A nova vida de uma alma sem lembranças

10 Capítulo 10 - De volta ao lar.


Notas iniciais
Postagem: 2020/07/12 18:42 Revisão: 2025/12/11 15:14

Quando menos percebi, eu já estava de volta ao vilarejo.

Minha mãe parecia exageradamente feliz em me ver.

Ela chorava bastante, mas dessa vez era de alegria.

Acredito que ela tenha ficado muito apegada a mim por conta da minha falecida irmã.

Eu já tinha feito 3 anos havia um tempo e estava rumo aos 4.

Pelo que eu entendi, havia festas apenas de 6 em 6 anos.

Aos 6 anos você chegava na fase de criança e podia brincar fora do vilarejo.

Aos 12 anos você se tornava algo como um adolescente, então deveria realizar o treinamento de magia e aprenderia a encantar magias.

Após voltar do treinamento mágico, você passava a aprender a sua futura profissão.

E aos 18 anos você chegava na maturidade.

Isso para os Elfos do nosso vilarejo.

Os humanos faziam festas de 5 em 5 anos, chegando à maturidade aos 15.

Outras raças de Oriohn demoravam bem mais para envelhecer e chegar à fase adulta.

Mas também possuíam maior longevidade que os humanos.

Ouvi dizer que os seres que viviam nos mares chegam à maturidade com apenas 5 anos.

Mas disseram que isso também pode ser apenas um mito, pois eles não vêm próximo à superfície durante a infância.


Agora que voltei para casa, consigo notar como é tranquila a vida no vilarejo.

Chego até a ficar entediado por aqui.

Minha mãe começou a plantar a fruta de Kojo em um grande vaso na frente de nossa casa e eu ajudo na manutenção dessa pequena "horta".

A planta é idêntica ao morango terrestre, mas com uma coloração mais escura.

Eu uso a magia d'água que eu aprendi para ajudar no crescimento da fruta.

Essa é uma das plantas que se alimentam de magia e elas crescem com muita rapidez quando se usa água mágica.

Em menos de uma semana ela já dava frutos.

Espero conseguir controlar minha magia no futuro para não precisar comer mais esse fruto.

É tão ruim a ponto que acredito ser impossível acostumar-se com o sabor.

Minha mãe até experimentou uma vez, ela acabou cuspindo tudo e depois disso sempre me olhava com cara de dó quando eu precisava comer.


Eu praticava a meditação sozinho.

Minha mãe até achou estranho, pois não aprendeu isso na infância dela.

Aparentemente apenas eu fazia dessa maneira.

O meu caso é que era extremo e precisava de algo diferente para ser controlado.

Felizmente depois de controlado pela primeira vez eu não precisava mais das ervas e daquela gororoba para manter controlado.

Só a fruta e a meditação já era o suficiente.

A Mayi não conseguiu explicar, mas pelo que eu sinto durante a meditação, minha magia é jogada para o ar e acaba se dissipando como se fosse uma fumaça.

Talvez por não conseguir sentir a magia como eu ela não entenda completamente como funciona.

Eu podia estar errado também, já que eu não entendia sobre magia tão profundamente.

Será que existe algo como escola de magia nesse mundo?

Os moradores do vilarejo parecem não conhecer muito sobre o restante do mundo.

Eles não são muito de viajar e preferem viver uma vida tranquila por aqui no vilarejo mesmo.

Eu não sei se conseguirei viver dessa maneira a vida toda.


Em uma das minhas conversas com a minha mãe eu expliquei que eu não poderia usar magia de fogo tão cedo, por conta da afinidade com o elemento.

Logo ela entendeu o que aconteceu naquele incidente quase 1 anos atrás.

No vilarejo ninguém além de mim conseguia usar magias d'água.

Durante muito tempo eu não pude aprender nenhuma outra magia.

Mas isso deveria ser o normal, já que só se podia aprender magia mesmo após os 12 anos e eu estava com quase 4 anos conseguindo usar magia como um adulto.

Minha mãe já não se surpreendia tanto com a minha facilidade com essas coisas, mas os nossos vizinhos ainda custavam a acreditar nisso.

É claro que alguém que nasceu com a mentalidade de um adulto teria esse comportamento, mas eu acho que isso nunca havia acontecido antes.

Eu também não contei sobre isso.

Não contei sobre ter tido uma vida anterior.

Tenho medo de qual seria reação das pessoas caso soubessem.

Acho que seria difícil para elas entenderem.

Além de também não me lembrar de como foi minha vida anterior.

Então como eu explicaria?

As únicas coisas que eu tinha eram apenas algumas informações do mundo em que eu vivi.


Em uma conversa com alguns adultos eu acabei perguntando o motivo de meu pai ter o corpo tão diferente dos demais.

Ele tinha mais músculos e mais gordura, enquanto todos eram tão magros.

Foi assim que descobri que meu pai era um mestiço.

Ele era meio Elfo e meio Humano.

Isso era extremamente difícil acontecer, pois era raro um casal de raças diferentes conseguirem se reproduzir.

Por conta desses músculos adicionais que meu pai tinha facilidade na caça.

Ele era o segundo caçador mais habilidoso da aldeia.

Havia apenas uma Elfa mais habilidosa que ele, que também era a líder dos caçadores.

Essa Elfa também era filha do chefe da aldeia, e se ela se tornasse tão boa quanto o pai dela na liderança, ela seria a próxima chefe.

Eu havia pensado que meu pai era o líder, mas depois imaginei que pelo fato de ele ser mestiço, nunca deixariam ele ser.

No fim das contas ele poderia ser líder sim, pois os Elfos não teriam essa distinção com ele e ele só não era bom o suficiente para isso.


Isso quer dizer que eu tinha sangue humano também?

Meu pai me contou depois que isso não era possível.

Eu tinha sangue puro de Elfo.

Primeiro que seria extremamente difícil eu ser mestiço como ele, pois as chances eram muito baixas, mas também porque se fosse, eu já teria apresentado traços humanos há muito tempo.

No próprio nascimento já seria possível me identificar com um mestiço.


Alguns dias se passaram e eu finalmente consegui uma oportunidade de conversar com os meus pais sobre a minha vontade de viajar pelo mundo.

Esperei um dia em que meu pai estivesse jantando conosco.


— Pai, mãe. Eu tenho interesse em estudar, aprender a ler e escrever. Gostaria de aprender mais sobre magia também.

— Mas você ainda é muito novo para... — Minha mãe começou a dizer, mas eu não a deixei completar.

— Eu sei que ainda sou muito pequeno e indefeso, por isso eu gostaria de saber o que eu preciso fazer, que idade eu preciso ter para que vocês me deixem fazer isso.

— Bom. Você poderia viajar se tivesse algum adulto para te acompanhar, mas aqui na vila não temos ninguém interessado nisso. — Respondeu meu pai, segurando o queixo enquanto pensava. — Eu ainda acho que você é muito novo para isso, mas nós poderíamos começar um treinamento físico para que você possa se defender sozinho, o dia que eu achar que você for capaz de se virar nós poderíamos decidir sobre isso.

— Eu diria que você pode viajar após completar 12 anos, mas... Você não gostaria de viver na vila conosco? — Perguntou minha mãe com uma cara triste.

— Eu gosto daqui, mãe, mas eu também tenho vontade de conhecer o mundo.

— E pensar que nem o seu pai é assim.

— Hei! — Resmungou o meu pai. — Parece que meu sangue humano afetou mais ele do que eu.

— Você sabe que isso é impossível, né querido? Apenas sua descendência élfica foi passada para nosso filho.

— Eu sei, eu sei. Estou só brincando.


A conversa continuou com algumas brincadeiras e piadas.

Agora eu sabia o que eu precisava fazer para viajar pelo mundo.

A única preocupação de meus pais era minha segurança.

Então se eu ficasse forte o suficiente para me proteger eu poderia viajar.

Acho que por conta da longevidade dos Elfos, meus pais não tinham muito medo de nunca mais me ver, já que nós teríamos muito tempo e muitas oportunidades de reencontrar.

Eu também fiquei sabendo que meu pai teria sua longevidade diminuída pelo fato de ser mestiço e que ele era mais novo que minha mãe.


Quando eu nasci, eu achei que minha mãe teria algo entre 20 e 25 anos, mas ela já passava dos 60, o que não é muito para um Elfo.

Meu pai estava com 35 quando se casou e teve o meu irmão.

Ou seja, ele devia ter mais de 40 já, e minha mãe chegando perto dos 70.

Mas isso de fato não importava muito para nós.

Um Elfo da nossa aldeia continuaria jovem até algo entre 500 e 600 anos, pelo que eu entendi.

Apesar disso, a vila era relativamente nova, sendo fundada pelo líder aproximadamente a 300 anos, então o líder tinha algo entorno de 400 anos.

Mesmo assim, embora o líder já fosse considerado "velho" ele também aparentava ter menos de 40 anos como todos os outros.


Não era incomum um Elfo viver até mais de 1000 anos.

A maioria dos Elfos morria envolvido em algo como guerra, doença, acidente ou luta.

Aqui nessa vila não há Elfos que atingiram a morte por idade.

Será que eu viveria isso tudo?

Como será que minha mente suportaria isso tudo?

Sempre me surgia mais e mais perguntas.


De qualquer maneira, depois que meu pai me disse que eu precisaria realizar um treinamento físico, eu comecei fazer exercícios como flexões, abdominais, corridas e afins.

Todos acharam aquilo muito estranho.

Depois eu descobri que o treinamento deles era apenas caçar e lutar.

Não havia exercícios para os músculos.

O corpo do Elfo se desenvolvia naturalmente e eles não usavam esses métodos para melhorar o corpo.

Por esse motivo eles nem conheciam esses exercícios.

Mas eles estavam errados, pois meu corpo se desenvolveu muito melhor por conta disso e mais tarde, quando me tornei adulto, eu fiquei visivelmente mais encorpado que os outros do vilarejo.

E não era pelo fato de meu pai ser mestiço, pois outros Elfos jovens e adultos de outra linhagem também fizeram exercícios comigo e desenvolveram melhor seus corpos.

Mas como eu fiz isso desde pequeno e eles começaram depois, o resultado em meu corpo foi muito maior.


Meu pai ensinava técnicas e táticas de caça e combate.

Os Elfos usavam principalmente flechas e lanças.

Existiam alguns que usavam outras armas, mas a maioria absoluta usava arco e flecha, também lanças.

Engraçado que a palavra para "flecha" era a mesma que para "lança" só que no diminutivo, algo como "lança-pequena" ou "lançazinha", e a palavra para arco era algo como "arremessa-flecha".

Eles também usavam magias de fogo e vento para aprimorar a arquearia e o arremesso, colocando fogo nas pontas das flechas e lanças, fazendo-as explodir com o impacto e usando vento para aumentar a velocidade e força do impacto.

Além disso, a precisão de todos eles eram absurdamente maiores que a minha. Mesmo depois de adulto e muito treinar eu nunca fui capaz de ser tão preciso quanto o povo do vilarejo.

Até mesmo as crianças que havia acabado de começar a caçar me superavam facilmente.

Talvez meu pai tenha ficado desapontado por isso, já que ele era um dos melhores arqueiro que eu já conheci e eu sempre tive facilidade com tantas coisas desde pequeno.

Acho que ele acreditou que eu seria o maior caçador da história.

Só que eu não me preocupava muito com isso e eu acho que meu pai não deixava de ter orgulho de mim.

Notas finais
Caso encontre algum erro gramatical ou de digitação, fique à vontade para me enviar a correção. Agradeço profundamente qualquer apoio.