— Eu nunca imaginaria algo parecido – Jonas disse, consternado, com a conhecida expressão daqueles que se confrontam com a dor alheia da morte.

— Como você poderia imaginar? Se muitas vezes, nem eu mesmo não posso acreditar que isso aconteceu comigo, parece que foi com outra pessoa, uma história que me contaram, que quando chegasse em casa, ele estaria aqui – Ela tomou outro generoso gole.

— Você quer falar sobre isso?

— Agora está mais fácil, depois de dois anos. Ainda me lembro muito bem, daquele dia. Era um domingo comum, ele saiu bem cedo para correr, como sempre fazia quando estava de folga. Ainda me recordo de ele se despedindo na porta do quarto, dizendo que voltava já. Revivo aquela cena todos os dias, quando acordo de manhã, tentando perceber algum prenúncio, algum sinal do que iria aconteceu, mas não encontro nada, tudo parecia absolutamente normal e em ordem. E sempre, eu me pergunto por que não estendi o braço e o puxei de volta para cama, pedindo para que ficasse, ao invés de me virar de lado e voltar a dormir.

— Como você poderia saber o que ia acontecer?

— Mas, a pior parte que nós havíamos brigado na noite anterior, por um motivo bobo, que nem me lembro mais, queria fazer as pazes, mas fui orgulhosa, não queria dar o braço a torcer, não quis ceder.

— Você não pode passar o resto da vida se culpado por isso.

— Eu sei que não podemos prever o futuro, aprendi isso da pior maneira possível, então, não faço planos, vivo um dia de cada vez, sem expectativas ou esperanças.

— Você não tem escolha, continua viva.

— Continuou? Muitas vezes, penso que não, como se não pertencesse a esse mundo e que as pessoas a minha volta não conseguem me enxergar. – Esvaziou o copo de uma única vez.

— No entanto, elas enxergam.

Ela deu de ombros.

— Talvez. Há muito, não converso com ninguém assim, não tenho vontade de contar a minha história, não gosto que tenham pena de mim.

— Eu não tenho pena de você, só lamento a sua perda. Mas, acho que seria melhor você falar, é isso que eu faço quando me sinto sozinho, falo e converso.

— O que alguém como você pode saber de solidão?

— Muitas vezes, eu me sinto sozinho. Eu vim de muito longe, viver em lugares que ninguém me conhecia, sem vínculos ou histórias.

— No entanto, você sabe que sua família está lá, que eles existem na sua cidade, que poderá procurá-los quando quiser, enquanto a Theo ...

— Era esse o nome dele?

Virginia assentiu com a cabeça.

— Eu quase não consigo dizer o nome dele, fica entalado na garganta, quase me sufoca. É estranho ouvir esse nome sair da minha boca outra vez, quase desaprendi a falá-lo, tentando apagar a dor que me trazia. Theo.

— No fim, somos iguais, dois solitários.

— Não somos iguais. Você é jovem e bonito, enquanto eu...

— Você é uma mulher bonita e interessante, que precisa se dar uma chance de seguir em frente.

— Seguir em frente?

— Sim, fazer o que gosta, aproveitar a vida e tudo que ela pode lhe oferecer.

Ela deu um sorriso triste.

— Todos falam isso, como se fosse fácil, como se bastasse acordar em um belo dia e dizer: Hoje vou mudar a minha vida.

— Então, o que vai fazer, ficar parada aqui, vendo a vida passar, como, simplesmente, uma sucessão de dias?

— E o que eu posso fazer?

— Eu não sei. O que você tem vontade de fazer agora? O que você gostava de fazer?

Virginia pensou por um breve minuto, vasculhando as boas lembranças esquecidas.

— Talvez, dançar, como muitas meninas, queria ser bailarina. Quando era mais nova, eu gostava muito de dançar em festas.

— Então, dance, divirta-se.

— Dançar aqui e agora? Sem música? Não – Ela deu uma risada triste, sacudindo a cabeça em negação.

Ele se ergueu e segurou as mãos dele e a puxou para ficar de pé.

— Venha! Vamos dançar!

— Você é louco?!

Em resposta, Jonas apenas sorriu e de mãos dadas, começaram a rodopiar pela sala, enquanto ele cantarolava uma música irreconhecível. Eles giravam e giravam, ela ria, ria, tonta, fechou os olhos e se desequilibrou, ele a segurou bela cintura os corpos juntos, os rostos próximos, as bocas cheirando a rum, um beijo, o sangue queimando nas veias, o coração batendo forte, a vida crescendo dentro dela, tudo aquilo a assustou. O medo de estar viva.

— Não! – Ela o empurrou, ele a olhou perplexo. – Não! É melhor você ir embora, Jonas.

— Por quê? Você tem medo de se sentir viva novamente. De descobrir que não morreu com seu marido?

— Você não entende.

— Não, você que não quer entender, que não tem solução, porque você percebeu que continua viva. Você não tem culpa pelo o que aconteceu, não podia fazer nada, não tinha como saber.

— Por favor, vá embora, Jonas.

Ele a encarou por alguns instantes.

— Você é quem sabe. Boa noite, Virginia.

Virou as costas, caminhou até a porta e saiu, ela teve vontade para pedir que ficasse, mas não se moveu, da sua boca não saiu nenhuma palavra. Era melhor assim, não havia nada ali para ele.

Novamente, sozinha, só desejava que a vida voltasse a sua rotina normal, sem ser interrompida por jovens e beijos, poesias e rum, não estava pronta para aquilo, era melhor esquecer, apagar os sinais daquela noite. Sobre a mesa de centro, permaneciam as garrafas esquecidas e os copos, o dela, vazio, e o dele, pela metade. Pegou-os, decidida a levá-los para a cozinha, guardaria a garrafa de rum e a devolveria ao seu dono na primeira oportunidade, colocaria a Coca-Cola na geladeira, lavaria os copos e pronto, tudo estaria terminado, pelo menos, as provas matérias, pois o efeito daquele beijo ainda se espalhava pelo seu corpo, tal qual uma virose, uma doença contagiosa, que lhe ardia em febre, querendo mais. Não aquilo não podia ser, não era nenhuma leviana, para ser deixar levar pelas imposições da luxúria.

Reparou o copo dele na sua mão, meio vazio, lembrou-se da velha brincadeira de criança, se bebesse no mesmo copo descobriria todos segredos dele. Levou-o os lábios e sorveu, lentamente, pensando no dragão enrolado no seu braço, no seu corpo magro, no cabelo estranho. Não! Aquilo não era para ela, pertenciam a tempos diferentes, a vidas diferentes, não havia nada que os unisse, a não ser a solidão. Então, foi para a cozinha lavou os copos, colocou-os emborcados sobre a pia, guardou a garrafa no armário e foi dormir.