A missão

10 Um cerco


Parte II: Rumores de guerra.

Apertei as duas mãos nas grades. Queria arrancá-las com a força de meus braços e pedir para que aquelas cobaias corressem. Sentia um nó na garganta inútil perante toda situação. Os dias se arrastavam; tínhamos notícias da Ordem da Fênix e Harry Potter, mas eram apenas rumores de que fora visto em algum lugar, ora no Beco Diagonal, ora em Hogsmead. Temia que ele já estivesse morto, e que o resto de nossas vidas fossem vividas no fio da navalha.

"Eu sinto muito, Matt" — sussurrei para ele. Estava de roupas rasgadas, barba descuidada, taciturno. "Ele não me deu escolha".

"Eu sei o que farei assim que ver aquele cara".

Falávamos da mesma pessoa, mas em tons completamente diferentes. Aquela escuridão da cela devorava o espírito do líder, consumido por algo sinistro e manchado de indignação; nem mais os olhos queriam brilhar. Eu entendia. Todas as marcas de feridas e furos em seu corpo contavam a história. Nós sempre dissemos não, mas nunca impedimos que os outros dissessem sim.

"Não se preocupe e faça o que precisa fazer. Proteja-se. Já fez demais".

Ele deu as costas e sua silhueta sumiu em meio a escuridão. Uma lágrima desceu silenciosa em meu rosto. Todos os outros, Dex, Linda, Joan, já estavam adormecidos, sei lá de cansaço, fome ou medo, e mesmo que estivessem acordados, aquelas pessoas de fé, aquela menina pequena e falante, tinha calado. Nada mais a interessava; nenhuma criatura; nenhuma figura; nenhum livro.

"Me perdoem, por favor".

Recebi silêncio total de fora. Virei as costas e retornei aos meus aposentos. A cada passo nas escadas recordava da última escalação com Dolohov, em que meu couro cabeludo ainda ardia e doía, como se fora puxado ali mesmo, não há um dia. O encontro foi na sala dele, ao contrário das câmaras de escalação. Do outro lado do gabinete, o bruxo sacou a varinha. Fez com que juncos de árvores se enrolassem em minhas pernas junto a cadeira. Dois galhos puxaram minha cabeça pelo centro. Fiquei minutos em silêncio, encarando o teto.

A cada instante os juncos apertavam, queimando-me a pele, rasgando minhas meias como fogo. Prendi a mandíbula para sufocar o gemido de dor crescente em minha barriga. Dolohov tinha desaparecido, para surgir levemente atrás de mim, sussurrando perto do meu ouvido.

"Hoje eu decidi ser mais direto, porque a abordagem amigável, à luz da fogueira, não surtiu qualquer efeito" — Senti a barba do professor em meu pescoço, mandando-me arrepios na espinha. — "Nós sabemos sobre as cobaias. E, até aqui, você tem as conservado para nós".

Retorci o corpo para me soltar, grunhi como uma fera.

"Você fez um bom trabalho, porque continuamente elas puderam voltar para que fossem torturadas de novo".

"Não! Não é pra isso que eu vou. Eu não trabalho pra vocês".

"Você faz parte do sistema, Angelou" ele pausou "por enquanto".

O comensal seguiu de volta para o gabinete, enquanto desfazia o encantamento. Os juncos retornaram para terra rapidamente, chicoteando-me pela última vez. Ele jogou minha varinha no meu colo e sorriu, proibindo-me de voltar para cuidar das cobaias novamente. Gritei. Avancei sobre a mesa com um estupefaça; mas o professor se defendeu em um escudo negro. Puxou-me pelo colarinho da blusa e com seu olhar me paralisou.

"Volte já para os seus afazeres. E esqueça minhas cobaias. Agora".

O que estávamos fazendo? Algumas semanas atrás, Zabini tinha comentado que nossos esforços eram paliativos, e agora que o cerco se fechava, nem aliviar os sofrimentos das cobaias podíamos mais?

"O que aconteceu, Helena?"

Voltando das câmaras das cobaias, tive um encontro cego com Zabini. Abracei o sonserino com força, chorando. Acalmando-me e se encaminhando até a enfermaria, ele me amparou pelo ombro. Tinha um semblante preocupado, e lhe parecia importante saber exatamente o que Dolohov havia feito. Foi com alívio que ajudou com as bandagens, como se Dolohov pudesse ter feito algo pior do que escolhera.

“Você tinha razão quando disse na sala comum. Estávamos comendo na mão deles o tempo todo”.

“Não pense nisso agora”. Ele se aproximou, falando em voz baixa, evitando acordar os outros alunos. “Eu sinto muito por todos eles e Linda principalmente, mas é preciso obedecer Dolohov agora antes que ele…”.

“Antes que o quê?”

Ele me abraçou.

“Antes que nós mesmos viremos cobaias, Helena”.