A lógica do amor
6 Country
Notas iniciais
O fim de semana reservou várias surpresas a Stan, a primeira foi que os Warriors iriam jogar na quarta-feira abrindo a estação de jogos, a segunda era que precisava arranjar um emprego, pois estava ficando sem grana para sair com Hannah e, com isso vem a terceira surpresa, a sua namorada finalmente permitiu que eles chegassem a um outro nível da relação.
Sim eles transaram, foi intenso, quente e muito gostoso, mas ambos sentiram que faltava algo para que fosse completo. Hannah se posicionou ao lado de Stan na sua cama, brincando com os pelos no queixo dele enquanto o garoto apenas olhava para o teto sem um objetivo específico.
— Foi bom para você? — ela indagou.
— Foi ótimo.
Stan voltou a se concentrar no teto como se fosse um crítico de arte e a sua frente estivesse disposta uma importante obra.
— Stan... — chamou. — Você me ama? — o garoto a fitou rapidamente.
— Qual o motivo dessa pergunta?
— É só...eu tenho sentido você meio distante e calado. Eu quase não sei nada sobre você.
— O que não sabe sobre mim? — a garota conseguiu a sua atenção.
— Sei lá! Não lembro de nada para perguntar agora. — choramingou.
— Não precisa se preocupar, Hannah, eu estou...bem.
— Você irá me dizer quando não estiver?
Stan sorriu e a beijou nos lábios pequenos, interrompendo a conversa e livrando o garoto de uma promessa que não esperava cumprir. Mas não podia deixar de dar razão a Hannah, ele estava mesmo mais distante devido as aulas à noite e não tinha nada de interessante para falar com sua namorada, quer dizer, nada que ela se interesse em saber. Hannah não falava nada além de futilidades, não que ele fosse super culto e discutisse sobre a situação política no país...só sentia muita falta dos assuntos que tratava com Heather quando ficavam fartos de estudar. Parecia que ninguém sabia conversar, ninguém satisfazia o vazio que Stan sentia.
Na segunda-feira, Stan avisou que não poderia ir estudar na casa de Heather porque sua mãe havia feito a sua primeira quimioterapia e ele precisava estar por perto para ajudá-la no que fosse necessário. Heather concordou entendendo a situação e se encaminhou ao banheiro feminino no final do corredor.
— Então vocês finalmente transaram? — ouviu um voz que parecia ser de Sheila.
— Sim, no sábado. — Hannah respondeu em desdém.
— Sabe o que dizem quando o casal finalmente transa depois de um bom tempo de namoro? — Rachel indagou.
— O que?
— O relacionamento se fortalece e não há nada que possa separá-los depois disso.
— Eu não o largaria por nada.
— Você ama ele, Hannah?
— É. — disse em desdém. — Acho que sim.
As garotas saíram rindo do banheiro por causa de alguma coisa que Sheila falou, deixando Heather a olhar sua aparência no espelho. Eles transaram. A garota não entendia porque aquilo a afetou, afinal eram apenas amigos e não ficariam juntos nunca. Quem já viu o capitão do time de basquete namorar a nerd solitária? Isso só acontece em filmes de besteirol americano. Ela saiu do banheiro com uma pequena dor no fundo de sua consciência.
Stan se encontrava deitado em sua cama, ouvindo uma música no toca-discos que seu pai havia deixado para trás quando ouviu a campainha tocar. Nem se despertou a ir atender, pois não recebia nenhuma visita desde que sua mãe adoecera, os seus amigos não queriam ficar em um lugar onde não pudesse fazer barulho nem que fosse um chiqueiro de porco.
— Stan! — ouviu Jonas gritar com a sua voz grogue. — Tem uma visita para você!
O garoto arregalou os olhos, desligou o som e desceu as escadas as pressas. Alguém tinha vindo lhe visitar? Que pessoa doida era e...
— Oi. — Heather estava parada na sala de estar.
— O que faz aqui? — perguntou incrédulo.
— Se Maomé não vai a montanha...
— A montanha deveria ficar no lugar dela. — Stan completou um pouco ríspido.
— Só estou querendo te ajudar. — levantou as mãos em gesto de rendição.
— Fique feliz por uma pessoa aparecer aqui para te ver, Stan. — Jonas comentou se deitando no sofá em seguida.
Stan fuzilou Jonas com os olhos e depois fitou Heather. Ela vestia um suéter branco, uma saia azul fina com um cinto marrom, um sapato igualmente marrom e uma peça que o fez abrandar o seu cenho, meias brancas com o comprimento até o joelho. Ele esfregou o rosto com uma mão e disse:
— Vamos lá para cima.
Heather sorriu e o acompanhou até o seu quarto. Era um ambiente com paredes escuras, pôsteres de bandas de rock em todos os cantos, um violão ao lado da cama simples e um toca-discos no canto esquerdo do quarto.
— O seu quarto é bem preto.
— É, eu gosto de preto.
Stan se jogou na cama e Heather continuou em pé observando o local. Um porta-retrato no criado-mudo lhe chamou a atenção, era uma foto de um casal sorrindo e um menino loiro no meio igualmente feliz. Ela suspeitou que o homem loiro na foto fosse o pai de Stan.
— Posso te fazer uma pergunta? — ela indagou.
— Acabou de fazer. — ela revirou os olhos.
— O que aconteceu com o seu pai?
Stan virou a cabeça, fitando o teto com o rosto inexpressivo. Ele deu leves batidas no colchão sinalizando para ela sentar ali. Heather se aproximou, deitando ao seu lado e imitando a sua posição.
— Quando eu tinha treze anos,costumava descer à cozinha durante a noite, mas...em uma noite, encontrei um bilhete pregado na geladeira com os dizeres: Fui atrás de condições melhores. Não me esperem para o café da manhã.
— Ele nunca mais apareceu.
— Não. — deu uma longa pausa pesada. — Ficamos sem chão por muitos meses, mas as contas não se pagariam sozinhas, então minha mãe arranjou um emprego como faxineira e, em uma das casas, ela conheceu o Jonas. Na época, ele trabalhava em um escritório e ofereceu refúgio a todos nós... até desistir de tudo para se tornar um "astro do rock".
— Talvez a sua mãe ainda esteja com ele por querer que você tenha uma referência masculina.
— Jonas não pode ser considerado nem homem quanto mais uma referência! — retrucou.
— Ele é gay? — indagou surpresa.
— Não! Quer dizer, eu acho que não. — disse rapidamente. — Um homem não deixaria a mulher pela qual escolheu passar o resto da vida desamparada desse jeito.
— Gosto do jeito como você pensa.
Eles ficaram mais alguns minutos em silêncio até que Heather perguntou:
— Você sente falta dele?
— Às vezes...ele tinha o dom da fala, entende? Sabia como convencer alguém a fazer o que quisesse. — procurou os olhos dela. — Você me faz lembrar dele.
— Sério? — fitou o par cristalino. — Isso é bom ou ruim?
— É bom.
Ela sorriu sem graça para ele que mordeu o lábio inferior. Naquele momento, uma música começou a tocar bem alto assustando os dois e quebrando o clima. Stan se levantou em um pulo, tentando desligar o toca-disco rapidamente.
— O que é isso? — Heather perguntou sorrindo.
— Não é nada. — respondeu apressado.
— Isso é country! — se levantou rindo. — Você escuta country?
— Não...caralho! Por que essa merda não desliga? — indagou batendo no aparelho.
— Não tira! Vamos dançar! — ela começou a se mexer como uma cowgirl.
— Eu não escuto...não escuto mesmo.
— Tudo bem, Stan. Não estou te julgando. — mordeu o lábio inferior. — Vamos dançar!
Stan olhou apreensivo para Heather que dançava sozinha de qualquer jeito. Ele riu e se aproximou, a puxando em seus braços.
— Vou te mostrar como se dança um verdadeiro country.
Ele circundou a cintura dela com uma mão e segurou a mão dela com a outra. Eles começaram com um movimento simples de vai-e-vem, mas depois pegaram o jeito e começaram a rodar pelo quarto. Os pés não paravam quietos enquanto quase pulavam do chão de acordo com o ritmo de Billy Ray Cyrus.
— Eu me sinto em Footloose! — Heather confessou animada.
— Se prepara que o ritmo vai acelerar agora.
Ele a apertou mais e logo estavam dançando tão colados um no outro que não era possível saber onde começava o Stan e terminava Heather, pareciam ser um corpo só. O ritmo acelerou mais um pouco e eles começaram a rir sem conseguir acompanhar a música.
— Não... consigo! — confessou entre risos. — Está muito rápido!
— Nem eu. — respondeu ofegante.
— Você é um bom dançarino...deveria participar do Dancing with the Stars. — ele riu nos cabelos dela.
— Não sou uma celebridade.
— No Hayden você é.
— Não sou uma celebridade agora. — fitou os seus lindos olhos. — Apenas o velho Stan que escuta country escondido.
— E eu sou uma intrometida que descobriu tudo, não é?
— Sim, você é. — riu acariciando a bochecha dela. — Mas eu gosto.
Ela sorriu enquanto mordia o lábio inferior. Ele era tão fofo, engraçado e cuidadoso que não entendia porque não mostrava aquele lado para as pessoas no colégio, com certeza continuaria sendo o astro, mas pelo que realmente é e não o contrário. O sorriso dele era tão lindo, tão genuíno e verdadeiro que Heather não conseguia deixar de sorrir junto com ele. Os seus lábios se moviam de um jeito diferente, quase infantil, quando falava de algo empolgante e tinham um volume perfeito para beijar... O relacionamento se fortalece e não há nada que possa separá-los. Heather não queria ficar no meio de um casal que estava destinado a ficar junto, mesmo que aquilo de alguma forma doesse em sua consciência.
— Você quer ver a minha mãe? — indagou libertando a garota de seus pensamentos.
— Sim.
Eles se desgrudaram com um pouco de relutância e seguiram ao quarto no fim do corredor. Natasha estava deitada sobre a cama grande lendo um livro de Agatha Christie.
— Mãe...uma pessoa gostaria de te ver. — Stan informou.
Heather sorriu, levantando seus dedos no ar meio sem graça. Natasha baixou o livro para fitar a garota tímida a sua frente e sorriu fracamente em seguida.
— Olá, senhora Ford...sou Heather. Heather Summers.
— Oh...Heather! — fitou Stan como se compartilhassem algo que ninguém mais sabia. — Prazer em conhecê-la. Gostaria de te preparar um café ou chá, mas estou muito cansada.
— Não tem problema. Já é um prazer conhecer a mulher que Stan carrega com tanto apreço.
— Você fala muito bem. Me faz lembrar... — deu uma pausa. — Enfim, soube que você está ajudando o Stany a conseguir a bolsa esportiva em Stanford.
— Sim e devo dizer a senhora que não tem sido uma tarefa fácil...
— Eu imagino, Stany não é uma pessoa fácil de lidar.
— Ok...a sessão de "vamos reclamar do Stan enquanto ele está aqui" começou. — pontuou amargamente.
— Não liga pra ele, só faz esses comentários sarcásticos para aliviar a tensão. — Natasha sussurrou.
— Eu já estou acostumado com isso, senhora. — sorriu e fitou o livro nas mãos de Natasha. — Um corpo na biblioteca.
— Ahn? Ah...sim. — fitou a garota. — Já leu? É muito bom?
— Não é o melhor livro da Agatha, mas é bom sim.
— Uma adolescente que gosta de ler...surpreendente. — Natasha fitou Stan e sorriu. — O que mais você faz no Hayden?
— Eu participo de competições de natação...
— Sério? — Stan perguntou surpreso. — Não sabia disso.
— Já fiz parte do corpo jornalístico do colégio, participo do Decatlo Acadêmico de vez em quando e para a minha vergonha, atuei em uma peça ano passado... Não pergunte! — ordenou ao garoto.
— Uau! Qualquer mãe ficaria orgulhosa de ter você como filha.
— Ahn...obrigada. — respondeu sem graça.
— Está na hora do seu remédio, mãe. — Stan avisou entregando o comprimido.
— Eu gostaria de conversar mais, meninos, mas esse remédio me deixa sonolenta, então é melhor nos despedirmos.
— Tudo bem, já está tarde. Tenho que voltar para casa. — se levantou. — Boa noite, senhora Ford.
— Boa noite, Heather...a acompanhe até a porta Stan.
O garoto concordou com a cabeça e conduziu Heather até a porta. Stan ficou observando os seus olhos azuis por trás dos óculos, eles brilhavam como duas luas cheias em uma noite sem nuvens.
— Obrigada por ter vindo.
— É para isso que servem os amigos, eles apoiam um ao outro.
— Neste caso, quero que me apoie no jogo quarta-feira.
— Stan... — choramingou. — Você sabe que não gosto de ambientes super lotados de gente.
— Eu sei, eu sei. — buscou as mãos dela. — Mas será um jogo importante...por favor, Pony.
Ele olhou para ela com a mesma expressão que um cachorro faz quando o dono o leva para tomar banho, os olhos tristes, os ombros baixos e os lábios desenhados em uma linha fina.
— Eu vou tentar. — Stan sorriu largamente. — Mas não prometo nada.
— Tudo bem, realmente será um jogo importante.
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