Luís se reunia com seus amigos geralmente em sua casa, mas às vezes iam para a deles. João, Marcelo e Fernando eram próximos do namorado de Luana e o laço deles era algo fortificado pelos mesmo gostos que permitia experiências que somente aqueles que partilham do mesmo prazer são capazes de entender. Do conceito de buscar sua “tribo” esses quatro adolescentes se aventuravam no universo geek explorando o mundo dos games e dos otakus que lhes rendia sempre uma novidade. Assim suas reuniões no fim de semana eram longas por causa de algum novo jogo a ser jogado ou uma temporada de anime a ser assistida.

Isso rendia uma aliança que tendia a se perpetuar por longos anos, uma amizade genuína.

— Ajoelhem-se perante mim, seus seres inferiores!

Berrou Luís com um saber de luz de plástico da cor vermelha apontando para os três no canto oposto do quarto de João.

— Traidor! – gritou João dono da casa.

— Herege! – completou Marcelo.

— Como ousa quebrar o ciclo sagrado de nossa amizade! – berrou Fernando.

Todos os três com sabres de luz da cor azul. Não eram sabres de verdade, se limitavam a bastões de plástico fosco onde na empunhadura havia uma bateria que acionava uma lâmpada fina no interior da peça. Os meninos compraram numa feira do Star Wars no ano passado.

— Eu não devo explicações a baratas! – Luís falava alto – baratas não tem o direito de falar de igual para igual com humanos! De joelhos!

Os três partiram para cima de Luís e começou uma luta confusa com eles batendo o plástico brilhante uns nos outros, depois se agarraram caindo no chão um tentando bater no outro numa mistureba de braços e pernas, xingamentos e sabres de luz. Uma batalha Jedi contra Sith que envergonharia ambos os lados. No outro canto, isolado da bagunça em frente da tv, jogando um videogame recomendado por João, Íkaros ignorava os quatro amigos. Fazia pouco tempo que tinha começado a andar com eles devido a um convite insistente de Luís.

Íkaros não tinha amigos, na escola devido a vários problemas seus colegas o evitavam, os professores não podiam fazer muito porque o rapaz já ia a um psicólogo e tinha boas notas apesar do péssimo convívio social. Luís o convidou a ir comer um lanche num dia em que os outros três iriam porque Íkaros já o tinha ajudado bastante e Luís sentia-se com pena da situação do colega por isso decidiu arriscar. Antes tinha contado para Fernando, João e Marcelo a condição peculiar de Íkaros. Ele tinha sofrido bastante e criara uma namorada falsa a qual acreditava de verdade ser real. Os amigos ficaram com receio no começo pelo doido, mas enquanto estavam juntos Íkaros se provou alguém normal, um tanto passional e sempre interessado no que eles ofereciam, seja jogos, mangás, ou outra atividade desse universo. O adolescente havia se acostumado com o jeito maluco daqueles quatro, eles se reuniam com frequência, conversavam e discutiam quase o tempo todo chegando a se atracar como agora sendo que no máximo uma hora depois já estava tudo bem conversando como se nada tivesse acontecido.

Íkaros achava aquilo incrível.

Depois de alguns minutos, cansados e doloridos os amigos estavam sentados pareados uns com os outros enquanto Íkaros continuava focado no jogo que tinham lhe dado.

— Então... como foi o sexo? – perguntou Fernando.

— Idiota – disse Luís — acha mesmo que vou revelar minha intimidade com minha amada? Vocês saberem que nós transamos já é o limite. Qualquer coisa além disso Luana vai apertar minhas bolas.

— Isso! Se gaba por ter uma mulher que quer apertar suas bolas! – reclamou Marcelo.

Luís, Fernando e João olharam para Marcelo com uma expressão de estranheza.

— O quê? Nem se for para nos punir uma garota encostaria no nosso saco.

Seu argumento era válido e os amigos aceitaram.

— De qualquer modo, vocês agora devem me tratar com respeito, como se eu fosse um superior hierárquico, estão abaixo de mim na escala da sociedade... seus virgens! Hahahahaha.

Os três avançaram para cima de Luís iniciando um novo bolo de golpes e movimentos dessincronizados. Quando se acalmaram tentaram se arrumar ignorando os arranhões na pele e os petelecos recebidos na orelha, foi aí que perceberam que estavam sozinhos no quarto.

— Ué, cadê o asas-de-cera? – perguntou Marcelo.

— Deve ter ido no banheiro. – Fernando engatinhou até o console e olhou para a tela da tv. — Hã... João você deu para ele jogar o metal war 4 e botou o cara já na fase dos dragões mecânicos?

— Do que você está falando? – João engatinhou para perto do amigo — eu deixei ele jogar o jogo desde o começo, a fase dos dragões mecânicos seria muito avançada para quem nunca jogou o jogo.... hã? Hein?!

Luís e Marcelo também se aproximaram, o jogo estava pausado na referida fase. Era muito avançada como João disse, ele mesmo tinha levado uma semana para chegar naquele ponto, passar pelo boss da fase anterior era algo muito complicado porque precisava de um item que só existia na primeira fase do jogo, assim o jogador precisava voltar três fases, pegá-lo e então ir para frente.

— Ele já chegou nessa fase. – disse João.

— Impossível. Estamos aqui há quanto tempo? Umas quatro horas? – Marcelo estava embasbacado.

— Caralho como ele fez isso?! – Luís.

— Tem como fazer isso?! — Fernando.

Enquanto os quatro contemplavam as estatísticas do jogo para ver os níveis que Íkaros havia chegado o mesmo adentra pela porta junto da irmã mais velha de João, Maria. Ambos carregavam cada um uma bandeja de madeira com refrigerantes, e conversavam amistosamente. Os quatro amigos olhavam com expressões como se alguém houvesse cagado numa nota de cem reais e grudado ela cheia de merda no rosto.

Deixaram as bebidas no chão perto do grupo quando Íkaros fala.

— Bebe com a gente.

— Não, tá tudo bem. Só vim te ajudar, pode ficar à vontade. João, vem cá um instante.

Ela saiu do quarto e os amigos se entreolharam totalmente confusos, o episódio era tão surreal que não havia uma reação física apropriada a ser feita. Maria coloca a cabeça para dentro do quarto e torna a chamar amigavelmente o irmão. Pelos anos que eles andam juntos Marcelo, Fernando e Luís sabiam que Maria tinha uma personalidade forte em relação ao irmão, ou seja, brigavam muito. Maria tinha um jeito parecido com a de Cosete, era uma universitária de pele branca com longos cabelos alaranjados e algumas sardas polvilhando o rosto, sem grandes curvas era esbelta como Luana.

Com medo, João se levanta e sai do quarto indo até o corredor. Os três então fazem um silêncio sepulcral para tentar ouvir o que ela queria e conseguem escutar a voz de João um pouco alterada.

— Hã?! O contato do Íkaro, pra quê você quer?

.......

— E eu sei lá, porque diabos você quer o número de um cara do ensino médio?

.....

— Ai,ai, ai,ai, ai, solta minha orelha, solta caralho, tá bom tá bom... tá bom eu pergunto!

Íkaros já bebia um gole do refrigerante enquanto Marcelo, Fernando e Luís tentavam disfarçar fingindo prestar atenção na tela da televisão quando João voltou ao quarto com uma mão à orelha vermelha.

— Então Íkaros, parece que minha irmã é uma maldita assediadora de menores e quer seu contato. – ele se senta para pegar um copo de refrigerante.

— É bonito a interação de vocês irmãos, dá pra ver que se gostam muito.

— Arrã, tipo Hitler com os judeus.

Os outros três se reuniram e perguntaram que diabos havia acontecido, Íkaros não havia entendido a pergunta e eles queriam saber se o rapaz já conhecia a irmã de João.

— Hã... não, como vocês estavam muito ocupados eu fui comprar um refri para gente, e quando desci as escadas para sair percebi que não tinha a chave do portão nem sabia de nenhum lugar próximo para comprar, a Maria estava na sala mexendo no celular então eu pedi ajuda para ela. Muito gentil de sua parte me acompanhar.

Os quatro se entreolharam. João aproximou-se de Íkaros pondo as duas mãos em seu ombro.

— Escute, namorar minha irmã é um destino que eu não desejo nem ao pior dos meus inimigos. É tipo comer com o ânus o pão que o diabo amassou.

Íkaros sorriu, um sorriso gentil.

— Entendo que esteja preocupado com quem se envolva com ela, deve ser natural do irmão se preocupar com a irmã.

João soltou ele tentando esconder a face rubra que mostrava.

— Não, não, não. Você não entendeu, estou tentando proteger a pobre alma que será sugada por aquele monstro. Acredite em mim.

— Está tudo bem João, eu realmente sou grato pelo interesse de sua irmã, mas tenho namorada então recusarei a oferta mesmo que seja apenas uma troca de contato.

Nesse momento os quatro amigos hesitaram e um clima desagradável pairou sobre o quarto. Cada um pegou o copo para beber o refrigerante em silêncio, realmente Íkaros tinha um comportamento quase normal que eles esqueciam o lance da namorada imaginária.

— Pois então – disse Luís para quebrar o silêncio constrangedor — como você chegou a fase dos dragões mecânicos tão rápido!?

***

Já de noite Íkaros e Luís voltavam para casa de a pé. A noite era tranquilo naquele setor residencial de classe média alta, havia poucas pessoas na rua fria mesmo que ainda não sejam nem dez horas da noite. Entre conversas fúteis e temas rasos Luís ficou calado um instante olhando para o céu enquanto caminhava, estava perdido em pensamentos até que bateu com o queixo num poste de luz e caiu de bunda no chão choramingando. Íkaros não riu, mas ficou olhando calado a cena como se tentasse entender. Depois que ajudou Luís a ficar de pé perguntou se ele estava com algum tipo de problema mais grave na vida. Luís olhou para o colega de psicólogo e suspirou pesadamente, queria desabafar só que não podia fazer isso com João, Marcelo e Fernando pelo orgulho e também porque aqueles caras possuem um parafuso a menos devido ao quesito inveja. Eles realmente estavam agoniados por não conseguirem uma namorada.

Íkaros tinha uma, era imaginária, mas para ele era tão real quanto uma de carne e osso, assim arriscou e contou tudo. O rapaz de nome grego ouviu no mais sublime silêncio com a mais potente atenção e quando Luís terminou de falar acenou com a cabeça.

— Quer conversar com Violeta sobre isso? Ela é mulher e é de confiança, saberá aconselhar.

Luís se sentiu um idiota, mas pensou que Violeta era uma parte da mente de Íkaros, então não viu por que não. Caminharam até uma rua onde havia um grande pé de manga na calçada e com a noite e um poste de luz longe a sombra que ela proporcionava era densa, quando chegaram perto Íkaros parou rente ao limite da luz com as trevas esticou o braço na direção de Luís.

— Este é um amigo, já apresentei você uma vez, lembra dele?

O namorado de Luana olhou de um lado para o outro para ter certeza de que ninguém conhecido passaria por aquela rua e filmaria eles com um celular. Dois adolescentes conversando com um pé de manga. Embora Luís tenha forçado as vistas para ter certeza de que nas sombras não havia ninguém. Íkaros contou o drama pessoal do amigo e Luís sentia vergonha e ansiedade ao mesmo tempo porque era como se estivesse numa roda de espíritas, umbandistas, satanistas e alguém estivesse falando com uma entidade por ele.

— Como Violeta é tímida com estranhos, é melhor eu falar.

— Por favor – disse Luís sentindo-se cada vez mais idiota.

— Provavelmente foi uma péssima experiência para sua namorada, Violeta acredita que ela não queria realmente fazer com você naquele momento, mas se sentiu pressionada.

Os choques das palavras conciliaram exatamente com o receio e a culpa a qual Luís carregava consigo.

— Agora ela meio que pegou ranço de você, porque em seu maior íntimo sofreu uma experiência dolorosa e não consegue conversar contigo sobre isso por vergonha. Foi a primeira vez que a viu nua?

Luís só pode acenar com a cabeça e sem pensar direito perguntou diretamente para a sombra da árvore o que ele deveria fazer. Levar presentes? Pedir desculpas? Já fazia mais de duas semanas e Luana continuava fria com ele, mantendo uma espécie de distância como se tivesse nojo de Luís e isso o estava matando por dentro.

— Dê mais um tempo a Luana. Se afaste completamente por uns dias, dê a ela espaço. Não busque chegar perto e apenas mande mensagem no celular, mas nunca relacione nada sobre a noite que transaram.

Luís levou as duas mãos à cabeça.

— Sim, farei isso... só que... só que... Deus o que eu fiz?! Eu... eu... eu machuquei ela porque meu pênis é muito grande? Digo, 14 cm é algo a se levar em consideração né?

Íkaros arfou em desânimo e tentou acalmar Violeta nas sombras da mangueira. Aparentemente ela estava muito brava com o comentário já que Luís se provava ser de um tipo raro de idiota, um que realmente não via as entrelinhas do cenário, não porque não queria ou porque era egocêntrico e sim por que simplesmente não conseguia.

— Olha Luís – Íkaros respirou fundo – quando for conversar com sua namorada nunca, nunca, em hipótese nenhuma, faça um comentário desse tipo, tudo bem? Não quero entrar no íntimo seu e de sua garota só que... você perguntou para ela o que fazer?

— Hã?

Íkaros coçou a testa e tentou acalmar a namorada novamente.

— Ok, vamos de novo. Durante o ato, conversou com Luana sobre o que ela gostava, como estava indo, se ela estava desconfortável ou se queria fazer algo diferente do que estava sendo feito?

— Não, assim eu ia parecer um virjão idiota. Eu tinha que passar confiança para minha garota, para ela sentir-se segura que eu sabia o que estava fazendo. Um cara experiente!

— Mas ela sabia que você era virgem.

— Aí eu perdi no argumento.

— Violeta está dizendo entre palavras de baixo calão que você precisa, numa relação sexual, levar em consideração a parceira que... que, bem, não é igual uma punheta que você imagina as posições ou acredita na atuação sagaz da atriz pornô. Tem muitas questões em jogo, várias coisas sobre a biologia de uma mulher... hã... você estimulou aquela região dela?

Deu tela azul na mente de Luís.

— Estimular...? Como a assim? Eu... eu... sabe... eu levei a mão lá... e bem... você sabe, eu levei a mão lá e isso... isso é o bastante, né? O DJ.

— Ela estava gostando?

— Claro que estava... digo... ela parecia... eu acho... sinceramente não sei, eu não prestava muita atenção nas coisas a minha volta, estava com tanto tesão que parecia que tinha sido transportado para uma outra dimensão.

— Certo. Dê um espaço para sua namorada, depois a chame para conversar pessoalmente sobre isso. Caso vocês façam novamente imagine que é um descobrimento, uma dungeon, um mapa de um game que você nunca jogou. Estude, pergunte. Mude a forma, o jeito e qualquer coisa mediante as instruções da garota, ok?

Eram bons conselhos e novamente a mente de Luís bugou. Como um cara da sua idade poderia levar tanto em consideração? Seria fácil supor que se ele realmente tivesse uma namorada aquelas palavras seriam naturais. Só que não. Não tinha como ser! Até onde Luís sabia Íkaros ainda era virgem, mesmo que ela fale que faz sexo com a mulher imaginária, não é sexo de verdade. No máximo uma masturbação com uma imaginação bem fértil.

— Hã... obrigado pelos conselhos.

— Não são meus, agradeça a Violeta. É sempre bom ter a opinião de uma mulher.

Olhando para a sombra densa da mangueira Luís engoliu seco pensando se realmente tinha alguém ali e por um momento achou mesmo ter visto a figura de uma pessoa atrás do tronco grosso, mas preferiu crer que era sua imaginação.

— Obrigado... hã... obrigado Violeta.

***

“Click” meu corpo deu outro espasmo com o medo do possível tiro. Terceira falha! Eram cinquenta por cento de chances e falhou! Isso é alguma piada de Deus, se bem que quando eu me matar devo ir para o inferno então é alguma piada do diabo?

Rio com meu próprio pensamento olhando para o 38. Abro novamente o tambor para checar as munições. Será que a pistola está com defeito? Pensando bem essa porcaria é do meu avô, talvez nem funcione mais.

Então direciono o cano da arma para o lado na direção de uma árvore, puxo o gatilho e som do disparo machuca meus tímpanos deixando meu braço tremendo. Largo a arma no chão aspirando cheiro da pólvora. Certo, certo, a pistola funciona. Respiro fundo percebendo todo meu medo e novamente penso qual a necessidade, qual a lógica de um suicida sentir medo? Um instinto primitivo de sobrevivência ainda querendo me manter vivo? Pode ser, mas não vai funcionar.

Eu matei a pessoa mais importante da minha vida. Acha mesmo que vou conseguir viver com isso?

A morte pode ser vista como ruim por muitos, mas para alguém vivendo em agonia como eu ela é uma libertação. Esse jogo de roleta russa é meramente uma diversão antes do fim, será bom partir com certa empolgação.

Coloco mais duas munições no tambor. Agora tem 4. São 4/6 de chances. Mais da metade, creio que agora seja mesmo o fim.

Finalmente. Dessa vez as probabilidades estão a meu favor. Giro o tambor e o travo colocando o cano curto na lateral da minha cabeça. Respiro fundo olhando para o abismo a minha frente, escolhi um lugar perfeito para morrer. Depois de atirar meu corpo deve cair nessa escuridão e desaparecer, um fim apropriado para alguém que ficou sozinho no mundo como eu.

Olho para as trevas abaixo de mim e puxo o gatilho.

Notas finais
Agradeço por terem lido até aqui. Posto o próximo capítulo se houver ao menos um comentário neste.