A moça e o dragão

8 Uma relação fugaz e despretensiosa


O começo da noite os encontrou deitados aconchegados no sofá, e Virginia dividida, pois, mesmo gostando de estar ali junto a Jonas, com seu corpo saciado, sentia-se um tanto traidora em relação a Theo, apesar de ele ter morrido, há tanto tempo. Era estranho ser feliz de novo, será que tinha esse direito? Ter aquele calor bom queimando no peito? Mas o que acontece agora? Jonas se levantaria dizendo que foi bom, porém que tinha algo importante a fazer e iria embora? Não havia pensando nisso, quando estava nos braços dele, com as bocas e as peles grudadas, o dragão passeando sobre o seu corpo, explorando, conhecendo, conquistando. No entanto, ela estaria pronta para uma relação fugaz e despretensiosa? Com certeza que não, mas, talvez, fosse melhor desse jeito. No entanto, Jonas não se levantou, nem disse nada, só passava os dedos levemente pelos cabelos dela.

— Se você quiser ir embora, tudo bem – ela disse.

— Mas, eu não quero ir embora, estou bem aqui.

— Talvez, tenha algo importante para fazer, eu entenderia – ela insiste.

— Não, eu não tenho nada importante para fazer. Você quer que eu vá embora?

— Para falar a verdade, não. Mas, eu pensei...

— Você pensa demais.

Ela se calou, acomodando-se, novamente, na curva do braço dele, depois, lembrou-se de algo.

— Quantos anos você tem, Jonas? Uns vinte e três?

— Por que essa pergunta agora? Posso te garantir que sou maior de idade, que não está cometendo nenhum crime.

— Não só curiosidade.

— Vinte e dois.

— Vinte de dois? Eu achei que tinha vinte e três.

— E qual a diferença entre vinte e dois e vinte e três anos? Só são números.

— Você sabe quantos anos eu tenho? – Ela ergueu a cabeça para olhá-lo nos olhos, com certeza, esperando alguma reação do tipo uma careta de repulsa ou algo parecido. — Eu tenho trinta e quatro anos — Mas, o rosto dele não demostrou nenhuma emoção.

— E daí?

— E daí, que você sabe o que isso significa?

— Não.

— Que eu sou doze anos mais velha que você.

— E...?

— E é muita diferença.

— Virgínia, eu gosto de você pelo que você é, sem me importar com essas bobagens, vinte e dois, trinta e quatro são todos números. – Ele ergueu a cabeça para beijá-la novamente, enquanto ela pensava que sua cintura e suas coxas sabiam muito bem o quanto esses números significavam.

Horas mais tarde, Jonas foi para a sua casa, dizendo que precisava terminar algo, Virginia se viu sozinha com seus fantasmas, enquanto se aprontava para dormir, sentia-se meio nostálgica, relembrando dos bons momentos que vivera ali, naquele apartamento, com Theo, ao mesmo tempo, havia um certo toque de infidelidade, por ter passado alguns momentos felizes com outro homem.

Um outro homem mais jovem.

Como pode ter feito isso com Theo, voltar a ser feliz, mesmo por um breve instante com outro alguém? Como pode se permiti algo parecido, ainda mais com um rapaz como Jonas, praticamente um garoto? O que ele iria querer com alguém como ela? Com certeza, só diversão inconsequente, zoar, como diziam, ficar com a tia do 703, provavelmente, contaria para os seus colegas de apartamento.

Aí, meu Deus! Que vergonha! Imagine quando se encontrasse com um deles na portaria ou no elevador, o que pensaria dela, eles a olharia de uma forma diferente, sabendo que ela transou com Jonas? Talvez, ele revelasse os detalhes, as imperfeições do corpo dela? Mas, não podia mudar o que já foi feito, só poderia agir como se nada tivesse acontecido, como não se importasse. Deitou-se e tentou dormir, porém sua cabeça não conseguia se entregar ao sono, até que cansada, sucumbiu.

O despertador foi impiedoso na manhã seguinte, não se importando com sua noite mal dormida, pelo menos, a vida voltava ao normal. Iria para o trabalho, fazer a mesma coisa de sempre, retornaria para casa, prepararia o jantar, assistiria TV, dormiria, para repetir tudo outra vez no próximo dia, até simplesmente, as lembranças do último domingo desaparecerem ou, pelo menos, ficarem menos constrangedoras.

Ao sair do seu apartamento e entrar no elevador, sentia-se dividida se queria que a porta se abrisse ou não, no 5º andar, não sabia se queria encontrar-se ou não com Jonas, naquele momento, ficou com medo se ele a trataria com educada indiferença, se isso acontecesse, faria o mesmo como uma mulher moderna e descolada que ela não era. Não esperava mais do que isso, aquilo não podia dar em nada mesmo. Foi apenas uma tolice da parte dela. A porta do elevador não se abriu no 5º andar e ela seguiu direto até o térreo. Estava distraída, tanto que não se importou com a condução cheia e quase passou do seu ponto, chegou no prédio do trabalho sem notar ninguém, entrou no elevador.

— Bom dia, Virginia!

— Bom dia, Sandra!

— Como foi seu fim de semana?

— Meu fim de semana? Bom... e o seu?

— O de sempre, sabe como é?

— Sei. Bom trabalho, Sandra.

— Bom trabalho, Virginia.

O dia correu como sempre, sem novidades, na monótona tarefa de conferir contas e papéis, as horas se arrastaram até o momento de ir embora, voltar para casa. Mas, por que estava ansiosa? O que estava esperando? Que Jonas batesse na sua porta, como um namorado? Não podia ser tão sonhadora, estaria louca se pensasse em algo assim.

Retornou para casa na cotidiana condução lotada e, como sempre, andou pela rua até o seu prédio, cumprimentou o porteiro, entrou no elevador, abriu a porta do seu apartamento vazio e silencioso, talvez, pudesse arranjar um gato para lhe fazer companhia. Ligou a TV, pegou o regadorzinho de plástico para aguar suas plantas, pensou no que faria para o jantar, talvez, nada, estava sem fome, mais tarde comeria um sanduíche. Podia tomar um bom banho, colocar uma roupa confortável, escolher um filme e continuar com a sua vida comum e normal. Aí, a campainha tocou, levou um susto, não queria iludir, não queria ter falsas esperanças, talvez, fosse só a vizinha do lado para lhe pedir algo emprestado ou porteiro para lhe avisar que a água acabou. Demorou um pouco, antes de verificar no visor, e lá estava ele, Jonas, mas, o que estaria fazendo ali? Talvez, viesse só conversar, dizer-lhe que foi tudo muito legal, que queria continuar a ser seu amigo, sem compromisso, aquela história toda. Assim deu um longo suspiro, passou a mão nos cabelos, esticou a coluna, jogou os ombros para trás e abriu a porta.

— Oi, Jonas!

— Oi, acabei de chegar do trabalho.

— Eu sei que...

No entanto, antes de ela prosseguir, ele deu um passo para frente, segurou seu rosto entre as mãos e a beijou.

— Estava com saudades – ele disse, quando seus lábios se separaram.

— Eu também.