A marca
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Notas iniciais
— Yuri? O que ta fazendo aqui? — Helena perguntou confusa
— Então, quando eu vi o Will com roupa de hospital e a menina lá, Ai, falou sobre não salvar mais a gente, imaginei que tivesse acontecido algo ruim e tentei localizar vocês de alguma maneira. Quando ficou de noite eu usei o poder de ver a luz e olhei em todas as direções até encontrar a luz roxa.
Helena estava sem palavras, a única coisa que podia pensar é "Ele é um tipo de gênio? Pensar nisso tudo com aquele pouco de informação". Ela olhou a garota que ainda não havia dito uma palavra.
— Ela tem a mesma luz — Yuri respondeu — É uma das "Aizada"
— "Aizada"? — Will perguntou
— É um nome que inventei pra quem ganhou os poderes da Ai, e não dos colegas dela.
— Precisa trabalhar melhor nisso — A garota ruiva falou baixo
— Não ta tão ruim — Yuri retrucou, levemente abatido pela crítica, mas o ar dos outros na sala respondia por si — Bom, essa é…
— Laura — Ela completou — prazer em conhecê-los.
Os jovens ficaram conversando um pouco, descobriram que Laura estava se mudando para a cidade agora e "por coincidência" iria para a mesma escola e turma do resto deles, o acidente que ela tinha passado foi durante uma tempestade muito forte onde um raio caiu extremamente próximo da garota e a partir daí ela notou que podia controlar a realidade ao seu arredor.
— Pera, você pode tipo, fazer um buraco negro do nada? — Will estava confuso
— Não, eu faço pequenos truques, nada muito complexo... Como estou fazendo agora — Ela falou sem jeito
— Está usando seus poderes agora? — Helena estava surpresa — E o que ta fazendo?
A garota respirou fundo, como se antes estivesse levantando algum peso e agora estivesse o soltando, seus cabelos e olhos mudando de cor, ambos em um tom bastante escuro, quase negros.
A surpresa foi inegável, todos eles tinham sido enganados sobre a aparência dela e nem sequer desconfiavam.
— Por quanto tempo consegue manter isso? — Helena indagou
— Atualmente por volta de uma hora, eu já estava chegando no limite, inclusive — Ela sorriu sem jeito
— Uma hora é bastante coisa — Yuri era o que estava mais surpreso — Eu consigo manter meus olhos durante cinco minutos!
— Uma coisa é certa — Will começou — Precisamos treinar, se o que Ai falou for verdade, vamos encontrar mais daquele cara do fogo.
— Então, explica esse trem, vocês foram atacados por um cara de fogo? — Yuri agora estava mais tenso, esquecendo momentaneamente sobre os poderes da nova amiga.
Will e Helena explicaram brevemente o que aconteceu, do atentado e de tudo que o garoto loiro de mais cedo havia dito. Repassando essa informação ficava mais claro para todos que a necessidade de treinarem seus poderes era vital.
— Nós não tivemos chances contra aquele cara — Will completou — A partir de amanhã precisamos tomar providências, vocês acham que conseguem sair para treinar? Eu conheço um lugar bom.
Após isso a conversa seguiu mais um pouco até que finalmente chegou o fim do horário de visitas no hospital, como Helena estava se sentindo melhor e havia sofrido bem menos com o incêndio, pôde ser liberada antes.
— Helena, antes de ir… — Ele encarou ela por um segundo, pensando no que iria falar — acho que seus poderes têm algo haver com ilusão. Mais cedo, foi o que pareceu acontecer.
Helena parou um tempo, pensando no que ele havia dito.
— Faz algum sentido — Ela sorriu de leve — Vou tentar trabalhar isso.
Com isso ela deu um aceno com a mão, saindo da sala, uma enfermeira a esperava para guiar ela até a saída onde a mãe dela aguardava no carro, já ligado. Will se sentiu um pouco sozinho após isso, afinal esses dias estavam sempre sendo acompanhados por Helena ou Yuri, e agora ele estava deitado em uma cama de hospital sem nada para fazer a não ser pensar, a noite passou lentamente para Will.
Helena chegou em casa e diferente do habitual recebeu real preocupação de seus pais, constantemente perguntando como ela estava se sentindo, se não sentia falta de ar. Ela não sabia o que sentia, mas provavelmente quando se lembrasse desse momento daria o nome de felicidade, quando finalmente foi para o quarto começou seus exercícios. Não de aula, e sim o treinamento de seus poderes.
Ela respirou fundo, se concentrando nas ilusões que Will disse que ela poderia fazer.
— Foco Helena, pense em algo e torne-a real — Mas a mente dela estava em branco — Pense, algo que queira ver…
E então, na frente dela o ar começou a tremular formando uma pequena esfera luminosa, uma estrela flutuando bem no meio do quarto dela.
"Isso é… maravilhoso, tantos detalhes… tão mágico" ela pensou, e a esfera sumiu assim como apareceu, devido à perda de foco da garota. Mas agora ela sabia que era possível e continuou com seu treinamento, respirando fundo e imaginando as mais diversas coisas para acontecerem. Luzes saindo do teto, flores do chão, e então ela imaginou algo que não havia ocorrido até agora, um lar.
Quando se deu por conta estava em um campo, havia um lago próximo e ao lado dela uma cabana de madeira, as luzes dentro da cabana estavam acesas, tremulando, certamente provenientes de velas, ela encarou o cenário quieta, admirada pelo que sua mente à oferecia, ficou ali observando esse lugar até que o sono viesse e a abraçasse.
Yuri, em sua casa, encarava Kuro que o fitava de volta sem preocupação. O garoto se concentrou em seu gato e seus olhos mudaram, porém além disso os caninos do garoto cresceram como os do felino.
— Vai ficar me encarando? — O gato falou
A transformação de Yuri desapareceu assim que ouviu isso, de susto.
— Você acabou de falar? — O garoto não acreditava no que havia escutado
O gato miou, e de alguma maneira Yuri sabia que aquilo tinha algum tom de desprezo, ainda que com um sutil tom de surpresa. Yuri, percebendo que não entendia o felino, se concentrou novamente, retomando sua transformação parcial.
— Você acabou de me entender? — Kuro disse
— Isso ta muito errado… — Yuri balançava a cabeça negativamente — Você não tem aquela aura, como então?
— Não sou eu que faz coisas que não deveria, humano — O tom de voz de Kuro era de visível superioridade — E não, não temos uma ligação especial.
— Você também lê mentes? — O garoto indagou
— Não seja tolo — O gato se espreguiçou — Eu sei que pensou isso pelo brilho em seus olhos, você deve ser capaz de fazer isso com outros animais. Apenas teve sorte de estar comigo na hora que morreu.
— VOCÊ LEMBRA DAQUILO?! — Yuri estava perplexo, sem chão quase
A porta do quarto abriu repentinamente, era a mãe de Yuri:
— Yuri, já passam das 22, o que está gritando? É hora de dormir — A irritação na face dela era evidente
— Desculpa mãe, já estou indo deitar — Yuri deitou-se, apagando a luz
Quando a porta fechou ele novamente ativou seus poderes, os olhos felinos faziam com que a pouca luz que entrava no quarto fosse o suficiente para que ele enxergasse sem problemas.
— Lembro sim, respondendo, eu morri junto afinal — Kuro lambia sua pata, nas pausas
— Então aquilo aconteceu, mas como estamos aqui
— Gatos têm sete vidas criança, quando me segurou deve ter pego essa característica minha também — Ele falava sem preocupação — Parabéns, agora você tem apenas seis.
Yuri não sabia dizer se estava feliz ou triste, ele tinha mais vidas que um humano normal, mas já havia perdido uma.
Laura por sua vez estava sentada na mesa de jantar em sua casa, acompanhada de seus pais, comendo uma deliciosa pizza, tão deliciosa que seus pais nem entendiam como havia um restaurante tão bom em sua nova cidade. A garota, por outro lado, apenas desfrutava de seus poderes que possibilitam que uma legítima pizza italiana fosse entregue naquela cidadezinha.
O treinamento da garota era bastante sutil, já que ela havia descoberto as reais capacidades de suas habilidades, a alteração da realidade. Seus cabelos, ruivos, não chamavam a atenção nem mesmo de seus pais, pois ela havia feito com que "eles sempre tivessem sido assim". O jantar não durou muito devido a qualidade da comida, o que foi um alívio para a garota que poderia dar uma pausa em suas habilidades, o desgaste era grande por conta do constante esforço de concentração.
O dia seguinte chegou mais rápido do que qualquer um deles esperava, William foi liberado do hospital no início da manhã e por conta disso conseguiu aparecer na metade da aula.
— E então, como ta se sentindo? — Helena perguntou ao ver o colega se aproximando
— Já tive dias piores — Ele sorriu — E você?
— O mesmo, eu acho — A noite anterior ainda deixava Helena confusa — A parte boa é que não vou precisar trabalhar por um tempo, já que a loja meio que… fechou
— Eles levaram a ideia de queima de estoque ao máximo… — William falou de modo automático, arrancando uma leve risada da garota
— Suas piadas são péssimas — O sorriso ainda era visível no rosto dela — Gosto delas
— Alguma coisa que gostariam de compartilhar? — O professor de matemática se aproximava dos dois
— Nada professor, desculpe a interrupção — Disse Helena
— Bom, se não é nada, poderiam resolver aquela simples equação que está no quadro?
William olhou para a equação que mais parecia uma parágrafo constituído de letras e números, extremamente extenso, os números se embaralharam só de ver por alguns segundos. Helena se levantou calmamente e foi na direção do quadro e começou a resolver, a resolução demorou aproximadamente dez minutos, não porque a equação fosse difícil (para ela), mas porque era extensa.
O professor encarou a equação e prontamente disse:
— Está errada, veja bem, a resposta é esta — Apontando para o livro
Helena sem pestanejar retrucou:
— Não, não é… Eu vi este desafio no livro do ano seguinte ao nosso, e ela está diferente, você errou ao adicionar este número — Ela disse enquanto apontava para um 42 na equação — É 4,2.
A sala ficou em silêncio, o professor a encarou por um segundo até que disse, sem tentar perder a compostura:
— Muito bem, você percebeu que eu alterei a equação, esse era o verdadeiro desafio. Pois bem classe, vamos prosseguir com a aula....
Helena se encaminhou para sua classe, dando um leve sorriso para Will, Yuri e sua nova, e recém apresentada, colega de classe, Laura.
O resto da aula correu de maneira tranquila, e todos foram para suas respectivas casas ao fim, marcando de se encontrar à tarde na escola para que Will mostrasse onde eles se encontrariam para treinar seus poderes.
Todos se reuniram e Will indicou para que seguissem-no, o percurso do qual ele estava guiando ia para uma área afastada da cidade onde não haviam prédios, era praticamente fora da cidade e o verde, a natureza predominava.
O garoto que guiava então mostrou a eles uma pequena cabana, próxima de um lago, havia um monte próximo onde uma solitária árvore se projetava para cima e para os lados com seus extensos galhos.
— Isso não pode ser possível — Helena falou
— O que não pode? — Perguntou Will
— Ontem, eu estava praticando minhas ilusões e pensei em fazer algo abstrato, um lar — Ela encarou eles, notando que faltava informação — Esse foi o cenário que apareceu.
— Não pode ser coincidência — Yuri falou — Acho que talvez Ai tenha feito isso, quer dizer, ela nos deu os poderes… Pode muito bem ter colocado essa imagem para ser projetada.
Após isso, cada um contou seu progresso no treinamento individual, e então mostraram o que conseguiam agora fazer. Will, inevitavelmente se sentiu deslocado, afinal ele não tinha conseguido treinar na noite anterior pois seus poderes eram destrutivos demais para serem utilizados em um hospital.
— Eu totalmente entendo Will — Yuri sorriu de maneira acolhedora — Não esquenta com isso não, aposto que logo vai mostrar do que é capaz!
O ânimo do garoto que incentivava seu amigo acabou por deixar todos bastante animados, e logo os treinos ao ar livre começaram.
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