Notas iniciais
Era pra ser one-shot, mas eu me empolguei e tive que dividir em 2 partes rs Tá meio clichê, mas foi feito com amor!

A vida de um oficial militar pode ser solitária, mas isso não significa que seja ruim. Há dias que só quer chegar a casa e dormir como uma pedra, pois é tudo que o corpo precisa. Entretanto, dormir seria a última coisa que conseguiria nessa noite.

Havia chegado uma carta de um advogado notificando a morte da tia-avó Calanthe. Era sua última parenta viva, tia de sua mãe. Como toda mulher da família, tinha uma força felina dentro de si, era uma verdadeira leoa e lutou bravamente contra um câncer durante muitos e muitos anos, mas finalmente teve seu descanso. Geralt leu a carta calmamente, achando que seriam apenas burocracias e exigências formais, por ser o último herdeiro vivo da mulher. Ledo engano.

A única filha de Calanthe, Pavetta, havia morrido junto com o marido a alguns anos, em um acidente de carro, deixando uma filhinha sob os cuidados da avó. Com o falecimento recente da senhora doente, cabia a Geralt, o único “parente próximo” a guarda da criança e assim era a vontade da mulher, segundo o testamento. O homem leu e releu a carta, até que finalmente caiu a ficha. Lembrava-se vagamente de ter uma criança quando foi visitar da tia-avó.

Não tendo uma idéia mais racional ou prioritária no momento, começou a calcular as idades estimadas. Calanthe era a irmã mais jovem de sua avó, quase tão jovem quanto a sua mãe. Poderia ser facilmente confundidas como irmãs, o que deixava ele e a prima de segundo grau com a mesma faixa de idade, mas tinha quase certeza que Pavetta era mais jovem, foi fruto de uma gravidez tardia. Mas nada fazia vir a mente a idade da criança, nenhum evento entorno do nascimento para lembrá-lo da data ou ano.

Reorganizou os pensamentos e focou no mais importante, ele teria que ficar com a criança? Se sim, onde ela estava agora? Respirou fundo e ligou pro advogado. Aquele seria uma longa noite e ele não conseguiria dormir.

***

Cirilla era uma linda garotinha de cinco anos, quase como a cópia exata da mãe. Dividia com Geralt um traço recessivo da família, o tom claríssimo de cabelo, dando um ar de proximidade aos dois. E lá estava ela, olhando curiosa para o homem, enquanto a assistente social terminava de ditar tudo o que ele precisava saber, toda a parte burocrática ficou por conta do advogado, ditando sobre a herança da menina, e outros itens que seriam passados pro nome do Geralt até a maior idade da órfã.

No fim do dia, o homem estava sentado no chão da cozinha dividindo uma pizza com a tutelada que tentava explicar, na melhor forma que uma criança em idade pré-escolar pode fazer, como era a rotina na casa da vovó. Depois disso, Geralt deixou que a menina se banhasse, ficando atrás da porta, porque não fazia a mínima idéia se deveria ou não entrar e ajudar, e depois a colou pra dormir no quarto de hóspedes.

Era um Capitão da Guarda Nacional, mas conseguiu uma licença pra colocar a vida nos eixos com Ciri. Como capitão, tinha que missões em campo, guiando um esquadrão, sempre que requisitado, podendo ser duas semanas ou um ano inteiro, variando desde apaziguar protestos até ir para o Iraque ou Afeganistão como equipe de apoio. E esse era seu maior problema, o que faria com a criança enquanto estivesse em missão? Será que o colégio militar que se formou aceitava crianças em tão terna idade? Ou uma babá integral seria melhor?

Mas antes que se desse ao luxo de responder suas questões, sentiu um pequeno corpo se aconchegar em suas pernas estendidas no sofá. Desviou os olhos do notebook e viu Ciri deitada ao longo de seus membros, segurando um leão de pelúcia. A menina parecia estar chorando.

E estava, além de estar quente. Sem pensar, pegou a menina no colo e correu pela casa caçando o termômetro que sabia que tinha. E achou na caixa de primeiros socorros da cozinha. Verificou a temperatura dela e constatou uma febre baixa, mas como um bom homem sozinho e despreparado, correu para o pronto socorro. Era só o que faltava, no primeiro dia com a menina, e ela ficava doente.

Mas os ventos da sorte estavam ao seu favor, a pediatra de plantão era Yennefer, uma mulher uns pares de anos mais jovem que ele e que já havia participado de algumas missões sob seu comando. Ela ingressou na Guarda Nacional para que o governo arcasse com os custos do curso de medicina, e sua presença ali mostrou que o plano estava indo muito bem.

Depois das formalidades de médico e responsável, com Yenn relatando que era apenas uma reação a mudança e todo estresse, por conta dos acontecimentos recentes na vida da menina, eles foram até a cafeteria colocar o assunto em dia. Geralt contando sobre a morte recente da tia-avó e a mudança de Cirilla para sua casa e Yennefer contando sobre o fim recente de namoro e o término da faculdade.

Esse breve encontro se transformou em visitas de Yennefer pra ver a menina, saídas aos domingos entre as duas, noites do pijama entre ela e a menina, e um Geralt mais aliviado ao saber que no primeiro problema poderia ligar pra amiga. Uma amizade que às vezes se mostrava bem colorida, principalmente após a primeira missão longa que o capitão foi enviado.

Yennefer pareceu ir às nuvens com a confiança do ex-superior em deixar a filha adotiva responsabilidade dela por seis meses. Ela ia e vinha do apartamento deles há um ano e meio, estava apegada a menina, que de forma inconsciente começou a chama — lá de Mumma-Yen. A lembrança de Pavetta e Duny, os pais biológicos, era mantida viva, com o máximo de fotos que Geralt conseguiu resgatar nos itens deixados por Calanthe e um diário de Pavetta, deixado especialmente para Ciri, mas mesmo assim, era impossível pra criança não associar os dois adultos mais presentes em sua vida com as figuras paternais.

Foram seis longos meses, Geralt entrava em contato sempre que podia, e Ciri se portou muito bem sob os cuidados da médica e ao fim desse período, o capitão tarimbado foi direto pra casa de Yennefer. Matou a saudade da filha adotiva, deu toda atenção do mundo para ela e escutou cada história sobre a escola, os amigos e tudo que fez enquanto estavam separados.

No fim do dia, estava morto de cansaço, tanto a viagem, como da energia despendida para acompanhar Ciri durante todo o dia. Yennefer permitiu que ficassem pelo menos mais uma noite, assim Geralt descansaria e ela poderia paparicar a menina mais um pouco pela manhã. E a noite que deveria ser apenas de velhos amigos trocando histórias do serviço militar, se tornou uma noite muito mais intensa, graças ao período estral pós serviço militar de Geralt e algumas taças de vinho no jantar.

E com isso, a rotina voltou ao normal, Geralt e Yennefer sempre se ajudando e sendo Ciri o laço que mais estreitava a amizade deles. Entraram em um acordo silencioso de amizade com benefícios, pois tanto a médica não buscava nada sério e seu foco era a carreira e sempre que possível, mimar Cirilla, como o oficial também não busca nenhum relacionamento, mas sempre apreciou a companhia de Yenn.

***

Os anos passaram, Ciri cresceu, e dividia seu tempo entre as duas casas. A maior parte da semana estava com Geralt, que se mostrava um pai super protetor, nunca faltava nenhum jogo de futebol ou recital de piano, sempre era o primeiro a chegar às reuniões de pais e mestres. E geralmente passava os fins de semana na casa da mamãe Yennefer, que largou a loucura dos plantões para abrir o próprio consultório e dar toda atenção pra filha nos fins de semana, quase sempre levando a tira colo o melhor amigo Jaskier.

Sem que Geralt se desse conta, “Tio Jazz”, uma brincadeira com o estilo musical e que sempre parecia que o homem falava cantando, estava na rotina da família, sempre indo ao shopping com ela e a mãe, dando conselhos de maquiagem, ajudando a limpar a barra quando Ciri pisava na bola com os pais. O oficial tinha muitas qualidades, mas nunca de fato prestou atenção nos amigos de Yenn.

A primeira vez que deu de cara com o famoso Tio, foi na primeira briga feia que teve com Yennefer. Geralt achava que era hora de Ciri ir para um colégio militar, mas ao mesmo tempo em que a menina gostava da vida que tinha também não queria decepcionar o pai. Como figura materna e confidente da filha, a médica resolveu interceder e tentar mudar a cabeça do amigo. A discussão ficou cada vez mais acalorada, até que Geralt disse com todas as palavras que “ela não era a mãe de Ciri” e não tinha direito a opinar. Yennefer nem respondeu, apenas pegou suas coisas e foi embora.

Depois de se dar conta do que disse, Geralt foi atrás da melhor amiga, mas deu de cara com Jaskier chegando ao apartamento dela. Yennefer havia ligado para ele enquanto dirigia pra casa e lá estava ele, como um bom amigo, oferecendo seu ombro. E como um bom amigo, só faltou dar na cara do homem que tinha o dobro do seu tamanho. Jogou na cara todas as vezes que o oficial precisou e Yenn estava lá, toda a ajuda, todos os momentos, sobre como a mulher mudou a vida por ele e por amor a Ciri, sobre como ela nunca pode ter um bebê, mas que sempre amou Cirilla como se fosse do próprio sangue.

Jaskier fez a proeza de gritar com Geralt por quase 30 minutos, até que por fim, disse que tudo isso poderia ter sido evitado se ele tivesse perguntado pra filha se ela queria ir ou não, ao invés de “manter-se como um milico o tempo inteiro, impedindo a filha de mostrar seu descontentamento sem medo de decepcionar o pai”. E entrou no apartamento da amiga, batendo a porta.

O monólogo de Jaskier teve efeito em Geralt. Ele juntou o que restava de sua dignidade, e foi conversar com a filha. Notou como era sentimentalmente afastado dela e disse que, se fosse da vontade dela, ela sempre poderia continuar a estudar em uma escola de civis, pois a opinião dela era a que mais importava.

Com Yennefer ele precisou um pouco mais de coragem, mas foi de cabeça erguida. Foi uma conversa longa, com um pedido de desculpa sincero. Ao final da conversa com uma xícara de café, ele viu o homem que berrou consigo saindo do quarto dela, com o nariz empinado e cara de nojo para si. Mesmo que descobrisse muito mais tarde que Yenn e Jaskier nunca fizeram nada e provavelmente nunca fariam, Geralt resolver manter a amizade com ela apenas como amizade, sem benefícios.

Mesmo Yennefer explicando que por mais que achasse Jaskier o homem mais perfeito do mundo, eles não tinham nada, além de um péssimo gosto incomum para aventuras românticas. Naquela noite, o melhor amigo apenas foi um ombro para ela chorar as mágoas até que pegasse no sono, por isso ele estava no quarto dela, nada mais que isso.

Daquele dia em diante, a figura chamativa como uma ave do paraíso se fez mais notada na vida de Geralt, com ênfase especial em um Natal, onde o homem bêbado cantou a plenos pulmões na mesa de jantar do oficial, e recebeu um soco nas partes intimas vindo de um Geralt extremamente estressado com tamanha azoada em sua casa.

Mas, não importa o quão chamativo ou barulhento fosse o músico extravagante, ele nunca sequer foi digno de ter o nome lembrado pelo pai de sua sobrinha favorita, ou sequer o rosto gravado, resultado em um primeiro encontro acidental e muito vergonhoso anos depois, através de um aplicativo de namoro entre homens.

Notas finais
Por hoje é só! Eu ainda tô respondendo os comentários do desafio de outubro, mas irei responder todos!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.