A magia no Natal

1 Capítulo Único


Hugo caminhava sozinho pelas ruas da Londres trouxa, com as mãos no bolso de seu casaco, ouvindo as músicas de sua banda favorita no volume máximo em seus fones de ouvido. O garoto, com seus 16 anos recém-completos, carregava em seu rosto um semblante de imensa insatisfação. Ele não entendia (e nem fazia questão de entender) os motivos pelos quais o seu pai, Ronald Weasley, havia negado que seu presente de Natal fosse uma Firebolt Supreme.

Era fato que ele não tinha o desempenho escolar exemplar que sua irmã, Rose, demonstrara a vida inteira, mas ele tinha certeza que era um bom filho e, além do mais, ele nunca pedia nada. Simplesmente não era justo ter seu pedido negado dessa maneira, justamente no Natal!

Assim que avistou uma praça, Hugo decidiu que ficaria ali até que o sentimento ruim que o dominava o deixasse, e só então ele voltaria para casa. O jovem rapaz se sentou em um dos bancos da praça e ali permaneceu, observando o que acontecia ao seu redor. A alguns metros de si um coro de crianças cantava uma música natalina bastante conhecida, mas devido aos fones em seus ouvidos, ele não pôde perceber.

A neve, aos poucos, começou a cair. E foi nesse momento, enquanto pequenos flocos de neve caíam e pousavam delicadamente sobre sua calça, que algo chamou sua atenção. Do outro lado da rua, uma senhora com aparência de uns 70 anos estava de pé, atrás de uma mesinha improvisada, onde estavam pequenas guirlandas de Natal artesanais. A plaquinha sobre a mesa indicava que cada guirlanda custava apenas uma libra.

Hugo passou a fitá-la, observando que algumas pessoas (a maioria delas) passavam por ela como se fosse apenas parte da paisagem, a ignorando por completo. No tempo em que ele a observava, nenhuma guirlanda havia sido vendida.

Não demorou muito para que ele percebesse que o queixo da senhora tremia. Os cabelos brancos estavam expostos. Era evidente que ela estava com frio, apesar das luvas que cobriam suas mãos e do casaco que vestia.

Enquanto pensava no que levaria uma senhora com essa idade a se submeter a uma situação assim em pleno Natal, ele se lembrou da noite em que ele, seu pai, sua mãe e sua irmã estiveram reunidos para decorar a casa.

— Eu amo o Natal. Não existe comida tão deliciosa igual a que comemos nessa época! — Rony exclamou, enquanto colocava a estrela dourada no topo mais alto da árvore de Natal que ocupava um canto próximo à lareira de sua casa.

— Eu até gosto da comida, mas o melhor mesmo são os presentes — disse Hugo se jogando no sofá e olhando a decoração que haviam feito.

— Que nada. O melhor de tudo isso é observar como tudo fica lindo iluminado — Rose falou, sorrindo, enquanto fazia a casa se encher de luzinhas coloridas com um aceno de varinha.

Hermione olhou para os três e, com um sorriso acolhedor, começou a falar:

— Sabe, a comida é ótima, os presentes muito legais e a iluminação linda, mas esse não é o verdadeiro sentido do Natal. — Ela se sentou próxima a Hugo e começou a afagar os cabelos de seu filho mais novo, com carinho. — É claro que não devemos desmerecer a oportunidade que temos de estar com a família reunida, a mesa farta, os presentes recebidos de quem amamos e toda a decoração que nossos olhos saudáveis podem desfrutar. Mas já pararam para pensar o que realmente é essa data?

Rony sorriu e andou até sua esposa, sendo acompanhado pela filha. Os dois procuraram um espacinho no sofá e se sentaram.

— Amor, conta pra gente aquela história… Do sonho do Papai Noel... — O ruivo pediu, sorrindo e beijando sua bochecha em seguida.

Hermione, ainda com um sorriso nos lábios, empunhou sua varinha e começou a contar a história, docemente, enquanto acenava a varinha no ar, fazendo surgir imagens de acordo com o que dizia:

“Certa vez, o Papai Noel teve um sonho. Era um sonho tão lindo que ele não queria mais acordar. Nesse sonho lindo do Papai Noel, os humanos fizeram um acordo eterno de paz. Todas as armas foram silenciadas e os tanques de guerra foram entregues às crianças para que elas desenhassem flores brancas de paz.

“No sonho lindo do Papai Noel, do qual ele não queria mais acordar, não havia mais fome. Todos, até mesmo aqueles dos países mais pobres, agora tinham fartura e até guloseimas para os pequenos. Todas as crianças acordaram, se prepararam para ir à escola e tomaram um café da manhã reforçado.

“Ainda naquele sonho tão lindo, que Papai Noel não queria jamais acordar, não havia mais barracos com água escorrendo pelas paredes, nem ratos pelo chão. Não havia mais ninguém dormindo ao relento, nem pessoas sem um teto para se abrigar.

“Pois é. O Papai Noel sonhou esse sonho tão lindo, mas tão lindo, que não queria mais acordar. Nesse sonho não havia mais instituições para abrigar crianças desabrigadas e maltratadas pelos pais, nem havia mais crianças à espera de um beijo, de carinho, amor… Todas as crianças tinham pais ou alguém que cuidasse deles, que lhes desse colo.

“No sonho do Papai Noel não havia palavrões ou palavras feias, nem falta de educação, nem desentendimentos… Os motoristas todos andavam com cautela e atenção ao trânsito. No sonho do qual o Papai Noel não queria acordar, não havia animais abandonados, nem maltratados, deixados no frio, na fome, na chuva…

“Mas, infelizmente, o Papai Noel acordou e percebeu que tudo não passava de um sonho”, a esta altura, Hermione já se encontrava com a voz embargada pelo choro, fazendo Rony a abraçar de lado. “No entanto, mesmo triste, muito triste, ele se convenceu de que ainda era necessário, mesmo que apenas uma vez no ano, celebrar o Natal. Então, naquele momento ele levantou e começou os preparativos para, por mais uma noite, levar um pouco de alegria para todas as crianças do mundo.”

Ao terminar a história, Hermione havia abraçado Rony. E Rose, em seguida, se juntara ao abraço. Hugo lembra de não ter visto sentido algum naquilo, mas se juntou ao abraço também. Agora ali, diante da senhora vendendo as guirlandas de Natal, o sonho do Papai Noel havia tocado seu coração. Ele sentiu os olhos marejados e retirou os fones dos ouvidos. A primeira coisa que percebeu foram as vozes infantis que faziam coro cantando uma música de Natal. Embalado pelo som, ele levantou e foi até a senhora do outro lado da rua.

— Boa noite, meu jovem. Tenha um feliz Natal! — A senhora exclamou, sorrindo, assim que ele se aproximou. Isso tocou ainda mais seu coração, pois ainda que estivesse no frio e sendo ignorada pela maioria das pessoas, ainda havia doçura nela.

— Eu quero levar todas. — Ele se limitou a dizer, não conseguindo encarar a senhora e entregando 50 libras a ela. Agradeceu mentalmente por sua mãe ser adepta ao uso de dinheiro trouxa e por ele guardar sempre consigo.

— Oh, meu filho… Eu não tenho troco… Sabe, as vendas não foram boas hoje e…

— Não. A senhora pode ficar com todo o dinheiro… — Ele começou a dizer, mas parou abruptamente, ao fitar a senhora e ver que ela começou a chorar. Logo, ele não resistiu mais e se permitiu chorar também. O que é que estava acontecendo?

Antes que ele pudesse reagir, a senhora se aproximou e o abraçou, chorando e falando entre lágrimas:

— Muito obrigada, meu filho, muito obrigada, Deus te abençoe, você não sabe como eu estava precisando desse dinheiro, como eu estava sem saber o que fazer para conseguir. Deus te abençoe, meu filho…

Hugo retribuiu o abraço e, assim que se afastou, tirou o cachecol de seu pescoço e o enrolou no pescoço da senhora, com delicadeza. Depois, tirou sua touca e cobriu os cabelos brancos dela. Tirou mais 50 libras do bolso e a entregou.

— Eu que agradeço a senhora por ter me feito compreender tudo. Muito obrigado. Tenha um feliz Natal!

Ele fez um carinho na cabeça da senhora, que era bem mais baixa que ele, acenou a cabeça e se retirou, sem olhar para trás. Naquela noite, ele queria apenas voltar para casa, abraçar seus pais e ser grato por tudo o que tinha. Ele percebeu que uma Firebolt Supreme não importava mais, porque finalmente havia compreendido a verdadeira magia do Natal.

Notas finais
O sonho do papai Noel foi adaptado do que consta nesse link: https://www.marciafernandes.com.br/site/o-sonho-do-papai-noel/

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