A moça e o dragão

18 É para isso que serve a surpresa, para surpreender.


Virginia acordou com os primeiros raios da manhã, sentindo o braço de Jonas pesar sobre ela, sutis sons denunciava a atividade fora do quarto. Com muito cuidado, ela escorregou para fora da cama e saiu para o corredor, em busca da origem do barulho. Parou na porta, ao ver Teresa arrastando as malas pelo corredor.

— Vocês já vão? – Virgínia perguntou, com certa melancolia.

— Sim, minha mãe não quer mais ficar na sua casa, que ir embora logo.

— Eu não entendo.

— Você sabe como ela é, nunca aceitará o seu relacionamento com Jonas. Ela queria um substituto que julgasse a altura do meu irmão.

— Ela está errada.

— Eu sei, acho que você merece ser feliz da sua maneira, mas não dá para convencê-la disso.

Nesse momento, Judite saiu do quarto já pronta, parou em frente de Virginia com um ar solene, queixo erguido, postura rígida.

— Obrigada pela estádia, Virgínia.

— Mas, vocês não precisam sair assim, correndo dessa maneira.

— Já atrapalhamos demais a sua nova vida – Judite continuou com a voz dura. – Vamos, Teresa! – E saiu na frente, andando sem olhar para trás.

Teresa olhou com pesar para a cunhada, aproximou-se e a abraçou apertado.

— Obrigada por tudo, Virgínia. Foi muito bom revê-la. Seja feliz.

— Para mim também, foi muito bom rever vocês duas, pena que tudo tenha que acabar assim.

— É o jeito dela – Teresa deu de ombros e pegou as duas malas.

— Deixa que eu ajudo você – Virginia tirou uma das mãos dela e a ajudou levar até o elevador.

— Tem um táxi esperando lá embaixo, para nos levar até a rodoviária.

— Boa viagem – disse, antes da porta do elevador se fechar, sentiu uma certa nostalgia.

Voltou para cama e se aconchegou junto a Jonas.

— Você está bem? – ele perguntou, acariciando os cabelos dela.

— Não. Ela ficou aborrecida comigo, por isso estou muito chateada, porque Judite era como uma mãe para mim.

— No entanto, ela não respeitou sua opção.

— Eu sei, mas entendo o que ela sente. Até a pouco tempo, eu também não aceitaria uma mulher mais velha dormindo com um homem mais jovem.

— Do modo que você fala parece algo errado, mas nós temos um relacionamento que eu levo muito a sério.

— Eu também.

Jonas não disse mais nada, ficou sério e silencioso. A semana passou com a vida voltando a sua rotina normal, apesar do ar de tristeza de Virgínia.

— Que tal sairmos hoje? – Jonas propôs a fim de animá-la.

— Eu não sei, não estou muito no espírito de barzinho e conversa fiadas.

— Então, que tal só nós dois, um programinha suave, cinema e jantar?

— Talvez...

E assim, chegou a tarde de sexta, que se arrastou por infinitas horas, quando alguém comunicou:

— Virgínia, é da portaria, estão avisando que seu namorado está lá embaixo. Querem saber se pode mandar ele subir?

— Meu namorado?

— Você tem um namorado, Virgínia? – Sandra perguntou com um misto de surpresa e dúvida.

— E aí, Virgínia, o que eu digo?

Virgínia precisava pensar rápido, será que estaria pronta para apresentar Jonas, com seu rabo de cavalo, suas tatuagens e, principalmente, a sua idade para seus colegas tão convencionais? Mas, que se dane!

— Pode pedir para ele subir – avisou, determinada.

Intermináveis minutos se passaram, todos fingiam não prestar atenção na porta do elevador, pelo menos, seria uma novidade para quebrar a monotonia das maçantes horas do fim de expediente e da expectativa do final de semana.

Quando a porta do elevador se abriu, alguns disfarçaram, outros nem tanto, a surpresa com o surgimento de Jonas através dela. Olhos atentos acompanharam a sua caminhada por entre as mesas até chegar ao seu destino: Virgínia. Ela se ergueu lentamente, um tanto sem graça, ciente que toda a atenção estava voltada para eles, mas Jonas não parecia se incomodar, ele simplesmente se aproximou e a beijou seus lábios. Não um daqueles beijos escandalosos que costumavam dar quando sozinho ou mesmo junto dos amigos dele, foi só um mero e banal selinho, mas o rosto dela pegou fogo, sentiu suas bochechas queimarem.

— O que você está fazendo aqui, Jonas? – Virgínia falou baixo e com urgência.

— Quis fazer uma surpresa, já era hora de eu conhecer o seu trabalho. — Ela percebeu um leve tom de desafio.

— Sim, já era hora, só não estava preparada.

— Por que você precisava se preparar?

— Eu não sei... Só que fui pega de surpresa.

— É para isso que serve a surpresa, para surpreender.

— Oi, Virgínia, não vai apresentar o seu namorado? – Sandra perguntou, não conseguindo mais se segurar.

— Claro! Esse é Jonas. Essa é Sandra...- Ela continuou a recitar os nomes dos presentes, que respondiam educadamente.

— Vocês estão namorando há muito tempo? – Sandra continuou.

— Uns seis meses. – Jonas respondeu.

— Seis meses?! Agora, estou entendendo tudo. E eu que pensava que era o corte de cabelo – Sandra deu um sorrisinho cínico. Os olhos confusos de Jonas dançaram entre Sandra e Virgínia, que pegou sua bolsa e a mão do namorado apressada e saiu o puxando pelo corredor.

— Até segunda! Bom fim de semana! – Ela distribuía aleatoriamente, enquanto as cabeças se viravam na direção deles, quando passavam, até que, enfim, alcançaram a segurança do elevador. Virgínia respirou aliviada, encostando-se na parede fria.

— Tudo bem? – Jonas a olhava de um jeito divertido. – Não foi tão ruim assim.

— Não, não foi, mas eu não gosto de chamar a atenção.

— Eu sei.

— Então, por que fez isso?

— Tratamento de choque, assim você enfrentou todos os seus receios e acabou.

— Isso que você pensa! Nesse momento, devem estar todos lá, falando de nós dois.

— Pelo menos, terão assunto para esse fim de tarde. Imagine, eles, à noite, em um barzinho, discutindo como você é depravada por pegar um rapazinho.

— Pare com isso! Será que eles vão pensar isso mesmo? — Virgínia ficou assustada.

— Que pensem! – Ele deu de ombros, quando o elevador parou no andar térreo.

Desse dia em diante, ninguém, no escritório, olhou para Virgínia da mesma maneira, ficavam imaginando que outros mistérios aquela mulher tão reservada esconderia.