A luz no fim do túnel é um trem bala.
7 Capítulo 7
Foi uma choradeira.
Cosete mandou mensagem e a amiga respondeu de imediato. Um alívio, por que se continuasse naquele clima de guerra fria ela não ia saber o que fazer em seguida. Luana a convidou para ir sua casa e a garota loira pediu desculpas por tudo o que tinha dito, reconheceu que pegou pesado e passou da conta dizendo que Luana era uma verdadeira amiga e que gostava muito dela — já com lágrimas nos olhos — as duas choraram, se abraçaram com Luana também reconhecendo que tinha passado da linha primeiro pedindo desculpas a todo instante e agora conversavam num clima amistoso ao mesmo tempo melancólico. Cosete estava deitada em sua cama agarrada a um ursinho de pelúcia enquanto a dona do quarto estava sentada no puff agarrada aos dois joelhos quase como em posição fetal.
— Sabe, eu tentei terminar com o Luís.
Cosete arregalou os olhos ficando sentada sobre a cama. Elas tinham brigado e ficado sem se falar por três dias, mas a loira jamais imaginou que suas palavras a tinham abalado a ponto de tomar uma atitude dessas.
— Mas não consegui. – admitiu Luana afundando o rosto entre os joelhos — eu o chamei para conversarmos aqui em casa, achei que ele ao menos merecia que eu falasse diretamente e não por mensagem.
Cosete concordou.
— Não pude. Luís pode ter vários defeitos, mas eu fiquei com ele principalmente por uma qualidade em particular que não devo encontrar em mais ninguém: a capacidade de me entender sem eu precisar falar. Eu só enviei um texto pedindo para ele vir aqui em casa, não especifiquei nada sobre o que queria falar e como se soubesse instintivamente que era algo sério, trouxe minha comida favorita e falou um monte de coisas melosas e compreensivas sem que eu pudesse reagir. Me doeu quando ele disse que não importa a dificuldade que eu passasse ele estaria ao meu lado.
A melhor amiga custava a acreditar que alguém tão obtuso e raso como Luís teria tal habilidade, só que tinha aprendido na briga a não criticar o namorado de Luana. Simplesmente não era da conta de Cosete o que havia entre os dois.
— E agora?
— Eu não sei, parecia o certo terminar com Luís porque eu beijei o Enzo, porque acima de tudo eu o traí e ele tinha o direito de saber. Eu pediria perdão é claro só que... só que...
Cosete ficou calada vendo Luana levantar a cabeça com as lágrimas nos olhos.
— ... não pude. A ideia do Luís me odiar pelo que fiz, da avó dele me odiar também me assusta. Realmente me deixa apavorada uma vez que posso estar cometendo o pior erro da minha vida.
A amiga engoliu seco hesitando e novamente teve de admitir que Minerva era melhor do que ela para dar conselhos, apesar da visão pessimista aquela mulher tinha um panorama melhor de como as relações funcionam e o fato de uma mulher como ela ter fracassado no relacionamento só deixa a coisa toda horrível. Cosete não poderia culpar sua amiga por estar em uma situação tão miserável.
— Pode se afastar do Enzo e fingir que aquele beijo nunca aconteceu.
— Sim, acredito que depois de ter esse medo impregnado em mim a resposta seja essa.
“Mas você não vai”. Cosete pensou encarando Luana, que sempre demonstra ser tão forte e decidida na relação com o namorado, aparentar tamanha fragilidade e aos poucos entendeu o que Minerva estava dizendo. Parece uma decisão tão fácil, seguir a ética realmente parece simples quando você não leva em conta como as pessoas são em um primeiro momento. O prazer da companhia de Enzo, a empolgação e o calor os quais Luana devem sentir com ele virão primeiro, ela estar pronta para cortar a relação enquanto fala com Cosete em seu quarto pode até ser forte, mas depois, sozinha em contato com esse cara, as coisas mudam.
É assim que é o ser humano. De imediato prioriza a segurança e o prazer e dependendo do cenário vai usar o prazer até que o medo force algum limite.
Enquanto ouvia os lamentos de Luana Cosete imaginava que também passaria por aquilo, se encontrasse um cara que ela realmente estivesse interessada em namorar pensava se o cenário de amor se converter em seu oposto ou até mesmo em tédio ela teria a coragem para terminar, para quebrar o coração de alguém porque seu egoísmo exigia um tipo de satisfação que o parceiro não conseguia proporcionar mais. Pessoas se tornam objetos de satisfação para o narciso e como um demônio ele exige cada vez mais estímulo levando a questão de infidelidade e troca de parceiros.
Onde está o tal amor que os poetas e os músicos tanto falam? Cadê o sentimento puro, de certeza sublime que os autores de romance escrevem? Onde está a ligação de almas, algo que os fazem se amar até mesmo depois da morte como relatam em suas obras?! É tudo besteira?
“Vou ter que descobrir na prática. Fugir não é uma opção. ”
Quando a conversa saiu do clima ruim e as duas fofocaram por um tempo deixando o ambiente mais leve Cosete tornou a falar do contato do tal Íkaros o que fez Luana hesitar, respirar fundo pondo as mãos nas ancas e pular na cama se sentando ao seu lado.
— Eu tinha decidido não te contar sobre isso, mas talvez seja melhor alertá-la. Luís conheceu Íkaros no psicólogo e... bem... ele contou para meu namorado idiota e lingarudo partes de seu passado que não vem ao caso, só que você precisa saber é que Íkaros é alguém muito machucado. Mentalmente falando.
Cosete franziu o cenho.
— Tudo bem, fazer terapia é comum hoje em dia. Nossa geração se traumatiza vendo um vídeo no tik tok.
Luana balançou a cabeça e pôs o braço no ombro da amiga.
— No caso do Íkaros... bem... o buraco é mais embaixo. Ele sofre de um transtorno que a gente até já viu em filmes ou séries, é até engraçado nas telas só que quando nos deparamos com a realidade o negócio pesa.
Cosete ficou visivelmente preocupada até que Luana contou tudo sobre a namorada imaginária.
***
Em sua casa, lavando a louça a moça loira sentia-se aliviada por ter estabelecido sua amizade de volta com Luana, mas não conseguia parar de pensar na situação de Íkaros. Era bizarro demais para ser verdade. Quanto mais ela pensava mais ia vendo que seus pensamentos entravam num martírio auto induzido, afinal o primeiro homem que realmente lhe chamou alguma atenção é doido. Cosete nunca usaria esse adjetivo, ela entendia que muitas pessoas são vulneráveis mentalmente nos dias de hoje e que esse termo pejorativo só piora tudo, só que doeu o orgulho por ter escolhido um cara que já tem uma namorada imaginária – faz algum sentido? Luana não tinha motivos para mentir e Cosete poderia jurar que ele deu em cima dela lá na casa de Carminda.
Ele deu em cima ou só foi gentil?
Homens supostamente solteiros podem ser gentis com mulheres sem segundas intenções?
Um jorro de pensamentos circundava a cabeça de Cosete. De fato, o rapaz tinha chamado sua atenção, mas era só curiosidade. Não necessariamente se transformaria num romance. Ele tinha esse transtorno e vivia uma vida normal, se o tarado do namorado de Luana e seus amigos conseguem conviver sem problemas com Íkaros por que Cosete seria diferente?
Sim, ela estaria abaixo de um bando de idiotas se deixasse seu preconceito falar mais alto.
Alguns dias depois conseguiu o contato de Íkaros, pediu que Luana mexesse no celular do namorado para achar e copiar – Cosete preferia andar pelada na rua que pedir algo assim para Luís. E agora estava sentada em sua cadeira na escola durante o intervalo olhando para a tela e o número, já o tinha adicionado e descoberto que Íkaros não tinha redes sociais.
Nenhuma.
Estava tudo bem, Cosete só estava curiosa, ele não era perigoso. Alguém que aparenta demonstrar uma mentalidade tão madura e gentil com certeza era seguro – ou um psicopata. Olhando para o aparelho a garota respirou fundo, só queria ver qual era a do rapaz. Talvez se testemunhar de perto o lance da namorada imaginária ela fique com o mesmo medo de Luana e se afaste, antes disso sua curiosidade não permitiria deixar quieto. Todavia, e se ele realmente for perigoso e o contato com Cosete o fizer agir como um maníaco?
“Lá vou eu de novo com meus preconceitos”
E entrou em contato. Respirando fundo mandou um texto genérico que tinha ensaiada centenas de vezes na noite anterior em sua casa.
“ Oi. Meu nome é Cosete, nós nos vimos no jantar na casa da avó de Luís. Eu escutei a conversa de vocês meninos no quarto e queria te perguntar algo.”
A verdade era o caminho mais rápido pensou a garota, e também uma mensagem dessa deixaria Íkaros em cheque e não faria ele se iludir acreditando que Cosete estava mandando mensagens com segundas intenções. Após enviar verificou que o texto foi enviado e chegou no celular do garoto – que por sinal não tinha foto de perfil.
Ele não respondeu de imediato, nem uma hora depois. Duas, três, quatro. Cosete havia terminado o período da escola e fora para casa com a cara grudada na tela, por duas vezes quase tropeçou derrubando o aparelho. Ela não saiu de casa, o horário vespertino passou lentamente para Cosete que acessava as redes sociais e conversava com outras pessoas sempre focada no aplicativo de mensagens esperando uma resposta.
“Talvez eu o tenha assustado? Ele deve ter pensado que eu estou brava? Droga! Deveria ter escolhido outro texto!”
Já de noite, após o banho já de pijama Cosete pulou na cama pegando o aparelho. Estava descrente que ele ia responder, talvez aquele nem fosse realmente seu número ou tinha assustado o garoto – sendo amigo do quarteto da masturbação talvez uma mulher de verdade lhe fosse apavorante.
Então seus olhos se arregalaram com o brilho da tela.
“Boa noite. Peço perdão pela demora a responder, só checo meu celular a noite. Entendo que deva ter escutado coisas desagradáveis aquele dia, o que gostaria de me perguntar?”
Um sorriso brotou automaticamente na face da garota porque Íkaros lembrava dela e por que não escondeu o que os amigos idiotas tinham falado. Respirando fundo começou a digitar na tela do aparelho.
“ Escutei um pouco do que você falou. Os outros eu nem ligo mais, são lixos que me deixam enjoada. Só que você falou algo que até mesmo eu não tinha pensado sobre não conhecermos ninguém de verdade e sim acreditarmos sabermos pelo pouco pedaço de informação que temos.” Cosete pensou em enviar um emoji, mas achou melhor se conter porque Íkaros não parecia do tipo que permitia essas infantilidades.
“Pensei que eu também faço isso e fiquei com vergonha por ter criticado vocês pelo mesmo motivo”
Cosete esperou. Não houve resposta. Esperou mais um pouco e Íkaros nem digitava. Impaciente, voltou a digitar.
“ Está aí?”
“ Sim. Perdão, ainda estou esperando pela pergunta que queria fazer”
Cosete franziu o cenho. Uma garota bonita como ela puxa assunto com um cara e ele age desse modo? Tudo bem que ela realmente falou que queria fazer uma pergunta, só que não era para alguém como Íkaros entender as entrelinhas?
— Espera! Que entrelinhas!? Assim vai parecer que estou dando em cima dele!
“Se isso é verdade, como espera conhecer alguém de verdade? Outras pessoas não serão realmente estranhos a vida toda?”
“Elas são estranhas. Outros seres humanos com culturas e estilo de vidas diferentes dos nossos, que são tomados por pensamentos distintos. Seus valores também serão opostos em muitos casos. Mas acreditamos que os conhecemos quase que automaticamente por que isso gera segurança, uma falsa segurança e precisamos disso para fortificar uma relação”
“Mentimos para nós mesmos?”
“Quase sempre.”
Cosete hesitou. As respostas dele eram rápidas sobre um tema que Cosete considerava delicado, será que ele era um depressivo que via o mundo um lugar escuro e frio por causa dos traumas que experimentou? Ele falava quase como Minerva. Ela respirou fundo e voltou a digitar.
“ Se for assim por que diabos haveria namoros? Por que estranhos se casariam?”
“A resposta mais comum é o prazer imediato que se tem ao acreditar que é amado. Se você foi mimado por seus pais em algum momento e parou para sentir o quão bom foi ser adorado, imagine essa sensação potencializada pelos hormônios que os corpos liberam pela reprodução da espécie somados ao aumento exponencial do ego”
A empolgação de Cosete foi esvaziando. É claro que ele teria pensamentos assim, sua visão de mundo deveria ser tão ruim quanto a de Minerva.
“Você não acredita no amor?”
Cosete perguntou de imediato sem pensar, se arrependeu e não podia voltar atrás por que o rapaz já havia lido, a resposta não veio de imediato. Houve hesitação por um longo minuto inteiro até ela ver pela tela do aplicativo que ele estava digitando.
“Acredito. Acredito que o amor exista, mas ele é um sentimento intangível e totalmente abstrato o que causa erros de interpretação. Não sabemos como ele é, sabemos como nossos corpos reagem quando o sentimos. Mas dizer que uma pessoa externa a nós nos ama é arrogância porque não podemos estar dentro de outro ser humano para olhar sua alma e testemunhar tal sentimento que não possuí forma.”
“ Talvez seja algo que não possa ser entendido, o amor simplesmente é. Sabemos instintivamente quando somos amados.”
Novamente Cosete se arrependeu de ter dito aquilo. Ela estava se empolgando na conversa e falando a primeira coisa que vinha a sua mente. O fato de ter alguém do sexo masculino para falar com ela abertamente sem segundas intenções era uma experiência nova. Na primeira vez em que foi sair com alguém em um encontro seu pai a advertiu que os homens vão falar o que ela quer ouvir, vão concordar e mostrar interesse em qualquer porcaria que Cosete disser porque só vão estar interessado em sexo. Tais conselhos somados a uma arma de choque deu a moça loira lhe uma perspectiva mais realista sobre os homens o que a fez ansiar por uma conversa de verdade igual a uma idiota romântica daquelas séries.
“ Não sabemos.” Ele respondeu e depois de alguns segundos continuou “ Se somarmos a quantidade de fracassos em relações que vemos, ou mesmo em nossas próprias experiências a grande maioria das vezes só acreditamos que somos amados. Amor é uma palavra para um sentimento abstrato, como eu disse, então cada um dá uma interpretação que achar melhor para ele, no fim dizer que somos ou fomos amados é só uma defesa para dizer que a vida valeu a pena, que as experiências com tal pessoa foi valiosa.”
Cosete engoliu seco. Ela já havia visto seu pai em acessos de fúria quando lembrava de sua mãe e ela sabia que em grande parte era por que havia sido iludido que era amado. Por que se há amor sua esposa não foge com outro abandonando a família. E se o amor é algo que pode acabar tão facilmente então ele realmente não é tudo isso que os românticos falam.
“Mas você acredita nele.”
“Sim. Mas acredito na minha interpretação dele.”
Cosete voltou a hesitar mordendo o lábio inferior.
“E qual é?”
“Amor é... uma força magnética que une duas pessoas como uma só a tal ponto que a ideia de abandono e traição nunca sequer passe pela cabeça. Pois abandonar ou trair seu parceiro seria exatamente como abandonar ou trair a você mesmo e nesses casos é melhor se matar de uma vez.”
Cosete engoliu seco sentindo uma pontada de medo. Foram palavras muito intensas, principalmente no final. Para não deixar ele perceber o choque ela digitou a primeira coisa que veio em sua cabeça.
“ Como sabe que algo assim é possível? Um amor nesses moldes?”
“ Por que eu vivo assim.”
Cosete respirou fundo, ela digitou a próxima pergunta e hesitou em mandar. Levantou da cama ficando de pé, estava com medo de perguntar e ainda mais receio de ouvir a resposta. Erguendo a cabeça a adolescente se viu no reflexo do espelho de um metro e meio acoplado na parede. Observou suas formas, seu rosto, seu cabelo e seu cérebro de repente montou um plano, uma ideia que a empolgou em segundos. Cosete apagou a pergunta que tinha digitado e escreveu outra no lugar já enviando.
“Preciso ir dormir agora, mas gostei muito de conversar com você. Não quer ir numa cafeteria nesse sábado para falarmos mais?”
“Tudo bem.”
“Boa noite.”
“Para você também.”
Um sorriso automático brotou na face de Cosete e ela caiu na cama com os braços abertos. A pergunta que havia sido digitada e não enviada era se ele amava alguém com aquela intensidade. Todavia Cosete não queria arriscar ouvir sobre a namorada imaginária, esse assunto não importava tanto quanto a ideia que ela havia tido. Íkaros era realmente alguém firme a seus ideais? Falar aquelas coisas é fácil, mas e provar? Se ele estava namorando alguém – mesmo que só em sua cabeça – o que aconteceria se uma mulher como Cosete desse em cima dele?
— Mas não como uma qualquer, não posso ser invasiva. – ela levou os dedos ao queixo – vou me aproximar como uma amiga... talvez até seja melhor assim mesmo. Ter alguém para poder conversar sobre essas coisas é muito bom, alguém com os pés no chão e não pessimista como Minerva.
Ela voltou a ficar de pé indo para frente do espelho analisando suas curvas.
— Sim, quero ver como um cara como ele reage perto de mim.
***
Festas em lugares fechados funcionam como uma grande bagunça entorpecedora que tem o propósito de nublar o máximo possível os sentidos. Falar? Qualquer meio de comunicação entre os presentes é limitado pelo sons ensurdecedores da música da moda. Ouvir? Pior. Visão? A grande das festas ocorrem de noite em lugares com pouca iluminação branca e muitas coloridas, você não tem certeza de que está no mundo real ou em algum caleidoscópio giratório. O ideal da festa é ser agitada, favorecer o máximo o entorpecimento com auxílio ou não de drogas e bebidas.
Cosete gostava. Gostava da liberdade, da movimentação e de vez em quando das músicas. Buscava beber pouco, o suficiente para ficar alegre, mas não o bastante para tropeçar nas próprias pernas ou não saber com quem estava conversando. Hoje a festa era de calouros de um curso da faculdade de medicina, o tema era branco – não muito criativo – as paredes da boate já eram brancas, mas os organizadores penduraram grandes pedaços de pano no teto que desciam até o chão no meio da pista de dança, flash de luz haviam sido espalhados pelo lugar dando aquele contraste que faz epilético tremer igual vara verde.
As bebidas eram de graça por isso o preço do ingresso era alto, mas Cosete dificilmente pagava por alguma festa. Ela encontrava alguém que gostava dela, pedia seu contato, xavecava e em menos de uma hora a convidava para ir a algum lugar. Ela ia, não conseguia evitar a sensação de ser desejada além de ir a lugares para comer e beber de graça. O contato da vez era Carlos. Um aspirante a cardiologista do 4° ano da faculdade de medicina, alto com cabelos preto cheios de gel, barba preta perfeitamente feita e braços grosso numa camisa polo de tamanho menor para mostrar os músculos – Cosete chamava caras assim de filhotes da academia, eram bebês querendo mostrar para a mãe que estavam “grandes” – ele estava sentado ao seu lado num sofá conversando com alguns colegas a frente, o braço ao redor do ombro de Cosete enquanto a mesma olhava para o celular.
Até hoje ela pensa o quão grata era por ter sido socialmente aceito mexer no celular enquanto alguém fala, isso a poupa de ter que ignorar de verdade ou ser rude com alguém terrivelmente chato. Naquela festa tinha ido só com Carlos unicamente por que não tinha ido naquela boate ainda e por que as festas que o pessoal da faculdade de medicina dá são sempre melhores.
Cosete já tinha dançado, bebido e comido o suficiente, agora estava só matando tempo até o companheiro terminar de falar com os amigos para pedir para ir embora. Apesar do jeito metido de Carlos, ele era alguém que mantinha um mínimo de decência, o que significava aceitar todas as vezes que ela dissesse que “não”. Ele até tinha tentando uma “mão boba” enquanto dançavam, mas facilmente controlável e Cosete agradecia, pois outros foram insistentes demais e ela teve que cortar contato total perdendo a chance deles a chamarem para outros locais.
Ela nunca havia concordado com sexo ou qualquer outro compromisso, os homens a chamavam para sair e ela saia desde que fosse vantajoso para ela. A regra é bem clara, não é? Quem convida tem que pagar a conta, certo? Se ela convidasse alguém ela teria que pagar. Como Cosete é a convidada seria errado mexer no dinheiro, se o “boy” propusesse que dividissem a conta antes do encontro, ela recusaria gentilmente. Por quê?
Graças a seu pai.
O pai de Cosete é um policial com uma mentalidade conservadora, foi traído e abandonado pela esposa ficando para criar a única filha sozinho. Assim, durante todo o crescimento da garota ele explicou não só com palavras, mas também com imagens e vídeos de muitos dos casos que ele havia pegado que envolvia violência contra mulher, estupro e feminicídio. Ele queria mostrar o quão vulnerável eram as mulheres e o quão desprezíveis eram os homens que tinham segundas intenções.
“ Sorte eu não ter pegado gosto por mulheres ou ter medo dele mesmo, já que também é homem” Pensou Cosete, embora conforme saia em encontros via que tudo o que ele dizia era verdade, havia pequenas exceções com alguns rapazes bonzinhos que parecia querer compromisso. Cosete até ponderou namorar um ou dois, mas é ver que eles ficam só encantados por seu corpo para quebrar o encanto. Uma mulher esperta vai entender que um homem quer, no começo, sexo. Puro e simples. E que essa “magia” os confunde, o pau deles controla a cabeça. Eles se enganam achando que é amor e com isso enganam a mulher.
Daí tudo desmorona.
Carlos era igual. Por várias vezes na festa queria que ela bebesse, que continuasse bebendo, Cosete tomou algumas a ponto de sentir feliz e até deu vontade de tomar mais, só que seu sensor de perigo incrustrado por seu pai apitou e ela parou tomando refrigerante o restante da festa. Carlos não conseguiu esconder a expressão de decepção.
No lado de fora da boate, num estacionamento deserto Carlos a levou para o carro, mas antes a puxou para beijá-la. Cosete recusou virando o rosto de lado.
— O que foi?
— Só não tô a fim, aquela bebida fez mal pro meu estômago, acho que vou vomitar. Não quer que eu vomite na sua boca né?
Ele piscou várias vezes. A desculpa de estar “mal do estômago” juntando a parada do “vômito” era uma tática que Cosete desenvolveu sozinha para fazer um crush perder o interesse. Carlos coçou a cabeça, deu um sorriso sem graça.
— Quer tomar algum remédio?
— Ora, prescrevendo remédios sem licença, você não parece que vai ser um médico muito bom.
— Engraçadinha.
Entraram no carro e foram embora, Carlos a deixou em frente a sua casa e Cosete lhe deu um rápido beijo nos lábios dando tchau prometendo entrar em contato. A moça entrou em casa com o celular na mão, e foi para cozinha tomar água. Seus dedos ágeis deslizavam pelo teclado com a precisão e velocidade de uma máquina ao mesmo tempo que abria a geladeira e pegava uma jarra com água gelada. Já havia duas semanas que conversava com Íkaros, o encontro que haviam combinado não ocorreu. O rapaz cancelou, havia dito que tinha machucado as duas mãos e que não seria propício sair de casa por um mês. Cosete perguntou o que tinha acontecido e ele disse que defendeu a namorada de um estranho.
Quando Cosete leu aquelas palavras uma parte dela quis recuar, quis inventar qualquer desculpa para parar de conversar e bloquear o contato do rapaz. Ela estava brincando com algo perigoso, talvez Íkaros fosse violento, violento por causa de alguém que não existe. Isso a assustou e a moça tinha ficado três dias sem puxar assunto nem nada.
O que a levou a sentimentos conflitantes porque nesses três dias Íkaros também não entrou em contato. Na verdade, todas as vezes que conversavam era ela quem puxava assunto. Cosete tentou puxar da memória a última vez que algo como aquilo tinha ocorrido. Sequer houve uma primeira vez? A completa falta de interesse dele nela mesclava com o medo do garoto ser um problema grande — um ninho de vespas que ela estava cutucando com vara curta. Contudo gostava de conversar com ele, Íkaros parecia entender seus pensamentos, falava com uma eloquência de um homem maduro e sempre era muito educado. Assim ela retornou o contato e sempre conversavam por horas e em qualquer horário.
Mordendo o lábio a moça decidiu arriscar dizer que estava numa festa com um “amigo”. Ela queria ver como o menino reagia.
“Bom, se divertiu?”
Cosete arfou, havia mais frustração em suas exasperações do que seu orgulho queria admitir.
“Não sei, acho que sim. Gosto de sair, gosto de dançar e de movimento. E você?”
“ Eu vou a lugares onde sou convidado, por gosto particular apenas vou a lugares abertos. Geralmente caminho muito com Violeta. Em parques e trilhas”
— Droga, a namorada imaginária de novo – disse Cosete bebendo um gole de água, foi até a cadeira da cozinha e a puxou se sentando – acho que não vai fazer mal em ser um pouco mais incisiva. Por enquanto é seguro, só estamos falando por celular.
“ Sua namorada, como ela é?”
“Fisicamente ou em personalidade?”
“Os dois”
“ Pele branca, 1,82 de altura, cabelos longos tingidos de roxo combinando com a cor de suas unhas, gosta muito de maquiagem preta nos olhos e usar roupas leves como uma camiseta com mangas ou sem e shorts. De personalidade ela é irritadiça, não gosta muito de pessoas e é teimosa, mas comigo é carinhosa e muito atenciosa.”
Cosete leu aquilo não sabendo o que digitar em seguida. Decidiu arriscar algo mais para dentro.
“ E ela é ciumenta?”
“ Não. Mas é arrogante.”
A resposta veio de imediato. A garota percebeu que Íkaros continuava digitando.
“Violeta tem uma opinião interessante. Ela acredita que se uma mulher tiver o necessário para me fazer ter interesse, então é por que merece. Só que ela fala isso com uma arrogância notória ao afirmar que não há nenhuma mulher nesse mundo que teria tal força ou beleza.”
— Hã? Que merda é essa?
“Ah é? E você? Não tem medo que ela te abandone?”
“Todos os dias.”
A resposta vinda sem hesitação quebrou algo dentro de Cosete, um pesar a invadiu. Por falar daquele jeito maduro e estável Cosete esquecia que Íkaros era um garoto da idade dela com muito problemas. Sem saber o que dizer em seguida, a moça se surpreendeu ao ver a mensagem seguinte.
“ Violeta sempre diz que um dia nos separaremos. Ela não sabe quanto tempo ficará, mas por ser justamente assim ela quer me amar intensamente enquanto pode e eu também desejo isso.”
“ Por que ela diz para você que vão se separar?”
“ Por causa do trabalho dela.”
“ E o que ela faz?”
“ É militar. Violeta também não fala muito do trabalho, mas um dia ela disse que serve ao exército e está nessa cidade, ou nesse Estado para ser mais preciso, por causa de sua profissão.”
— Ele inventou todo um enredo – disse Cosete para si mesma — mas parece haver alguma esperança pois essa parte de seu subconsciente sabe que irá partir. Quase como se só fosse criado até ele se curar.
“ Um dia eu gostaria de conhecê-la”
“ Ela está aqui do meu lado lendo as mensagens comigo.”
Cosete hesitou por um momento e sorriu.
“Mande meus cumprimentos. ”
“Na verdade, ela quer conversar com você. Vou passar o celular.”
— Ok, isso já está ficando bizarro. Parando para pensar Íkaros criou outra personalidade e essa personalidade é uma mulher?
“ Você realmente é audaciosa, não é criança? Deixou esses seus peitões inflarem seu ego e achou que pode se aproximar do Íkaros esperando ganhar exatamente o quê?”
O choque foi rápido como um raio e Cosete não conseguiu responder. O medo a atingiu, mas também a surpresa pelo ataque verbal.
“ Não posso culpa-la, meu Íkaros possuí uma gentileza misturada com inteligência quase divinas, mesmo em missão não consegui resistir a ele. Então, por que não botamos as cartas na mesa?”
Engolindo seco, Cosete deslizou os dedos pela tela.
“ Do que você está falando?”
“ Da verdade. Você está desesperada por se apaixonar, por se sentir como as outras mulheres que vomitam arco íris em seus romances. Seu desejo por conexão é tão descarado que está disposta a jogar esse seu corpo voluptuoso num garoto que você sente medo. Então já vou advertir, o que você quer dele nunca vai ter, por que você não é páreo para mim.”
Cosete engoliu seco, teve que se forçar a lembrar que conversava com o rapaz, mas a diferença de atitude era tão drástica que realmente parecia estar conversando com outra pessoa.
“Acho que está havendo um engano. Não estou interessada nele como pensa. Gosto de conversar com Íkaros, só.”
“ Nós duas sabemos que não é só isso, você mesma sabe que não é, mas não vai admitir. Há dois motivos porque vai fracassar em obter o que quer dele. Primeiro, por que está hesitando devido a um medo que tem de Íkaros, por causa disso nunca vai se arriscar e se acha que jogar iscas para que meu homem morda vai funcionar... se engana. Íkaros não participa desses jogos. Quer ele? Seja direta. E o segundo motivo pelo qual está fadada ao fracasso é: você não acredita nele.”
Cosete voltou a digitar.
“ O que quer dizer?”
“ Você acha que ele está mentindo. Ainda acha que é Íkaros quem está conversando com você. Assim como os outros, vocês acham que não sou real. Um fruto da imaginação dele. Eu não sou.”
Cosete suava frio pensando que tinha ido longe demais, não deveria ter levado aquele interesse tão longe, agora se via numa situação assustadora.
“Acho melhor eu ir. Foi um prazer conversar com você... Violeta.”
“Medo. Posso sentir o cheiro do seu medo daqui. Ai, ai, ai, lidar com crianças é um saco. Estou tão acostumada com Íkaros que às vezes esqueço de como vocês são. Que tal um jogo, menina? Vou adivinhar 3 coisas aqui e agora, qualquer coisa que você queira. Mas antes preciso que vá até uma janela e olhe para o céu.”
“ Como assim?”
“Estamos falando por texto, é só ler de novo se não entender. Um jogo. Vou adivinhar qualquer coisa que você cheire, veja, escute ou pense. Escolha qualquer coisa. Ah, mas é uma aposta. Se você ganhar eu vou embora e deixo Íkaros com você, mas se eu vencer você...você... deixe-me ver uma punição adequada... hã vejamos... mostre a eles esses seus seios grandes. Mostre diretamente. E antes que pense que é algo indecente, tire essa ideia da cabeça. Quero que mostre a ele essa parte de seu corpo que você se orgulha só para entender que Íkaros não tem interesse algum nisso em você.”
Rapidamente Cosete digitou.
“ Espere um pouco, você vai adivinhar qualquer coisa que eu ver, ouvir, cheirar ou pensar aqui e agora?”
“Sim. 3 coisas. Se eu errar uma deixarei Íkaros para sempre e você talvez tenha suas esperanças um pouco elevadas. Mas se eu vencer vai mostrar os faróis acesos a ele para entender de uma vez por todas que meu homem não é igual a nenhum outro nesse mundo”
“Isso é ridículo! Eu posso pensar qualquer coisa, não tem como você saber estando aí! Além do mais eu posso só mentir caso, por um milagre, acerte.”
Cosete então parou e pensou. Talvez íkaros estivesse fazendo de propósito, talvez se livrando da namorada imaginária com uma justificativa para enfim mostrar que tem interesse na garota.
“ É um comum acordo, criança. Se aceitar as condições e for corrupta, sofrerá infortúnios. Uma aposta comigo implica um trato sério. Que tal?”
Cosete ficou lendo o texto na tela e imaginando onde aquilo chegaria? Será que Íkaros finalmente estava gostando dela a ponto que precisava arrumar uma desculpa para se livrar desse alterego? Obviamente não tinha como ganhar, então ele estava querendo mostrar a Cosete que estava disposto a se livrar da namorada imaginária por ela? Mordiscando o lábio a adolescente aceitou.
“Ótimo, mas antes vá até alguma janela e olhe para o céu. Pode até ir para o quintal também.”
“ Por quê?”
“ Não tenho por que dar explicações para uma criança. Apenas faça isso.”
Cosete suspirou pesadamente, se levantou e foi até a janela da cozinha e olhou para o céu escuro polvilhado de estrelas, depois olhou para o celular.
“ Pronto. Quer que eu mande uma foto para comprovar? ”
“ Não será necessário. Sei que foi, vamos começar. O que quer que eu adivinhe? ”
Cosete respira fundo. A ideia era risível, mas já que foi tão longe queria ver o final.
Olhando para a cozinha, sua atenção focava na geladeira, depois no fogão então na mesa e nas cadeiras. Não havia nada particular que lhe chamasse sua atenção, por isso foi até a bancada da cozinha e pegou um pacotinho de orégano que ficava dentro de uma bandeja de temperos que seu pai usava.
“ Ok, o que eu estou vendo? ”
“ Orégano.”
O susto gelou a espinha de sua coluna e Cosete ficou paralisada naquela posição com o pacotinho na mão por quase um minuto inteiro sem reação. Imediatamente seus olhos percorreram os cantos da cozinha esperando que houvesse alguma câmera, depois pensou que a câmera de seu próprio celular houvesse sido hackeado – se é que isso é possível – largando o tempero Cosete olhou pela janela da cozinha para ver parte do quintal de gramado e as divisas do muro de tijolos. Pensando estar sendo vigiada a garota digitou rapidamente:
“ Acertou. Você está me espionando, Íkaros!? ”
“ Não sou o Íkaros. Para evitar ele me atrapalhar me tranquei no banheiro com o celular. Vamos para o segundo item. Está com medo? Acha mesmo que um garoto como Íkaros poderia conseguir o que vou conseguir? ”
Cosete largou o orégano e correu para o primeiro andar da casa, se trancou em seu quarto fechando as cortinas. Colocou o celular na cama e seu travesseiro por cima. Cosete queria pensar com mais calma, mas o medo vinha acompanhado de certa curiosidade. Assim ela foi até o banheiro de seu quarto, pegou um creme de rosas e o cheirou concentrando no aroma, depois fechou a porta voltando para o quarto e pegou o celular digitando rapidamente.
“ Ok, eu senti o aroma de algo. O que era?”
Olhando vidrada na tela do aparelho viu a mensagem “digitando” com reticencias.
“ Um aroma falsificado de rosas.”
Arregalando os olhos a ponto de quase pular das órbitas, Cosete voltou a olhar para todos os lados buscando algo que parecesse uma câmera. Será que havia até no banheiro? A menina estava realmente desconsertada.
“Certo. Você realmente está me assustando. Como fez isso?”
“ Não me lembro de dizer nada sobre como eu adivinho o que adivinho. Disse que ia adivinhar 3 coisas, apenas isso. Foi nosso acordo. Duas já foram. Escolha a última.”
Um turbilhão de pensamentos cada vez mais tenebrosos passavam pela cabeça de Cosete, contudo ainda havia uma saída.
“ Você vai cumprir sua palavra, certo? Se errar vai embora.”
“ Foi nosso acordo.”
“ Qualquer coisa, até mesmo um pensamento?”
“ Sim. Mas se escolher um pensamento fixe nele por alguns segundos. A porra da sua cabeça é um turbilhão sem sentido de imagens, sons e fantasias. Humpf, e ainda dizem que meu Íkaros que é louco.”
Cosete tornou a olhar para todos os lados, se havia câmeras ou escutas em seu quarto e banheiro ou na casa toda qualquer objeto escolhido era inútil. Porém, Violeta disse que poderia ser um pensamento. Não é possível acertar! Assim a garota tentou focar em alguma coisa, qualquer coisa e a única que conseguia naquele momento era o medo de estar sendo vigiada, por isso buscou se acalmar e capturar alguma memória. Uma que não incluiria nada que Íkaros conheça. Foi aí que a conversa com Minerva em sua casa veio a sua mente. A imagem presa na cabeça de Cosete era da mulher cética fumando um cigarro enquanto a escutava no quintal de sua casa.
“ Ok, o que estou pensando? ”
A resposta estava sendo digitada e a ansiedade de Cosete estava a mil, seus batimentos cardíacos vibrando dentro de seu peito.
“ Em uma mulher fumante.”
Cosete não soube responder, não respondeu. Ficou ali parada por quase dois minutos com os olhos vidrados na tela brilhante do celular. Não conseguia sentir mais medo ou ansiedade por que o choque era forte demais, sua consciência parece ter sido desconectada do corpo. Quase atônita, ela digitou.
“ Errou. Eu pensava na minha festa de aniversário de 15 anos.”
Agora foi o outro lado que não respondeu. Cosete manteve-se na mesma posição esperando alguma reação do aplicativo de mensagens. Levou dez minutos que mais pareceram dez anos, mas o texto “digitando” surgiu do outro lado e Cosete ficou atenta, com seus sentidos ainda entorpecidos.
“ Hã... Cosete? Aqui é Íkaros de novo, Violeta saiu do banheiro bem brava, deletou as mensagens que você duas trocaram e não quis dizer quase nada. O que aconteceu?”
— Será que ela acreditou? Digo, não tem como ela saber o que estou pensando. Meus pensamentos são meus, ninguém além de mim pode saber. – sussurrava Cosete para si mesma ainda entorpecida.
“Você... disse que ela não quis dizer quase nada, o que exatamente ela disse então?”
“ Que por comportamentos como o seu que ela odeia lidar com gente, e que você vai se arrepender por quebrar um acordo com ela. Que acordo foi esse?”
“ Desculpe, Íkaros. Eu tenho que ir dormir agora. Até... qualquer dia.”
Cosete nem esperou pela resposta e rapidamente bloqueou o contato do garoto deixando o celular na cômoda e indo se deitar em posição fetal abraçada com o travesseiro.
***
5/6 de chances. O revolver 38 está praticamente carregado, não tem como errar agora. De joelhos coloquei o cano em minha têmpora, respirei fundo e coloquei o dedo no gatilho. Fechei os olhos, era agora! Agora vai!
Engoli seco, tremia igual vara verde e minha mente parecia que ia quebrar de tantos pensamentos que rondavam em espaços de microssegundos. Meu corpo estava suando muito, abri os olhos para o céu negro estrelado, era bonito. A última coisa que eu veria seria algo bonito como um céu desses.
Sorri e voltei a fechá-los.
— Ora que interessante.
O susto me fez abrir os olhos ficando de pé num salto. Virando o corpo para todos os lados com a arma na mão buscava a pessoa que tinha falado. Nada, eu estava no meio do nada num precipício durante uma fria madrugada de céu aberto há vários km da cidade. Não tinha ninguém aqui.
— Hei garoto.
Pulei de susto apontando a arma para todo o lado, assustado.
— Quem está aí!?
— Foi divertido vê-lo brincar de roleta russa, você é o primeiro filho da mãe que vejo durar tanto, estava até disposta a esperar que o 5/6 de chances falhassem, mas acho que você não tem mais tanto sorte para gastar. Mesmo assim gostei de você, não é qualquer um que chega nesse ponto de medo e determinação e não se caga ou mija nas calças.
Uma voz feminina. Eu tentava entender de onde vinha, mas parecia vir de todos os lados com o vento.
— Onde você está?!
— Aqui embaixo.
Pisquei várias vezes e com cautela com a arma pronta aproximei-me da beirada do penhasco próximo a ponte deteriorada de cordas. Ao olhar para baixo não via nada além de um breu imenso, uma escuridão tão densa quanto um vantablack.
— Ah merda... eu enlouqueci de vez foi? Ou eu estourei meus miolos e agora estou no inferno?! Porra, o inferno é real?!
A voz da mulher riu, realmente vinha lá de baixo!
— Não seja idiota. Do lado esquerdo do início da ponte, olhe bem. Há uma escadaria de pedra que desce até o rio lá no fundo do penhasco. Um grupo de pescadores ilegais a fizeram para poder pescar sem que a fiscalização os achasse. Eles fizeram essa escadaria desse lado e do outro caso precisassem fugir. Eu estou aqui, do outro lado na metade. Não ouve o eco da minha voz nas paredes? Estava sentada numa pedra vendo você brincar com a arma, mas achei que fosse bom te parar, comecei a descer aqui aí pensei que não daria tempo de descer tudo isso e ainda subir antes de você estourar sua cabeça.
Apontei a arma para as trevas.
— Não brinca comigo porra, não acha isso suspeito demais!? Por que simplesmente não gritou do outro lado da ponte e por que eu não te vi?!
— Eu quem quero saber, por que eu estava te vendo. Eu achei que você tinha me visto e que não queria morrer sozinho, assim eu decidi te assistir.
— Não, não, não... não vem com essa merda! Por que não atravessou a ponte!?
— Você realmente se sente seguro a atravessar essa ponte de madeira com cupins e cordas secas? Se sim, sinta-se à vontade. Atravesse-a e vamos conversar desse lado. Eu vou subir de volta as escadas.
Engoli seco olhando para a travessia. Caralho, nem a pau que eu piso nessa merda. Assim me aproximei de sua beirada a ponto de ver o começo da escadaria de pedra que a mulher estava falando. Baixei a arma.
— Quem é você? Por que caralhos está no meio do nada de madrugada?
— Meio do nada? Na verdade, estamos nas terras de uma amiga. O pai dela é dono desses alqueires. Você está invadindo. Quanto a mim, eu saí para andar à noite. É muito gratificante e tranquilo só que de repente me deparei com um maluco armado que ia estourar a própria cabeça.
Balancei a cabeça na negativa voltando a apontar a arma.
— Não vem com essa porra, isso é suspeito pra caralho!
— Posso estar errada, mas você está achando que eu sou o quê? Uma assombração?
— Eu tô falando com uma sombra imensa sem forma, não estou te vendo! É claro que eu acho que você deve ser uma assombração!
— Eu sei que você está doido a ponto de cometer suicídio, mas daí em acreditar em fantasmas parece um pouco demais, não acha? Sinceramente, não vou subir. Você está desiquilibrado e armado, talvez fosse mais seguro eu continuar aqui.
Cacete! Estou tão assustado que dentro da minha cabeça eu sei que o que ela está falando é verdade. O estranho aqui sou eu. Porra! O que estou fazendo apontando a arma para um estranho?
Assim suspirei pesadamente, a abaixei jogando no chão e levei as duas mãos ao rosto o esfregando e não pude resistir começar a chorar.
— O que eu estou fazendo!?
— Você está sofrendo muito. Chore, continue chorando, fará bem.
Cai de joelhos gritando em desespero enquanto mais lágrimas caíam.
Imerso em minha agonia eu puxava meus cabelos olhando para o chão de terra naquela cor cinzenta causada pelo luar, mas que porra eu estou fazendo?! Não tenho nenhuma garantia que se me matar isso vai acabar, tenho? E se não terminar e se o tiro não me matar... tenho provas se eu fizer isso vou parar de sofrer? E se aquela merda de céu e inferno forem reais, quer dizer que eu estaria trocando a agonia deste mundo pelo sofrimento no inferno?!
— Hein – disse a voz feminina nas trevas – desça ao abismo. Vamos conversar.
— Hã?
— Pensando bem não é seguro para mim falar com alguém tão desiquilibrado no momento igual você, para minha segurança é bom eu continuar onde estou. Desça a escadaria. Vá descendo e descendo será melhor para escutarmos um ao outro do que assim, parece que tenho que gritar daqui.
Olhei para a negritude que não parecia ter fim.
— Eu estou aqui por você, entre nas trevas. Venha para cá e me encontre... eu vou te ajudar.
Fale com o autor