A morte de Deus

2 Capítulo II – Solidão


Meu amado morreu. Choro muito em seu velório. Não sei como posso viver sem ele principalmente agora. Ele é tudo pra mim. Ou era, já que agora está morto. Ao menos minha família teve a decência de me acompanhar até o velório.

Não sei a hora exata, mas é noite. A alguns minutos atrás havia acabado de ver algumas estrelas cadentes no céu, que em seguida começou a relampear mesmo sem ter nuvens, fiquei assustada, neste cenário não é difícil pensar coisas macabras.

Minha mãe parece impaciente e vou pra junto dela, ela olha pra mim me fazendo uma pergunta.

—Vamos pra casa filha?

Respondo logo em seguida, com outra pergunta.

—Não podemos ficar mais um pouco?

—Querida, estou cansada e sua irmã está esperando em casa sozinha. E além de tudo, não podemos perder o horário do ônibus, não sei se passam mais ônibus depois das onze.

—Unh. Tudo bem vamos.

Despedimo-nos das pessoas presentes no local e seguimos para a saída do cemitério. Enquanto caminhávamos não trocamos uma palavra, nem sequer olhares. O Clima está estranho, existe uma tensão no ar que parece deixar tudo tenso.

A relação com minha família não é das melhores, tenho várias discussões com minha mãe onde ela me xinga de várias coisas como, rapariga ou puta, e ainda me nega como filha dela, dizendo que não temos o mesmo sangue, meu namorado conseguia amenizar as coisas, pois minha mãe confiava nele.

Continuamos caminhando pela trilha de pedras até chegarmos num portão e saímos do cemitério caminhando mais um pouco paramos no ponto de ônibus. A rua apesar de ter iluminação ainda assim é escura, envolta numa penumbra macabra, que envolve os cemitérios.

Se o clima já não fosse assustador o suficiente, após minutos de silencio, do nada minha mãe fala, como se estivesse se segurando há um tempo, o que me faz saltar com um leve susto.

—Quero ver o que você vai fazer agora?

—Vou continuar vivendo.

Falo, tentando engolir o choro, mas sinto minha voz sair tremula.

—Quero só ver. Do jeito que você é.

Fico calada, um tempo longo se passa e começo a perceber que não passam carros nem ônibus na rua em que estamos. Raras são as pessoas que caminham por ali.

A rua fica cada vez mais deserta e quando não há mais ninguém, exceto nos duas na parada, duas luzes vêm subindo a rua, os faróis do ônibus iluminam o local.

Estendemos a mão fazendo sinal para o ônibus parar, o motorista para o carro de maneira que a porta de entrada fique bem a nossa frente, talvez uma das poucas vantagens de se pegar ônibus a essa hora da noite. Subimos os degraus, minha mãe a frente sobe e passa pela catraca pagando as duas passagens.

Dou boa noite ao motorista e ao cobrador que retribuem, enquanto passo pela catraca e observo os passageiros do ônibus.

Um casal dormindo abraçado, o homem possui cabelos mais longos que a mulher que está escorada em seu peito. Ele segura a mulher enquanto dorme... Acho que estou devaneando demais. Ver casais me deixa triste, uma angustia devora meu peito.

Mais atrás, numa cadeira mais alta, um homem fala alto no celular, discutindo alguma coisa sobre valores com alguém do outro lado da linha.

Sentado nas ultimas cadeiras perto da janela há um homem barbudo, com roupas maltrapilhas, olhando para o vazio, seus olhos são profundos e tristes, mas ainda assim são olhos bonitos, apesar de ser a única coisa bela nele.

Minha mãe senta numa das cadeiras do meio, ficando na janela e me deixando com a cadeira do corredor.

—Ahrg, como isso é cansativo. Só Você mesmo Thais, para fazer eu me esforçar tanto.

Minha mãe resmunga enquanto se ajeita na cadeira. Eu forço um sorriso para tentar amenizar.

Sento ao lado dela, sinto lagrimas escorrendo dos meus olhos, viro o rosto para o lado do corredor para que minha mãe não me veja chorando. Enxugo as os olhos e volto o rosto olhando minha mãe, que olha para o nada pela janela.

...

Não temos nem quinze minutos de viajem e minha mãe já está dormindo com a cabeça escorada na cadeira perecendo que quebrou o pescoço.

Também estou cansada, minha mãe tem razão, essas coisas cansam a gente. Deixo a tristeza me levar e termino cochilando no ônibus.

Não entendo porra nenhuma do que está acontecendo. O dia de hoje realmente está sendo horrível, não pude chorar a morte do meu namorado, Dante morreu e agora isso. O chão do ônibus se abre, formando um buraco embaixo dos meus pés. A Cadeira e todas as ferragens do ônibus caem pelo buraco.

Minha mãe me empurra, evitando que eu segure em qualquer coisa, caio no buraco, meu corpo vai de encontro ao asfalto rasgando minha carne...

Acordo de sobressalto ainda sentado na cadeira do ônibus me parece bem firme. A viagem segue tranquila apesar de não saber em que local estamos passando. Minha mãe ainda dorme, eu por outro lado estou bem acordada, depois desse pesadelo não acho que vou conseguir dormir agora.

Ao que me parece, subiram mais duas pessoas no ônibus. Uma mulher com trajes formais de escritório e um homem gordo com roupas mais folgados do que deveriam (o que lhe faz parecer engraçado).

Tento relaxar novamente na cadeira, apesar do desconforto que são as cadeiras dos ônibus destinados ao transporte público. Encontro uma posição confortável e relaxo, fecho meus olhos, mas imagens de Dante me vêm à cabeça e sinto lagrimas querendo sair.

Erguendo a cabeça e olhando em frente, vejo um clarão e logo em seguida sinto uma pancada bruta.

O som de um impacto forte logo é consumido pelo estrondo do metal sendo retorcido, meu corpo é lançado pra alguma direção de forma tão brutão que nem consigo imaginar o lado que fui. Escuto um grito de desespero. Algo passa pela minha frente, tento acompanhar com os olhos. A gravidade começa a me puxar para a terra.

Bato na lateral de uma das cadeiras e vou em direção à janela, o ônibus capotou e seus vidros laterais estão sendo estilhaçados na pista. Lanço o braço a frente, tentando me segurar num dos ferros de apoio, mas não tenho força. Apesar de retardar a queda minhas costas batem com força no vidro estilhaçado. Sinto a pista de piche em minhas costas enterrando os cacos cristalinos da janela na minha carne...

Todo está girando, não consigo ver nada direito, a não ser borrões, minha vista não consegue focar em nada, pois tudo parece estar se movendo e quebrando ou se contorcendo ao se chocar contra outra coisa. Tudo muito rápido.

Meu corpo está todo dolorido. Não tenho forças para me levantar, ao menos está tudo calmo agora, apesar da dor lancinante que cobre meus sentidos.

Não consigo me mexer, mas estou bem acordada, meus olhos estão abertos e minha consciência parece não querer me deixar. Observo o que consigo ao meu redor, sem mover a cabeça. O homem que gritava ao telefone está com a coluna quebrada jogado de forma perturbadora na lateral do banco. Do casal que estava no ônibus apenas a mulher está no meu campo de visão, deitada inerte com o braço direito esmagado entre a lateral da janela e a pista.

Ouço um gemido inconsciente, mas não consigo mover a cabeça para olhar de onde vem, ainda tento achar minha mãe, mesmo que apenas ouvindo ela, tento falar algo, mas nem gritar eu consigo.

As dores no meu corpo começam a sessar. Uma dormência passa a tomar conta de mim. Tento mais uma vez me mover, mas a o meu corpo não responde, fecho meus olhos com força, isso só pode ser mentira.

Cada vez mais o desespero toma conta de mim e as dores lancinante cada vez mais intensas vão me fazendo descobrir o qual ruim pode ser estar vivo. É uma grande comedia, só pode ser uma piada divina de mal gosto. Por que Deus faz isso comigo?

Alguém poderia fazer algo bom pra mim, Dante eram bom pra mim as vezes. Eu queria que eles estivesse aqui comigo, a dor não seria tão ruim. Acho que estou enlouquecendo, pois começo a sentir seu cheiro.