A mestra das poções
2 Poção da felicidade
A floresta brindava-os com seus sons. Ponzu erguia o rosto para o alto das árvores, sorrindo para os passarinhos que chilreavam a primavera. Pokkuru vinha logo atrás, vigiando os arredores com um ar desconfiado. Ouvia um ruído inquietante entre os arbustos, mas não sabia o que era. Preparou-se para um eventual ataque, para o caso de ter de proteger sua mestra das poções.
Não era necessário ter tanta cautela. A Hunter era tão cuidadosa quanto ele. Seus olhos espertos iam dos passarinhos às tocas no solo e das tocas ao leve aclive que os dois jovens subiam com certo esforço. Ela não ofegava. Estava acostumada a exercícios físicos intensos. Sua única preocupação era Pokkuru, que parecia uma pequena fera assustada esperando o ataque vir de qualquer lugar.
De súbito, ela se virou para trás, exibindo um dócil sorriso. Ele corou no mesmo instante, surpreso pela inesperada demonstração de afeto. Ainda sorrindo, Ponzu aproximou-se de um arbusto e se ajoelhou diante dele. Fez um breve sinal para o arqueiro, que sem pestanejar agachou-se ao seu lado, sussurrando em seu ouvido. Ela levou o indicador aos lábios, repreendendo-o. Dizia-lhe para ficar em silêncio. Pokkuru trincou os dentes, sentindo o orgulho ferido. Ele era mais experiente. Deveria ser ele a protegê-la, certo?
Ah, ele estava subestimando a rainha das abelhas! Ponzu não era nenhuma tola. Tinha plena consciência do que fazia. Com calma, afastou alguns dos ramos dos arbustos, revelando uma pequenina criatura que choramingava baixinho. Então esse era o ruído que tanto incomodava o arqueiro. Um filhote de lobo ferido. Não havia nada que pudesse fazer por ele. Preparou-se para ir embora.
Ponzu não se moveu. Ficou quieta, observando o filhote que agonizava em meio às folhas. Lentamente, retirou alguns frascos e panos de sua bolsa, preparando-se para fazer o curativo. Pokkuru protestou, alegando que aquela era uma atitude insana. O animal poderia mordê-la!
Seus argumentos foram ignorados. Ponzu moveu os dedos como se regesse uma orquestra, e as abelhas surgiram, zumbindo aos seus comandos. O filhote ergueu a cabeça, os olhos como que hipnotizados pela dança das pequenas voadoras. Não emitiu um só rosninho enquanto a Hunter aplicava os medicamentos. Em poucos minutos, estava quase curado.
Com um sorriso, Ponzu pôs-se de pé, limpando a terra dos joelhos. Fez um sinal para Pokkuru para que continuassem a viagem. Ele a seguiu de perto, os olhos tão hipnotizados quanto os do filhote, embora as abelhas já houvessem se recolhido. Os dois subiram o aclive a passos lentos e dispensaram um último olhar para trás ao ouvirem o ganido da criaturinha.
Ela estava de pé agora, abanando a cauda para uma versão adulta de sua espécie, que lambia sua nuca com carinho. Ponzu riu diante daquela cena e apertou a mão de Pokkuru em um desses gestos impensados e sinceros. Ele corou de novo, sem saber o que fazer. Olhou timidamente para a companheira. Ela estava feliz... E ele estava feliz também.
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