A menina que não controlava o chakra
2 O meu salvador
Notas iniciais
Quando os passos pararam ao meu lado e eu abri os olhos pensei várias vezes se devia ceder à curiosidade e ver quem era. Levantei a cabeça e vi-o, de cabelos pretos e pele branca. Sorriu para mim, mas a claridade cegava-me e quando olhei para a linha do horizonte vi mais quatro pessoas. Eram bem diferentes, com cores e corpos diferentes, mas não consegui distinguir muito mais. Quando voltei a piscar os olhos eles tinham desaparecido. Levei as mãos mais uma vez à cara enquanto piscava repetitivamente para me acostumar. Estava frio e calor, não sabia que sensação era aquela. Lembrava-me do vento que a donzela uma vez sentiu e do calor que o guerreiro descreveu. Mas nunca li de nenhum que sentisse os dois. A minha pele arrepiou-se, mas eu suava e a minha cabeça começava a andar às voltas. Deitei-me, como se aceitasse o meu fim. Será que era por isso que estava presa? Para não morrer com a realidade? E aquele homem, será que todas as pessoas são assim? Mas eu não me vejo assim. Devo ser mesmo… uma aberração…
Abri os olhos lentamente, estava mais frio e surpreendi-me ao ver as cores do céu… Deixei cair uma lágrima, que rapidamente limpei. Não conseguia acreditar que o céu tinha mais de duas cores, que o céu era roxo e vermelho, que era tão vivo. Como a luz diminuía e deixava apenas esta mistura à vista. Como se iluminasse…
Olhei em frente…
—Árvores!
Chorei novamente. Era o verde que o meu amigo descrevia, as folhas, cheirava tão bem.
Levantei-me e corri, finalmente com espaço para correr. Cheguei-me a uma árvore e pude ver um ninho de pássaros. Uma família.
O meu rosto estava completamente encharcado e todo o aborrecimento que sentia era agora felicidade.
—AHHH!
Respirei fundo.
—AHHHHHHH!
Sentia que isto tudo tinha começado com um barulho enorme, então quis gritar, gritei o mais alto que consegui e ouvi um eco, quase como as vozes na minha cabeça.
Sorri e rodopiei, levantei a cabeça e vi o céu andar à minha volta. Como era bom não ver mais preto.
Como era colorida a vida.
—Como… C-Como…
Quem era aquele homem que me libertou e foi embora? Seria um daqueles príncipes que salvam a princesa?
Ele proporcionou-me toda esta vida.
Caí de joelhos e enxuguei as minhas lágrimas.
Eu tinha de o encontrar, eu precisava de respostas.
Reparei numa linha de formigas que andavam à minha frente.
Como eu coexisto com estes seres vivos? Tão pequenos, tão frágeis. Serei eu também frágil em comparação com os outros humanos?
Como é possível uma árvore que não fala, nem ouve e dá tanta vida, e eu que posso gritar e pareço ainda não ter vivido?
Levantei-me, com o céu já a escurecer.
—Obrigada. – sussurrei e adentrei a floresta.
Como já estava acostumado à escuridão, foi fácil orientar-me, mas a floresta parecia numa mais ter fim.
Até que encontrei um pequeno lago e um veado que bebia da água. Ele fugiu assim que me viu e eu franzi a sobrancelha.
—Não! – estiquei a mão e a criatura parou, todos os músculos do seu corpo ficaram tensos e ele começou a berrar, desesperado.
Recuei a minha mão até ao meu peito, de boca aberta e o veado voltou a correr.
Sou mesmo uma aberração? Vão todos fugir de mim?
—Preciso de respostas, de encontrar aquele homem.
Sentei-me à beira do lago e abracei as minhas pernas, olhando para a água.
—Uau.
Conseguia ver o meu reflexo, a água parecia brilhar e quando olhei de onde vinha a luz…. Era a lua.
Hipnotizei-me, a lua é tão bonita. E… Ela tem um brilho tão bonito.
—Mas só se destaca na escuridão. Quem me dera que estivesses aqui, amigo, para me falar mais sobre a lua.
Toquei a água e ela ondulou. Puxei a minha mão de volta. A água era tão fria, mas tão linda. Seria água da chuva? Era aqui que caía?
Sentia-me cansada e acabei por me deitar ali mesmo.
Acordei com os primeiros raios de sol, ainda estava sensível à luz.
Olhei em volta e lembrei-me de tudo o que se tinha passado.
A minha boca estava seca e bebi um pouco de água antes de me levantar para continuar a minha busca.
Eu apreciava cada detalhe, a diferença das árvores, os insetos, os pássaros. Já não me sentia aborrecida, no silêncio. Quando olhei para trás para reparar o quanto longe já tinha chegado, vim no chão, pássaros mortos e flores murchas.
Aterrorizada, assustei-me quando caiu mais um ao meu lado e comecei a correr, desesperada, confusa.
Quando pensei que a floresta era infinita, cheguei, finalmente, a um desfiladeiro. Coloquei as mãos nos joelhos para recuperar o fôlego e quando levantei a cabeça para olhar o sol… Casas.
Alegrei-me, descendo até lá, o meu salvador podia estar ali. Mas parei quando cheguei à frente da aldeia, era o meu primeiro contato com outras pessoas, como será que eles iam reagir? Seria mesmo uma aberração?
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