A moça e o dragão
14 O visitante
— Você é irmão do Jonas? – Virgínia foi pega de surpresa.
— Sou, sim, senhora.
— Um minutinho, por favor.
Seria melhor deixar ele entrar, não parecia um ladrão, assim, ela tirou a corrente e abriu a porta, para ficar em frente ao homem que, agora, sabia com quem parecia, com Jonas só que uns dez anos mais velho.
— Desculpe, eu vim sem avisar, mas fui procurar Jonas no apartamento lá de baixo e o porteiro me informou que ele morava aqui, agora.
— Sim, ele mora aqui, agora. Ah! Desculpe-me – Ela estendeu a mão – Meu nome é Virgínia. Por favor, entre!
— É a senhora que está dando abrigo para o meu irmão?
— Podemos dizer que sim.
Virgínia conduziu Samuel até a sala, onde as outras mulheres o observaram com curiosidade.
— Esse é o irmão mais velho de Jonas, Samuel. Ele chegou de surpresa, só esperávamos para amanhã.
— Peguei um voo mais cedo, precisa resolver alguns negócios antes. Assim que fiquei livre vim ver como o guri está. – Samuel explicou.
— Guri? Sim, essa é minha sogra, Judite, e minha cunhada, Teresa.
Houve uma educada troca de cumprimentos.
— Jonas está no trabalho, se quiser esperá-lo, fique à vontade, Samuel – Virgínia disse, com dissimulada simpatia, imaginado como Jonas reagiria ao encontro inesperado com o irmão, nunca soube o porquê o tamanho desconforto do namorado em relação a família dele.
— Eu agradeceria muito, a viagem foi longa, o dia foi cansativo.
— Por favor, sente-se – Virgínia indicou uma das poltronas e sentou-se um uma cadeira.
— Aceita um cafezinho? – Teresa se pôs de pé, com um sorriso.
— Sim, obrigado.
— Vou passar um fresquinho – Ela deu um sorriso simpático e correu para a cozinha.
— Mas, o que traz aqui, Samuel? – Virgínia perguntou, com medo que houvesse algum problema para Jonas.
— Ora, Virgínia! Ele disse que veio ver o irmão! – Judite interpôs, Virginia percebeu um certo tom de simpatia da sogra para com o recém-chegado, aquilo a deixou um tanto irritada.
— É verdade, sim, senhora. Tinha negócios para resolver por aqui, então aproveitar para ver como o guri está, como vai levando a vida.
— Jonas está muito bem – Virgínia respondeu, prontamente.
— Fico feliz, porque Jonas sempre foi um menino um tanto rebelde, sempre insatisfeito, queria tudo diferente.
— É dá para notar – comentou Judite, Virginia a fulminou com o olhar.
— Ele saiu de casa muito cedo, viajou pelas Europas, até voltar e completar os estudos, mas, agora faz esse tal de designer. Desenha histórias, não sei se tem futuro.
— Ele é designer gráfico – Virgínia completou. – Ele tem um bom trabalho e é muito admirado pelos colegas.
— Fico feliz, apesar de não entender esse tipo de trabalho.
Teresa votou com uma bandeja com as xícaras de café, servindo primeiro o recém-chegado.
— Você deveria convidar Samuel para jantar conosco, Virginia – Judite disse, bastante gentil.
— Claro! Aceita jantar conosco, Samuel?
— Se não atrapalhar, eu aceito – Samuel respondeu, satisfeito.
— Então, eu e Teresa vamos cuidar do jantar e você fique aí, fazendo sala para Samuel.
— Não, Judite. Você não deve – Virgínia protesta.
— Estou cansada de não fazer nada e não vou morrer por descascar algumas batatas – Judite responder, sacudindo as mãos no ar, com um sorriso satisfeito, saiu da sala, junto com Teresa.
— Fico feliz que Jonas esteja com tão boa família.
— Na verdade, minha sogra veio fazer um tratamento de saúde e elas devem voltar para a sua cidade em breve.
— Mesmo assim, viver com a senhora e seu marido é melhor para Jonas do que aqueles...garotos com quem ele morava antes.
— Na verdade, eu sou viúva e morava sozinha até pouco tempo.
— Lamento muito, dona Virginia. Deve ter sido muito difícil para a senhora tão jovem e bonita, ficar assim sozinha. Sei como é isso, porque nunca me casei, não encontrei a mulher certa.
— Por favor, sem dona, só Virginia. Sim, foi, mas depois, que estou...alugando para Jonas, a minha vida ficou bem diferente.
— A senhora tem um bom coração aceitar o meu irmão do jeito que ele é.
— Que jeito?
— Assim tão diferente com aquelas roupas e cabelo esquisitos, cheio de tatuagens.
— Não vejo nada demais, até gosto ... Jonas é uma pessoa excepcional e bastante talentoso. Sabe que ele foi indicado para um estágio, em uma das maiores firmas da sua área em Londres?
— Não sabia.
Eles ouviram a chave girar na fechadura e Jonas passou pela porta e sua expressão desabou ao encontrar o irmão mais velho bem na sua frente, Samuel e Virginia se levantaram lentamente.
— O que está fazendo aqui, Samuel? – Jonas perguntou com um certo tom de irritação.
— Um irmão não pode visitar o seu irmão caçula? – Samuel deu um sorriso, tentando quebrar o gelo. – Dá aqui um abraço! – falou, animado, deu um passo para frente e abriu os braços, mas Jonas não se mexeu, continuou com os braços do lado do corpo e os punhos fechados, mesmo assim, o irmão mais velho o envolveu em um abraço apertado. – Você está bem, mais forte! Dona Virgínia deve estar tratando você muito bem!
Os olhos de Virgínia e Jonas se encontraram sobre o ombro de Samuel, vencido Jonas dá um abraço frouxo no irmão.
— Pensei que só chegaria depois – Jonas fala quando se separaram.
— Eu vim mais cedo, tinha negócios para resolve, como acabei antes, vim fazer uma surpresa para você, mas a surpresa foi minha, ao encontrá-lo tão bem, na casa da dona Virgínia.
— Por favor, só Virginia.
Jonas sentou-se e Samuel o acompanhou.
— Bebe alguma coisa, Samuel? Não temos muitas opções aqui, talvez, uma cerveja.
— Agradecido, dona, quer dizer, Virgínia.
— E você, Jonas?
— Por favor.
Virgínia saiu em direção a cozinha, um tanto receosa por deixar os dois sozinhos, não acreditava que eles se engalfinhariam no chão da sala, talvez a cerveja ajudasse a amenizar o clima tenso. Na cozinha, as duas mulheres estavam atarefadas preparando o jantar, enquanto Virginia abria a geladeira, pegava as cervejas e arrumava uma bandeja com três copos, Judite a observava atentamente.
— Três copos, Virgínia? Não sabia que você bebia agora – sua sogra comentou, em tom ácido.
— Só de vez em quando, para relaxar.
— Ainda me lembro do tempo, que você e Theófilo nem tinham bebida em casa.
— Nós mudamos muito, depois que viemos morar aqui.
— Sim, por isso, meu filho acabou morrendo.
— Mãe, por favor, deixe Virgínia em paz – Teresa contrapôs.
— Você tem razão, Teresa, não posso me intrometer na vida de Virginia, afinal, ela é uma mulher livre agora – Judite não disfarçou seu tom de ironia.
Virgínia pegou a bandeja e foi para sala, tentando manter-se calma, mas quando chegou lá, encontrou os dois homens em uma conversa educada, quase cerimoniosa, falavam da família distante, então colocou-a sobre a mesa com força exagerada e a garrafa e os copos chacoalharam, ela deu um sorrisinho sem graça, começando a servir a bebida e entregando um copo para cada um, deixando o seu por último, tomou um longo gole.
— Vou arrumar a mesa – ela disse para ninguém em especial.
— Eu ajudo você! – Jonas se ergueu em um pulo.
— Não precisa! Fique aí mesmo! – Virgínia rebateu, desaparecendo através da porta.
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