A morte e tudo que vem depois.
1 Demons
Notas iniciais
Quem me acompanha a alguns anos sabe que, anteriormente, minhas fanfics eram todas no universo de Percy Jackson.
Bom... mudam-se os tempos mudam-se as vontades, certo?!
Percy Jackson ainda é uma parte muito importante da minha vida, mas agora to mais focada em Academia de Vampiros.
Espero que apreciem a fanfic! Sintam-se a vontade para comentar suas críticas -construtivas-, dúvidas ou sugestões.
Te vejo lá embaixo :)
Eu estou agachada no chão do banheiro. Ouço os tiros mas não sei dizer da onde eles vem. São tantos, talvez mais de 20 a cada trinta segundos, eu não sei dizer ao certo. Isso é uma metralhadora? É automática com certeza.
Deus eu não sei se acredito em você, mas se me tirar dessa eu prometo que passo o resto da minha vida crendo na tua existência. Me ajuda.
Por favor me ajuda.
Eu consigo ouvir os passos. Eu sei que ele tá chegando perto. Meu deus eu não consigo lutar, eu nunca vou conseguir. Eu vou morrer.
Mais próximos.
Mais próximos.
É isso. É esse o trágico fim de Rosemarie Hathaway Mazur. Eu vivi uma vida boa, as pessoas vão lembrar de mim? Será que algum dia minha mãe vai superar? Deus, meu pai vai ficar embebido em ódio. Sua única filha assassinada. Pior, sua única filha assassinada dentro da própria escola. Esse lugar não deveria me manter segura? Eles prometeram...
A porta abriu em um estrondo. É isso, ele tá aqui. Eu não consigo parar de chorar, preciso parar, ele vai me ouvir, vai ouvir meus soluços, vai ouvir minha respiração irregular.
— Você pode se esconder, pode correr, tentar lutar, mas eu vou pegar você, você sabe. Eu pego todos.- Uma voz grave ressonou no banheiro feminino. É um homem. Quem é?
Ele chutou a porta da cabine onde eu estava. É o meu fim. Quem diria morrer assim, uh? Me encolhi e coloquei minha cabeça entre os joelhos, agora não adiantava mais tentar esconder o soluço. Eu já chorava desesperadamente. Não conseguia encará-lo, então só me encolhia mais e mais.
— Rose? Rosemarie Hathaway?! É você?- A voz falou novamente.
Essa foi a primeira — e única — vez que olhei pra ele. Meu deus é o John Myers*. Meu coração falhou a batida. Eu o conhecia, fazia história e economia comigo. Eu sabia que ele era excluído, imaginava que sofria, mas senhor, quanta raiva existe nele?
— John? Meu deus John o que é isso?- Ele percebeu o meu desespero. Eu sei que sim.
— Sai daqui Rose. Vai. Corre- Eu quase não conseguia acreditar no que eu tava ouvindo. É isso mesmo?
— Por quê?
— Rose você nunca me maltratou, nunca me ridicularizou. Até chamava a atenção do idiota do seu namorado quando ele me zoava. Sai logo daqui.
Eu ouvia o que ele falava, mas parece que não escutava. Ele tá mesmo me deixando viver? Será que tem outros? Pra onde eu devo correr? Deus, você me ouviu.
— VAI ROSE. CORRE!
E foi isso que eu fiz. Corri. Corri muito. Não parei de correr. Tudo pareceu um borrão, eu não pensei pra onde estava indo, pra onde queria ir. Só retomei consciência quando percebi que abria as portas da escola. De repente armas foram apontadas pra mim. Mas eu entendi. Era a polícia, eles acharam que pudesse ser o atirador. Meu primeiro instinto foi levantar as mãos e cair de joelhos. Talvez porque meus joelhos fraquejaram tanto que não pude me manter em pé.
“Eu sou aluna. Por favor, não atirem eu sou aluna. Sou aluna. Eu não to armada. RA** 74301926. Por favor”
— Temos confirmação visual. É ALUNA. Abaixem as armas imediatamente! Ela é a primeira. Vamos, vamos, vamos.
Um grupo de policiais correu até mim, um deles colocou um casaco nos meus ombros enquanto o outro me levantava do chão. Me levaram até uma viatura e me sentaram lá.
— Fiquem alertas, em posição!- Um deles gritou- Pode me dizer seu nome senhorita? Pode me dizer como conseguiu sair?
Mas eu não conseguia. Isso era demais. Demais pra mim, demais pra qualquer um.
— Senhorita, pode me dizer seu nome?
— Rosemarie. Rosemarie Mazur. Ele me deixou sair, é ele, é ele, meu Deus o que ele fez...
— Pode me dizer o nome dele senhorita? Você fez contato visual? Sabe quem ele é?- Não posso culpar o policial por fazer tantas perguntas, até dez minutos atrás eu sabia tanto quanto ele.
— O nome dele é John Myers. Branco, alto, magro, cabelo ruivo. Ele me deixou ir, poupou minha vida. Eu estive na mira, ele me deixou ir.
— M-mas.... Por quê?! Por que ele deixaria você viver?- Policial, se você soubesse que estou tão surpresa quanto você...
— Ele disse que eu nunca maltratei ele, disse que eu era legal com ele.
No fundo, a voz de outro policial surgia: Temos uma sobrevivente! Temos a primeira sobrevivente
Acordei suada, os lençóis estavam molhados. Mais um pesadelo? Quanto eu vou deixar de só sobreviver e começar a viver? Nossa, eu to nojenta. Preciso de um banho.
Então é isso. 23 de fevereiro. Primeiro dia de aula desde que o ataque aconteceu, primeiro dia de aula desde dezembro. O recesso era necessário. Digo, quantas pessoas estão dispostas a voltar ao mesmo lugar em que viram seus amigos mais antigos morrerem? Eu sei que meus pais não se importam que eu passe mais uma ou duas semanas em casa, mas uma hora vou precisar ir, certo?
Eu amo meus pais, mas não aguento mais toda a pena que eles sentem por mim. Eles quase exalam pena, como se esse fosse o novo único sentimento que são capazes de sentir. Eu sei, estive em um tiroteio, eu sei, uma arma foi apontada pra minha cabeça, eu sei, vi meus amigos morrerem. Já sei disso tudo, não preciso de um lembrete diário.
Pouco mais de dois meses desde o fatídico dia. Se continuar divagando sobre tudo isso vou me atrasar, já são 7:30. Coloquei uma roupa que julguei decente, eu queria colocar meu moletom preto, mas as pessoas pensariam que eu to de luto, né? Quem eu quero enganar.... eu realmente to de luto.
Desci as escadas e ouvi uma moça falando, era na TV, noticiário.
“Hoje é o retorno das aulas no colégio particular Saint Vlad. Pouco mais de dois meses atrás, no dia 9 de dezembro, o colégio sofreu um atentado, um aluno, que posteriormente foi identificado como John Myers entrou na escola armado de duas pistolas calibre 32 e três armas automáticas. Infelizmente, no terrível atentado 56 pessoas perderam suas vidas, sendo 42 alunos, 8 professores e 6 funcionários de serviços gerais. John Myers foi atingido por franco atiradores e não sobreviveu aos ferimentos.
— Triste demais, né Monalisa***? Nesse momento só podemos desejar nossos sinceros sentimentos aos sobreviventes que hoje retornam a suas atividades...”
Meu pai percebeu minha presença na cozinha e desligou a televisão. Eu sei do que aconteceu, de quantas pessoas morreram, mas sempre que ouço um terceiro falando me surpreendo. Foram tantas vidas... tantos amigos....
— E aí filhona? Preparada pro primeiro dia?- Meu pai me tirou do transe
— Mas que pergunta idiota é essa Ibrahim? Não é como se fosse o primeiro dia depois das férias. Filhinha... você sabe que não precisa ir se não quiser, né? Isso pode esperar- Minha mãe mal me deu tempo de responder
— Não tem problema mãe, eu vou, você sabe que eu vou, preciso ir. Tenho quase certeza que vou enlouquecer se continuar trancada aqui.
Eu fiz terapia desde o primeiro momento, tomei remédios pra dormir, falei sobre meus sentimentos mas quem fala que isso faz com que o processo seja menos doloroso, tá mentindo. Fui ao enterro de três amigos próximos, vi noticiarem esse acontecimento por mais de 1 mês, sonhei, repetidas vezes, com o que vivi lá, dei meu testemunho a muitos policiais. Eu precisava viver pelo menos por 20 minutos em algo que não fosse relacionado a isso.
Enquanto meus pais falavam sobre algum outro assunto do qual não me interessava nem um pouco, me permiti divagar novamente. Inerte, enquanto comia meu café da manhã, pensei como seria voltar aos corredores que passei correndo, fugindo por minha vida, da última vez. Como seria entrar nas salas de aula que foram banhadas com o sangue dos meus colegas.
Quando as coisas voltariam ao normal?
Como poderiam voltar ao normal quando tanta gente faltava ali?
Notas finais
Bom gente, até que fiquei satisfeita para um primeiro capítulo. Devo ter passados bons dias pensando se realmente postaria essa história.
Com a quarentena, meus horários estão mais flexibilizados, então consigo um tempinho pra escrever e retomar velhos hábitos. Falando em quarentena, como estão? O que estão fazendo de legal por aí?
Enfim, vou me despedindo por aqui, lembre-se que seu comentário é extremamente importante pra mim, quero te ouvir!
Fiquem em casa, se protegam e cuidem de suas famílias. Beijos!
*: John Myers é personagem autoral sem qualquer relação com a realidade.
**: Na minha escola, o RA funciona como um metódo de identificação do aluno (provavelmente é uma sigla mas não sei o que significa). Cada aluno tem seu número de oito dígitos.
***: Caso alguém esteja se perguntando, sim, o nome da repórter é em homenagem a Monalisa da CNN haha.
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