Notas iniciais
Boa leitura.

Fiquei por mais alguns minutos deitada na cama, descansando minha mente e corpo para o que estava por vir. Não demorou muito tempo até eu ouvir a porta do quarto se abrir, fazendo-me sentar na cama e olhar para a mesma.

– Desculpe, eu não sabia que já tinha alguém aqui... – Falou a menina ruiva de olhos esverdeados que pareciam esmeraldas cintilantes.

– Ah, sem problemas.

– Eu... Bem...

– Se quiser se hospedar aqui, tudo bem. – Falei olhando para o lado não parecendo me importar muito com a presença da mesma.

– Verdade? Obrigada! Eu queria um quarto mais reservado dos outros. – Ela riu um pouco e entrou, logo fechando a porta e deixado à mala ao lado da cama.

– Foi o que pensei quando vim pra cá... – Deite-me na cama novamente, suspirando um pouco.

Ficamos em total silêncio depois do pequeno diálogo. Aquilo estava até meio incomodativo. Duas pessoas que mal se conheciam, fechadas em um quarto silencioso e em completo tédio. Já não estava mais acomodada no local, então, levantei e arrumei minha mala em cima da cama para marcar meu espaço, peguei meu caderno para anotações escolares e os devidos papéis que indicavam a sala que eu deveria estar quando o sinal soasse, e saí.

À medida que eu andava pelos corredores, podia ver as alunas chegando e se acomodando nos dormitórios. Algumas cumprimentavam com “Bom Dia” e outras mal olhavam na minha cara. Eu não fazia questão de olhar na das mesmas, então não me importava com aquilo. Cheguei ao final do corredor e podia ver os alunos chegando e entrando na ala masculina. Suspirei, olhei o papel e sai em busca da sala 3-A.

***

Andei pela faculdade em busca da sala a qual eu deveria estar. Eu me perdi naquele lugar tão facilmente que não me surpreenderia se eu parasse na sala da diretora com cara de “me ajude, estou perdida novamente”. Mas, finalmente depois desses minutos perdidos, me deparei com o corredor de salas. Cada uma com uma placa em cima indicando a letra e o número. Fui passando a 2-A, 2-B, 2-C, 2-D, 3-A, 3-B...

– Opa. Acho que passei uma a mais...

Recuei uma sala e fiquei em frente a minha. Abri a porta devagar e entrei. Era espaçosa, com várias carteiras daquelas que tem lugar embaixo para por os livros ou cadernos e do lado um pequeno “ganchinho” para por a bolsa. Eu não precisaria afinal eu nem trouxe. Fui analisando os lugares de um em um, buscando o melhor para me sentar. Acabei ficando na ultima carteira da fila da esquerda, ao lado da janela que dava vista ao portão de entrada de carros. Acomodei-me, e olhei para fora, vendo todos aqueles minúsculos carros entrarem e os alunos saírem, se despedindo dos seus pais e pegando seus pertences para se hospedarem.

Pra falar a verdade, eu estava quase dormindo em cima da carteira. Havia acordado cedo, coisa que eu ainda não tinha me acostumado. Escorei-me em meus próprios braços e fechei os olhos, e devo dizer que dormi um pouco sim, afinal quando abri os mesmos já dava para ver vários alunos no corredor procurando suas devidas salas. Olhei para o lado e já tinham pessoas sentadas nos lugares, escrevendo, lendo ou escutando músicas de seus celulares.

Peguei o meu para olhar as horas. Já era 07 horas e 50 minutos. As aulas deviam começar oito horas, então esfreguei os olhos tentando afastar o sono e me espreguicei disfarçadamente.

Esses dez minutos passaram rápido, e o sinal soou. Era alto o bastante para todos escutarem. Isso foi o que apressou os alunos, fazendo-os entrar na sala rapidamente. Eu observava, e tentava imaginar quem sentaria perto de mim. Quando olhei para frente, a menina a qual era minha colega de quarto estava de pé, olhando pra mim.

– Eu vou sentar aqui... Posso? – Ela sorriu.

– Claro, fique a vontade.

– Obrigada. – Ela sentou e ficou virada por um tempo para frente, até se virar para trás.

– Uhn... Algum problema? – Olhei para a mesma de testa franzida.

– Ah, não. Eu só queria saber seu nome. Você saiu tão de repente do quarto que não deu tempo de perguntar.

– Meu... Nome? Uhn... Meu nome é Dawn, prazer.

Ela sorriu novamente.

– Meu nome é Misty, e o prazer é meu. Imaginei que se seriamos colegas de quarto, pelo menos poderíamos ser amigas, já que também estamos na mesma sala.

– Ah. – Sorri. – Claro, é uma boa ideia.

Sinceramente algo me dizia que eu estava feliz por dentro. Eu não queria ficar sozinha naquele local, e ela parecia uma ótima pessoa. Ser amiga dela poderia ser legal. Então, ficamos conversando por um tempinho. Eu tentava puxar alguns assuntos, mas, era ela quem puxava na maioria das vezes. Acabei descobrindo que ela também não tinha nenhum amigo e que estava com certo medo. O mesmo que eu.

– Alunos, sentem-se, vamos começar.

A nossa conversa foi interrompida quando ouvimos essas palavras. Olhei para frente e vi uma mulher, aproximadamente da mesma idade da diretora. Ela usava uma saia longa e casaco, os dois da cor preta com o símbolo da faculdade em um broche, pregado no bolso do lado direito.

Todos os alunos se sentaram para ouvi-la. Porém, uma carteira vazia ao meu lado chamou a atenção dela.

Acho que alguém deveria ter se perdido ou se atrasado. Eu não queria ser essa pessoa agora. Logo a porta se abriu. A professora mirou em direção a mesma, assim como todos os alunos. Um garoto de estatura média, acho que um pouco maior do que eu, de cabelos roxo e aparência séria entrou. Parecia não se importar com todos os olhares se dirigindo a ele, e muito menos com a professora.

– Acho que o sinal não foi alto o bastante para avisa-lo, não é?

Ele simplesmente ignorou a professora. Tipo, quem faria algo assim no primeiro dia de aula?

– Estou falando com você, senhor... ?

– Eu já ouvi. – Se dirigiu a carteira vazia. – Shinji.

– Então não ignore seus superiores. Da próxima vez irá para a direção, não importa se é o primeiro dia.

Ele revirou os olhos em ironia e sentou-se. Eu estava olhando para o mesmo, até que ele se virou e nossos olhares se cruzaram. A aparência séria e arrogante não saíra de sua face.

– Perdeu algo aqui? – Falou o mesmo em tom grosseiro.

– Eu?

– Tem mais alguém aqui que esteja me olhando?

– Olha, não precisa ser grosso desse jeito, sabia?

– Eu sou como eu quero, não é uma garotinha irritante que vai mudar meu jeito de falar ou agir.

“Garotinha irritante? Quem ele pensa que é pra falar desse jeito comigo sem mal me conhecer?”

– Escuta aqui seu...

– Algum problema ai atrás? – A professora interrompeu nossa pequena discussão nos repreendendo.

Olhei para frente e respirei fundo. Não queria me encrencar logo no primeiro dia, então baixei a cabeça e me desculpei com a professora para que ela continuasse a falar. Quando a mesma continuou, olhei disfarçadamente para o lado e pude ver o sorrisinho irônico do mesmo e bufei.

A aula durou em média quarenta minutos. No começo a professora pediu que cada um falasse seu nome e sua idade, para que todos começassem a se conhecer. Descobri que Misty tinha 18 anos assim como eu. E também descobri que Shinji tinha 19 como a maioria dos garotos da sala. Após terminar a primeira aula do dia que foi de Geografia, suspirei e fechei o caderno.

– Caramba, essa aula foi um pouco tediosa.

Logo, Misty se virou para trás, concordando comigo.

– Hey, o que foi aquilo no começo da aula? – Falou a mesma com tom meio surpreso.

– Aquilo? Aquilo o que?

– A discussão!

– Ah... –Olhei para o lado e depois voltei a olhar pra mesma, e falei meio que cochichando. — Foi esse cara idiota... Não sei que base ele teve para me chamar de “Garotinha irritante”, sem falar na grosseria.

– Nossa, quando escutei fiquei com receio de que fosse sair da sala logo no primeiro dia. Esse garoto é meio estranho mesmo, desde que ele entrou na sala, ignorando todos e inclusive a professora.

– É... Deve ser do feitio dele ser assim com todo mundo. Se continuar assim ele vai ser um cara muito solitário por aqui.

– Isso é verdade.

A nossa conversa foi interrompida novamente, mas dessa vez pelo garoto que sentava na frente de Shinji. Era moreno, de cabelos engraçados, todo espetado. Eu havia escutado o nome do mesmo quando se apresentou... Acho que era... Ash... Algo assim.

– Ei, garota ruiva.

Misty olhou pra ele de testa franzida.

– Quem?

– Você.

– Meu nome não é “Garota ruiva” sabia?

– Ah, desculpe, é que eu acabei esquecendo seu nome...

Certo. Em menos de quarenta minutos ele havia esquecido o nome da colega que sentava ao seu lado. Esse cara não era tão bom de memória afinal.

– Meu nome é Misty! M-I-S-T-Y!

– Ah, tá. Bem, você pode pegar meu lápis? Caiu embaixo de sua cadeira...

– Talvez se você falar de forma mais educada eu pegue!

– É só pegar o lápis...

– Você não sabe o que é educadamente? Existem palavras como por exemplo, por favor!

– Ah. Por favor, garota ruiva, pode pegar meu lápis?

Uma gota surgiu em minha cabeça. Esse garoto era mais burro que uma porta. Eu não sei se ele fazia isso para irritar, ou se era porque ele havia esquecido o nome da Misty. De novo. Shinji, que estava escutando tudo, fazia um sinal de negação com a cabeça. Talvez ele se achasse superior a todos. Se bem que no ponto de vista, todos podiam ser superiores ao Ash.

***

O tempo passou e logo o sinal soou. Era hora do café da manhã. Depois de Geografia, veio História com um professor mais novo, porém tão magro que não sei como se sustentava em pé, e após isso Matemática com uma professora ranzinza que os alunos consideraram chata. Levantei e deixei meu caderno embaixo da carteira enquanto Misty me esperava. Eu sabia que as salas eram trancadas, pois o faxineiro já estava esperando a gente sair, então não teria nenhum problema em deixar as coisas ali.

Saímos e seguimos ao corredor principal que nos levaria até o refeitório. Era um espaço amplo para que coubessem todos os alunos. Várias mesas de refeição estavam espalhadas e já dava para ver alguns alunos sentados com suas bandejas comendo o que a faculdade nos proporcionara para comer. Quando vi, Misty estava me chamando para entrar na fila.

– Dawn! Vamos logo! Senão não vai sobrar nada pra comer!

– Ah, claro.

Peguei a bandeja e segui na fila. Havia frutas, vários tipos de pães, misturas para passar nos mesmos, bolachas e queijo e presunto para fazer sanduíche. Suco fresco e café eram servidos, fazendo os alunos escolherem o que queriam tomar.

Peguei algumas bolachas, um pão com mistura e queijo e uma maçã. Pra tomar escolhi café com leite. Sai da fila olhando para as mesas. Estavam lotadas. Achei uma mais ao canto e assim sentei, acompanhada de Misty que havia pegado dois pães e uma fruta com suco fresco.

– O que está achando daqui? – Perguntei a ela, logo depois mordiscando uma bolacha.

– É legal... Bem, tirando a parte de termos que estudar junto com um burro e um grosseiro, é legal.

Nós rimos um pouco.

– Nem me fale. Espero não ter que cruzar o olhar de novo com aquele idiota do Shinji. – Bufei.

– Não falaria isso se fosse você...

– Por quê?

– Ele senta na carteira ao seu lado afinal...

– Acho que vou ter que começar a aprender a ignorar. – Suspirei.

– Não se preocupe, vai dar tudo certo! – Falou ela em tom animado.

Eu sorri e continuei a comer após ter agradecido o comentário da mesma. O café ao todo durou mais ou menos meia hora, para dar tempo dos alunos se ajeitarem e quando o sinal soou, todos foram voltando para suas devidas salas.

A aula agora era de sociologia. Eu não gostava muito, mas infelizmente essa matéria existia na grade. O professor era meio... Como posso dizer... Grande pros lados. Era loiro e usava um óculos. Era simpático.

– Alunos, hoje como é o nosso primeiro dia de aula, vamos aprender a conviver um com os outros. Como existem 6 fileiras, vamos nos juntar com o colega do lado.

“Com o colega do... lado?”

Comecei a contar desde a fileira do outro canto. E pra minha sorte, eu teria que me juntar com Shinji. Ótimo, logo agora que eu estava querendo o ignorar, teria que me juntar a ele e tentar conviver.

Pude ouvir Misty reclamando baixinho, afinal ela teria que se juntar a Ash. Eu ri um pouco, mas não por muito tempo, pois sabia que eu estaria em uma situação pior que a dela.

– Já podem começar a se juntar. Façam perguntas e respostas para seus companheiros, e na próxima aula, cada par irá vir aqui na frente falar o que aprendeu de cada um.

Resmunguei baixinho. Ainda teria que falar o que aprendi sobre o Shinji.

“A minha situação podia piorar ainda mais?”

Notas finais
Não sei porque mas realmente gostei desse capítulo, haha. XD Espero que tenham gostado também.