A nova garota
33 Capítulo 33
Notas iniciais
Lista das dez coisas que podem, com mais facilidade, estrgar um momento super-hiper-mega-romântico:
10-Um mal estar repentino, porque a última coisa que você quer é beijar o amor da sua vida e sentir vontade de vomitar;
(n/Aut: Posso garantir que, se isso acontecer, ele não é o amor da sua vida.) (n/Julie: Talvez a garota tenha comido peixe estragado ou, no meu caso, peixe de qualquer jeito. É possível, nunca se sabe.)
9-Um homem-bomba, simplesmente porque você quer tudo, menos ser explodida nesse momento. Talvez seu coração exploda (de alegria) de um jeito ou de outro, mas é melhor conservar o resto;
8-Um raio, porque sim. Você nunca quer ser eletrocutada, muito menos nesse momento;
7-A música do caminhão de sorvete, não existe coisa mais irritante e provavelmente você vai começar a rir e estragar o clima;
6-Barulho de cortadores de grama, que fazem você ter vontade de matar os funcionários que cortam a grama dos parques;
5-Sua mãe (no caso mortal) furiosa porque você não colocou o lixo para fora;
4-A lembrança da agradável cena do nascimento de uma girafa (que você por acaso viu no Animal Channel e tem pesadelos com isso todas as noites);
3-Um monstro matador de semideuses adolescentes que ainda por cima tem bafo de onça;
2-Gases;
(n/Aut: Por mim essa deve ser a pior de todas. Mas qual é sua explicação brilhante para isso, Julie? Peixe de novo?) (n/Julie: Não, dessa vez a pessoa deve ter comido feijão. Muito feijão. Nunca coma feijão antes de um encontro.) (n/Aut: Vou me lembrar disso, obrigada.)
E o prêmio da coisa que consegue mais facilmente quebrar um clima super-hiper-mega-romântico vai para (tambores, por favor!):
1-Seu (desprezível) parente divino com uma cara bem estranha e trazendo uma notícia que pode provavelmente mudar a sua vida.
E com provavelmente eu quero dizer certamente. Aplausos para Fobos, que é o nosso deus em questão!
*****
O que ele estava fazendo aqui? Me parece que "cara-de-pau" não era uma descrição exclusiva de Afrodite.
Quando o observei, percebi que ele estava abatido. Se é que um deus poderia parecer abatido, digo. Mas o fato é que ele tinha olheiras roxas, a roupa estava desarrumada e ele exibia um olhar perdido no rosto. E, pelo menos para mim, isso é o retrato de uma pessoa abatida.
Fobos tinha as características de alguém que passou várias noites em claro. Não que eu me importe, claro.
Notando minha hesitação, Nico sussurrou:
— Tudo certo?
— Sim, claro. — Respondi, igualmente baixo. Fobos continuava me olhando, mas ele estava do outro lado da rua. Nem sei como vi tantos detalhes em sua aparência.
Achei que o certo a fazer era ir até lá, e mesmo relutante eu fui. Nico estava logo atrás de mim, a única coisa que me deixava um pouquinho segura.
Alguns passos e eu estava cara a cara com meu pai. Ele exibiu um pequeno sorriso.
Mas o que me surpreendeu foi que aquele sorriso não era sombrio nem assustador. Chegava a ser amigável.
— Ahn, oi. — Ele disse. Uau. Era a primeira vez que um deus começava uma conversa com "oi", pelo menos comigo.
Como eu demorei pra responder, Nico se adiantou:
— O que faz aqui? — Seu tom era o de uma pessoa completamente calma, não de outra que está tendo um ataque cardíaco como eu estava.
— Cuidado com a boca, Hellboy. Posso vaporizar você, e tenho mais de um motivo para isso. — Completou Fobos, apontando para o nariz de Nico.
Oh meus deuses. Eu realmente esperava que ele não estivesse falando do que eu estava pensando. Porque se estivesse... Oh meus deuses. Será que justo agora ele estava querendo dar uma de... PAI?
Fiquei vermelha e torci para que não reparassem. Bom, acho que nem faria diferença, porque quando estava com Nico eu ficava vermelha 97% do tempo.
— Hellboy? — Nico cruzou os braços, visivelmente contrariado. — Olha, com todo o respeito, eu aguento Garoto dos Infernos, Darkboy e até Nikito. — Ele me lançou um olhar do tipo "Nem pergunte" e voltou a falar com Fobos. — Mas Hellboy? Aí já é maldade.
O deus ergueu as mãos, se rendendo. Então se virou para mim.
— Eu estou aqui apenas para me desculpar. — Disse.
Se quase morri engasgada com o ar que estava respirando naquele momento ou com um mosquito que tinha entrado na minha garganta, não pude constatar. O caso é que eu quase morri engasgada com alguma coisa.
— Se desculpar? — Perguntei incrédula.
— É... Olha, vamos falar a verdade, eu sei que eu não presto para ser pai de ninguém.
"Olha, vamos falar a verdade, não presta mesmo", era o que eu queria dizer. Mas por algum motivo que está além de minha humilde compreensão, eu fiquei muda por uns trinta segundos.
— E eu sei muito bem que cometi inúmeros erros com você. — Continuou. — Tudo o que eu quero é que me perdoe. Não vou fazer promessas de melhorar, porque, como eu já disse, não sirvo para isso. Você me conhece e sabe que é assim.
Nico estava tão pasmo quanto eu. Fobos, meu pai, que nunca demonstrou um mínimo de interrese na minha vida que não fosse para favorecê-lo, estava pedindo desculpas?
— Você é a minha primeira filha em mais de dois séculos. — Agora ele tinha começado pra valer e não ia parar até terminar. — E eu queria saber melhor como cuidar de você. Mesmo. Quando sua mãe morreu, eu não pude fazer nada por ela, mas também não fiz nada por você. Me culpo por isso até hoje.
Um dos talentos que a vida me deu, sem contar o de quase matar as pessoas de medo de duas maneiras diferentes (um usando meu dom de filha do deus do medo, o outro deixando as pessoas me verem de manhã, e esse assusta bem mais), era saber quando alguém está falando a verdade. Eu simplesmente sabia. E sentia que Fobos estava sendo sincero.
Mas tinha um lado meu que se recusava a aceitar isso.
— O que você quer, afinal? — Perguntei.
Ele soltou um longo suspiro, olhou por cima do ombro e ergueu um pouco a voz.
— Melody. — Chamou. — Pode vir aqui um minuto?
Melody? Mas o que... Uma garotinha veio andando da cadeira de uma lanchonete. Nem percebi que estávamos do lado de uma lanchonete.
Certo, voltando à garotinha, ela tinha cerca de três anos, cabelo castanho e olhos também castanhos. Parecia muito esperta e olhava desconfiada para Nico e eu. Abraçou a perna de Fobos e continuou me observando atentamente.
— Esta aqui é Melody. — Meu pai falou. — Ela é sua irmã. Sua única irmã. — Se apressou em dizer. Quando viu que eu estava espantada demais para responder, continuou: — E eu quero pedir que cuide dela por mim. A mãe... Eu realmente não tenho muita sorte nisso, sabem?
Ele suspirou novamente. Tentei entender tudo aquilo. A mãe de Melody também tinha morrido, e Fobos queria que eu cuidasse dela. EU.
— Por que eu? — Disse apenas.
— Porque confio em você. Com 15 anos, tem mais responsabilidade que muita gente que eu conheço, que tem 3000.
Uau. Meu pai acabou de me elogiar. Isso é inédito.
— Apenas não quero cometer com ela o mesmo erro que cometi com você. — Disse, ainda. — Mas pode fazer isso por mim? E vai me perdoar?
Pensei por um segundo. Eu daria o braço a torcer?
— Sim. — Respondi. Porque, com todos os defeitos, ele continuaria sempre sendo meu pai, não importa o que eu fizesse.
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