A mola que faz sorrir
1 A mola que faz sorrir
Desastre. Com aquele cabelo loiro e olhos brilhantes, o sorriso tão fácil e pronto para surgir em seu rosto como se controlado por molas, tudo naquela figura aparentemente despreocupada e fútil gritava como a vítima de um assassinato. Mas ninguém ouvia, ninguém se importava. Ninguém deveria – nem queria – se importar com um garoto bonito e bem-sucedido tanto nas revistas de moda quanto nas de esporte. E era assim que o fantasma por debaixo daquela curva convincente em seu rosto crescia e tomava conta de seus pensamentos. Aos poucos, ditando o que ele comia ou "descomia" e o que ele vestia e com quem saía, com quem ele falava e com quê gastava seu dinheiro.
Ultimamente, falava mais que o normal, desligando uma ligação e já iniciando outra. Toda noite era uma festa, uma saída. Não queria ficar sozinho, com as vozes em sua mente, o levando para baixo, mas, mesmo quando estava com os outros, ruía a cada pequeno comentário e sentia-se cansado, louco para ir para casa e ficar só. Sentia-se perdido e sem amigos. E mesmo com seus amigos jamais admitiria que passava por aquelas crises sem sentido. Não era doente, talvez levemente "leviano" como dissera Akashi certa vez, mas até hoje não descobriu que doença era aquela.
Por um tempo, conseguiu convencer a si mesmo de que todas as pessoas se sentiam assim também, que era parte da vida. Há dias em que você acorda bem, outros não. Mas a maioria dos dias passou a começar mal e mesmo os que começavam bem nunca tinham um final feliz. Porque no final do dia estaria sozinho consigo mesmo e o "consigo mesmo" não gostava muito de si. Os vícios pareciam bons para acalmar a sua dor, mas tinha uma aparência para manter. Por enquanto, pelo menos.
Então esse era Kise Ryota, sorrindo cada vez mais largo. Descendo cada vez mais rápido em queda livre para um fim sem fim onde a dor nunca passaria.
Direita, esquerda, direita, esquerda. Salto. O pivô da outra equipe estava muito próximo, ia interceptar a bola. Desvio. A bola vai direto para o ala do time, ele não hesita e marca. O treinador apita para encerrar o treino e os garotos se espalham para buscar água e toalhas. Para Ryota não é diferente, está suado, ofegante, mas sente o bem-estar da adrenalina. Basquete já não é o mesmo que antes, mas ainda age como uma droga momentânea sobre sua apatia. O mantém ativo; precisa continuar, precisa achar um jeito de continuar…
Enquanto enxuga buço com a gola da camisa percebe uma movimentação diferente do normal. Não eram só as garotas querendo seu autógrafo. O time de basquete se reuniu num bolinho á margem da quadra. Algo especial acontecia.
— Kasamatsu-senpai…
Tanto tempo que não via o ex capitão. Soube que ele tinha ido para uma boa universidade, não esperava vê-lo na cidade tão cedo.
Quando Yuukio o encontrou com o olhar, sorriu ante a expressão surpresa e tão honesta no rosto do loiro.
— Kise… Você parece bem.
Queria não ser tão bonito nem tão habilidoso. Queria que as pessoas vissem as suas falhas. Que elas ouvissem a súplica por detrás de seus olhos, pedindo socorro. Queria que essa fase, momento, hormônios ou o que diabo fosse, passasse logo, numa manhã qualquer. Queria que Kasamatsu não olhasse para ele com toda aquela confiança; não era mais como no último jogo escolar do capitão, contra Shutoku. Queria não ouvir aquele rangido cada vez mais alto toda vez que sorria como agora. A mola ia arrebentar dentro da sua boca, destruindo a mandíbula e toda a sua cabeça junto.
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