A matter of time
11 Epílogo
Quatro meses depois...
Charlotte mordeu o lábio inferior para impedir o gemido de dor, olhou para o teto, fechando os olhos fortemente em seguida quando sentiu a pequena mordida em seu peito. Soltando o ar pesadamente, respirou aliviada quando olhou para a bebê e constatou que ela estava quase dormindo.
— Char?
Encarou Henry, que se encontrava com os braços estendidos em sua direção. A afastou com cuidado de seu peito, um leve resmungo escapou dos lábios entreabertos, porém ela permaneceu com os olhos fechados em um sono profundo.
— Ela está terminando de sugar todas as minhas energias. — declarou, passando a bebê para os braços do Hart e se recostando cansada na poltrona.
— Essa estrelinha aqui está virando um cometinha.
Riu da voz que Henry usava, um calor familiar se espalhando por como ocorria toda vez que presenciava uma interação dos dois. Ele a apoiou em seu ombro, dando leves batidinhas nas costas da mais nova a fim de que ela arrotasse logo para colocá-la no berço. Charlotte puxou para cima a alça do macacão folgado que usava, levantando-se para sair do quarto, mas não sem antes trocar um rápido beijo com Henry.
Quando adentrou o quarto que dividia com Henry, acendeu o abajur que ficava ao lado da cama, a escuridão do ambiente ainda era opressora de mais para ela conseguir lidar sozinha. Deitou sob as cobertas quentes da cama macia, protegida do frio que começava a se fazer presente. Ela detestava o frio, se pudesse nunca mais iria sentir seu corpo tremer, se encolher em si mesmo à procura de calor, com seus dentes batendo um no outro ao passo que suas extremidades congelavam.
O frio trazia memórias que ela tentava a todo custo esquecer, momentos de terror e desalento que por pouco não extinguiram por completo a sua esperança. A suave luz amarelada que vinha do abajur iluminava todo o cômodo; no teto via as sombras provocadas pela iluminação, elas se movimentavam e se mesclavam, em um momento as viu aumentarem de tamanho, começando a se espalhar por todo o teto e descendo pelas paredes. Puxou o cobertor até seu queixo, as sombras deslizando agora pelo chão, deixando um rastro de escuridão enquanto iam em sua direção.
Fechou os olhos, sentindo lágrimas quentes escorrerem por seu rosto, o frio se intensificou, a fazendo apertar o cobertor ainda mais e cobrir-se com o mesmo. Na segurança da coberta, abriu os olhos vendo a sombra de garras afiadas tentarem puxar o tecido. Segurou com força, se encolhendo contra os joelhos enquanto seu cobertor era puxado para longe, quis gritar, porém sentia sua garganta seca, fechada e dolorida. Estava sozinha, retornou novamente para a escuridão da cabana.
Soluçou alto, o aperto suave em seu braço a fazendo relaxar mesmo em meio a escuridão, uma voz conhecida a chamando por longe fez os batimentos desespradaos de seu coração diminuírem a intensidade. Abriu os olhos, piscando em meio às lágrimas para encontrar o rosto de Henry, estendeu os braços o puxando contra si.
— Eu estou aqui. Você está segura. Está bem.
Ele sussurrava calmamente enquanto beijava o topo de sua cabeça, passando a mão pela extensão de seu braço para acalmá-la. Charlotte inspirou fundo, o cheiro do perfume de Henry misturado a fragrância inconfundível de bebê era o que ela precisava para se prender a realidade. Deveria ter dormido sem nem perceber, mal tendo tempo para se preparar para o impreparável, os pesadelos que a invadiam cada vez que fechava os olhos, com a capacidade de afeta-la profundamente.
Demorou alguns minutos para se acalmar, embalada pelos braços do Hart, a cabeça em seu peito a permitindo escutar a batida ritmada de seu coração. Aumentou o aperto ao redor da cintura dele, suas pernas entrelaçadas por medo dele escapar. Sabia que seria impossível passar por tudo o que aconteceu sem que ficasse com uma marca, mas haviam coisas piores que poderiam ter acontecido, ela poderia nunca mais ter visto sua filha ou nunca ter reencontrado sua família.
Esses pesadelos a acompahariam para sempre, em alguns momentos com menos intensidade, em outros de maneira assustadora, porém, ela não estava sozinha e nunca estaria. Charlotte iria conseguir conviver com os pesadelos, o medo e o receio de passar por algo assim de novo. Não teria como se livrar por completo do que vivenciou, talvez nunca conseguisse limpar sua mente das marcas que Drex fez, mas iria domina-las, dia após dia, mês após mês, ano após ano, não desistiria e nem permitiria que ele a moldasse.
■ ■ ■ ■ ■
Em algum lugar no tempo...
— Temos mesmo que ir? — a voz arrastada e dramática a fez rir. — Eles vão ficar apertando minha bochecha e dizendo o quanto eu sou fofa a todo momento.
— Pensei que você gostasse quando dizem que você é fofa.
Fechou o porta-malas após a pergunta de seu companheiro, esperou paciente para ouvir a reposta da filha.
— É claro que eu gosto, mas esse é um fato inegável que não precisa de validação a todo momento.
Olhou para Henry que encarava o pequeno ser humano de boca aberta, sorriu cheia de orgulho.
— Olha só quem está sabendo falar melhor do que eu. — o Hart se inclinou para dentro do carro, fazendo cócegas na criança que gargalhou alto. — Será se temos aqui a nossa futura presidente?
— Comandante... suprema. — ela corrigiu em meio às risadas.
Charlotte riu também, dando a volta para sentar no banco do motorista. Henry trocou um rápido olhar carinhoso com ela antes de sentar ao seu lado, a mão dele indo naturalmente para o seu joelho e o dando um leve aperto.
— Mas sério, mãe.
— Hoje você tirou o dia para reclamar, hein, estrelinha.
— Não estou reclamando, papai, só apontando...
— ... os fatos. — os dois adultos completaram, rindo diante do bico que se formou na boca dela.
— Nós só vamos dar uma rápida passada e iremos direto para a praia. — Charlotte a relembrou calmamente. — Prometo que será rápido.
— Tudo bem. — ela aceitou, cruzando os braços e olhando para a janela.
— Ei, cometinha. — Henry a chamou, virando o corpo para trás o máximo que conseguia. — Nós vamos nos divertir muito. Aposto que seu avô deixa você jogar os dardos nele enquanto estamos lá.
— Não. — a Page logo cortou o enorme sorriso animado da mais nova. — Sem dardos e sem bolas de boliche ou qualquer outra coisa pesada e com potencial para causar danos.
— Mas, mãe...
— Sem mas, Le. Se lembra do que aconteceu na última vez? — a pergunta era para ela, mas o olhar foi dirigido à Henry.
O Hart se encolheu levemente, a lançando um sorriso tímido. Um braço quebrado e uma noite no hospital foram o suficiente para ela barrar qualquer plano milaborante que envolvesse Henry, Ray e Jasper na companhia de Eileen.
— E se eu prometer que ligo pra tia Piper na hora que o vovô tiver uma ideia doida? — a pequena Page-Hart tentou negociar, juntando as mãos embaixo do queixo enquanto piscava os olhos lentamente. — Por favor, mãezinha.
— Sim, meu amor, por favor. — Henry fez coro, a encarando com a mesma pose da filha.
Charlotte revirou os olhos, bufando desacreditada enquanto saía da garagem, seu consentimento implícito fez os outros dois dançarem em seus lugares. Sorriu diante da animação que tomou conta do carro.
— Quando a gente chegar na praia eu quero construir o maior castelo de areia do mundo!
— Aposto que o meu vai ser maior do que o seu.
A paisagem mudava aos poucos enquanto saíam da pequena cidade, as vozes de Henry e Eileen servindo como um plano de fundo mais que bem-vindo. Eles moravam em uma cidade a poucos quilômetros de Swellview, mas consideravelmente mais calma. Se mudaram quando Eileen completou dois anos, Charlotte se sentira confiante o suficiente para dar esse grande passo com Henry.
As árvores diminuíam com o passar dos quilômetros, os campos abertos dando lugar aos prédios e construções. A viagem ao litoral acontecia todos os anos, quando o inverno se tornava sufocante para Charlotte e a necessidade de sentir o calor do sol a impulsionava para longe de casa. Passavam por sua família em Swellview, ficavam por um dia e seguiam em direção à casa que possuíam em uma praia calma, um presente bem aceito por parte de Ray.
Pela janela aberta entrava uma brisa fria, estremeceu levemente, seus dedos aumentando o aperto ao redor do volante. Torceu o pescoço, empurrando para longe a sensação do frio impregnando seus ossos, das cadeiras duras e desconfortáveis que nada tinham em comparação ao banco em que estava. Dez, nove, oito... Péssima hora para relembrar sensações. Sete, seis, cinco... Ela detestava o que o frio ainda poderia provocar nela. Quatro, três, dois... "Se dê uma trégua, Charlotte."
— Não existe uma sereia com cauda de baleia. — um... a voz descrente de sua filha a puxou de volta. — O senhor está querendo me enganar.
— Nunca faria tal coisa com a senhorita. — Henry disse em uma voz pomposa que provocou risos em Eileen. — Eu mesmo já conversei com uma sereia assim, ela disse que são primas das outras sereias e não são muito conhecidas.
— Ainda não acredito. — a criança resmungou, pelo retrovisor Charlotte a viu encará-la. — Você acredita, mamãe?
— Sinceramente, eu não duvido mais de nada que sai da boca do seu pai.
Henry riu alto, inclinando-se em sua direção e beijando sua bochecha. Eileen começou um interrogatório sobre esses novos seres mitológicos, preenchendo o resto da viagem com risadas infantis e observações inesperadas. Charlotte inspirou fundo, soltando ar lentamente enquanto se concentrava na estrada à sua frente. Se sentia bem apesar de tudo, se sentia feliz. Com sua pequena família ela se sentia mais em paz do que poderia imaginar.
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