Na minha opinião, nós somos livres até um certo ponto. Gosto de dizer que nós recebemos uma "liberdade vigiada", onde nós podemos fazer nossas escolhas desde que o seu "superior" esteja de acordo. No meu caso, o meu "superior" tem 48 anos, usa saia, salto alto e eu o chamo de Mãe. Jamais direi que odeio minha mãe, muito pelo contrário, eu amo ela. Mas digamos que minha mãe é presa aos padrões da época dela, e convenhamos, isso não vale nos dias de hoje. Sou arrastada para a igreja desde que me entendo por gente, mas nunca concordei com certas partes do que me é passado dentro daquele local. Por qual motivo duas pessoas do mesmo sexo não podem se amar ? Enfim, essa é apenas uma das milhares de coisas que voam na minha cabeça.

Acordo um pouco mais cedo que normal, pois hoje é um dia empolgante para a maioria, mas que não tem uma grande importância para mim. O primeiro dia de aula. Não diria que estou completamente indiferente, eu só estou com um certo medo, pois eu estou entrando numa escola nova na qual eu não conheço absolutamente ninguém, então se eu não me esforçar para arrumar algumas amizades e me encaixar naquele local, não irei suportar o resto do ano. Passo pelo corredor e vejo a porta do quarto de minha mãe entreaberta, ela ainda está dormindo. Eu entro no banheiro e como de rotina, tomo um banho não muito demorado. Quando desço para a cozinha, vejo minha mãe preparando o café da manhã e me sento na bancada.

– Bom dia mãe.

– Olha só quem acordou cedo ! E aí, animada para o primeiro dia ? Eu ouvi dizer que essa escola é muito boa ! Exatamente por isso te matriculei lá. Sua antiga escola não te fazia bem, estava cheia de más influências.

Vejo os olhos brilhantes de minha mãe e percebo como ela está mais animada do que eu. Acho melhor eu tentar demonstrar um pouco de interesse, então digo :

– Ah, se você diz. Espero que esteja certa.

Minha mãe me lançou um olhar como se estivesse dizendo "Mas é claro que estou certa" e colocou a comida na mesa. Sentamos, agradecemos e comemos conversando sobre a tal escola nova. Minha mãe estava tão empolgada que eu já estava achando que ela ia pegar minha mochila e ir pra escola no meu lugar.

Quando termino de comer, dou um abraço na minha mãe e tomo meu rumo. A escola fica perto, mas mesmo assim eu sinto como se o caminho não tivesse fim. Eu só quero acabar logo com isso, mandar embora toda a minha tensão e saber se aquele é realmente o meu lugar.

Chego no colégio 5 minutos antes do portão abrir e fico parada na calçada mais ou menos "Ok, e agora ?". Eu sou a única menina sozinha no meio de todos os estudantes, o medo de ser excluída já começa por aí. Quando o portão abre, eu entro no colégio e fico sentada como se estivesse esperando o trem, isso é humilhante. Eu me levanto e vou em direção a cantina quando sou parada por um rapaz loiro. Ele me mediu por uma fração de segundo e disse :

– Aluna nova ?

Eu estava perdida em seus olhos azuis, então foi como se todas as palavras tivessem desaparecido da minha boca.

– Ahhm... Err... Sim, sou.

Vejo um sorriso extremamente branco se estampando no rosto do garoto e antes que eu possa dizer qualquer outra coisa, o rapaz me oferece seu braço e diz :

– Legal, eu posso te mostrar a escola, vamos lá !

Obviamente, aceito a proposta do garoto. Andamos um pouco em silêncio até que ele diz :

– Ei, eu nem sei o seu nome.

– Ahh, eu me chamo Lara, e você

– Me chamo David, mas pode me chamar de Dare.

Dare. Meu primeiro amigo no colégio. Se estou feliz ? Vejamos, um garoto lindo surge na minha frente e oferece seu braço para me mostrar a escola, quando posso começar a pular ?

Ouço o barulho do sinal e penso em como nem tivemos tempo para conversar e nos conhecermos, então digo :

– Que pena, eu preciso ir para a sala. Nos vemos depois ?

– Desculpa, hoje vou ficar o dia todo treinando na quadra. Mas você pode me dar seu numero e nós nos falamos assim que eu chegar em casa, pode ser ?

Concordo com Dare e escrevo o numero do meu celular em sua mão.

Vou indo para a sala de aula sem tirar aquele garoto da cabeça nem por meio segundo. Me sento bem na primeira cadeira e estou de volta para aquela velha rotina de um estudante. E tudo em que eu penso, é sobre como eu quero chegar em casa, me deitar e conversar com meu novo amigo gato.

As aulas vão passando e eu estou cada vez mais perto de ir correndo para a casa. Quando chega na última aula, a professora mais feia que eu já vi na vida, entra na sala com um ar de "ah, adolescentes nojentos". A mulher se endireita na frente da sala e começa a falar :

– Meu nome é Claudia. Sou professora nova na escola e já quero avisar que não tolero nenhum tipo de brincadeira durante minha aula. Não irei tolerar mal comportamento por parte de adolescentes repugnantes que ainda estão aprendendo a viver. Se tiverem alguma duvida, levantem a mão e esperem minha permissão para abrir a boca. Caso não estejam de acordo com minhas palavras, recomendo que se retirem da sala de aula.

Não sei se sou a única pessoa que tem essa sensação, mas eu sinto que essa mulher e eu não nascemos para se suportar.

A aula vai passando e eu só vou me enjoando cada vez mais da voz da tal Sraª Claudia e não consigo tirar os olhos de seus sapatos de onça que estão fora de moda faz uns 1500 anos.

Quando finalmente o sinal bate, meu coração dispara e eu sou a primeira a sair da sala. Vou andando pelo corredor quando uma garota loira para bem na minha frente no corredor me olhando com nojo e diz :

– Ah, você é a novatinha que estava agarrada com o Dare, não é ? Olha garota, você não vai querer arrumar problemas comigo, acredite. Então eu suponho que você fique bem longe dele.

Ela vai embora e eu fico parada pensando no que acabou de acontecer. Ok, uma loira qualquer está me pedindo para ficar longe da única pessoa que se interessou em falar comigo no meu primeiro dia de aula ? Bem, eu não sei quem é essa garota, mas se ela tentou botar medo em mim, é melhor tentar de novo.

Vou correndo para minha casa e quando chego, vejo um bilhete da minha mãe na geladeira que diz :

"Estou na igreja. Passe lá depois que você almoçar. Beijos."

Não, eu não posso ir para a igreja. E se o Dare me ligar ? Ok, depois eu arrumo uma desculpa para minha mãe. Agora eu só quero me deitar e ficar encarando meu celular.

Se passam duas horas e nada. Talvez a garota loira esteja certa. Talvez eu não possa chegar na escola já querendo ser amiga do loirinho gato do time do colégio. Bom, mas não importa. Eu só sei que quando estou com ele, sinto o mundo em câmera lenta.