A morte de Deus
3 Capítulo III - A anunciação
Notas iniciais
Que acidente horrível... Espero que alguém tenha sobrevindo. Vou pela pista em direção ao ônibus
“O primeiro corpo... Pobre motorista, foi arremessado para fora do veículo. Se tivesse com cinto de segurança, poderia estar vivo agora, ou ao menos evitar ter o crânio triturado pelo asfalto, talvez uma morte mais digna.”
—Você foi um bom homem, apesar de ser um tanto grosseiro, tentou salvar a todos. Ou talvez seu último ato tenha sido uma tentativa desesperada de salvar a si mesmo. Não se preocupe não há ninguém para julgá-lo hoje.
Entro no veículo pelo local que ficava o para-brisa agora estilhaçado, posso passar sem dificuldades. O ônibus está de lado com as rodas ainda girando.
Dentro do ônibus há pessoas mortas, seria admirável se ninguém tivesse morrido. Quem sobreviveu?
O cobrador ainda consciente, com os olhos esbugalhados, está sentando em sua cadeira com o cinto lhe prendendo corpo deixando-o pendurado com os braços esticados para frente, apontando para baixo. Os seus cabelos loiros e lisos lhe descem pela face na direção de seus braços. O uniforme azul da empresa está quase irreconhecível.
—Espero que algum de vocês supere minhas expectativas...
O Homem me encara, parece estar em choque. A bancada onde ele guardava o dinheiro das passagens é feito de madeira e devido ao momento, quebrou e perfurou-lhe as pernas. Ele sangra incessantemente.
—Desculpe, acho que você vai morrer logo, acredito que precisaria de muita energia para salva-lo.
Mais à frente uma mulher de meia idade, cabelos negros e lisos com um vestido estampado, sua postura é a de quem quer aparecer mais que os outros, sua alma é manchada, entendo que ela queira salvar primeiro a si mesma, uma questão de instinto, mas diferente disso, ela apenas quer que alguém seja punido por isso, não necessariamente o culpado, próximo a morte ela pragueja baixinho ofendendo o motorista por ser descuidado, amaldiçoa Deus e o mundo por ter feito isso com ela. Ela não faz a mínima ideia da sorte que tem por estar viva.
Um rapaz de cabelos longos se encontra numa situação pior que a do cobrador, provavelmente não vai durar muito devido a esse metal atravessado no seu abdome. Ao me ver o homem tenta falar algo, mas devido a sua respiração acelerada não consigo entender o que ele diz, apenas sons indecifráveis saem de sua boca.
Onde deveriam haver cadeiras, há uma garota jogada no chão, possui uma beleza simplória lembrando os meio-elfos de outrora. O corpo magro e os cabelos cortados de forma rebelde, a maquiagem pesada sobre os olhos que se movem freneticamente tentando buscar algo, sua pele clara realça o sangue e a sujeira que lhe cobre o corpo. Sua blusa folgada se encontra rasgada cobrindo apenas alguns pontos de sua anatomia.
Apenas quatro pessoas vivas, os outros não tiveram a mesma sorte, infelizmente meus objetivos visam salvar apenas uma e mesmo que eu tivesse que salvar mais, não conseguiria.
A mulher apesar de não me parecer ser uma boa pessoa ainda está respirando é a criatura que possui mais chances de sobreviver mas dificilmente seguiria os meus propósitos.
O homem de cabelos compridos diante de mim geme de dor, que som incômodo, por que ele fica balbuciando? Esse esforço só o fará sofrer mais... Pelos meios naturais, não há como ele ser salvo, o cano metálico perfurou seus órgãos internos e só de olhar sei que suas costelas estão quebradas, seu peito foi afundado por alguma pancada forte e ele vomita sangue.
A outra passageira viva não se move a não ser pelos olhos que ainda estão agitados. Seu espírito está pesado, deve ter sofrido algum trauma emocional há pouco tempo. Coitada, está sofrendo tanto.
Que tragédia, sua consciência não quer deixá-la e provavelmente ela não pode se mover. Pela posição que ela está provavelmente não pode me ver. Ela me parece de qualidade. Toco o rosto da garota e alivio a sua dor física. Apesar de não sentir mais dores um terror começa a tomar conta dela. Não poder se mover não sentir o próprio corpo, isso é sem dúvida aterrorizante. Memórias incultas vieram a sua mente, pessoas inválidas em camas de hospitais, sendo alimentadas por máquinas. Quanta dor dentro de uma criança. Me afasto dela, esse mundo possui muito sofrimento, mas o pior ainda está por vir.
Ela forçou o pescoço, conseguiu mover a cabeça infimamente para o lado, fazendo com que ela olhasse para cima, sua vista alcançou o céu estrelado. Como o ônibus estava de lado, as janelas laterais apontavam para as estrelas. A noite cercava a menina e ela toma um ar pensativo. Ela ainda não consegue me ver.
Pobre garota... Acho que devo dá-la um pouco de esperança. Ela terá suportar mais dores, mas ao menos terá seus desejos atendidos.
…
Foi incrível como o Próprio Samael apareceu diante dos portões e matou Pedro, pois esse negou a sua passagem. Essa guerra não se iniciou entre Caelis e Infernus, mas sim entre todos os que existiam. O arcanjo do quinto coro angélico, Samael veio a Caelis perguntando sobre as boas novas, e teve a confirmação do próprio Miguel, o arcanjo, que contrariando as vontades de Gabriel, anunciou a todos a morte de Deus. Samael junto com os demais arcanjos seguiram para o trono divino. O céu ficou em silêncio por quase meia hora.
Aqueles que estavam calados passaram a falar, todos naquele reino divino estava tenso, as vozes soaram como trombetas. Naquela noite, o sangue iria jorrar farto em todas as dimensões, pois todos os portais estavam abertos e todos queriam governar. Se iniciava o apocalipse.
…
—Salve a minha esposa, salve-a.
Uma voz esganiçada, do homem de grandes cabelos, me tirou de dentro das minhas memórias. Toda a dor daquele homem foi superada por ele mesmo, afim de salvar a sua amada. Ele apontava pra ela com seu braço em carne viva. Acompanhei seu braço até a ponta de seu dedo, olhando na direção indicada, a mulher não respirava mais e seu braço estava triturado entre a janela e o chão. Voltei-me para ele com o olhar mais complacentes que consegui fazer, indicando a ele que ficaria tudo bem. O homem morreu calmo acreditando em mim, mas era mentira. Nem ele, nem sua mulher teriam paz por um bom tempo.
Decidi por salvar a pequena garota, peguei-a nos braços e sai daquelas ferragens que antes eram um ônibus. O cobrador entoando com suas últimas forças um cântico, exaltando o Deus. Que ele não sabia ainda, estava morto. A canção era linda, mas era abafada pela morte que o levava e pelos gritos da mulher praguejando contra mim por estar levando sua filha ao invés dela.
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