A maior oportunidade
3 A cor verde significa a raiz dos problemas
Notas iniciais
Pela aparência de Midorima, não se poderia imaginar um papel diferente do de representante de classe quanto a sua pessoa. Midorima era alguém pontual que não deixava as expectativas alheias falharem. Desse modo, o próprio Midorima não poderia ficar surpreso que, vez ou outra, tal pensamento viesse a assombrar a sua mente:
“Se eu falhar será o meu fim.”
Horóscopos deveriam ser seguidos. Midorima lembrou da pior maneira possível. A sensação de quase morrer devido a um erro bobo foi fixada a ferro na sua mente. Midorima não poderia errar. Mesmo assim ele errou muitas vezes. Um desses momentos aconteceu naquela mesma noite quando flagrou aquela visão indesejável.
Midorima não deveria confiar no laranja; mas o horóscopo seria a última coisa que Midorima se lembraria ao efeito daquele afeto vulgar. Porque para Midorima um beijo entre dois homens dado em público não era nada menos que isso. Somando ao fato de que as pessoas que realizavam tal ato incompreensível eram nada menos que Takao e Kuroko.
Não importava para Midorima que os três estivessem em um dos bairros mais mal iluminados e abandonados que tinha estado. Midorima não saberia dizer o que o tinha atingido primeiro e o que era a mais forte: a vergonha, a raiva ou a indignação. Só sabia que suas bochechas se avermelhavam cada vez mais.
O ato parecia ter sido posto em uma câmera lenta que não acabaria tão cedo. Midorima só podia estar tendo um pesadelo.
— Isso o que ganha por não almoçar, Shin-chan. — Takao disse em um tom divertido — E então? O que vai fazer? Não é melhor chamar a polícia?
Quando o tempo voltou a andar para Midorima ele estava em um quarto. Seus óculos estavam entre as mãos de Takao que o observava com um sorriso divertido no rosto. Takao estava sentado na beira da cama que Midorima estava deitado. Takao contou uma história absurda sobre Midorima ter desmaiado por falta de alimentação.
Midorima tinha uma teoria diferente, só que era tão absurda quanto a que Takao propunha que acreditasse. Midorima não sabia bem qual escolher; seus pensamentos estavam embaralhados e parecia que a cena do beijo fosse uma alucinação sua. Kuroko também estava presente, no entanto estava afastado. Ao colocar os óculos Midorima não pôde deixar de pensar que Kuroko parecia pronto para fugir dali a qualquer momento.
Assim como parecia querer evitar o contato visual.
Takao continuava a sorrir como se soubesse de algo interessante. Foi quando Midorima chegou a conclusões nada animadoras: 1) não era mentira ele tinha mesmo visto aqueles dois se beijarem. 2) ele tinha desmaiado de nervoso.
Midorima também tinha chegado a uma possibilidade: de que Takao estava apenas brincando com sua cara. O que se poderia supor de que aqueles dois não estivessem juntos.
Por algum motivo não lhe soou tão mal assim. Midorima teria se deixado levar por mais devaneios se Takao não tivesse estalado os dedos próximo ao seu rosto.
— Vamos, Shin-chan, você que é o cabeça aqui.
— Acho que seria melhor explicar o que está acontecendo antes Takao-kun. — Kuroko disse sem descruzar os braços.
— Ah, sim, sim. Porque não explica Kuroko? Você tem melhor jeito com as palavras.
Kuroko ofereceu um olhar mais duro para Takao o que surpreendeu Midorima. Se Midorima não estivesse focado no rosto de Kuroko não teria percebido antes que a máscara neutra voltasse.
— Haizaki-kun não sabe sobre a Sayuri-san.
— E como tem tanta certeza? — Midorima disse sem conter as próprias palavras. — Por sinal...
O questionamento não veio. Um barulho pode ser ouvido pelos três rapazes. Kuroko foi o primeiro a ver o que acontecia, sendo seguido por Takao. Midorima se espantou com a cena a qual foi presenteado.
Kagami comemorava, as mãos aos céus como se tivesse ganhado o primeiro lugar em uma maratona. Haizaki batia um dos punhos no chão consecutivamente. Aparentemente estavam disputando acirradamente um jogo de Nario Kart. O barulho foi resultado do controle do videogame jogado sem dó contra a parede, só que os dois estavam em seus próprios mundos o suficiente para não perceberem.
Os questionamentos de Midorima foram respondidos apenas com um olhar para os fatos: estavam na casa de Haizaki e não parecia haver qualquer ser vivo além deles. Era manhã e provavelmente todos ali tinham perdido dois ou três horários de aula. Assim como ninguém além de Midorima parecia se importar.
Kuroko tentou chamar a atenção de Kagami, o que apenas o fez ser vítima de um abraço de urso do ruivo. Takao nem tentou se aproximar rindo sem se conter, seu abdômen sendo segurado no processo. Midorima fez o que melhor podia fazer no momento.
Midorima fingiu tossir e o olhar assassino dirigido a um ruivo em especial não atingiu apenas Kagami, mas a todos. Takao parou de rir, Kagami ficou estático e Haizaki xingou por finalmente perceber que quebrou seu controle.
Kuroko pareceu aliviado. A mãe de Haizaki chegou em um tempo interessante para colocar os garotos nos eixos, sendo mais específico Haizaki. A mulher trazia consigo sacolas pesadas e não parecia nem um pouco de paciente para ouvir as lamentações do filho com relação ao pouco valor que dava aos seus pertences.
A mãe de Haizaki colocou todo mundo para fora, sem mais nem menos. De alguma forma dava para Midorima supor de quem Haizaki havia puxado a personalidade difícil. Takao voltou a rir até não poder mais. Midorima se surpreendeu com a conversa mais ou menos civilizada que Haizaki e Kagami estavam tendo aquele momento; era algo que nem chegaria a imaginar se não estivesse vendo com os próprios olhos.
Só que ainda não chegava a ser mais surpreendente do que ver Kuroko Tetsuya puxar assunto com, de todas as pessoas, o próprio Midorima:
— Obrigado, Midorima-kun.
— Não foi nada demais, e você tem que aprender a escolher suas ações adequadamente Kuroko.
“Se não você pode ser beijado que nem da última vez” Midorima manteve essa sentença para si já que nem tinha 100% de certeza se algo assim tinha realmente acontecido, apesar de ter muitos fatores que levavam Midorima a crer que sim.
Midorima não disse nada mais, só que seu rosto se avermelhou involuntariamente. A presença de pensamentos loucos em si causava um efeito não muito apreciável em Midorima. Midorima se viu obrigado a virar o rosto na direção contrária à de Kuroko.
— Quanto a isso... Não precisa se preocupar Midorima-kun. — Kuroko disse em um tom neutro — Mesmo que eu escolha errado não vou fugir.
Kuroko era mesmo tão difícil assim de ler? Midorima devia estar muito concentrado em si mesmo para que não pudesse ultrapassar aquela fina barreira de neutralidade que Kuroko criou para si. Porque não importava como Midorima observasse: naquele momento em que Midorima se permitiu contemplar aqueles olhos azul claro profundamente, não pode deixar de enxergar uma determinação originária de dor.
“Ele quer uma coisa que nem mesmo seu basquete poderia conter e que, entretanto, poderia ser visto para quem quisesse ver.”
Só que o contato entre eles ainda não era o suficiente. Midorima apenas tinha se livrado da barreira de gelo de um mar profundo.
Kuroko era simples, no entanto complexo; Kuroko era complexo só que simples.
Midorima se irritava como parecia que estivesse se enxergando em um espelho. Talvez só não compreendesse Kuroko porque o próprio Midorima não se compreendia.
Midorima se pegou pensando que de alguma forma não seria tão ruim tentar entender Kuroko. Compreender o fascínio que aquele modo de ser de Kuroko lhe provocava. Como aquela dor invisível aos olhos desatentos poderia ser tão cativadora?
Essa linha de pensamento durou o instante de um olhar entre os dois. Um momento efêmero que não causou estranheza entre os demais. Kuroko pareceu tirar as próprias conclusões de um acontecimento comum. Kuroko estendeu na direção de Midorima uma mão aberta, a que até então estava fechada quando cruzou os braços e quando tentou chamar a atenção de Kagami.
Havia um pendrive naquela mão. Antes que fosse questionado, Kuroko tomou uma das mãos de Midorima e as colocou sobre sua palma. Kuroko, colocando a mão livre sobre as que já estavam em contato, disse em um tom que chamou atenção dos demais:
— Eu confio no Midorima-kun, de que vai fazer a decisão certa...
E sumiu para o espanto dos presentes. Para ser mais específico: Kuroko estava lá, mas só passou a ser notado quando estava a alguns bons metros longe dos conhecidos. Kagami fez voz ao pensamento da maioria:
— Ei, Kuroko! Aonde pensa que vai?
Kagami correu como pode na direção do amigo, ambos desaparecendo da visão em uma esquina. Passado o espanto Midorima observou a mão que segurava o pendrive.
— Oh, que fofo! Porque o Kuroko te daria um presente, Shin-chan? — Takao disse divertido.
— Não acho que seja um presente. Não tem ideia do que possa ser? — Midorima disse tentando arrancar no processo alguma prova de cumplicidade daqueles dois.
—... Hum, até que eu tenho uma ideia sim... Mas não acho que vá agradar ao Shin-chan. — Takao disse, e vendo Haizaki que tinha se aborrecido e sentado na calçada mesmo — Ah, já estamos indo, não precisa se preocupar conosco!
Haizaki apenas fez uma expressão de “e eu tenho lá cara de estar preocupado? ”; acabando por ambos os colegas do Shutoku conseguirem chegar na escola a tempo para o almoço.
A ideia de Takao o inquietou e claro não o agradou nem um pouco. Talvez fosse a primeira na vida desde que começou seus estudos que Midorima Shintarou não conseguiu se concentrar em uma aula em absoluto. E talvez houvesse sido a primeira vez na vida de Takao que tivesse se arrependido de fazer uma brincadeira, ou não.
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