A lógica do amor
3 Escondidos
Notas iniciais
— Como assim ele não quer? — a senhora Masterson disse na tarde seguinte.
— Não quer, simples assim.
— Ele tem noção do quanto isso é importante?
— Sim, tem, mas os motivos pelos quais dispensa são considerados maiores.
— Quais seriam?
— Não sei se posso dizer. — confessou receosa. — É muito particular.
— Está certo, acho que tenho uma noção sobre o que se trata. Farei uma ligação que pode resolver isso.
— A senhora pode me deixar fora disso? Stan já está bastante furioso comigo.
— Claro, querida, não tocarei no seu nome.
Heather deixou a sala da diretora e seguiu para sua sala de aula, onde passou a maior parte do dia, não queria correr o risco de dar de cara com Stan no corredor ou em qualquer lugar.
No fim do último período, Heather andava pelo corredor vazio do colégio, estava tão vago que chegava a assustar. Passou por algumas salas abertas olhando o seu interior, os experimentos de química ainda estavam na sala 58, os cartazes de português pregados nas paredes da 69 e os sapos... Heather tropeçou em algo forte que se encontrava no chão, caindo do outro lado. Os seus livros voaram para um lado e os seus óculos para outro.
— Droga! — exclamou. — Onde estão os meus óculos? — indagou para si enquanto apalpava o chão.
— Mais para a esquerda. — uma voz grave respondeu.
Heather obedeceu, encontrando os seus óculos em seguida, ela os pôs e descobriu o dono da voz. Stan estava sentado no chão abraçando as próprias pernas.
— O que faz aqui? — indagou.
— Não é da sua conta! — respondeu secamente.
Observou que Heather começou a sorrir, depois a rir sem parar, o deixando intrigado.
— Do que está rindo?
— É só que...você não quer saber de mim e eu passei o dia inteiro te evitando...e agora eu tropeço em você e cá estamos juntos de novo.
— É o nosso carma.
Heather procurou os seus livros no corredor com os olhos, encontrando perto da porta do banheiro masculino. Foi uma queda e tanto.
— Eu recebi uma ligação da minha mãe hoje... — Stan começou sem aviso. — Ela disse para eu não desperdiçar o meu futuro pensando nela.
— E o que você disse?
— Não sei o que fazer. — confessou tristemente.
— Lembro quando a minha melhor amiga teve que se mudar... — começou gentilmente. — Ficamos muito tristes porque ficaríamos separadas, mas ela me disse algo que nunca esquecerei: Não somos árvores para criarmos raízes em algum lugar, Hatcher, a mudança nos molda. E eu percebi que a vida continua, os amigos partem, coisas mudam e a vida não para para ninguém.
Stan ficou pensando no que Heather havia dito, a única coisa que tinha certeza naquele momento era que não podia deixar sua mãe sob o mesmo teto que seu padrasto. Ela era o seu tudo, não podia abandoná-la, iria fazer o possível para lhe trazer segurança.
— Eu tenho que voltar para casa. — a moça informou.
Ela se levantou, pegou os seus livros, limpou a calça e disse com um sorriso fraco:
— Nos vemos por aí.
Stan continuou no mesmo lugar por mais uma hora até que finalmente resolveu voltar para sua casa. Ao chegar lá, ouviu um som de guitarra rasgar o vento e imediatamente correu para dentro.
— O que está fazendo? — gritou para Jonas. — A mamãe está doente, seu filho da puta!
— Ela não se incomoda com um som ambiente. — respondeu bêbado.
— Você é um idiota! — ele correu e pisou no cabo, desplugando a guitarra do amplificador. — Eu mandei parar!
— Você não manda aqui, garoto! Agora vá dar o remédio a sua mãe!
Stan rosnou e subiu as escadas, parando na porta do quarto de sua mãe. Ela estava como sempre, deitada na cama lendo alguma coisa, quando viu o filho sorriu fracamente.
— Oi, Stany.
— Mãe, não tenho mais oito anos. — pontuou se aproximando.
— Tem razão. Já está grande, mas sempre será o meu Stany.
— Trouxe o seu remédio. — a entregou e observou ela tomar.
— Decidiu o que fazer? — Stan deu de ombros. — Stan...Stan, olhe pra mim! — obedeceu. — É o seu futuro.
— Não vamos falar sobre isso agora, mãe.
— Então quando? Não fuja dos problemas, Stan. — ele se levantou esfregando as têmporas. — O que o seu pai faria neste momento?
— Não sei, ok? — indagou exaltado. — Não sei porque ele decidiu nos deixar!...e eu não quero te deixar, mãe.
— Você não estará me deixando, filho, escuta... ver você na faculdade é uma grande satisfação para mim, se essa oportunidade tivesse batido na minha porta com certeza não a desperdiçaria.
— Mas, mãe...
— Sem mas, você vai estudar e vai passar em Stanford. Isso é uma ordem!
— E se eu não passar? Existe essa possibilidade.
— Então você terá tentado, pelo menos. A pior coisa da vida é ficar se perguntando como teria sido.
— Preciso pensar.
— Ok, mas não demore muito, o tempo não para para ninguém.
Stan concordou com a cabeça e sua mãe deu um beijo fraco em sua testa, ele saiu do quarto descendo as escadas. Lá em baixo, encontrou Jonas vomitando no tapete da sala e tomou a sua decisão. Tirou o telefone do bolso.
— Alô? — a voz doce surgiu do outro lado, mas Stan não conseguiu falar nada. — É algum trote? Se for, ligarei para polícia e eles irão rastrear...
— Não, não... — disse apressado. — Sou eu, Stan. — silêncio. — Você está ocupada?
— Como conseguiu o meu número? — perguntou ignorando a pergunta anterior.
— Eu tenho o número de todo mundo do colégio.
— Não lembro de ter te dado.
— Eu tenho minhas formas para conseguir. — silêncio acompanhado de um suspiro. — Você está ocupada?
— Pode falar.
— Eu topo.
— Sério? — indagou surpresa. — Não está brincando?
— Não. Eu preciso disso.
— Que bom, será uma experiência...interessante para nós dois.
— Quando podemos começar?
— Preciso planejar um cronograma de estudos ainda.
— Ok, te envio o meu horário por email.
— Não precisa, eu já tenho.
— Como?
— Você não é o único que tem formas de conseguir as coisas. — ele soltou um fraco sorriso. — Como acha que descobri onde era a sua casa?
— Certo. Você me informa quando estiver tudo pronto, então?
— Sim...eu preciso fazer uma coisa agora, Stan.
— Tudo bem, eu já ia encerrar mesmo.
— Então, boa noite, Stan.
— Boa noite, Hilda.
— É Heather! — repreendeu escutando uma risada rápida no fundo. Ela desligou.
— Ok, turma, façamos o seguinte... — o técnico Murphy começou. — Meninos no basquete primeiro, depois as meninas, ok? Ok.
A turma do terceiro ano estava toda na quadra do High School Hayden e como o técnico falou, os meninos começaram a jogar primeiro enquanto as meninas se aqueciam nas arquibancadas. Heather não era muito fã de basquete, então não estava nenhum pouco animada para jogar, mas se esforçou ao máximo para pôr a camiseta do colégio e sua legging preta, amarrou os cabelos por motivos óbvios.
— Então, Hannah, você e o Stan, huh? — uma garota perguntou maliciososamente.
— Não que seja da sua conta, Sheila, mas nós estamos indo bem. — a morena informou.
— Vocês já transaram? — uma garota pequena e ruiva perguntou.
— Não ainda, estou me fazendo de difícil, sabe? Assim ele gama.
— Uuuh! Você é má.
— Garotos como o Stan têm que sofrer um pouquinho. — as garotas riram e Hannah encontrou o olhar de Heather. — Posso ajudar, curiosa?
— Não, obrigada. — soltou um sorriso amarelo.
Hannah O'Brien, a garota mais popular do colégio, chefe das líderes de torcida, namorada do capitão do basquete e filha do prefeito da cidade. O pacote perfeito. Além de ser extremamente linda e sexy com seus longos cabelos negros, os seios volumosos, o quadril na medida certa e o estilo impecável. Era aquilo que os garotos queriam ver, deixando as garotas normais lambendo pirulito.
— Passa para o Ford! — um garoto gritou na quadra, libertando Heather de seus devaneios.
Stan estava no time dos sem camisa, deixando o seu peitoral definido a mostra. Todas as meninas estavam olhando para ele, inclusive Heather. Stan fez uma cesta e sorriu para a arquibancada, por um momento, Heather pensou que fosse para ela, mas percebeu que Hannah estava alguns degraus acima do seu.
— Ok, troquem agora! Meninas na quadra e meninos no banco.
As garotas se encaminharam ao centro do ginásio, se posicionando em grupos sem haver uma divisão de times.
— Preciso de duas líderes. — o técnico disse.
— Eu vou. — Hannah se ofereceu.
— Certo, quem é a outra? — silêncio. — Vou ter que indicar uma?- mais silêncio. — Ok, Sheila, você é a líder. Hannah...forme o seu time.
— Ok, humm. Escolho a Tiffany.
— Bárbara. — Sheila escolheu.
— Amélia.
As garotas continuaram a escolher até que sobrou apenas Kelly e Heather. Hannah escolheu Kelly, deixando Heather no time de Sheila.
— Vamos começar.
O treinador Murphy jogou a bola para cima e, por ser mais alta, Hannah pegou a bola antes de Sheila. O jogo seguiu bem, os passes estavam dentro das regras, mas o time de Sheila perdia. Então Heather conseguiu pegar a bola, mas ficou sem ação.
— Corre, sua idiota, corre! — alguém gritou.
Heather se pôs a correr desesperadamente até chegar do outro lado da quadra quando um corpo grande invadiu a sua visão. Hannah estava a sua frente lhe impedindo de prosseguir, então Heather tentou mirar na cesta, ela jogou, mas ao mesmo tempo, Hannah lhe empurrou com os seios. A garota caiu para trás, deixando cair os óculos.
— Cesta de três pontos! — alguém gritou. — Vencemos!
— Onde estão os meus óculos? — Heather sentiu mãos grandes e peludas em suas costas.
— Estão aqui. — o treinador Murphy avisou, colocando nas mãos dela.
— Obrigada.
— Aquela foi uma cesta e tanto. — elogiou a ajudando a levantar. — Estou precisando de novas jogadoras no time. Se quiser fazer o teste...
— Obrigada, técnico Murphy, mas tenho outros planos para esse ano.
— Tudo bem, mas se acontecer alguma coisa, o teste é amanhã às quatro.
— Certo.
Heather pôs os óculos no mesmo instante em que Hannah puxou Stan pelos ombros e o beijou exageradamente na arquibancada. Eles faziam um casal atraente apesar de não parecerem combinar um com o outro. Ela se perguntou se Hannah sabia sobre as condições de Stan e sua mãe, o modo como ele ficou bravo quando Heather foi a sua casa deixou claro que ninguém sabe sobre sua família, o que enfatizava que a vida popular é uma fachada.
Todos foram ao vestiário tomar banho para voltar ao último período. Os chuveiros femininos ficaram todos ocupados, então Heather teve que esperar no banco próximo aos armários do vestuário. Ela pegou o seu celular e começou a mexer sem um objetivo específico enquanto ouvia um pop nos fones de ouvido.
Stan saiu do banho, se enrolando imediatamente numa toalha branca.
— Stan, vem ver isso. — Noah chamou.
Ele se aproximou do amigo que lhe mostrou um vídeo com duas protagonistas: sua namorada, Hannah, e Heather. Noah pôs para repetir infinitas vezes o momento em que Hannah derruba Heather no chão. Os garotos ao redor riam sem parar enquanto Stan soltou uma risada rápida.
— Vou enviar para o pessoal do colégio.
— Não é melhor ficar só entre nós? — Stan sugeriu.
— O que foi, Stan? A sua namorada está na melhor aqui, não tem com o que se preocupar. — Stan coçou a nuca. — A não ser que esteja preocupado com a Quatro Olhos...
— Não, não estou! — confessou rapidamente. — Quer saber? Pode enviar o vídeo.
— Esse é o Stan que conheço. Me empresta o teu celular. — obedeceu.
Noah enviou o vídeo para todos no colégio, inclusive aos que já haviam visto.
— Eu vou ver a Hannah. — informou e se encaminhou a ala feminina.
Stan caminhava perto dos armários quando viu um par de pernas nuas balançando no banco, chegou mais perto, observando mãos segurando um celular no colo enquanto se mexia no ritmo da música nos fones de ouvido. Stan se aproximou mais e descobriu a dona daquele corpo, ele caminhou em direção a ela, observando o rosto pálido, os cabelos presos em um coque frouxo e os olhos fechados. Stan constatou que Heather apesar de ser uma intrometida do caralho era até bonita, se ela arrumasse o cabelo, vestisse roupas melhores...
— Amor? — uma voz veio da esquerda. — Esse é o vestiário feminino.
Heather também ouviu alguém falar e abriu os olhos se assustando com a presença do garoto enorme a sua frente. Ele estava mesmo a observando?
— Eu vim te ver, Hannah. — respondeu sem olhar à namorada.
— Estou aqui. — ela se aproximou virando o rosto dele com força e o beijando em seguida. — Vamos sair hoje?
— Tenho treino.
Heather franziu o cenho ao constatar que aquilo era mentira. Stan percebeu que Heather sabia a verdade e se apressou em terminar a conversa.
— Podemos sair amanhã?
— Sim, mas saiba que tinha preparado algo especial para hoje... — ela sorriu maliciosamente.
— Humm. — ele sorriu. — Guarda para amanhã.
— Tá bom...agora sai do vestiário, não quero que umas e outras fiquem te secando. — indicou Heather com os olhos.
— Está bem, Hannah.
Stan sorriu e deixou o local, mas antes deu uma rápida olhada em Heather que se encontrava com os braços cruzados e a expressão fechada.
Stan ficou escondido atrás do bebedouro até todas as garotas saírem do vestiário, mas uma não queria sair. Puta Heather! Apareça!
A loira caminhou à entrada do local com os cabelos molhados, um vestido azul estampado com flores amarelas por toda sua extensão e um cardigan bege extremamente grosso.
— Hey! — uma voz grave soou.
— Ai, Senhor! — a garota se assustou.
— Preciso falar com você. — Stan apareceu a ela.
— Mas eu não quero falar com você. — se encaminhou para fora da quadra.
— Hey, hey! — chamou. — Por quê? — ele a segurou pelo braço.
— Eu te ofereço ajuda e é assim que me agradece? — indagou furiosa.
— Do que está falando?
— O vídeo. Já não basta a humilhação que passo todos os dias...
— Calma! Eu não enviei isso!
— Ainda tenho que aguentar a repetição...
— Hey! — chamou a segurando pelos braços. — Não me ouviu? Não fui eu!
— No meu celular diz que foi você!
— O celular é o meu, mas foi o Noah quem enviou...não fui eu. — disse a última parte quase sussurrando.
— Ok,desculpe...você pode me soltar agora? — obedeceu. — O que quer falar comigo?
— Preciso que isso entre nós fique em segredo.
— O que? Por quê?
— Você não pode fazer nada sem saber o porquê?
— Não, me diga o motivo.
Stan coçou a nuca, assanhando o cabelo em seguida. Fitou a loira que se encontrava curiosa e determinada a saber a resposta.
— Não quero que as pessoas saibam que estou com dificuldades. — confessou.
— É um bom argumento, mas...nem sua namorada?
— Hannah não entenderia. Ela não se preocupa com o dinheiro, sabe?
— Claro, é filha do prefeito...como iremos esconder de todo mundo? Quer dizer, a cidade não é tão grande assim.
— Você não tem amigos, certo? Fica mais fácil.
— Quem disse que não tenho amigos? — perguntou indignada.
— Nunca vejo você com ninguém.
— Mas isso não significa...
— Tá, tá, tá. Você fala demais! — reclamou. — Vamos dar um jeito...nos encontramos na sua casa à noite?
— Tudo bem. — concordou. — Eu preciso ir agora.
— Tá. Tchau. — quando ela estava saindo da quadra ele gritou.
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