A morte de Deus

1 Capítulo I – O céu na terra


Estávamos todos sentados na areia branca da praia, estava uma noite clara, a lua cheia ilumina a água do mar, causando um efeito hipnotizante, a lua estava tão grande que parecia ser o fim do mundo.

A iluminação feita através dos enormes postes de luz que cobrem toda a extensão da orla e por alguns carros que passam na Avenida, Deixam a praia clara, apenas alguns coqueiros impedem a passagem da luz em certos pontos, criando um clima afável.

Encontramos um lugar com espaço o suficiente para fazer nosso encontro, apesar da demasiada quantidade de gente na praia. Era pra ser um luau, mas não tinha fogueira, trouxemos alguns petiscos, mas permanecíamos todos interessados no uísque. Uma amiga minha “ao qual eu queria mais intimidade” estava olhando o mar, apreensiva. Abracei-a pelas costas. Carol tinha um corpo magro e pequeno seus cabelos loiros agora atrapalhavam minha vista, tive que arruma-los de um jeito que não voassem no meu rosto.

—O que foi? — Perguntei

—Nada, tô meio sei lá.

Ela respondeu de uma forma perturbadora, extremamente calma e triste.

Enquanto isso John tocava violão, e alguns amigos o acompanhavam cantando. Eu observo a praia. Tinha bastante gente por ali, mas do que de costume, hoje haverá um fenômeno extraordinário, a lua cheia nascerá no mar.

No noticiário dizia que aproximadamente às oito horas da noite haveria um eclipse lunar, algo realmente incrível, a lua ia adquirir uma coloração avermelhada e ia ser totalmente coberta pela sombra da terra. Não lembro quando tempo duraria o evento, mas seriam quase duas horas.

Tudo daria para ser visto a olho nu na praia, pelo menos foi o que ouvi dizer, saiu no jornal também. Explicaram que evento era raro, geralmente o eclipse é apenas parcial, por sorte, não temos muitas nuvens no céu, e temos bastante estrelas para enfeitar o fenômeno.

Voltei os olhos para John, ele acenou pra mim com a cabeça enquanto tocava, perguntando, O que Carol tinha? Acenei a cabeça negativamente informando que não sabia. Ele voltou sua atenção para o violão, puxando outra música.

Fiquei olhando para o céu com Carol, de repente, um feixe de luz rasga o céu noturno, Carol salta e olha pra trás, quase a beijo, ela sorri e vira pra frente novamente. Outra estrela cadente passa rapidamente.

Ouço a menina exclamar impressionada, mas duas estrelas passam seguidas, depois outra e outra. A essa altura muita gente já mirava o céu apontando. Agora quem olha para trás sou eu

John parou o violão eu nem havia notado, ele olha para o céu. O “fotografo oficial do grupo”, Isaque, um garoto magro e alto, com a pele bronzeada, que aparentava ter mais idade do que realmente tinha puxou a câmera e começou a clicar, jogando os cabelos crespos para trás para que não o atrapalhasse.

Todos na praia fotografam, filmam, ou apenas observam e exclamam, mal sabíamos que daqui a alguns minutos tudo seria caos. Depois das estrelas cadentes, todos ficam encantados, mas o que vem em seguida é sem dúvida, divino, alguns segundos com o céu calmo e de repente uma “chuva” de estrelas começa a cair. Todos nós ficamos encantados.

A beleza daquilo é indescritível, mesmo que se conte para alguém o que se vê, e ela consiga imaginar perfeitamente, teria também a sensação, algo reconfortante, parece que vivemos só para aquele momento. Algo tão magnifico nos deixa eufóricos, é belo demais para existir, as estrelas não param de cair, passa-se tanto tempo que passamos a achar aquilo comum, mas não queremos que acabe.

Começamos a nos divertir, tirar brincadeiras um com o outro, conversávamos e alguns pediam para John tocar novamente. Isaque teve a ideia de mais uma fotografia, mas agora com todos reunidos. Ele chamou um estranho para bater uma foto nossa. Não teve problema em encontrar, pois mesmo com todos tirando fotografias ou fazendo seja lá o que for. Estavam todos com uma paz de espirito.

O estranho levantou a câmera na altura dos olhos enquanto nós fazíamos pose, estávamos de costas para a praia. Ele começou a demorar um pouco, alguns já resmungavam. Ele deu alguns passos para frente. Estranhei. Ele abaixou o braço, Isaque pensou que fosse algum problema com a câmera e logo perguntou.

—O que foi?

O estranho exclamou enquanto olhava para o céu atrás de nós, aterrorizado.

—Meu Deus!

Carol me puxa pelo braço, olho para traz e vejo novamente um cometa passando pelo céu, de repente outro,

—As estrelas estão caindo, em nós.

Comenta alguém, não sei ao certo quem foi, pois minha atenção foi tomada por uma estrela que passa bem devagar e perece estar aumentando. Então percebo que ele não está aumentando, está vindo em nossa direção, o céu mesmo limpo começa a trovejar. Alguns relâmpagos atingem a areia da praia.

Carol aperta minha mão com força, quase agradeço as estrelas e aos relâmpagos.

Aquela bola de luz vem em direção à praia, meu coração gela, ela vem caindo, caindo e brilhando. Minha vista se enche de luz, eu não vejo mais nada, a não ser algumas sombras, em seguida um estrondo seguido por gritos de desespero.

Mesmo com a vista ofuscada percebo muita gente correndo, mas a quantidade de pessoas que ficam é bem maior, minha visão começa a voltar e percebo John largando o violão e a correndo na direção do meteorito, Isaque pega sua câmera da mão do estranho e vai logo atrás.

John chega primeiro que Isaque e olha pra traz espantado.

—tem um cara aqui! Ajud...

John grita desesperado, mas sua voz vai morrendo e termina num grunhido estranho. John cai no chão. Isaque parou no meio do caminho, eu começo a correr para ajudar, mas quando me aproximo, sai uma criatura daquele buraco na areia. Lentamente como se nada tivesse acontecido ele vai saindo do buraco usando John como apoio puxando-o pela perna.

Não sei o que pensar, o ser que se levanta possui um tom acinzentado bastante claro, uma coloração estranha, mesmo vendo a cor parece que ela não é possível. A criatura também possui o que parecem asas nas costas, com certeza são asas, asas de morcego cobertas de penas brancas. Ele tem cabelo grisalho que cobre o seu rosto. Ele me lembra um anjo.

A criatura está agora de joelhos ainda segurando John pela perna. Ele levanta a vista. Apesar de toda a estranheza o que mais me chama a atenção é o que parece ser uma máscara cobrindo o seu rosto, parece ser formado de uma madeira, alguma casca de árvore branca, na máscara só havia buraco para os olhos, os olhos claros da criatura. Aquela mascara me atrai.

A criatura agora totalmente de pé joga meu amigo pra longe. Isaque começa a fotografar a criatura que parece não ligar para ninguém, ela olha ao redor e começa a buscar algo, depois de alguns segundos percebo que algo está saindo do corpo daquele ser, como se ele estivesse emanando uma energia.

A criatura para de se mover e ocorre o que acho que foi uma explosão, não sei ao certo, pois tudo ficou escuro, a última coisa que me lembro, são de mais estrelas caindo do céu e relâmpagos, mesmo não tendo nuvens.

...

Abro os olhos, minha vista está um pouco embaçada, estou deitado na areia, sinto meu corpo fraco, vejo um brilho no horizonte, deve ser o sol nascendo, a luminosidade se afasta aos poucos. Tento me levantar, mas não consigo, meu corpo está pesado, começo a fechar meus olhos.

Passam alguns minutos de puro silêncio, aonde o vazio de sons vai se transformando num caos de vozes, que começa a me encher os ouvidos. Dentre os berros e choros, ouço Carol me chamando, aquela voz doce me enche o coração de alegria, mas eu não tento me levantar, acredito que esteja sonhando e não quero acordar agora. Sua voz se aproxima, chamando novamente, começo a abrir os olhos e de repente as mãos macias de Carol, agora tremulas me balançam e ela grita meu nome com uma voz aflita.

—Cristofer!

Voltei à realidade, ainda está escuro, pensei ter visto o sol nascendo, mas ainda é noite. Alguns postes de luz não estão mais funcionando deixando o local mais escuro.

Olho ao redor e só vejo destruição, meus colegas ainda estão deitados. Levanto-me com muito esforço. Agora reparo que as pessoas ao meu redor parecem cadáveres. Vou para perto de alguém, um cara grande e forte, que está deitado de bruços, com a cara enterrada na areia. Empurro seu corpo para fazê-lo virar. Enquanto isso Carol morre de chorar, mas não tenho tempo de ver o porquê. O rosto do rapaz está melado de areia, de sua boca escorre um gofo sem cor, o rapaz vomita inconscientemente, A sua bile vai saindo cada vez mais rosada até ficar vermelha e eu perceber que ele está expelindo sangue pela boca. Seu peito para de arquejar, o homem não respira mais. Entrei em pânico.

Procurei Carol com os olhos, vi que ela estava também tentando reanimar outra pessoa, levanto e vou para junto dela, que estava de joelhos, batendo no peito de Esther, uma colega nossa, eu não tinha muita intimidade com ela. Carol olhou para mim, seus lindos olhos cor de mel estavam chorando, seu rosto estava banhado em sangue e lagrimas. Ela acenou a cabeça negativamente.

—Morta.

Falei num tom imparcial, ainda não estava entendendo aquilo e meu desespero agora tinha se tornado tristeza. Carol provavelmente não gostou do meu tom, pois se levantou rapidamente e começou a socar meu peito, mas não por muito tempo, pois logo ela desmoronou nos meus braços.

Uma vez sonhei com o fim do mundo, terminei por levar um tiro, foi uma sensação estranha. Só não imaginei que o desespero seria tão grande, de não saber o que estar por vir. Desejei que o mundo não tivesse acabado, mas o pensamento logo se desfez quando Carol me beijou os lábios.

Foda-se o futuro, se é que ele existe agora, ela era linda, não me importa que ela esteja coberta de sangue, ela ainda era linda, o mundo acabou, dane-se o que eu tinha a perder, não tenho ninguém por mim, não até agora. Ela me beijou, eu que não vou perguntar por que demônios ela fez isso, simplesmente a beijei de volta.

Ela parou, abri meus olhos querendo pedir por mais, porem fiquei preocupado com a quantidade de gente que estava em pé, parece que todas as vezes que fecho e abro os meus olhos, o mundo muda. Carol me soltou como se o que tivéssemos feito fosse errado. Levantei a vista e vi uma silhueta conhecida, John, estava de pé olhando o mar, provavelmente ele tinha acabado de levantar e dava para ver que ele não estava bem pela sua postura arqueada.

Passei por Carol e fui em direção a ele

—John

Gritei ao correr. Ele permanecia imóvel cheguei perto, e ia falar seu nome novamente. Percebi que sua perna estava coberta por uma carapaça branca, melada de sangue e areia, coloquei a mão em seu ombro, ele olha pra mim, com um sorriso malicioso.