A nova vida de uma alma sem lembranças
36 Capítulo 36 - Dinus na cidade grande.
Notas iniciais
Estou dormindo com Myuka, na cama dela, no quarto dela.
Ela me abraça como uma criança abraça uma pelúcia.
Será que ela já é mãe? Eu nunca perguntei isso.
Talvez ela já tenha filhos adultos.
Se for o caso ela deve sentir falta dos próprios filhos quando eles eram pequenos.
Acho que ela não me vê como um elfo adulto, mas apenas como uma criança.
Bom, eu de fato sou uma criança. Esse corpo realmente é o de uma criança afinal.
De qualquer maneira, eu estou ansioso.
Meu corpo pode ser o de uma criança.
Mas eu não tenho a mente de uma.
Eu penso como um homem adulto.
E como um homem adulto, eu sei o que parece significar dormir em uma cama abraçado com uma mulher.
Eu não tenho sentimentos pervertidos, provavelmente por meu corpo ainda não sentir necessidade disso.
Mas milhões de pensamentos por segundo passam pela minha mente.
Por mais que a situação que eu me encontre seja inocente e não tem nada a ver com isso, já que não havia nenhum sentimento pervertido de Myuka.
No fim eu quase não consegui dormir e o dia amanheceu.
Myuka acordou descansada e animada, como ela costumeiramente acordava.
Quando ela acordou eu havia conseguido adormecer, mas eu acabei acordando junto a ela.
Eu me apressei para voltar ao meu quarto e comer uma fruta de Kojo, pois sentia que a quantidade de energia no ar dentro da cidade era enorme e estava se acumulando em meu corpo.
Depois de um tempo e durante minha meditação, Myuka apareceu e me chamou para tomar café da manhã.
Eu podia usar minhas roupas leves no refeitório, mas Myuka precisou se trocar, pois as roupas leves dela eram muito chamativas.
O Barman não estava no refeitório dessa vez.
Em seu lugar estava uma mulher humana, com o cabelo ruivo, pele bem clarinha, um pouco gordinha, mas ela também era um pouco baixinha.
Não como um anão, ela só era mais baixa que o padrão dos humanos.
Seus olhos eram amendoados e grandes em relação ao seu rosto, e sua íris era verde por fora e com o interior alaranjado.
Eu não sei se ela era algo como esposa dele, se ela era alguma funcionária ou se ela era dona da hospedagem.
A única coisa que eu guardei dela foi que sua comida era extremamente saborosa, ela era uma cozinheira fantástica.
Nós tomamos café da manhã diferente do que eu estava acostumado, pois durante a viagem é tudo simples, tudo rápido e tudo leve, mas nessa estalagem era tudo muito gostoso.
Depois do café da manhã, Myuka me levou para conhecer o centro comercial da cidade.
Era enorme, cheio de gente e muito fácil de se perder por lá, principalmente para alguém desacostumado como eu.
Algumas vezes Myuka segurou minha mão para podermos passar por alguma multidão.
Eu achei uma barraca que tinha fruta Kojo e comprei mais para o meu estoque.
Também comprei uma faca de melhor material e melhor fabricação para meu uso pessoal, como fabricação de flechas e limpeza de caça.
A minha faca atual eu guardaria para devolver ao dono anterior em Khuma.
Nós compramos também algumas especiarias culinárias deliciosas que Myuka já conhecia.
De qualquer maneira eu não tinha muito dinheiro para ficar gastando adoidado em um comércio grande como esse, então eu acabei olhando mais do que comprando.
Depois que enjoamos de olhar as barracas e lojas, eu perguntei para Myuka se ela sabia chegar ao bairro que ficava a escola, que Bavar havia me falado sobre.
Ela não sabia, mas nós perguntamos a algumas pessoas e acabamos conseguindo chegar lá.
A escola era razoavelmente próxima da Sereia-Tímida, devendo ficar a mais ou menos 15 minutos de caminhada.
Eu até pensei em já fazer minha matrícula, mas naquele horário não havia ninguém disponível para me atender e eu teria que voltar mais tarde.
Então Myuka me levou em alguns lugares turísticos e que ela achava belo da cidade.
Ela me mostrou algumas praças e algumas construções.
Não existia algo como igrejas ou templos nessa cidade.
A crença deles era bem definida em Yan, Oda e os guardiões.
Mas ela me mostrou uma biblioteca e um salão de apresentações musicais.
Tudo era lindo, pois era construído pensando nos mínimos detalhes.
De alguma maneira lembrava as construções renascentistas históricas como a Catedral de Milão, mas apenas em quantidade de detalhes, pois a aparência era diferente, era única.
Não acho que algo na terra poderia ser comparado à arquitetura élfica de Vegúrlia.
Além delas serem bem mais coloridas, contendo detalhes em dourado, prateado, azul claro e algumas vezes verde claro.
Enquanto me mostrava, Myuka me falava sobre o pouco que sabia da história de cada construção e para que ela servia.
Então nós chegamos em uma grande mansão.
A arquitetura não era impressionante, mas totalmente diferente.
Essa arquitetura era mais humana e me lembrava um pouco a arquitetura escandinava.
Myuka ficou encarando a mansão um momento em silêncio.
— Qual a história desse lugar? — Eu perguntei para Myuka.
— História? — Ela respondeu com um riso. — Não tem história. Essa é a casa dos Sangue-de-Prata.
— Você diz... De Kurio? — Eu quase não lembrava mais do nome de família dele.
— Isso mesmo. Vamos perguntar como Kurio está?
— Sim!
Nós tocamos algo que parecia ser uma campainha.
Havia um grande portão de ferro vazado, podendo ver o interior do terreno, com um arco em madeira escura cheio de detalhes gravado tanto no portão quanto no arco.
O muro do terreno também era de metal vazado, com a mesma aparência que o portão, mas sustentados por grandes pilares de madeira iguais a do arco.
Não havia nenhum detalhe em ouro ou prata, mas havia alguns detalhes em mármore branco em alguns pontos do muro e do portão.
Entre a casa e o portão havia um grande jardim verde.
Não havia flores, apenas plantas verdes, árvores e moitas em podadas.
Havia um chafariz também, feito do mesmo mármore encontrado no portão.
Algo como um mordomo aproximou do portão e se curvou diante de nós, pelo outro lado do portão.
— Seja bem-vinda "madame" Myuka. — Cumprimentou o mordomo, com uma expressão que eu nunca havia ouvido. — Como posso ajudá-los hoje?
Esse mordomo era alto, muito alto.
Talvez a pessoa mais alta que eu já havia encontrado.
Seus olhos eram verde-escuro, como as escamas de Umbaku.
Seus cabelos eram loiros tão claro que pareciam brancos em alguns momentos, penteados para trás de maneira bem sofisticada.
Ele era magro, se comparado à Kurio e Louyi, e não devia ter músculos como os dois.
Usava uma roupa muito parecida com a de um mordomo que conhecemos na terra. Preta com algumas partes em branco e um lenço vermelho escuro sendo mostrado para fora de seu bolso em seu terno.
Era possível ver uma corrente de prata como um acessório em sua roupa também.
Ele ficava com a coluna reta com um ar de elegância que eu ainda não havia presenciado.
— Olá Seltiro. Quanto tempo! Como tem passado? — Ela cumprimentou-o de volta, sem usar a mesma sofisticação. — Nós viemos ver como está Kurio.
— Tenho passado muito bem, obrigado pela sua preocupação. — Ele respondeu, parecendo um pouco mais descontraído, mas ainda com elegância. — Peço que aguarde um momento que anunciarei sua chegada. Como chama esse pequeno "cavalheiro" que a acompanha?
— Eu me chamo Dinus, muito prazer. Fui colega de Kurio em seu último trabalho. — Eu não entendi aquela palavra no momento, mas me apresentei.
— Entendo. Só um momento por "gentileza".
Então ele voltou para a mansão com passos largos e rápidos.
Eu estava maravilhado com a majestosidade que aquele lugar passou naquele momento.
Eu não esperava algo tão "nobre" de Kurio, mas deve ser o lógico, já que ele é de uma família nobre.
Fiquei curioso também em como seria a casa dos Galafar.
— Isso é incrível! Ei, Myuka, será que depois podemos visitar a casa de Louyi também?
— Claro! Eu te levo lá depois. — Ela me respondeu meio animada.
— Desculpe fazê-los esperar. — Eu nem notei o mordomo se aproximando novamente de nós. — Por gentileza, poderiam me acompanhar?
Nós entramos na mansão de Kurio.
Então eu fiquei sem entender o motivo de ele trabalhar como Guarda de Carga, já que a família dele deveria ser bastante rica e importante.
O interior da casa era tão belo quanto o exterior.
Nada como o que conhecemos como nobreza alemã, francesa ou inglesa, pois tudo se assemelhava à cultura escandinava, mas tudo era sofisticado e elegante demais.
Na entrada havia um grande espaço vazio, com algumas esculturas feitos em mármore, também havia escadas e várias portas.
Uma grande luminária descia do alto teto e chegava a alguns metros de nós.
Nós fomos levados para uma sala que parecia ser para convidados.
Parecia uma sala de estar, com algumas estantes com livros, uma lareira e quadros em várias paredes.
Todos os móveis eram de uma beleza distinta e me deixavam fascinado.
Algumas poltronas luxuosas estavam na sala e Kurio estava em uma delas.
Algumas pessoas estavam próximo à Kurio.
Provavelmente eram médicos e curandeiros, pois estavam tratando seu braço.
— Kurio! Como está indo? — Myuka pulou para dentro da sala com um passo.
— Com licença jovem "mestre". Aqui estão os convidados. — Seltiro só conseguiu falar depois de Myuka.
— Com licença. — Eu pedi licença antes de entrar na sala.
— Oi, Myuka! Olá, Dinus! Acho que vai dar tudo certo. Já estou começando a conseguir sentir algumas agulhadas nos dedos.
— Que bom! Tenho certeza de que logo você estará de volta lutando conosco! — Myuka fez uma pose estranha de animação nesse momento.
— Claro! É o que eu mais quero. Não vejo a hora de poder voltar a cortar alguns monstros.
No momento que ele terminou sua frase, a maior parte dos criados e funcionários da casa fizeram uma expressão de nojo, como se ele tivesse dito algo horrendo.
Acho que a família dele não é costumeiramente guerreira e ele é um ponto fora da curva.
Pelo menos foi o que achei, até o mordomo aparecer novamente e anunciar.
— Jovem mestre! O seu irmão Cavaleiro Faror está entrando. — O mordomo parecia ansioso e fala formalmente, mas com um pouco de pressa e tensão, junto com uma expressão assustada.
— Sim! — Kurio respondeu, se levantando com um pulo da poltrona.
Nesse momento todos os empregados da casa se movimentaram como para formar um corredor na porta dessa sala.
Kurio ajoelhou-se em uma das pernas e abaixou sua cabeça.
Todos os empregados abaixaram suas cabeças.
Myuka também se ajoelhou e abaixou a cabeça.
Eu entendi rapidamente a situação e fiz o mesmo que Myuka, ao lado dela.
Estávamos todos curvados aguardando a entrada do Cavaleiro Faror.
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