Notas iniciais
Olá! Espero que gostem! Deêm muito amor, pois estou a criar esta fanfic com muito esforço e gostaria que apreciassem.
Boa leitura!

Estava sentada dentro daquela sala, a olhar pelas grades. Só conseguia ver azul.

Às vezes perguntava-me como era do lado de fora, tentava imaginar o tipo de vida que existia, que vozes haveriam, se era um mundo cheio de correntes, se do outro lado da parede estaria outra pessoa como eu. Presa. Já tentei bater nas paredes, mas nada ouvi.

Uma vez vi um pequeno pássaro ao pé das grades. Era a primeira vez que ouvia um chilrar. Ele pousou nas grades e poucos segundos depois caiu, não sei onde. Senti-me muito bem, como se o meu estômago tivesse inchado.

Olhei para a pilha de livros ao meu lado e lembrei-me do homem com quem eu falava pela latinha, foi ele que me trouxe estes livros todos. Todo o conhecimento que tenho do mundo está ali, mas apenas na minha mente. Uma vez ele falou-me sobre uma Aldeia, longe daqui. Ele falava das cores, como verde e vermelho, amarelo, mas eu só via quatro tons. O escuro, o claro dos lençóis, o azul do céu e o cinza: das grades, dos dias de mau tempo.

Já vi chuva, mas nunca a pude tocar, qual será a sensação? Qual será a sensação de existir?

As pessoas que estavam nos livros, cheias de amor, de trabalho. Elas andam tanto e falam tanto sobre paisagens. Desejava puder ser umas dessas donzelas durante 1 min. Puder sentir a vida. Aqui dentro, ando uns 20 passos ao lado das paredes e para mim é um espaço grande comparado à minúscula janela.

Uma vez toquei-a e senti uma corrente por todo o meu corpo que me afastou e queimou a minha mão. O mesmo para a pequena porta por onde entra a comida e os caminhos de ferro.

Por falar em caminhos de ferro, acaba de tocar o sino. Afastei-me da porta e esperei. O tabuleiro entrou e vi o fumo da comida quente, parecia delicioso. O sino voltou a tocar e eu aproximei-me da porta. Peguei na latinha e levei-a ao meu ouvido, enquanto olhava para a comida.

—Haruka? – falei.

—Olá menina Maruta, como se sente hoje?

—Bem, está azul lá fora. A comida parece deliciosa.

—Hoje preparei-lhe um Ramen especial, espero que goste. – ela respondeu-me com uma voz doce.

—Obrigada Haruka.

—Bom proveito – ouvi por fim e pousei a latinha. Agarrei o tabuleiro e sentei-me na mesa, de frente para o azul.

Olhei para fora e sussurrei para mim:

—Obrigada pelo azul e a luz, obrigada pela comida, obrigada pela felicidade.

A comida estava realmente deliciosa, quase me apetecei pedir mais.

Lembrei-me dos dias em que a comida não veio. Eu pegava na lata e ninguém respondia. Mas sempre que o homem vinha havia comida durante umas semanas. Mas mesmo quando não havia comida, eu não me sentia faminta. Ontem ele trouxe-me um livro sobre animais e pela primeira vez via mais cores do que aquelas que conhecia. Já pensava em perguntar-lhe quais eram os nomes da próxima vez que ele me visitasse. Tinha sempre medo de que ele não voltasse.

Um dia ele parou de vir. Eu olhava para os riscos da parede e já havia passado mais tempo do que o comum. Nesse jantar recebi uma nota a dizer que ele realmente não viria mais.

—Obrigada pela experiência, pelo que me deu.

Depois de uns tempos eu já tinha decorado todos os livros e começava a tornar-se realmente aborrecido. Eu sentia dores, mas não me podia queixar a ninguém. E deixei de ouvir vozes, os sussurros desapareceram, já ninguém me respondia pelo telefone de metal. Umas semanas antes tinha ouvido ruídos muito altos, constantes, duros, como pancadas. Aquilo irritava-me e a cada dia eles faziam barulho durante menos tempo. Até que o barulho cessou.

A dada altura eu ouvia a voz do meu amigo, mas quando lhe respondia, a voz cessava. Outras vezes eram vozes femininas, sussurros. Outras quase que ouvia barulhos nas paredes.

Pulei de susto. Parecia que eu ia morrer e o mundo ia acabar. O barulho era tão alto. Eu caí de joelhos, tapei as orelhas com as minhas mãos e chorei, enquanto o barulho parecia cada vez mais alto. Nunca tinha experienciado isto. Eram gritos misturados com estrondos. Risos também. Pela primeira vez eu gritei, a tentar abafar o barulho que vinha de fora e senti os meus pulmões arder.

Quando parei e abaixei os braços o ruído tinha quase cessado, mas conseguia ouvir passos pesados. Cada vez mais alto. O meu coração disparou. Era muita informação para quem ouviu silencio durante tanto tempo.

De repente as paredes caíram. Abaixei a cara até aos joelhos enquanto cobria a minha cabeça, já a tremer de medo. Nunca me tinha sentido assim e naquele momento até sentia falta da monotonia dos dias anteriores.

Notas finais
Obrigada por chegarem até aqui! Até ao próximo capítulo.