procurar um médico para tratar seu braço.

Louyi ainda cochilava quando Kurio saiu.

Myuka não dormiu e ficamos conversando em seu quarto depois de arrumar a bagagem de todos em cada quarto.

Quando Myuka estava energética ela sempre queria fazer um monte de coisa, então os outros dois sempre deixavam esse serviço para ela.

No meio de nossa conversa eu falei que procuraria por Mayi na cidade, mas Myuka não fazia ideia de onde Mayi estaria.

Mas ela me aconselhou a não sair por aí perguntando por Mayi, já que foram pessoas do reino que trouxeram ela.

Eu fiquei curioso pois Vegúrlia era a capital do império dos elfos da planície e Mayi foi levada por pessoas do reino. Então Myuka me explicou que o reino humano e o império élfico eram aliados e amigáveis entre si, então existiam famílias nobres humanos nas metrópoles élficas.

Os quartos de Kurio e Louyi eram muito pequenos e tinha uma cama muito desconfortável.

Mas eles não dormiriam na estalagem, apenas deixariam suas coisas lá e iriam para as próprias casas.

Afinal, eles nasceram nessa cidade e a casa de seus respectivos pais sempre tinha um cômodo para acomodá-los.

Myuka até ofereceu para ficarmos no mesmo quarto, mas agora eu queria usar o dinheiro do meu pagamento para poder me hospedar.

Então eu tentei perguntar algumas coisas sobre a cidade para Myuka, mas ela também não conhecia tanto, pois ela só passava na cidade temporariamente para acompanhar mercadores.

Ela sabia apenas onde moravam Kurio e Louyi.

Por isso eu decidi ir perguntar algumas coisas ao barman.


O barman era da mesma etnia de Louyi, com a pele um pouco escura, parecido com a pele dos índios sul-americanos, alto, com a cabeça lisinha, mas com uma barba cheia, não cumprida, mas enrolada como a dos afrodescendentes.

Seus olhos pareciam não ter íris de tão castanho-escuro que eram.

Já seu rosto tinha uma expressão bem tranquila e de bem com a vida. Ele não tinha a expressão séria que Louyi possuía.


— Com licença. Eu poderia perguntar algumas coisas para o senhor? — O barman estava lavando a louça quando eu cheguei, pois era um horário quase sem movimento.

— Claro! Dinus é seu nome, certo? — Ele me respondeu enxugando as mãos. — O que deseja?

— Eu sou novo na cidade e eu queria algumas dicas e tirar algumas dúvidas.

— Ah sim. Você não deseja nada do bar? Então se importa se eu continuar lavando a louça?

— Sem problemas. Não quero incomodá-lo. Já falaram sobre mim para você?

— E como falaram! — Bavar respondeu com um riso. — Os adagas-de-prata não paravam de se vangloriar por terem encontrado um elfo negro aventureiro, ainda por cima criança e com muita habilidade de combate.

— Me desculpe por isso. — Eu disse meio sem jeito.

— Mas eu não acreditei até vê-lo entrar pela porta e se divertir igual gente grande com eles na mesa. — Então ele notou que eu fiquei sem jeito com o assunto. — Mas o que você queria perguntar?

— Ah sim. Eu gostaria de saber onde fica a escola de conhecimentos básicos e como eu faço para estudar lá.

— Depende do que você quer aprender.

— Eu gostaria de ler e escrever.

— Entendo. Então...


Então ele me explicou que em um bairro próximo tinha uma escola de escrita e matemática e me explicou como me matricular sendo um estrangeiro.

Falei com Myuka mais uma vez e decidi que iria ficar em Vegúrlia para aprender a escrever e encontrar Mayi, mesmo que eles voltassem a viajar.

Myuka pareceu um pouco triste, mas me desejou boa sorte e disse "se for você, irá aprender rapidinho!".

Foi triste não poder dizer que eu já sabia ler e escrever só que em outro idioma.

Nesse momento Louyi acordou.

Já estava escurecendo quando ele acordou.

Ele estava com uma cara feia e inchada.

Ele parecia estar com muita dor de cabeça e mau-humor.

Myuka contou que Kurio já havia saído e eu contei o que eu havia decidido.

Louyi também fez uma expressão triste quando eu disse que ficaria em Vegúrlia e deixaria o grupo, mas também me desejou boa sorte.

Então depois tomar alguma coisa não alcóolica, Louyi foi para a casa dele também.

Com isso a noite chegou.

Bati mais um papo com Myuka até ela dizer.


— Amanhã eu vou te mostrar a cidade. Pelo menos a parte que eu conheço. Então vamos dormir!


Assim acabou meu primeiro dia em Vegúrlia.

Notas finais
Caso encontre algum erro gramatical ou de digitação, fique à vontade para me enviar a correção. Agradeço profundamente qualquer apoio.