A névoa de Konoha

1 A névoa de Konoha


"A Névoa de Konoha"


A noite de Halloween se estendia sobre Konoha como um manto úmido e pesado, típico da estação do ano. Porém uma névoa incomum insinuava-se pelas ruas, sufocando os sons e distorcendo as silhuetas. As lanternas de abóbora, costume estrangeiro adotado pela Vila da Folha, esculpidas com caretas grotescas, irradiavam luz trêmula e alaranjada contra a penumbra, projetando sombras dançantes que pareciam ganhar vida própria. Crianças fantasiadas de fantasmas, onis e youkais corriam em bandos, suas risadas barulhentas quebravam a paz enquanto batiam de porta em porta, gritando “doces ou travessuras!”.

Mas no telhado de uma das casas do Clã Aburame, longe do burburinho festivo, dois rapazes não compartilhavam da alegria geral. Aburame Shino, imóvel e analítico, observava a floresta que ladeava a vila. Ao seu lado, Inuzuka Kiba remexia-se impaciente, cruzando e descruzando os braços. Akamaru, o fiel companheiro, grande como um tigre, farejava o ar com um rosnado baixo e contínuo, o pelo da nuca todo eriçado em alerta.

— Tem certeza de que sentiu algo estranho vindo da floresta? — perguntou Kiba, quebrando o silêncio que se prolongava por minutos — Porque tá tudo muito quieto e calmo, Shino. Tipo, quieto como devia ser nessa noite, né?

Shino não virou o rosto, seus olhos ocultos analisavam o cenário por trás dos óculos escuros que refletiam as luzes tênues da vila. A princípio, pensou em não chamar o namorado, logo mudando de ideia. Seu instinto protetor já foi motivo de várias brigas entre eles. Querer poupar Kiba do perigo era visto pelo rapaz como se o subestimasse. Ambos eram fortes, confiáveis e ninjas completos. Se havia alguém no mundo com quem Shino podia contar, esse alguém era o jovem ao seu lado, mais do que parceiro de time, um parceiro para a vida.

— Não se trata só dos meus instintos, Kiba. São meus insetos. Eles estão... agitados. Detectaram uma presença incomum. Algo que não emite calor, não deixa cheiro e, ainda assim, perturba o fluxo natural do chacra. Algo que, tenho certeza, não pertence a este mundo.

Kiba respirou fundo, uma ponta de preocupação fazendo-o estreitar os olhos em desconfiança e os pelinhos da nuca se arrepiarem como os do ninken (mas por um motivo diferente...).

— Não vamos nos precipitar, caralho. Aposto que é só algum time genin. Ah, o Konohamaru e os pirralhos tentando pregar um susto nos outros com algum jutsu de ilusão barato. Lembra do ano passado, quando eles tentaram simular um Momotaro?

— Lembro — respondeu Shino, sua voz um sussurro calmo e metálico — Mas os kikaichuu não se perturbam com truques, Kiba. Eles reagem a desequilíbrios na própria energia do mundo. E o que quer que esteja naquela floresta... está errado. Não deveria existir.

Ele finalmente se moveu, um dedo esguio apontando para a entrada da floresta. Lá, a névoa era muito mais densa, uma parede leitosa e quase pulsante que parecia absorver a luz e o som. Ela pairava devagar, como se estivesse viva, engolindo as primeiras fileiras de árvores. Akamaru rosnou mais alto, mostrando os dentes.

Kiba engoliu em seco, confiando em Shino. Talvez não entendesse por completo a simbiose com os kikaichuu, conquanto o convívio provasse a sagacidade e inteligência do outro, assim como o instinto afiado e a pouca predisposição para atos levianos.

— Caralho do inferno. Vamos dar uma olhada. Mas eu to te avisando, Shino: se for só uma armadilha de Halloween, você me deve um lamen com o dobro... não, o triplo de carne!!

— Temos um acordo —Shino soou divertido, o tom descontraído sendo o máximo que se aproximaria de um sorriso.

Sem mais delongas, Kiba saltou do telhado, caindo com a agilidade de um Inuzuka. Akamaru saltou atrás, um borrão branco no crepúsculo. Shino desceu com um movimento mais controlado, seus pés fazendo um ruído quase inaudível ao tocar o chão de terra.

Assim que cruzaram o limiar da floresta, o mundo mudou. Os sons da festa — as risadas, a música distante — foram abruptamente cortados, como se alguém tivesse fechado uma porta invisível e sobrenatural. O ar ficou intensamente frio, carregado de umidade. A escuridão era profunda, engolida pela névoa que reduzia a visibilidade a poucos metros. As únicas fontes de luz eram os vaga-lumes que piscavam, doentes e esparsos, e o brilho fraco das lâmpadas de Konoha, agora apenas manchas difusas e amareladas perdidas na ilusória distância.

— Que estranho — murmurou Kiba, a voz soando abafada no vácuo silencioso — Até o cheiro sumiu. Não consigo farejar nada além de... sei lá, mofo e folha podre.

— A névoa está atuando como uma barreira sensorial — Shino explicou, caminhando com passos cautelosos. Uma nuvem de seus kikaichuu zumbia ao redor, formando uma rede de vigilância viva e pulsante. Eles eram seus olhos e ouvidos onde a percepção humana falhava, atuando menos como alerta e mais como uma forma de proteger o namorado ao seu lado — Meus insetos estão desorientados. Eles sentem a presença, mas não conseguem localizá-la. É como tentar agarrar a fumaça.

Eles avançaram mais fundo, cada sentido alerta, passos lentos e cuidadosos prontos para reagir a qualquer surpresa. Os galhos retorcidos das árvores se assemelhavam a garras ossudas se esticando para agarrá-los. De vez em quando, um estalido seco ecoava na escuridão, fazendo Kiba e Akamaru se virarem bruscamente, apenas para encontrar o vazio.

Foi o ninken que quebrou a tensão. Ele parou de repente, plantando as patas no chão e soltando um latido profundo e ameaçador em direção a uma densa cortina de folhas parasitas que se projetavam como cipós. O corpo todo arrepiado de tensão.

— Tem alguma coisa ali! — Kiba assumiu a postura de luta, as unhas afiadas já prolongadas. Akamaru se colocou ao seu lado, um rosnado contínuo vibrando e mostrando que estava pronto para defender o humano a qualquer preço.

A névoa diante deles pareceu se condensar, tornando-se quase sólida. Então, uma figura surgiu: alta e esguia, envolta em trapos escuros e encapuzada, pairando alguns centímetros acima do chão. Seus olhos brilhavam com uma luz vermelha e hostil, como brasas no fundo de um abismo. Quando falou, a voz era um grunhido áspero e cortante que parecia vir não de uma única direção, mas de dentro de suas próprias mentes arranhando-as num efeito desagradável.

— Vocês não foram convidados... nosso festejo não é para os vivos.

Shino, mantendo o sangue frio dos Aburame, deu um passo à frente, uma nuvem de insetos formando um semicírculo defensivo.

— Identifique-se. Quem é você?

A figura emitiu um som que poderia ser uma risada, um ruído seco e repugnante que fez a pele de Kiba se arrepiar.

— Quem sou eu? Sou alguém que... — o sussurro era carregado de desprezo. — Konoha nos esqueceu. Apagou nossos nomes dos registros, queimou nossas memórias. Esta floresta pertence aos esquecidos. Aos que caíram nas sombras, às missões que nunca existiram, aos sacrifícios que nunca foram honrados. E esta noite, quando o véu entre os mundos está no mais fino... é a única em que podemos retornar. Para a nossa festa de vingança!

Kiba arregalou os olhos, uma compreensão horrível começando a se formar em sua mente.

— Isso não é um jutsu de ilusão avançado, não é? Caralho! É real!!

Shino balançou a cabeça lentamente, os insetos zumbindo em um tom mais agudo de alerta.

— Isso é muito mais antigo e profundo que técnicas ninja. É uma ruptura no próprio tecido do mundo espiritual. Essas são almas presas, espíritos vingativos.

Antes que pudessem questionar mais, a figura encapuzada simplesmente se desfez, dissipando-se na névoa como se nunca tivesse existido. No mesmo instante, um grito lancinante e cheio de terror ecoou de uma clareira mais adiante, um som tão real e desesperado que não deixava espaço para dúvidas.

— Vamos! — Kiba tomou a iniciativa, e os três correram em direção ao som, a preocupação inicial substituída por uma urgência desesperadora.

A clareira que encontraram era um lugar de pesadelo. Era circular e desprovida de vida, cercada por árvores velhas e lamuriosas, o chão de terra negra e estéril. Tochas de chamas frias e azuis ardiam em pedestais de pedra musgosa, lançando uma luz fantasmagórica que não produzia calor. No centro erguia-se um monólito de obsidiana negra, mais alto que um homem. Inscrições antigas, da época do Primeiro Hokage ou talvez até mais velhas, cobriam sua superfície, pulsando com um brilho pálido e sinistro. O ar cheirava a decadência, perda. Rancor pairava misturado à nevoa, pesado e opressor.

— Caralho! Que... porra é essa? — Kiba respirou pesado, seu rosto pálido sob a luz espectral dando destaque às marcas avermelhadas do clã.

Shino aproximou-se do namorado, captando a energia maligna que irradiava de todos os lados, preocupado com a segurança do outro rapaz.

— É um selo. Um dos primeiros, primitivo e poderoso. Mas que está se rompendo, pode estar enfraquecendo pelo tempo...

Enquanto o jovem Aburame falava, a superfície lisa da pedra começou a ondular como água. De dentro do material sólido, uma mão espectral e translúcida emergiu, seguida por um braço e depois por uma forma completa. A criatura que se materializou na clareira era horrível em sua falta de substância. Seus contornos tremeluziam, o rosto era uma máscara vazia de agonia, e os olhos eram dois poços de escuridão absoluta. Uma aura de frio penetrante e desespero emanava dela, fazendo o fôlego de Kiba condensar no ar ao escapar pelos lábios entreabertos de espanto e algo mais.

— Isso não é um fantasma comum — declarou Shino, seus insetos formando uma barreira densa e zumbidora entre eles e a aparição — É um espírito vingativo, um Jibakurei. Um ser ligado a este lugar por emoções intensas.

— Já ouvi histórias... — Kiba disse, sua voz um pouco trêmula — Histórias que a anciã do nosso clã contava. Sobre ninjas que morreram em missões tão secretas que nem seus nomes podiam ser registrados.

— Sim. Nosso clã tem narrativas parecidas — Shino aquiesceu, sempre alerta ao que acontecia em derredor. Os Aburame e os Inuzuka eram clãs mais ligados a natureza do que os outros, assim como a assuntos aquele teor.

— Lembro que me borrava todo e... CARALHO!!

A criatura avançou com uma velocidade sobrenatural, um lamento silencioso saindo da boca inexistente. Ela atingiu a barreira de insetos, e um clarão de energia explodiu no impacto. A criatura foi repelida, mas os insetos na linha de frente caíram mortos, carbonizados, seu zumbido cortado abruptamente. Shino estremeceu, sentindo a perda como um pequeno choque em seu próprio sistema nervoso.

— Shino! — Kiba preocupou-se com o namorado, conquanto um gesto do outro o fizesse estacar no lugar.

— Precisamos reforçar o selo — Shino afirmou, sua calma sobrepujando o grande medo de ver Kiba se ferir — Mas não posso fazer isso sozinho. A energia é muito hostil. Kiba, preciso que você e Akamaru a distraiam. Mantenham-na longe da pedra.

— Pode deixar! — Kiba gritou de volta, um feroz sorriso de batalha surgindo em seu rosto. O medo dera lugar à determinação — Akamaru, vamos lá, amigão!

Akamaru latiu alto e forte, pronto para a ação e lutar junto com seu dono.

— Gatsuuga! — o rapaz gritou e girou sobre si mesmo, transformando-se em um turbilhão de garras e força destrutiva. Atingiu o espírito de frente, e desta vez o ataque físico pareceu ter algum efeito. A forma espectral se desfez com o impacto, mas se reagrupou instantaneamente a poucos metros de distância, os olhos vazios agora fixos em Kiba com ódio renovado.

Enquanto isso, Shino posicionou-se diante do monólito. Ele estendeu as mãos, e uma corrente constante de kikaichuu fluiu de suas mangas, cobrindo as inscrições antigas. Os animaizinhos começaram a injetar seu próprio chacra, tentando restaurar o padrão de energia que mantinha o selo intacto. Era uma tarefa delicada, como tentar religar os fios de uma teia de aranha partida, algo que exigia a precisão e acurácia que apenas os domadores de insetos poderiam desenvolver. O rapaz sentia a vontade antiga e faminta presa dentro da pedra, uma consciência coletiva de dor e abandono, lutando contra a energia que tentava reaprisioná-la.

— Kiba! — Shino exclamou em alerta, sem tirar os olhos da pedra — Há mais deles! O selo está liberando outros!

Da névoa que circundava a clareira, novas figuras começaram a se materializar. Homens e mulheres com armaduras de eras passadas, alguns usando símbolos de clãs há muito extintos, outros com os rostos marcados por cicatrizes de batalhas esquecidas. Todos compartilhavam os mesmos olhos vazios e a mesma aura de frio mortal. Eles eram os esquecidos de Konoha, uma legião de fantasmas surgindo da história não contada da vila.

Kiba rosnou, cercado. Akamaru, mais feroz do que nunca, lutava contra dois espectros que tentavam passar por ele.

— Isso virou uma missão de Rank A! — ele gritou, desferindo golpes rápidos com suas garras. Os ataques físicos causavam um atraso, fazendo os espíritos se dissiparem por um momento, conquanto eles sempre se reformassem mais furiosos. Um deles, um fantasma com uma máscara de Anbu quebrada, expeliu uma lança de energia sombria. Kiba esquivou por um triz, e a lança atingiu uma árvore atrás dele, que murchou e morreu em instantes, a casca ficando negra e quebradiça.

— Eles drenam a vida! — Kiba alertou, ofegante — Caralho!!

Shino suava frio. Os insetos estavam morrendo rápido, sacrificando-se para reparar o selo. Ele podia sentir a luta de Kiba, os latidos de Akamaru, a pressão avassaladora dos espíritos. Era uma corrida contra o tempo.

— Está quase restaurado! — anunciou, sua voz tensionada pelo esforço — Só mais um minuto...

Foi então que o espírito original, o primeiro a emergir, ignorou Kiba e mergulhou em direção a Shino, percebendo que ele era a verdadeira ameaça, atacando rápido feito um raio, uma mancha de pura escuridão contra a névoa.

— Shino, cuidado! — Kiba gritou desesperado, mas estava muito longe.

Akamaru, porém, não estava. Com um poderoso latido, ninken branco saltou, interceptando o espírito no ar. Ele atingiu a criatura com todo o seu peso, um clarão de energia castiça e selvagem de seu próprio chacra colidindo com a escuridão. O espírito uivou de raiva, e Akamaru foi arremessado para longe, caindo pesadamente no chão com um ganido de dor.

— AKAMARU! — o grito de Kiba foi de puro pânico.

A distração, no entanto, mostrou-se suficiente. Enfurecido pelo ferimento do amigo canino, Kiba ignorou sua própria exaustão e lançou-se contra o espírito principal com um rugido — Juujin Bunshin! — o rapaz e um clone de chacra de Akamaru se fundiram, transformando-se em uma besta de duas cabeças, muito maior e mais poderosa. Investiu contra o espectro, golpeando-o repetidamente com uma fúria animalesca forçando-o a recuar.

Shino viu sua chance. Com um último e monumental esforço de vontade, ele canalizou quase tudo o que restava de energia através dos kikaichuu sobreviventes.

Os insetos brilharam com intensidade, fundindo-se às inscrições da pedra. As runas antigas, que antes pulsavam em roxo, explodiram em dourado, tão forte que ofuscou as tochas azuis. Uma onda de energia calorosa e purificadora varreu a clareira, expandindo-se como um anel de luz.

Os espíritos gritaram. Não era um grito de raiva, mas de libertação. As formas tremeluzentes começaram a se dissolver, partícula por partícula, como areia sendo levada por um vento suave. Os olhos vazios perderam toda hostilidade, e por um breve instante, Kiba pôde ver não monstros, mas rostos de homens e mulheres cansados e tristes, antes que se desfizessem completamente na luz. O espírito principal, aquele que os confrontou primeiro, olhou para Shino por um último segundo, sem ódio nos olhos, mas tão somente um profundo e eterno cansaço. Então, ele também partiu.

O silêncio que se seguiu foi absoluto. A névoa, que antes era tão espessa, começou a se dissipar rapidamente, revelando o dossel das árvores e, acima delas, a lua cheia e brilhante. O ar perdeu seu frio mortal, e os sons noturnos normais da floresta — os grilos, o vento sussurrando nas folhas — retornaram suavemente, inundando em derredor com os sinais inconfundíveis de vida.

Kiba desfez a transformação e correu para Akamaru, que já estava se levantando, mancando levemente, todavia abanando o rabo fraco.

— Você está bem, garoto? — sussurrou, enterrando o rosto no pelo de Akamaru.

Shino caiu de joelhos, exausto, sua reserva de chacra quase esgotada. Ele observou enquanto o monólito de obsidiana parava de pulsar, voltando a ser nada mais do que uma pedra escura e silenciosa. Apenas um leve brilho nas inscrições, agora dourado em vez de roxo, indicava que o selo estava ativo novamente.

Kiba se arrastou até ele, ofegante, ficando o mais próximo possível.

— Você tá bem, Shino?

— Sim, esgotado de chacra, porém bem. E você?

— Isso foi... mais intenso do que a Quarta Guerra, em alguns aspectos. Mas eu to bem.

Shino, respirando fundo, assentiu. Olhou para os corpos de milhares de seus insetos, espalhados pelo chão como cinzas.

— O preço pelo esquecimento é alto. Konoha construiu seu brilho sobre sombras que preferiu ignorar.

— Eles... eles estavam com tanto ódio — disse Kiba, olhando para o local onde os fantasmas haviam desaparecido.

— Não era apenas ódio — Shino corrigiu suavemente — Era dor. A dor de não ser lembrado. De ser apagado. Nesta noite, nós não os derrotamos, Kiba. Nós... os ouvimos. E ao restaurar o selo, lhes demos a ordem que lhes faltava. Talvez agora possam descansar.

— Você sabia que ia acontecer?

— Não. Meu pai contou a história, falou sobre os kikaichuu serem parte da conjuração do vínculo e sobre como sentia o selo enfraquecendo.

— Caralho, Shino — ele recostou-se contra o namorado, ombro junto a ombro.

— Então meu clã observava esse lugar, hoje foi minha primeira ronda de cuidado com o selo.

O caçula dos Inuzuka sorriu e segurou a mão alheia, gelada e trêmula, entre as suas:

— E você me chamou para vir junto!

Shino respirou fundo. Não foi uma decisão fácil, o instinto de proteger o namorado sempre tentava falar mais alto. Conquanto fosse aprendendo aos poucos o real significado de companheirismo no relacionamento: Kiba era um igual, excesso de proteção era quase como subestimar todo o esforço e capacidade do garoto. Ambos tinham seus pontos fracos, mas era da combinação dos pontos fortes que surgia uma simbiose perfeita.

— Claro — por fim ele respondeu — Você é meu companheiro de time. E da vida.

— Somos uma dupla do caralho, né? — o coitado tentou disfarçar o embaraço.

Porém Shino não teve piedade. Ergueu as mãos que acolhiam a sua e as puxou para ofertar um beijo cheio de reverencia.

— Dupla perfeita.

Kiba, que sentia o sangue subir pelo pescoço e esquentar até a ponta das orelhas, foi salvo por Akamaru que latiu indignado.

— Somos um trio perfeito!! Isso sim!!

O herdeiro dos Aburame meneou a cabeça de leve, num gesto de gratidão, afinal, aquele ninken salvou a sua vida, quando estava praticamente indefeso, além de lutar e fortalecer Kiba. Em seguida lançou um olhar reverente de reconhecimento ao local onde perdeu milhares de kikaichuu, os bichinhos que salvaram Konoha de uma noite de pesadelo.

Kiba fitou o céu, onde a lua brilhava, impassível, e falou num tom cansado:

— Feliz Halloween, Shino. Eu... hum... amo você.

Shino para ele, seus óculos refletindo a luz prateada do luar. Pela primeira vez naquela noite, a sombra de um tímido e genuíno sorriso, embora cansado, ameaçou tocar-lhe os lábios.

— Feliz Halloween, Kiba. Também amo você.


***


Na manhã seguinte, o sol brilhava forte sobre Konoha, de um modo atípico para a época de outono, lavando a vila em uma luz dourada que parecia querer apagar todos os vestígios do terror da noite anterior. As crianças voltavam às ruas, com fantasias variadas, discutindo animadamente sobre os sustos e os saques de doces. Para elas, o Halloween havia sido uma noite de diversão inocente.

Mas para Shino e Kiba, havia sido uma batalha muito real nas fronteiras entre o mundo dos vivos e o dos mortos.

Horas depois, sentados no Ichiraku, os dois ainda carregavam os sinais da luta. Kiba tinha olheiras profundas e suas roupas estavam rasgadas em alguns pontos e sujas de terra. Akamaru dormia profundamente aos seus pés, um curativo limpo envolvia sua pata dianteira. Shino estava mais pálido, e com movimentos um pouco mais lentos, o esgotamento de chacra ainda o afetando.

Teuchi, o dono do restaurante, serviu duas tigelas gigantes de misso lamen com carne extra para Kiba, sem nem precisar perguntar.

— Parece que vocês dois tiveram uma noite agitada, hein? — comentou, levantando uma sobrancelha.

— O senhor não tem ideia! — Kiba estremeceu, pegando o par de hashi. Levou um pedaço de carne à boca e fechou os olhos, saboreando-a como se fosse o néctar dos deuses.

Depois de alguns minutos de silêncio comendo, Kiba finalmente falou o que estava em sua mente:

— Então... você acha que aqueles espíritos... os 'esquecidos'... vão voltar algum dia?

Shino colocou o hashi com precisão ao lado da tigela.

— O selo foi restaurado e fortalecido com meu chacra. Deveria segurar por muitas décadas. Mas... — ele fez uma pausa, olhando para o próprio reflexo no caldo apetitoso — A memória é uma força poderosa. E a dor, especialmente a dor coletiva, tem uma maneira de encontrar fissuras. Há coisas que não podem ser seladas para sempre. Elas vivem nas histórias não contadas, nas sombras que ignoramos.

Kiba franziu o cenho, empurrando um brócolis para o canto da tigela.

— Caralho, você podia só dizer “não” e me deixar comer o lamen em paz. Shino, assim acaba com a minha digestão!

Shino suspirou:

— Pode não acontecer e...

— Sabe, Shino... a gente devia fazer isso mais vezes. Sair à noite, selos antigos, espíritos vingativos... dá um frio na barriga, mas também é... empolgante. Dá até pra escrever um livro um dia, quando a gente estiver velho e aposentado — cortou depressa a frase alheia. Não queria que o outro achasse que se arrependeu de ter ajudado ou pela confiança recebida. Kiba sabia que as vezes reclamava demais, ao invés de ser sincero com os sentimentos. Aburame Shino estava mudando, lutando contra aquela faceta que só pensava em proteger o namorado. Então, é claro, Kiba precisava mudar um pouco, e aos poucos, também.

Shino olhou para ele, e por um momento, seu rosto ficou sério, contemplativo.

— “A Névoa de Konoha”. Seria um bom título — pensou por dois segundos — “A Noite dos Esquecidos”.

Kiba riu, uma risada genuína e aberta que ecoou no restaurante vazio.

— Nossa, isso foi poético. Cê tá ficando sentimental na velhice, Aburame-ojisan?

Shino não respondeu. Em vez disso, olhou pela janela aberta do Ichiraku, para onde a floresta se encontrava nos limites da vila. A névoa da manhã havia se dissipado, mas ele podia sentir, no fundo de seu ser, através da sutil conexão com os kikaichuu, um eco remanescente da energia da noite anterior. Era um sussurro, uma memória triste presa no próprio solo.

A floresta estava lembrando. E enquanto Konoha continuasse a existir, com suas gloriosas luzes e suas sombras convenientemente esquecidas, ela sempre se lembraria.

Mas, por enquanto, sob o sol do meio-dia, com o calor do namorado ao lado e o cheiro de lamen no ar, tudo estava em paz.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!