Fazia dias que sua obra-prima estava terminada.

Sasuke achou belissíma sua pintura — modéstia à parte —, entretanto, nem chegava perto da visão original. Ino era maravilhosa e, mesmo que ele tentasse retratá-la com a maior fidelidade possível, ainda não comparava-se à real visão dela.

Faltavam poucos dias para o natal, ele precisava ir às compras dos presentes de seus familiares e amigos. Havia ficado tão focado em terminar suas pinturas — a tela de sua musa e o deserto dos Sabaku — que mal saíra de casa naqueles dias. Também não ousou mandar uma mensagem sequer para a loira, sabia que, se começasse a conversar com ela mesmo que por celular, não conseguiria se concentrar propriamente em suas atribuições.

O ticket da última compra que ele fizera na papelaria dos Sabaku estava colado em seu mural de recados, em cima da mesinha de canto que costumava deixar as chaves e a carteira, na entrada da sala de estar do apartamento. Sasuke observou por um momento o papel amarelo característico de uma nota fiscal, removeu-o do quadro e guardou em um dos bolsos do casaco pesado. Se tivesse tempo, em meio às compras e a cafeteria que costumava relaxar durante os horários de almoço quando estava fora de casa, digitaria o número dela no celular e lhe mandaria uma mensagem.

Quando apertou o botão para chamar o elevador, perguntou-se mentalmente se ela já tinha se mudado para o apartamento que conseguira naquele prédio, e o que veio a seguir foi igual aqueles filmes clichês. Ele observou as portas se abrirem e viu a dona de seus pensamentos ser a única ocupante da caixa metálica.

— Sasuke! — Ino exclamou surpresa, porém abrindo um sorriso em seguida para ele, que a encarava perplexo.

As portas ameaçaram se fechar, mas a loira impediu-as apertando um botão no painel para mantê-las abertas, gesto este que foi seguido de uma risada leve.

— Você não vai entrar? — indagou com divertimento.

— Ahm, claro…

Ele adentrou rapidamente o elevador apertando o botão do térreo antes de colocar-se ao lado da Yamanaka e olhá-la de canto — ela continuava tão bela quanto se lembrava, talvez mais ainda por estar trajando elegantes vestes invernais.

— Eu estava me perguntando quando iria encontrá-lo novamente, mas parece que você se isolou no seu apartamento, pois nem me mandou mensagem ou retornou à papelaria… — a Yamanaka comentou o olhando de maneira acusatória.

O Uchiha engoliu em seco, finalmente encarando-a.

— Eu estive terminando algumas encomendas. Na verdade, terminei o pedido de Kankuro e mais uma outra tela que vinha trabalhando há semanas — ele se justificou com um sorriso nervoso.

Ino o encarou ainda com as sobrancelhas franzidas antes de relaxar a expressão.

— Eu me esqueço que sou a bendita de uma desocupada agora que estou apenas tomando conta da papelaria, mas estou pensando seriamente em retornar para a faculdade de botânica… — a loira tagarelou um tanto pensativa.

— Você mexia com flores antigamente, né? — o moreno se recordou, ganhando um acenar positivo dela. — E pretende voltar para essa área? — perguntou.

— Sim, mas talvez algo mais voltado para a área medicinal… — respondeu ainda reflexiva. — Tenho pensado muito no que fazer nesse próximo ano. Gosto da papelaria, mas também gosto muito de mexer com flores e plantas, então estou meio que pesando o que gosto mais — explicou.

— Entendo — Sasuke disse. — Devemos fazer aquilo que nos satisfaz, mesmo que para isso tenhamos que abandonar outras coisas que gostamos.

— Enquanto eu estiver estudando, vou poder fazer os dois, mas quando os estágios começarem… — Fez uma careta. — Mas falando sobre coisas que nos satisfazem... — A expressão dela mudou fazendo o Uchiha arquear uma sobrancelha. — Quando vai satisfazer a minha curiosidade de conhecer o seu ambiente de trabalho? Ou talvez me deixar ver uma obra de arte sua? — Ino o encarou de maneira divertida, vendo-o corar levemente.

— Vai trabalhar hoje na papelaria, certo? — ele a questionou como quem não quer nada.

— Sim, até o pôr do sol serei escrava de Temari e Kankuro, depois eles assumem o turno da noite — ela respondeu olhando-o desconfiada.

— Pode ir ao meu apartamento após sair? Isso se não estiver tão cansada… — sugeriu desviando o olhar.

A loira o mediu por um momento com a expressão ainda um tanto hesitante, mas logo sorriu abertamente, agitando animada a cabeça em concordância.

— Meu apartamento é o 802, no oitavo andar — o moreno contou com um fino sorriso. — Vou te mandar uma mensagem para que você salve meu número e possa me avisar quando estiver descendo…

Logo, Ino surpreendeu-se ao vê-lo remover do casaco o ticket que, ousadamente, ela anotou seu número há dias, corando ao se dar conta de que ele guardara o papelzinho por todo aquele tempo. Sasuke rapidamente anotou o número dela em seu próprio celular, abrindo o aplicativo de mensagens e mandando um simples “oi”, ouvindo o aparelho dela apitar com o recebimento da mensagem.

As portas do elevador abriram no térreo e ambos se despediram brevemente. Seguiram por caminhos opostos, mas havia um calorzinho anormal no peito dos dois ao se darem conta de que, no final do dia, se encontrariam novamente.

Sasuke havia comprado todas as coisas que julgara necessário para os amigos e familiares, itens que ele achou que combinava com cada um deles, e também trouxera consigo um vinho floral que encontrara em uma adega no caminho de suas compras.

A garrafa decorada com desenhos de flores estava em cima de sua escrivaninha no ateliê. Ele usava a mesa para rascunhos e pinturas simples que não necessitavam do cavalete. Havia arrumado todo o apartamento da melhor forma que conseguiu, dando graças por não ser tão desorganizado e não ter muitas coisas espalhadas pela sala e cozinha.

O problema foi seu ambiente de trabalho, que havia vários frascos de tintas espalhados por diversos lugares, pincéis em lugares onde não imaginava que podiam cair, tinta manchando grande parte do chão e um cavalete destacado no meio da bagunça, quase no centro do cômodo, com a pintura dela que ele fizera com tanto esmero.

O moreno suspirou resignado ao admirar a obra-prima da sua musa… Seria um tanto desconcertante se ela visse aquela tela. Por isso, a substituiu pela pintura do deserto que Kankuro lhe pediu, guardando a outra num canto escondido e cobrindo-a com um lençol branco.

Talvez, quando tivessem mais intimidade — se um dia chegassem a ter — ele ousaria presenteá-la com aquela obra… Mas ainda era muito cedo para isso e não queria assustá-la parecendo um louco psicopata ou algo do tipo.

O Uchiha suspirou novamente, dessa vez buscando se recompor, e então ouviu a campainha anunciando a chegada da sua convidada. Que Deus o ajudasse!

Ino ficou admirada com a estética do apartamento de Sasuke. Havia diversas obras espalhadas pela sala de estar e, notando “Uchiha S” como assinatura, ela surpreendeu-se ao ver que cada tela fora produzida por ele. Talento era pouco para o que o moreno possuía, era quase um dom especial se levar em conta o realismo de cada obra nas paredes. Havia até mesmo um quadro de família que pintou para representar seus pais e irmão mais velho, como ele mesmo lhe contara.

Mas o mais surpreendente para ela foi o ateliê.

Havia diversas telas não terminadas, bem como várias outras em branco, tudo organizado de uma forma que se conseguia achar e olhá-las. Algo como se, quando retornasse a inspiração do pintor, ele pudesse retomar a pintá-las. Também tinha outros quadros cobertos por lençóis brancos, algo como se o moreno tivesse desistido ou simplesmente não fosse o momento daquelas obras.

Uma estante com vários frascos de tintas e pincéis de todos os tamanhos estava de um lado da porta, do outro estava um confortável sofá de dois lugares, e de frente para ele, quase no centro da sala, havia um cavalete com uma obra recente: uma visão tão realista do deserto que ela sentiu calor só de olhá-la.

— É maravilhosa, Sasuke — Ino elogiou após admirar a tela em silêncio por um longo tempo.

O pintor sorriu simplório para o elogio, rindo ao vê-la expressar uma careta. Então, os singulares olhos azuis-esverdeados pousaram no vinho em cima da escrivaninha e ela o encarou sugestiva.

— Lembrei de você quando passei próximo de uma adega e vi essa garrafa — ele contou com um sorriso matreiro. — Bebe uma taça comigo? — convidou-a, no que ganhou um sorriso alegre de volta.

— Claro que sim! — ela replicou radiante.

— Vou buscar as taças, fique à vontade — o Uchiha falou tentando soar simpático, antes de se afastar para a cozinha.

O “fique à vontade” foi levado tanto ao pé da letra pela curiosa Yamanaka, que ela se viu xeretando mais do que devia no ateliê do artista. Estava tão encantada e curiosa pelas obras acabadas e inacabadas que, ousadamente, mexeu nas telas que estavam cobertas. Ficou deslumbrada com as obras que demonstravam sentimentos demais e que estavam cobertas justamente por isso, imaginou ela. Porém, a loira se viu assombrada com uma especial.

Ino levou um susto ao remover a cobertura de uma das telas e praticamente encarar um espelho, na verdade, era bonita demais para ser um espelho… A perfeição nos traços a fez prender a respiração, os olhos se arregalando ao vê-la retratada com uma maestria demasiada, quase como uma deusa — uma musa.

A loira sabia ser possuidora de diversas imperfeições — sejam elas algumas sardinhas ou ruguinhas por conta da idade —, mas aquilo era primoroso e, mesmo que sendo retratada numa posição cotidiana, era uma visão esplêndida demais, que lhe roubava o ar e marejava-lhe os olhos.

"Céus, é assim que ele me vê?", foi o pensamento que ela teve. Contemplando estagnada a tela, não reparou quando ele retornou ao cômodo. E foi a vez do moreno paralisar à porta ao descobrir que a Yamanaka tinha justamente achado aquilo que escondera.

Uma das taças que Sasuke trouxera espatifou no chão quando tentou colocá-la em cima da estante. Ino mirou-o, mas não o enxergou, sua atenção se voltou novamente para a tela que ela havia removido totalmente o lençol ao ver se tratar dela.

Todas as vezes que o artista apareceu na papelaria apenas para pegar um simples frasco de tinta começou a fazer sentido em sua cabeça; eram desculpas para ele observá-la e tornar a pintá-la naquela obra. E por mais que aquilo tudo fosse um tanto estranho, ela se sentiu lisonjeada por ser retratada daquela forma — perfeita.

— Eu posso explicar — Sasuke balbuciou, dessa vez realmente atraindo a atenção da loira para si.

— Acidentes acontecem, não se preocupe — Ino replicou de forma tranquilizadora, aproximando-se para pegar os cacos da taça ao perceber que o Uchiha continuava paralisado. — Quando pretendia me mostrar? — ela indagou-o calmamente enquanto juntava o vidro cuidadosamente para que não se cortasse.

O moreno ajoelhou-se rapidamente para ajudá-la com a tarefa, não respondendo à pergunta até que todos os cacos estivessem cuidadosamente em sua própria mão. Ele encarou-a por um momento enquanto comprimia os lábios, desviando os olhos ao vê-la erguer uma sobrancelha questionadora.

— Quando eu não parecesse um louco ou psicopata? — revidou em dúvida, fazendo-a rir brevemente para a surpresa dele. — Você não está brava? Ou achando isso estranho? — o Uchiha a questionou ao vislumbrar a reação dela, erguendo-se com os cacos em uma das mãos.

Ino levantou-se também, ficando frente a frente com o artista, encarando-o intensamente com um rubor adornando-lhe parcialmente as bochechas.

— Estranho é — ela respondeu num sussurrar que ele escutou só por conta da proximidade. — Mas estou lisonjeada, Sasuke — acrescentou com os olhos brilhando anormalmente.

O brilho daquele olhar azul-esverdeado o atraiu como um ímã. O pintor ousou erguer a mão livre e acariciou a bochecha de sua musa enquanto a encarava, muito admirado para pronunciar qualquer palavra, e Ino se viu hipnotizada nos ônix dele, deixando-se ser acariciada com delicadeza.

— Juro que tentei retratá-la de forma mais fidedigna — ele contou num tom sério. — Mas nada se compara ao real, principalmente aos olhos que são mesclados num azul e verde singular, e que possuem um brilho todo especial…

Foi Ino quem tomou a iniciativa de quebrar a distância entre eles após aquela declaração, e Sasuke se perguntou se aquele momento era real, se de fato estava vivendo aquilo ou era apenas mais uma peça da sua mente criativa. A constatação de que estava verdadeiramente acontecendo veio quando ele fechou a mão em punho e sentiu os cacos de vidro machucarem, mas nem mesmo a dor o impediu de sorrir durante o beijo e correspondê-la com intensidade.

Estavam agora na cozinha sentados nas banquetas enquanto a mão de Sasuke era tratada por uma cuidadosa Ino, que surtou ao ver o artista machucado justamente na mão que ele utilizava para segurar os pincéis.

A maleta de primeiros-socorros estava aberta em cima do balcão. Ela retirou os cacos da mão dele com uma pinça, aplicou delicadamente álcool nos cortes e enfaixou mesmo ele alegando que não era necessário, que eram apenas machucados superficiais e que estariam fechados pela manhã.

A loira, a todo momento, era observada — admirada — intensamente. O moreno se sentiu liberto para poder olhá-la livremente, o que apenas causava certo constrangimento nela.

Enfim, Ino guardou o que não usou na maleta, fechando-a em seguida, para então descartar as outras coisas no lixo ao lado do balcão. E não aguentou mais disfarçar o acanhamento, corando ao finalmente encará-lo de volta. Porém, a Yamanaka era ousada e jamais deixaria barato aquele embaraço que ele estava propositalmente lhe causando.

— Sasuke? — ela o chamou enquanto servia duas taças com o vinho que o moreno trouxera do ateliê quando eles se encaminharam para a cozinha.

— Hum? — ele replicou, ainda observando-a atentamente, pois agora a loira girava delicadamente o vinho antes de enfim prová-lo. Gesto este que ela pareceu fazer de propósito justamente naquele momento, afinal, um filete da bebida escorreu pela lateral dos lábios.

Os olhos azuis-esverdeados o encararam com um brilho que ele não soube nomear, mas que o fizeram engolir em seco — movimento que a loira acompanhou com apreciação por saber ser a causadora daquele embaraço.

— Você já trabalhou com nu artístico?

A pergunta da Yamanaka o pegou totalmente de surpresa, uma vez que ele escolhera justamente aquele momento para pegar a taça de vinho, que quase foi ao chão novamente por conta da perturbação que aquela questão lhe causou. O Uchiha corou ferozmente, o que fez Ino gargalhar alto, ganhando um novo olhar perplexo do moreno.

— Eu estou brincando, bobinho! — ela o tranquilizou em meio ao riso. — Isso é pergunta para daqui uns meses, quem sabe, não? — acrescentou o olhando sugestiva enquanto tomava outro gole da bebida floral.

O pintor conseguiu finalmente firmar a mão na taça de vinho e bebeu o conteúdo dela num gole só por conta daquela insinuação da loira, o que apenas fez com que ela gargalhasse novamente.


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