A moça e o dragão
9 Mais bonita
Na preguiça do fim de tarde de um domingo, Virginia passava o dedo levemente acompanhando o elaborado desenho da tatuagem do dragão, que começava nas costas e descia pelo braço de Jonas, foi a que chamou sua atenção desde a primeira vez que o viu.
— Doeu?
— O quê? A tatuagem?
— Sim.
— Um pouco.
— Por que você a fez?
— Eu estava solitário, em um país estranho, em uma noite fria, então bateu aquela tristeza, precisava de alguma coisa para me dar força para continuar.
— Uma tatuagem de dragão?
— Sim, por que não? Essa foi a primeira, depois veio o kanji da paz e o símbolo do infinito. – Ela já as conhecia bem atualmente — Você nunca pensou em fazer algo assim diferente?
— E ficar marcada pela vida toda? Não.
— Mas, serviram como lembranças que eu posso superar momentos ruins da minha vida.
— Gostaria que fosse tão fácil assim.
— Mas, não foi fácil, para falar a verdade, muitas vezes, foi bem difícil.
— Ei! Aonde você vai? – Virginia quis saber, quando Jonas levantou-se da cama e começou a se vestir.
— Vou até lá em casa, pois há quatro meses, eu passo mais tempo na sua casa e na sua cama do que na minha, preciso pegar umas coisas e resolver outras – ele respondeu, acabando de se arrumar.
— Não demore!
— Não vou demorar, não deixe a cama esfriar – Jonas se inclinou para beijá-la antes de sair pela porta.
Virginia se espreguiçou, vagarosamente, esticando os braços, por um instante, pensou em convidá-lo para morar com ela, já que ele ficava a maior parte do tempo na sua casa, mas tinha medo. E se ele recusasse, achando que ela o estava pressionando e terminasse o relacionamento. Ou se ele gostasse da ideia e a convivência os afastasse, eles brigariam por pequenas coisas, mesquinhezas, que, agora, ela achava irrelevantes, como o tubo de pasta de dente apertado no meio, a toalha esquecida em cima da cama e outras bobagens a mais. Ao mesmo tempo, sentia medo toda vez que ele ia embora, um medo irracional de ele não voltar mais, que ele sentisse falta das Tatis, Carolinas e Amandas da sua vida, que cansasse dela.
— Jonas, por que você não vem morar aqui comigo? – A pergunta sai antes de ela raciocinar direito, pois há meses não raciocinava direito.
Ele parou e se virou estarrecido. Em guarda, Virginia esperou o que viria dali.
— É isso que você quer?
Ela assentiu com a cabeça.
— Sim, é isso que eu quero.
Não sabia se era verdade, nem sabia se daria certo, não era uma romântica não acreditava nessa história de felizes para sempre, principalmente, no seu caso. A diferença entre os dois já havia sido posta à prova, quando saíram algumas vezes com os amigos dele, as conversas que não combinavam, quando ela não conhecia um determinado cantor, uma banda, uma música, um artista. Jamais foi dada a isso, nunca se importaram com esses detalhes, mesmo assim, sentiu-se mal e inadequada com a velada expressão de surpresa nos rostos dos outros, então, alguém desconversava, tentava ser simpático, mas o estrago já estava feito, batia um certo mau humor, uma pontinha de tristeza, que tentava disfarçar. No entanto, quando voltavam para a casa dela e ele a envolvia em um abraço, beijava sua boca, tirava sua roupa, todas as dúvidas dela eram colocadas de lado, só queria ser feliz um pouco mais.
Mas, naquele momento, ele não disse nem sim nem não, só voltou para cama ao lado dela. A mudança já vinha acontecendo aos poucos, algumas peças de roupas esquecidas encontraram um lugar em um canto de armário, uma escova de dente e um desodorante masculino ocuparam lugar no banheiro, e assim, ele foi ficando e ficando. Ele confessou que gostava de desenhar mangás, no começo, ela nem sabia o que era isso, mas comprou uma mesa de desenho e arrumou um cantinho para ele trabalhar no quarto desocupado, com a desculpa de ser mais tranquilo ali. Então, Jonas parou de sair do elevador no 5º andar, indo direto para o 7º. Virginia lhe deu uma chave para que pudesse ir e vir sem esperar por ela. Depois, acharam bobagem ele gastar dinheiro dividindo o aluguel, foi aí que a mudança se tornou oficial e eles começaram a morar juntos. Nos armários, gavetas e estantes foram abrindo lugares para os objetos de Jonas.
— Nunca imaginei que tive tanta coisa guardada – Virginia constatou ao remexer nos seus armários.
— Eu nunca guardo nada, só o necessário, assim a vida fica mais fácil.
— Nem suas lembranças.
— Isso fica dentro da minha cabeça. O que é isso? — Ele pegou uma foto bem embrulhada em plástico bolha.
Ela tirou da mão dele, começou a abri-la, olhou a imagem por alguns segundos e entregou a ele.
— A foto do meu casamento.
— Você estava muito bonita.
— Foi o dia mais feliz das nossas vidas. Por isso, eu guardei essa foto, depois que Theo morreu, pois não conseguia olhar para ela.
Virgínia a tirou das mãos de Jonas, embrulhou com cuidado e guardou-a novamente, no mesmo lugar.
Não pense que foi fácil, principalmente, para uma mulher como Virginia que havia morado tanto tempo sozinha, acostumada a encontrar tudo em seu lugar, chegar em casa e tropeçar em tênis no meio da sala, roupa em cima da cadeira, o litro de leite pela metade sobre a pia. Aquilo a deixava irritada, no começo não falava nada, não querendo parecer chata, mas toalha molhada em cima da cama era demais para ela.
— Por que está com essa cara, Virginia? Aconteceu alguma coisa? – Jonas indagou de volta do banheiro e deparou com ela, com o olhar em fúria, encarando o objeto fora do lugar.
— Sim, aconteceu isso! — Ela pegou a toalha. – Eu já pedi a você que não deixe toalha molhada em cima da cama.
— Foi mal, desculpa – Ele tirou a toalha da mão dela e jogou em cima da cadeira, ela abriu a boca espantada.
— Como pode sobreviver por tanto tempo morando sozinho, sendo assim tão desorganizado?
— Sei lá, nunca me preocupei com isso – Ele deu de ombros.
— Pois, agora, acho melhor você se preocupar.
— Tudo bem – Ele pegou a toalha, sem vontade de brigar. – Onde eu coloco isso?
— No varal, lá fora.
Ele soltou o ar com força e saiu. Ela ficou parada no meio do quarto, imaginando se estava pegando pesado, afinal os dois estavam aprendendo a conviver juntos. Para ela seria mais fácil, pois já tinha passado por isso antes, enquanto Jonas... Ele voltou parecendo aborrecido, levantou as cobertas e deitou, ela se deitou ao lado dele. Não, ela não queria isso outra vez, não podia ir dormir brigada com ele.
— Você está zangado comigo, Jonas? – perguntou, com a voz mansa.
— Não, não estou. Na verdade, você está certa. Para isso, funcionar, nós dois precisamos prestar mais atenção um no outro.
— Sério? Você acha isso mesmo? – Ela se apoiou no cotovelo para vê-lo melhor.
— Sim, acho – Ele olhou para ela.
— Por que você precisa ser assim tão legal?
Ele a segurou pela nuca e a trouxe para um beijo.
Não pense que a vida deles era cercada de controvérsias, muito pelo contrário, havia uma camaradagem e muita troca e carinho, Jonas a deixava Virginia mais leve, enquanto ela o tornava mais consistente.
A moça retomou o gosto de cozinhar, pensava e pratos gostosos, escolhia os ingredientes, comiam juntos, no chão da sala, no sofá até na cama. Ela passou se cuidar melhor, a comprar coisas bonitas para si, novas lingeries, belas camisolas, passar perfume e batom.
Aos poucos a vida ia se ajeitando, eles iam se acostumando um com outro, com pequenos hábitos, defeitos e qualidades, como qualquer casal, enfrentando até mesmo, os olhares tortos dos vizinhos, quando descobriram aquela pouca vergonha, a jovem e recatada viúva do 703 estava de assanhamento com um dos rapazes do 502, que eles até estavam morando junto agora, dando um novo assunto para as fofocas cotidianas e apimentando suas vidas tediosas, com um pouco de imaginação.
Porém, quem conhecia Virginia, mesmo que só superficialmente, foi percebendo pequenas mudanças. A pele e os olhos mais brilhantes, o sorriso mais fácil, a alma mais leve, uma certa aura de felicidade, apesar de ela não ter fala nada a respeito de Jonas, pois seus colegas de trabalho jamais entenderiam aquela relação com aquele rapaz estranho cheio de tatuagem e de cabelos raspados.
Mas, agora, ela tinha um brilho que transparecia e que todos notaram, seja o porteiro Antônio que lhe sorria com simpatia, o jornaleiro Camilo que percebeu que ela estava mais bonita, até a vizinha Marilza lhe fitava com uma certa inveja.
Fale com o autor