A melodia peculiar
1 O jovem violinista
Notas iniciais
Javier...
O que você pensa quando ouve esse nome?
Hmn... Talvez algum turista vindo ao Rio? Nem adianta fazer essa piada que pensou, já ouvi essa mais vezes que possa imaginar. Sou um quase enfermeiro – estou estudando para ser um, no momento, sou técnico de enfermagem, e nas horas vagas um amante da leitura e da música. Um, não tão jovem, em seus 24 anos; um pouco mais baixo do que queria ser, pele parda, poderia dizer cabelo negro relativamente liso e ajeitado com gel? Acho que sim, características únicas pela mistura de espanhóis com brasileiros — até hoje não sei como, e dono de belos olhos negros – é o que dizem.
No entanto, nada de tão interessante assim, se há algo, é a paixão pelo que faço, seja nos melhores e mais agitados dias – em que mais parece uma série de tv, ou nos dias calmos que de tediosos não há nada.
Localidade? Rio de Janeiro, Pavuna, é eu sei zona oeste, que ninguém fala sobre lá, a não ser as manchetes policiais, mas não é tudo assim, sabia?
O pouco que se fala sobre as coisas fascinantes e pessoas que existem lá, é desanimador. Não só as histórias de superação, mas as ideais e a forma de pensar de cada um, um tanto artístico devo ressaltar alguns, e outros em plena euforia e animação. Há muita coisa lá, mais do que possa imaginar.
— Com licença senhor, vai levar o Kiwi? – O caixa pergunta, me tirando de meus pensamentos.
Kiwi...?
Sim, kiwi.
— 2 quilos somente, obrigado. – Peço, lembrando-me totalmente de estar num mercadinho em algumas ruas após o hospital em que trabalhava.
E isso me lembrava de alguém, a senhora Helena, ela deveria estar aqui...
Sempre vinha no mesmo dia e na mesma hora, que coincidentemente estava sempre aqui comprando algo para levar para casa. Faz um bom tempo desde que ela se tornou minha amiga, a senhorinha baixa; pele clara, traços finos e cabelos cacheados negros, era um exemplo de longevidade e animação.
O que será que aconteceu?
O barulho do meu celular ecoa no lugar: uma mensagem chegara, número desconhecido, apenas escrito: Helena. Era um único nome, que avivou minha preocupação, e foi o suficiente para deixar minhas compras no chão e ir correndo em direção a casa da senhora.
O que está acontecendo?
As perguntas não paravam de inundar minha mente, me fazendo ficar ainda mais apreensivo e cauteloso com a real intenção dessa mensagem. No caso de ser o pior cenário possível – que já passara por minha mente, enviei uma mensagem dizendo onde estava para uma amiga, e também ativei o rastreador do celular.
De alguma forma, há de me achar! Sequestrado, vivo ou morto.
Chegando na casa da Sra. Helena; após algumas ruas do mercadinho, o portão de madeira escura, estava estranhamente entreaberto. Pegando o guarda-chuva de minha mochila, e o segurando em posição de ataque, certamente não sairia sem uma boa luta.
Aqueles anos de jiu-jitsu na adolescência há de servir para um combate real.
Seguro e confiante de minhas habilidades, abri a porta devagar, no caso de algum meliante na casa, não me ouvir. Estando no grande quintal da casa e bastante iluminado, não havia ninguém.
Diferente da porta de madeira, a porta francesa metálica branca, estava totalmente fechada e até mesmos os vidros que havia nela, estavam sendo tapados por cortinas escuras. Corajosamente ou não, fui até a porta e bati, a chamando.
A adrenalina passava veloz em meu corpo, a pulsação descompassada e o nervosismo, eram evidentes a cada momento em que parava de bater e esperava alguma resposta. Antes que pudesse chamar novamente, chegou outra mensagem: Está aberta.
Com a sensação de alguém estar me observando, olhei para todos os lados do lugar, e além de mim, do capim, das flores do jardim, e do escuro da noite e não havia ninguém. Mesmo com receio crepitando em minhas veias, segui o comando e abri a porta; a sala modesta, aconchegante e bem arrumada, lá estava ela deitada em seu sofá. Tinha uma coberta sobre si, estava dormindo, e tossia constantemente em seu sono.
Com um súbito barulho no lugar silente, de uma notificação, me assuntando grandiosamente, ainda atordoado, li a nova mensagem: Desde sexta. E naquele momento toda a preocupação e tensão se dissipou...
Era alguém preocupado com ela e que me contatou para ajudá-la.
Ela tinha uma saúde de ferro, nunca a tinha visto doente, e ficar nesse estado é preocupante.
Precisava dela acordada para me dizer os sintomas e tentar ajudá-la da melhor maneira. Outra mensagem havia chegado, e nela dizia: Tosse, dores no rosto, congestão nasal, irritação da garganta e catarro. E nesse momento tinha quase certeza que era sinusite.
Pela primeira vez na noite, respondi o número e disse um nome de remédio que ajudaria e pedi que a levasse ao médico para receber um diagnóstico e tratamento. Indicando alguns médicos que conhecia e horários que eles estariam no hospital.
Nós sempre conversamos, pelo menos uma vez por semana, é bom ter uma amiga um pouco distante de toda correria do hospital e da minha vida. E no momento em que a deixei, ela se adoentou. Deveria ter ligado, ela teria.
Parte do cobertor tinha caído no chão ao tossir fortemente, cheguei até ela e ajeitei o cobertor a cobrindo totalmente. Com um último olhar na senhora, saí do lugar e fechei a porta. E por mais que quisesse ir embora e deixar esse desconhecido cuidar dela, ainda existia essa pulga atrás da minha orelha de saber quem era. Cedendo a minha curiosidade, enviei uma mensagem para o número, perguntando quem era. Foi quando ressoou um belo som de violino e vinha da casa de cima. Curioso, fui até as escadas de metal onde subia para a outra casa, e vi através da fresta da porta, um homem de frente para mim, portando o violino com seus olhos fechados; jovem, mas maduro, alto, pele clara, cabelos levemente cacheados e amendoados, traços unicamente esculpidos por uma mixagem interessante de etnias...
Peculiarmente belo.
A melodia melancólica ecoava pelo lugar silente, e me perguntava como não tinha notado o quão belo é o som daquele instrumento de madeira. Tão magnífico, trazia tantos sentimentos daqueles simples cordas; e sua movimentação harmoniosa junto da música, só mostrava o quão imerso estava nela. O violino na mão de tal talentoso jovem, fazia-me pensar no quão fácil parecia ser, havia tanta naturalidade nos movimentos, como se ele nascesse para fazer aquilo. Sem ao menos proferir uma única palavra, mostrava o poder da música...
Era inebriante.
Ao término da música, ele estava de frente para mim, e abriu seus olhos e os fixou em mim. E como uma criança pega no ato de comer a ceia de natal antes da meia noite, fiquei paralisado e surpreso. Recompondo-se do momento de timidez, decidido a descobrir a verdade, subi as escadas e encarei a situação como adulto.
— Sim, sou eu. – Ele disse em um tom sério e abrindo totalmente a porta.
Como ele sabia no que estava pensando?
— Entre. – Convidou-me a se sentar no sofá ao lado do qual descansou com o violino em mãos.
Ainda com receio de onde estava e o que estava fazendo exatamente, obedeci seu pedido, adentrei a casa aconchegante e um tanto amontoadas de livros por todos os lugares; um arco iria para a cozinha e mostrava o resto dos cômodos e da casa, mas em sua própria peculiaridade desorganizada fazia bastante alusão a quem ele era.
— Obrigado pela ajuda. – Ele disse imerso no que estava fazendo e quase me fez questionar se estava falando comigo.
— Obrigado por me chamar, não tinha noção de que estava doente, fiquei sem tempo de ligar para ela. – Disse ainda com culpa em me ausentar.
O ambiente silente e de uma forma estranha, confortável, perguntei algo que sondava minha mente desde o primeiro momento em que ele me contatou.
— Como sabia meu número? – Perguntei curioso por sua resposta.
— Tinha lhe visto outro dia ajudando a senhora Helena, e mesmo distante consegui ler nos lábios dela, seu nome. Sendo um nome incomum e portando vestes brancas, notavelmente era da área da saúde. No entanto, a certeza veio quando tinha o visto no mercado com outros enfermeiros, que pareciam ser seus amigos, então essa hipótese de ser enfermeiro ficou mais plausível.
— Achar seu número foi a parte fácil. Não existem tantos perfis com o nome de Javier no Facebook com a localidade do Rio. Uma procura foi o suficiente para achar seu número. – Disse com naturalidade e ainda imerso no que fazia.
O que?
Dizer que estava surpreso era um eufemismo, estava totalmente perplexo e estupefato com o fato dele ter chegado a essa conclusão; saber tantas coisas e encontrado meu número sem nem ao menos termos tido uma conversa.
Foi brilhante, assustadoramente brilhante.
Antes que pudesse dizer algo, seu rosto sério se desmanchou em um riso alto e contagiante, que parecia que escondia há tempos, e eu fiquei sem entender o motivo.
O que raios acabou de acontecer?
Ele começou a tentar dizer palavras, mas não conseguia e ria ainda mais disto, e fez umas expressões parecidas com as minhas de surpresa e continuou rindo. Não conseguindo me conter em vê-o rindo daquela maneira tão contagiante e as expressões que fazia tão engraçadas, mesmo não fazendo a mínima ideia do porquê, acabei rindo de toda a situação.
Tal momento incomum onde toda tensão, embaraço e preocupações foram dissipados, transformados em alegria; parecíamos velhos amigos rindo de uma antiga história.
Ainda sem entender o que acabara de acontecer, nos acalmamos de nosso ataque de risos.
– Desculpe... Não pude me conter de satirizar isto, você devia ter visto seu rosto... – Disse parando para conter-se de rir novamente.
– Na verdade, descobri seu número através da senhora Helena, ela tinha me pedido para ligar pra você, pois sabia que iria se preocupar com o sumiço. Apesar de ser uma mentira bastante plausível, foi dessa maneira bem simples que cheguei até você. – Ele disse suavemente e ainda com aquele sorriso entre seus lábios.
– Ok... – Respondi ainda perdido sobra toda a situação.
– Ok! – Ele disse entusiasmado e pela primeira vez, desde que entrei em sua casa, tirou os olhos do violino e olhou para mim.
E por algum motivo era desconcertante.
— Como aprendeu a tocar violino? – Perguntei, curiosamente fascinado pelo instrumento pouco comum no continente.
Não que estivesse tentando tirar a tenção de seu desconcertante de mim, nem tinha passado por minha mente fazer tal coisa.
— Obtive esse violino de um professor, ele me presenteou após ter completado meu curso de música. Aprendi parte com ele e a outra parte foi lendo livros sobre o violino e praticando sozinho em casa. – Ele respondeu em simplicidade e desdém em sua voz.
Impressionante.
Foi quando ele soltou uma gargalhada que parecia que estava prendendo há tempo demais, e desta vez eu entendia plenamente o que estava acontecendo. E me perguntava o quanto um pouco mais de prática ele poderia enganar muitos, não eram só as palavras, mas a forma como falava, era convincente. Não consegui me conter em rir do quão simples seu sorriso parecia se abrir, tomado e infectado por sua alegria.
— Quase consegui te convencer, mas você de fato acreditou, eu vi a dúvida! –Ele disse ainda sorridente e continuou:
— Antes de entrar para a faculdade, tinha juntado dinheiro para comprar o violino. Curiosamente, o instrumento não é tão caro como aparenta ser. Sobrou um pouco de dinheiro, então o usei para algumas aulas numa escola de música. Então comecei a ver vídeos no Youtube, praticar sozinho, ler livros sobre técnicas e observar. É um bom hobby, mas parei subitamente pela falta de tempo e dinheiro para me aperfeiçoar.
Fascinante.
Perguntava-me de onde viera essa paixão pelo instrumento pouco comum, e tantas questões inundavam minha mente e tinha essa vontade de conhecê-lo; de ouvir mais sobre sua vida e seus gostos, que pareciam tão interessantes quanto si. E por momentos quase me esquecera de onde estava, e ao retomar essa consciência e a do horário, rapidamente me despedi.
— Tenho que ir, então tchau...
— Sinclair. – Ele completou.
— Javier, a propósito. – Disse me levantando e indo já em direção à saída.
— Boa noite Javier. – Despediu-se e logo após fechou a porta.
...
Foram palavras de despedida que marcou o final – foi o que achara, no entanto, era apenas o início. “A distância afasta as pessoas”, já ouvira mais vezes isso do que poderia contar, mas foi exatamente o contrário. Quando acordei naquela manhã, havia uma mensagem, “Bom dia Javier”, e após essa nunca mais parou. Todos os dias conversávamos, e mesmo naqueles dias em que o tempo não nos permita tal coisa, era sempre reconfortante ler sua mensagem de bom dia, todas as manhãs, e sempre o enviava boa noite todas as noites. Era a primeira mensagem que eu lia e a última que escrevia...
Totalmente inebriante.
Violino, música, filosofia, política e até mesmo sobre física, conversávamos sobre tudo e discutíamos teorias, opiniões e pensamentos. Nas poucas vezes nós nos encontrávamos em minha casa ou na dele, e com uma xícara de café em mãos, vinha longas e interessantes conversas. Existiam aqueles momentos de silêncio, em que olharia em seus olhos e palavras não precisavam ser ditas; ele estar ali, ao meu lado, era o melhor lugar que poderia imaginar. Foram nesses momentos e a cada dia que passava e quanto mais o conhecia, que mais notável que o que sentia era além; ele é uma pessoa fascinantemente rara, por isso cada vez mais me encantava. É inexplicável, uma simetria de pensamentos, vínculo e sincronia que jamais sentira antes, que nos interligava de uma forma singular. Não havia jogos de sentimentos e nenhuma fuga; sabíamos o que sentíamos e se tornava ainda mais sedutor.
Foi numa segunda-feira, quando veio sua mensagem que me convidava para uma ida no museu de arte do Rio; um encontro, que foi muito além de minhas expectativas.
Chegamos no lugar à tarde, era tão belo quanto imaginara. Os dois prédios interligados para formar um único museu, foi genial, as obras que ali residiam, junto de toda a hospitalidade do lugar, foram fascinantes de se verem e observar. Era uma forma de estar em vários lugares e épocas diferente; essa era a sensação de estar lá, ao lado de tanta arte singular. Após o longo passeio por todos os andares, estávamos no último, que havia umas cadeiras para se sentar e a bela vista do mar, junto ao fundo da ponte rio Niterói, formavam uma paisagem exuberante.
O pôr do sol iluminava toda a cidade, e refletia sua luz em nós, estávamos em silêncio totalmente perdidos em nossos próprios pensamentos. Embora nos encontrávamos nos nossos olhares trocados. Próximos o suficiente para iniciarmos algo, mas distantes o suficiente parar tudo a qualquer momento. No entanto, nenhum de nós parou. Era inebriante estar abaixo de seu olhar, como se analisasse cada parte do meu rosto para não se esquecer, pensando e tentando entender como chegamos até aqui e procurava qualquer resposta em meu rosto que dissesse que iria fugir. Embora não me distanciaria e ele sabia.
Tinha passado tempo o suficiente junto dele para reconhecer aquele olhar, ele estava esperando. Ele tinha plena consciência de que eu tinha certeza de que ambos os lados estavam interessados, porém continuava esperando, e secretamente desafiando. “Até aonde iria Javier?”, apesar de nenhuma palavra sair dentre seus lábios, eu sabia que era um de seus pensamentos.
Com um leve sorriso presunçoso entre meus lábios, envolvi meus braços em seu pescoço e o trouxe para próximo do meu rosto, e tinha executado uma resposta silenciosa para suas perguntas. Olhava para o fundo dos seus olhos, o encarando e o provocando, e ele levantou seu olhar para os meus e um leve sorriso foi puxado no canto de sua boca.
Estava à minha espera, novamente. Eu, de fato, não tinha terminado minhas ações, e nunca iria entender como ele conseguia saber isso. Minhas mãos passeavam pela sedosa pele de trás do seu pescoço, na parte final do seu cabelo.
“C5, C6 e C7.” Contei silenciosamente os números das vértebras que existiam atrás de seu pescoço. Uma a uma, eu conseguia sentir levemente debaixo dos meus dedos na pele que a cobria.
— Sabia que é aqui onde estão algumas de suas vértebras? – Proferi em calmo tom, o observando a cada mínima reação.
Ele pareceu levemente surpreso com minhas palavras, mas pareceu ter gostado de ouvi-las.
Vagava as pontas de meus dedos nas ditas cujas vértebras que sabia que estavam debaixo daquela macia pele. Assim como num jogo de xadrez, esse era meu primeiro movimento, que abria uma porta de possibilidades, mas ao mesmo tempo não entregava quase nada sobre meu jogo.
Afinal eram apenas vértebras.
— Sei sim, tanto quanto existem doze vértebras torácicas bem aqui. – Ele disse, e como um especialista em anatomia levou sua mão abaixo do meu pescoço e desceu suavemente até a parte de baixo das minhas costas.
A última vértebra torácica.
A palma da sua mão amena, só reforçava as respostas ditas muito mais além das palavras, através de nós mesmos.
Então simplesmente invadi seu espaço pessoal, e o segurando pela nuca, dissipando com qualquer distância que existia dentre nossos lábios. Numa melodia fascinante, da bela música que se fazia da minha forte pulsação; dos sentimentos que saltitavam debaixo da minha pele e que se esvaiu para todo meu ser. Estagnou-se o tempo e espaço, longínquo sobre tudo ao meu redor; inebriado, fascinando, encantado e totalmente eufórico.
Quando a consciência dos meus atos veio até mim, nos fazendo se afastar e olharmos diretamente um para o outro. Foi um curto tempo para conseguirmos codificar exatamente tudo que tinha acabado de acontecer. Tempo suficiente para notarmos a necessidade que sentíamos, sendo correspondida e totalmente esvaída pelo puxão em minha cintura e o início de um real beijo.
Aqueles lábios secos de palavras nunca ditas, deram lugar as ações; que tanto ansiávamos e que trouxe pura euforia, e ainda mais fascínio. Foram poucos, mas longos segundos, antes de nos afastarmos novamente. E ele estava com aquele sorriso iluminados entre seus lábios, e em um momento de plena adrenalina, pegou em minha mão e correu em direção para fora do museu.
— Vamos, você precisa ver isto! – Disse e sem esperar que eu respondesse acelerou seus passos.
Rindo de suas ações que mais pareciam as de uma criança; pela felicidade pura descrita em seus olhos e a espontaneidade de seus atos, o segui. Poucas eram as vezes que sabia o que se passava em sua mente; era um turbilhão de pensamentos, conclusões e sentimentos, tinha me abdicando há muito tempo de saber ou adivinhar. Então corri junto dele, pois sabia que de seu modo, ele sempre me mostrava as respostas.
Fomos para fora do prédio em alguma direção que não conhecia, e após alguns sinais e ruas, vi ao fundo da rua cheia de bonitas pedras cinzas no chão, uma silhueta de um homem com um violino.
Agora fazia total sentido.
Chegando perto do homem, ofegante pela corrida e muito estupefato pela meia maratona não afetar nenhum pouco Sinclair; a não ser por sua respiração um pouco mais profunda, nunca teria suspeitado dele ter corrido tanto. O homem virou-se ao chamado de Sinclair; em algum outro tipo de idioma que não conseguia identificar qual, e assim que o dito cujo se virou, abriu um sorriso ao vê-lo. Pelos traços de seu rosto e a língua que agora transbordava de seus lábios rapidamente em resposta, faziam uma mera alusão a ele ser possivelmente italiano. Foi quando notei que ele estava fazendo algo que vira Sinclair fazer: afinar o violino.
Acho que não foi muito uma inusitada coincidência ele portar um violino. No entanto, ele notavelmente parecia ser um artista de rua; a capa do violino no chão aberta com algumas moedas e notas, a mochila escura ao lado — provavelmente dele, até mesmo as vestes formais e antiga, reforçava essa hipótese. Afirmando ainda mais a minha, de Sinclair ter vindo anteriormente aqui e me convidado, não só para o museu, mas também para uma apresentação sua.
Depois de uma pequena conversa entre eles – na qual estava mais perdido que gringo no Rio, ele entregou o instrumento de madeira escura a Sinclair. Olhei para si questionando se era aquilo que pensava, e aos seus olhos levemente evitando os meus, tive a confirmação.
Estava certo.
Afastando-me um pouco para ele se preparar – como a única vez que o vi tocar, após um curto tempo, ele fechou seus olhos e começou.
A música ressoava no ar, a melodia alegre dançava em meus ouvidos, sendo tocada por Sinclair, que certamente a compôs. Era notável isso, como se entregava e demonstrava as emoções que transbordava a canção. Não tinha voz, e nem se quer versos ou letras, no entanto, cada segundo a mais reforçava que isso não era necessário, apenas o instrumento de madeira lisa e escura, era o suficiente. Seus olhos estavam fechados, mergulhados, talvez, em concentração para acertar todas as notas ou – No que mais acreditava, que estava se aventurando no que a melodia lhe proporcionava.
Era inebriante a forma como aquele som adentrava pelos meus ouvidos e inundava meu corpo e alma de tal energia contagiante. Demonstrando a sensibilidade que ele jamais deixou transparecer. Sua destreza e maestria em vagar os dedos rapidamente entre as cordas; a elegância na forma como, com o arco em mão, seu braço ia e vinha para produzir cada nota; e seu pescoço se movendo conforme a harmonia ditava e os olhos fechados imersos na sonoridade...
Era magistral.
No ponto alto da música, no canto de seus lábios se formaram um pequeno sorriso, e logo em seguida seus olhos se abriram e olharam fixamente para mim. Aquelas orbes amendoadas, o sorriso que estava dentre seus lábios, e a forma como olhava muito além dos meus olhos, só mostrava...
Que aquilo tudo, havia apenas começado.
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