A moça e o dragão

11 Não faça barulho!


Virginia explicou por alto suas ideias para Jonas, que achou tudo uma loucura, seria bem mais simples revelar a verdade e pronto. Mas aquilo era coisa dela, se isso a faria feliz, não queria brigar mais, seriam apenas alguns dias nas vidas deles, daria para segurar, assim, só respirou fundo.

— Se isso a deixar feliz?

— Sim, por favor, Jonas. É muito importante para mim.

Jonas nem reparou como a semana passou depressa, ao contrário de Virginia que ficava a cada dia mais nervosa e agitada, até uma noite, quando chegou no apartamento, girou a chave e abriu a porta, surpreendendo-se ao encontrar a Virginia e outras duas mulheres sentadas no sofá da sala, conversando, em voz baixa e em tom solene. De imediato, ele não pode deixar de notar a foto de casamento dela exposta na parede, sobre o sofá, aquela mesma que estava guardada, há tempo Estancou diante daquela cena, sem saber muito bem como agir.

— Ele chegou! – Virginia exclamou com falsa animação, se erguendo em um pulo e indo em direção dele. Em um dia normal, ela o beijaria na boca, mas hoje lhe deu um rápido e singelo beijo no rosto. – Tudo bem? – Seus olhos se encontraram por um breve instante.

— Tudo.

— Esse é Jonas, o sobrinho da minha amiga, que eu falei. Ele está hospedado aqui em casa, até arranjar um outro lugar para morar – Virginia explicou, de um modo casual, a história combinada.

— Muito prazer – Jonas se adiantou, para apertar a mão que as outras mulheres lhe ofereciam.

— Essa é Judite, mãe de Theófilo – Jonas interrogou Virgínia com o olhar. – O meu falecido marido, Theo era só uma maneira carinhosa que eu o chamava.

— O nome do meu filho era Theófilo como o pai dele. – A mulher mais velha completou de modo seco, quase como uma reprimenda. – Muito prazer.

Jonas apertou a mão fina e ossuda da mulher de olhar duro, cabelos grisalhos de presos em um esticado coque e vestido bem fechado. A mulher mais jovem, com um olhar triste no rosto bonito, se levantou para cumprimentá-lo.

— Minha cunhada Teresa – Virginia continuou as apresentações.

— Muito prazer. Virginia nos contou sobre você – Teresa disse, com um sorriso simpático.

— Falou? – Jonas indagou, surpreso, olhando para Virgínia que lhe devolveu um sorriso sem graça.

— Sim, falei que você veio morar aqui para trabalhar, mas não se dava bem com os colegas de apartamento. Por isso está morando aqui comigo por um tempo.

— Foi muita gentileza sua, você ceder o seu quarto, enquanto estivermos aqui – completou Teresa.

— Ah! Isso não foi nada! – Jonas deu de ombros.

— Sim, foi muita gentileza dele. – Virginia completou, observando Judite de soslaio, que não conseguia desviar o olhar de desaprovação para aquele rapaz esquisito. – Já que você chegou, vou para a cozinha preparar o jantar.

— Eu ajudo você – Jonas se ofereceu prontamente, para fugir da sala.

— Nada disso! Eu ajudo, não queremos dar mais trabalho – Teresa tomou a frente, indo para a cozinha.

Antes de sair, Virginia deu um discreto olhar de pesar para Jonas, que ficou sozinho com Judite na sala, totalmente sem jeito, sentou-se diante da visitante, que o encarou de um modo desconfiado, reparando acintosamente o cabelo, a camiseta de banda grunge e as tatuagens dele, a ponto de Jonas sentir um calafrio percorrer a espinha.

— Como foi a viagem? – ele indagou, educado, querendo amenizar o clima.

— Cansativa e desnecessária, não gosto de sair da minha casa, não tem sentindo todo esse trabalho comigo, já estou velha, só queria que me deixassem morrer em paz.

— Não fale assim.

— Sim, estou tão cansada de tudo isso, depois, que eu perdi meu querido Theófilo a vida não tem mais sentido – A mulher soltou um longo suspiro e Jonas ficou sem saber o que falar. – E ainda tem a pobre Virgínia, tão jovem e já viúva, só espero que, um dia, ela encontre um homem bom e responsável que possa cuidar dela, como o meu filho fazia.

— Eu tenho certeza que ela vai encontrar.

— Mas, o tempo não é nada bom para nós mulher. Ela já está ficando velha, daqui a pouco nem poderá ter filhos. Que homem vai querer uma mulher seca, que não poderá lhe dar filhos?

— Virginia ainda é muito jovem e poderá ter os filhos que quiser.

— Você fala assim porque ainda é um garoto, não pensa nessas coisas ainda.

— Claro que eu penso...

— Jonas, poderia colocar a mesa para nós. — Virginia retornou à sala, preocupada, por deixar Jonas e Judite tanto tempo, sozinhos.

— Claro, Virginia – Jonas respondeu, aliviado por poder se afastar daquela mulher.

Virginia se aproximou da sua ex-sogra, que olhou pelos cantos dos olhos, esperando Jonas sair da sala.

— Tudo bem, Judite? Quer um pouco de água?

Em resposta a mulher mais velha a segurou pelo braço, trazendo-a para mais perto.

— Só quero falar com você, Virgínia – segredou, em tom sério.

— Algum problema, Judite?

— Sim, não acho uma boa ideia esse garoto esquisito morar aqui com você, não fica bem.

— O quê?

— Você é uma mulher jovem, viúva. O que um futuro pretendente poderá pensar desse garoto na sua casa?

— Ele é um bom...garoto, Judite. Não tem porque você ficar preocupada.

— Eu não sei, Virginia. Não parece certo. Olhe o cabelo dele e aquelas coisas pintadas no corpo dele!

— Tatuagens.

Virginia soltou um longo suspiro, pronta para rebater, mas, nesse momento, pararam de falar, pois Jonas regressou com as louças e talheres e começou a arrumar a mesa.

— Eu ajudo você – Virginia se prontificou, pegando os pratos da mão dele e distribuindo nos lugares.

Mais tarde, sentados à mesa, as mulheres conversavam sobre a cidade natal e pessoas conhecidas, relatando fatos e histórias.

— Essa carne está muito boa, Virgínia?

— Obrigada, Judite.

— Esse era um dos pratos preferidos de meu querido Theófilo, Virginia aprendeu fazê-lo muito bem – Judite disse, em tom de lamento.

— Eu aprendi com você, Judite.

— Minha mãe é uma excelente cozinheira – completou Teresa, voltando-se para Jonas.

— Infelizmente, não tenho para quem cozinhar se, pelo menos, tivesse netos, mas Virgínia e Theófilo demoraram muito a se resolverem e... – As outras mulheres se entreolharam, desconfortáveis. — De onde você é, meu rapaz? – Judite interrogou Jonas.

— De uma cidade no sul chamada São Basílio.

— Tem irmãos?

— Sim, um irmão e uma irmã.

— A família é muito importante, ela é a base de tudo – Judite recitou. — Espero que não se importem, que eu me recolha logo depois do jantar? A viagem foi cansativa e amanhã terei uma consulta com o médico de coração bem cedo.

— Fiquem à vontade. Vocês podem dormir no meu quarto que é maior e eu durmo no outro e Jonas ficará no sofá – Virginia determinou.

— Realmente, não queremos incomodar, poderemos dormir aqui na sala – Judite insistiu.

— Não, já está resolvido. Vou lavar a louça, vocês podem ir dormir.

— Eu ajudo você – Teresa se ofereceu.

— Não pode deixar que eu a ajudou – Jonas rebateu.

Assim, as duas mulheres se retiraram para se aprontarem para dormir, enquanto Jonas e Virginia levavam as louças para a cozinha. Ele fechou a porta.

— Finalmente, sós – Ele a agarrou e a abraçou. – Eu já não aguentava mais – E começou a beijá-la, encostando-se na pia, fazendo que uma tampa de panela caísse no chão, assustando-o, eles riram.

— Shiii! Não faça barulho! – Virginia sussurrou, abaixando para pegar a delatora, bem a tempo, pois a porta da cozinha se abriu e Teresa entrou.

— Vim pegar água para os remédios da minha mãe – Teresa disse, em tom casual.