Cosete estava parada no corredor do prédio que dá para sua sala de aula, checava as mensagens no whatsapp, seu dedo ia deslizando para mais e mais conversas pendentes, ela não era de participar de muitos grupos, e a grande quantidade daqueles símbolos verdes pequenos não lidos eram de contatos pessoais. Homens. Cosete não era idiota, tinha noção do quão bonita era e por isso facilmente adolescentes de vários anos diferentes chegavam até ela pedindo contato ou mesmo estranhos que participavam do mesmo grupo apareciam para trocar uma ideia. Cosete era muito bonita, se cuidava e tinha sido abençoada por uma genética do tipo “grandes tamanhos”. Fazendo academia e adotando um estilo de dieta intermitente a adolescente de 17 anos conseguia manter um físico impecável que o exibia em seu instagram com centenas de fotos.

Obviamente os homens e algumas mulheres também a chamavam por lá querendo se “aproximar mais”. “Conhecê-la melhor”. “ Ver se estavam na mesma “vibe”. No começo parecia uma boa ideia e Cosete gostava de toda a atenção que recebia, não conseguia evitar um sorrisinho quando um homem particularmente bonito a interceptava puxando papo ou querendo seu contato, era automático. Muito bom, Cosete não conseguia explicar a sensação boa de ter tanta atenção.

Infelizmente um dia isso mudou, meses atrás quando tinha ido a casa de sua melhor amiga porque ela estava tendo uma crise de ansiedade e ouviu as palavras da prima dessa amiga algo dentro dela quebrou. Cosete não consegue se lembrar das exatas palavras, mas o conceito ficou gravado em sua mente como ferro em brasa na pele:

“Ninguém que tem algum interesse em você é confiável”.

Cosete aos poucos foi percebendo que os homens que puxavam assunto com ela eram sempre muito amigáveis, gentis e legais. Os com mais dinheiro exibiam suas posses, aqueles com menos tentavam compensar com seus físicos ou carisma. Nesse universo restrito e limitado todo o público masculino que interagia com Cosete era de alguma forma diferenciado.

Não era.

Parecia óbvio as palavras de Minerva, mas Cosete antes se deixava levar pelo papo dos homens, gostava deles falando muitas coisas boas sobre ela, elogiando cada comentário ou foto que a moça postava. Por acompanhar o namoro da melhor amiga desde o começo Cosete concluiu que havia uma diferença entre meninos e homens. Meninos, como Luís, eram crianças. Moleques que agiam com irresponsabilidade e só queriam esfregar-se em uma garota porque estavam cansados de tanta pornografia, não sabiam o que fazer e só chegavam nelas sem qualquer tipo de preparo. Homens por sua vez sabiam conversar, sabiam agir. Eles irradiavam uma aura de segurança, sedução, investiam em coisas que mulheres gostam como um bom visual de roupas, uma boa colônia e papos mais adultos. Cosete sabia, já foi cantada até por um homem de mais de trinta.

Ela nunca fez sexo com nenhum deles. No máximo uns beijos com alguns porque eles pagavam ingressos de camarote para grandes festas ou a levavam para comer coisas boas em lugares chiques. Cosete gostava de ser mimada, quem não gosta?

Mas depois das palavras de Minerva tudo mudou. Ela já não sente mais a mesma empolgação quando alguém surge com um balãozinho de conversa em seu celular, já tinha até bloqueado vários contatos. De repente, ter a noção de que até mesmo homens só pensavam em sexo igual aos meninos a deixou fria, frustrada, decepcionada. Ela não era idiota, sabia que homens também queriam dormir consigo. Cosete era muito bonita despertava essa atração neles, mas daí ser só isso? Eles realmente não estavam interessados no que ela tinha para conversar, no que gostava? Eles eram tão atenciosos em suas palavras porque tinham a esperança de conseguir uma recompensa física?

De repente a compreensão disso a deixou num mundo cinza.

Até semana passada quando conheceu um indivíduo diferente.

— Gostosa!

Cosete ergue a cabeça sendo retirada de memórias e viu Juca se aproximar, ele era um colega de classe, amigo e gay o que deixava metade do público feminino do colégio bem frustrado porque Juca tinha um metro e noventa, malhava deixando os braços e o peitoral grandes, com aquela pele negra impecável deixava o cabelo com um corte moderno característico.

— Miga! Como você tá? Parece que não falo contigo a séculos, bixa!

Ele pega na mão dela e a faz dar uma volta em si mesma como uma dança. O biótipo físico de Juca era fervorosamente contraditório a sua personalidade, para estranhos ele agia sério de modo másculo, mas no meio de gente conhecida solta a franga sem hesitar. Era do tipo de pessoa que melhora o astral do ambiente só por estar perto.

— Estou bem, Juca. E você?

Ele ajeita o corte de cabelo.

— Ah, você sabe. Você provavelmente é a única nesse colégio e quiçá – ele aponta o indicador para cima dando ênfase — na cidade que sabe como é difícil ser bonito e gostoso. Os boys não resistem.

Cosete respira fundo, guarda o celular e decidi arriscar.

— Juca, quando alguém chega em você essa pessoa realmente só está pensando em te comer? Tipo, não há possibilidade nenhuma dela também querer se apaixonar por sua conversa, seu jeito de ser?

Juca fica calado piscando várias vezes.

— Olha querida, isso aí eu não acredito não. Tudo o que atrai em um ser humano é o físico, é tipo o cartão de visita, saca só – ele faz uma pose estufando os braços grossos e musculosos — acha que um boy vai olhar para isso aqui e pensar que eu sou bom de papo? Ele vai querer ver o que eu posso fazer com tamanho canhão! Hahahahahah.

Cosete pondera um momento.

— Mas tem gente que se apaixona pela personalidade, mesmo os feios conseguem alguém.

— Humpf! – Juca faz um bico — eu tenho alergia a feio e gordos, se eles arrumam alguém com certeza é por causa da carência da outra pessoa. Bixa, imagina você me ver pelado e depois ver um gordão pelado? Aquela banha se projetando para frente do corpo encobrindo o pau, aqueles pneus nas laterais que vão se formando para fazer propaganda para a Michelin. Aquelas tetas caídas, ou a gordura debaixo do braço causando uma onda de suor com aquele fedor?

Juca também conseguia ser bem babaca quando queria.

Cosete respira fundo cruzando os braços. Se negava a aceitar que a opinião de Minerva era a verdadeira, se negava a aceitar que o mundo dos relacionamentos fosse tão superficial.

— Escuta bixa, o homem ou a mulher tem que sentir tesão pelo físico do outro senão não rola, saca? Se você não ficar com as coxas úmidas, ele vira só seu amiguinho. Coloca o boy na friendzone e vai atrás de um cara que deixe sua calcinha em uma situação complicada.

Juca passa o braço grosso pelos ombros de Coste.

— Mas o que foi? O que está havendo, conheço essa carinha de preocupação miga, vai lá desembucha pra tua biba aqui.

— Não, não é nada de grave só... só que... parece... sei lá... parece tão... tão... errado. Como você namora alguém só pelo físico ou pior, quando o físico importa mais do que o interior? Mesmo se tivermos alguém em algum momento inevitavelmente vamos sentir atração por outra pessoa? Isso não é falta de respeito com o companheiro? Traição?

Juca respira fundo.

— Bixa, você está pensando demais. Você também gosta de caras bonitos, acho que é a condição natural.

Juca confirmava cada vez mais o que Minerva dizia.

Já em casa, Cosete estava deitada em sua cama olhando para o teto de laje branca. O mundo dos adultos sempre foi tão superficial assim? Não, as relações românticas eram frágeis e efêmeras onde tudo o que importa é o prazer que o outro ser humano pode lhe proporcionar? O que então é o romantismo? Agora refletindo, a garota lembrou que quando um garoto que ela achava feio vinha lhe cantar a moça ficava brava, com asco ou às vezes sentia medo, quando outro com uma carcaça que lhe agradava o sentimento era diferente. Em ambos os casos a loira não conhecia realmente nenhum deles e mesmo assim o julgamento se mostrava tão diferente.

Eu sou frívola?” pensou Cosete levou as duas mãos ao rosto.

— Não, não, não vou admitir que Minerva está certa. Posso até concordar que talvez essa seja o modos operandi da maioria, mas não é uma verdade absoluta. Há algo mais, tem que existir uma real conexão.

Isso leva àquela pessoa.

Na semana anterior Cosete estava na casa de Luana, ambas tinham o hábito de frequentar a casa uma da outra para estudar ou somente jogar conversa fora. Cosete porém estava preocupada com a condição da amiga. Luana aparentava estar muito bem, estranhamente mais sorridente e leve, sua pele hidratada e seus cabelos pareciam mais lisos, macios e fortes, era bom ver sua melhor amiga naquele estado. O que não gostava era de vê-la assim tão feliz por estar inserida num cenário que Cosete condenava.

Havia se passado três meses desde que Luana contara do sexo com Luís e do beijo com Enzo e apesar disso a situação não havia mudado. Tinha saído do status quo, mas de um jeito questionável porque Luana havia se acertado com Luís, tinha tido uma longa conversa íntima sobre a relação e isso arrumou a distância que havia sido criada, contudo ela não parou de ver Enzo. Cosete evitou fazer mais críticas uma vez que o sermão de Minerva ainda pairava em sua cabeça, não queria ficar repreendendo Luana baseada em seu modo de ver a vida, como uma amiga de verdade deveria deixá-la livre para tomar suas próprias decisões e apenas estar lá quando ela precisasse. A amizade de verdade deveria ser assim.

Luana então recebeu uma mensagem no celular, Carminda a convidava para jantar como em outras vezes. Cosete conhecia a avó de Luís, uma senhora idosa muito gentil que gostava de Cosete tanto quanto da namorada de seu neto. Por várias vezes, conversando com a velha teve a impressão que ela não merecia um neto tão tosco, mas achou melhor evitar críticas porque toda avó ama seus netos. Como amava a culinária de Carminda sempre que Luana fazia aquele convite ela aceitava.

Quando chegou a casa deles viu o pequeno grupo de pervertidos na área da frente, sentados nas cadeiras de fibra jogando no celular e falando besteiras. Era impressionante como esses sanguessugas se aproveitavam da avó de Luís e esse imbecil não via isso. Ela e Luana entraram direto pela porta ignorando os cinco... foi nessa hora que Cosete parou, deu dois passos para trás para visualizar novamente a cena, contou o número de punhenteiros e viu que havia um a mais, o quinto estava calado lendo um livro.

Meu Deus, eles estão se multiplicando. Talvez fosse melhor serem dedetizados antes que ponham ovos.

Balançou a cabeça na negativa e voltou para dentro. Carminda era uma mulher que gostava de pessoas, então ela sempre ficava feliz cozinhando para muita gente, uma casa silenciosa era uma casa triste Carminda dizia sempre. Luana e ela arrumavam uma grande mesa de mogno na sala colocando a louça. Foi quando ele apareceu.

— Eu ajudo.

O punhenteiro desconhecido surgiu como um fantasma e Cosete viu que Luana travou de susto na hora enquanto Carminda agradecia e mostrava na cozinha onde ele poderia pegar os pratos e os talheres. A amiga de Luana arrumava a mesa e ouvia a voz de Carminda conversando com o garoto desconhecido num tom amistoso. Assim que ele surgiu com os copos colocando-os sobre a mesa Cosete reparou no físico do garoto, tinha a altura dela, braços definidos, rosto sério com olhos castanhos escuros e cabelos cortados curtos penteados para trás — não era bonito só que também não era feio — ao contrário dos relaxados lá fora ele usava uma calça jeans tênis negros e uma camisa social preta longa a qual tinha dobrados as mangas para trás até o antebraço.

Cosete não tinha o interesse de socializar com alguém que faz parte do círculo de amizade de Luís, então ficou calada. O rapaz termina de pôr os copos e olha para ela.

— Ah perdão, não nos conhecemos. – disse ele – meu nome é Íkaros.

Ele está dando em cima de mim?” Pensou Cosete já ficando enjoada.

Nessa hora Luana dá um estalo.

— Ah sim, perdão Cosete. Esse é um novo amigo do Luís. Cosete, Íkaros. Íkaros, Cosete.

— Prazer te conhecer – disse ele.

Cosete se limitou a um esticar de lábios, realmente não queria socializar com ele por que parecia que o sujeito tinha o mesmo interesse que todos do sexo masculino e sendo amigo de Luís e dos outros idiotas as chances de conseguir seu contato eram menores que zero.

Todavia o jantar revelou algo surpreendente. Com todos sobre a mesa conversando Cosete só conseguiu ficar calada.

— Sim, Carminda eu adoro xadrez. É um belo tabuleiro que você tem na sala.

— Obrigado querido, é do meu finado marido. O avô de Luís adorava o jogo chegando a disputar campeonatos.

— Ele deveria ser muito inteligente dona Carminda – disse o punhenteiro chamado João — é uma pena que a inteligência não tenha respingado no Luís.

— Calado, João. Minhas notas estão na média.

— Tirar 3 em matemática não é média, Luís. – rebateu o cara chamado Marcelo.

— Você que é o burro Marcelo, média é média, significa que eu sou forte em outras matérias e isso compensa minha... meu deslize com os números. Não temos uma boa relação.

Os outros três riram, mas o tal Íkaros não.

— Inteligência não pode ser medida por notas em matérias escolares, as pessoas nascem com diferentes habilidades que se destacam naturalmente no ciclo da vida. – disse o punhenteiro novato.

— Sim, querido – concordou Carminda – o avô de Luís também era péssimo na escola. Ele na verdade só terminou o ensino médio. Depois foi trabalhar na marcenaria com o pai e descobriu que tinha um dom para mexer com a madeira, foi assim que construiu a empresa.

Marcelo e o Fernando cochicharam baixinho “por isso Luís vive com a mão no pau” um súbito de ódio emergiu em mim pela falta de respeito, esses retardados poderiam guardar esses comentários pervertidos para longe de Carminda! Será que eles não têm respeito?

— Isso traz a luz o traço de um bom jogador de xadrez, significa que seu marido era muito criativo.

— Hei, hei, hei Íkaros – disse Marcelo – o que criatividade tem a ver com xadrez? Eu já tentei jogar essa joça no computador, faz sentido nenhum. É um jogo de tabuleiro.

— Xadrez é um jogo com possibilidade finitas, Marcelo. Significa que há sempre um movimento superior que irá vencer a jogada, mas só funciona se você memorizar 10 elevado a 120 posições diferentes das peças no tabuleiro. Ou seja, é uma capacidade além das melhores mentes humanas, o que significa que você precisa ser criativo. Precisa escolher e prever uma jogada. Eu respeito muito tais jogadores, xadrez nasceu de grandes estrategistas antigos. De fato, tanto no xadrez quanto nas batalhas daquele tempo a vitória era determinada antes mesmo da luta. É o único jogo que eu conheço que “sorte” não existe, uma vez que todos os movimentos possíveis já são predeterminados.

Ninguém falou nada na mesa por alguns segundos. Carminda sorriu.

— Parece meu finado Heliberto falando, ele também ficava me contando das estratégias, às vezes passava meses jogando o jogo com seus amigos e uma vez até desafiou um cara lá da capital. Eles ligavam um para o outro falando das jogadas. Nossa, lembro do meu marido levantando de madrugada com uma ligação desse sujeito, Heliberto saía da cama e ia até o tabuleiro para mover a peça.

A voz de Carminda sempre vinha com aquele tom nostálgico e feliz quando lembrava do marido. Ela ainda o amava e parece ter tido um casamento longo e feliz. Realmente um dia queria conversa abertamente com ela sobre como era os relacionamentos em sua época.” Pensou Cosete.

— Ainda assim é um jogo chato – disse Fernando.

Eu quero mergulhar meu garfo em sua jugular. Moleque escroto! Não percebe o clima, não vê que Carminda quer falar do marido? Não desrespeite as memórias dela, menino imbecil!”

— Ele é mais do que um jogo Fernando – Íkaros prosseguiu rapidamente como se tivesse percebido o deslize moral do amigo e quis abafar — xadrez é uma filosofia de vida, algo que se você entender pode levar para seu cotidiano. Senhora Carminda, arrisco dizer que seu marido era muito bom com marcenaria porque ele conseguia criar móveis e moldá-los na madeira tão bem porque a imagem de seus movimentos vinha na cabeça muito antes dele executar ações físicas. Correto?

Carminda franziu o cenho.

— Sim, ele tinha um caderno em que desenhava a peça que queria criar e depois como iria conectá-la. Como sabe?

— Enxadristas vivem no automático acredito, no jogo se você for bom consegue antecipar várias jogadas a frente da que está sendo jogada.

— Enxadrista? – perguntou Luís com dúvida — isso não é quem trabalha com enxada?

Felizmente para o estresse de Cosete Luana deu um beliscão no braço do namorado e mandou ele calar a boca e pensar antes de falar.

— É impressionante que um garoto da sua idade saiba tanto, nos tempos de hoje os meninos vivem em seus celulares, mas não parecem aprender muito, eu receio que não façam mais homens como antigamente. Os tempos mudam – disse ela com lamento e gostei da cutucada nos imbecis na mesa — Íkaros, querido, seu nome é bem peculiar. O que significa?

— Essa eu sei! – falou Marcelo – é daquele maluco romano que tentou levantar voo com asas feitas de cera, mas se estabecou no chão porque asas de ceras nunca voariam!

Cosete levou uma mão ao rosto, desatordoada. Ela sentia que seu QI diminuía perto daqueles idiotas.

— Na verdade, ele era grego. – disse Íkaros — mais precisamente de uma mitologia, então não há realmente um registro que tenha existido. As asas não eram de cera, eram de penas. Seu pai, Dédalo, usou cera para unir as penas e fazer as asas e advertiu Ícaros a não voar perto demais do sol por que senão a cera ia derreter, como também não mergulhar no mar para não molhar as penas. É um mito trágico, por que Ícaros não ouviu seu pai e voou para perto do Sol, quando as asas se desfizeram ele caiu no mar e morreu.

Cosete lembrava de parte do mito e também se pegou na gafe de acreditar que as asas eram de cera.

— Pois é um belo nome. Grego. Eu gostei – disse Carminda.

— Obrigado.

Quando terminaram o jantar e se levantaram Íkaros se ofereceu para ajudar com a louça, mas Carminda disse que não precisava, ela já tinha a ajuda de Cosete e Luana. As duas percebiam que parte da sociedade antiga ainda vivia muito na memória de Carminda porque ela se negou a deixar um serviço daquele para um homem, as mulheres devem cuidar do lar e isso inclui fazer comida e lavar a louça. Nenhuma das duas quis contradizer, a avó de Luís era como era e isso incluía os costuma de décadas atrás. Assim os meninos foram para o quarto do neto. Em determinado momento Cosete quis ir ao banheiro que ficava no andar de cima, ao subir as escadas e passar em frente ao quarto de Luís conseguiu ouvir parte da conversa deles.

— Caralho, viu a estampa da camiseta da Cosete? Os peitões dela esticam o tecido entre eles, parecem que estão puxando para poder respirar.

Cosete reconhecia a voz, era daquele tal de João. Sentiu um ímpeto de ódio assassino, mas seu orgulho venceu e ela olhou para sua camiseta, era uma das mais velhas e uma de suas favoritas, contudo realmente estavam apertando no peito.

— Eles estão maiores, não é? – perguntou Marcelo.

— Benza-Deus! Imagina enfiar a cara no meio daquelas duas almofadas de carne. Caralho! – concordou João.

— Hei! – essa era a voz de Fernando — será que poderiam ter um pouco de respeito com minha futura namorada, esposa e mãe de meus filhos?

Cosete arregalou os olhos e ouviu uma explosão de gargalhadas no quarto.

— Cara, eu espero realmente que você não esteja usando drogas. E mesmo se tiver, larga esse bagulho porque ele é potente – disse Luís entre risadas.

— Viajou legal hein cara – completou João.

— Mano, vai se tratar. Se puder acompanha o Luís no psicólogo dele porque tuas ideias tão bem loucas! – Marcelo.

— Vão se ferrar! – Fernando disse com convicção — eu já percebi que para conseguir uma namorada preciso ser mais proativo! Mulheres gostam de homens que tomem a iniciativa tá ligado?

— Pode até ser – disse Luís — mas a Cosete? Você vai chegar na Cosete?

— Acorda Fe – agora era João – ela é muita, mas muita areia pro teu caminhãozinho. E não adianta você falar que vai fazer duas viagens porque aquela mulher é um deserto do Saara inteiro.

— Só nos peitos deve caber mais areia que lá, se brincar. – completou Marcelo.

O ódio que emergia na amiga de Luana aumentava a ponto de seu rosto ficar vermelho e cerrar os punhos.

— Vocês estão errados e eu tenho dois trunfos para me ajudar.

O quarto ficou em silêncio e até Cosete teve certa curiosidade em meio a raiva.

— O primeiro trunfo é um conhecimento prático da sabedoria de Charlie Harper, naquela série “dois homens e meio”. O episódio que ele ajuda o sobrinho a chamar a mulher mais gata da sala para ir ao baile. O cara nos proveu com um conhecimento incrível, um tesouro da humanidade: quanto mais bonita é uma mulher mais solitária é, por que os homens ficam com medo de chegar nela e serem rejeitados.

Cosete levou uma mão ao rosto balançando a cabeça. A idiotice desses garotos conseguia atingir níveis surpreendentes.

— Sei não Fernando – disse Luís – aquela bruxa da ganância não parece ter esse problema. Luana me conta que ela tem muitos encontros. Tipo, não falta mercado, entende?

— Então ela é uma vadia? – perguntou Marcelo.

— Sei lá, mas já sabem que uma mulher que sai com muitos caras não deve ser inocente. – disse Luís – e você Íkaros, o que acha?

Silêncio.

— Íkaros?!

— Ah sim, perdão. Estava lendo esse livro no formato de Light Novel, essa história é realmente muito boa. Do que estão falando?

— O que achou da Cosete, é a primeira vez que viu ela né? – perguntou Luís.

— Não sei.

— “Não sei” o quê? – perguntou Marcelo.

— Eu não tenho opinião sobre ela. Não a conheço, durante o jantar ela também não falou nada, logo não posso emitir nenhuma opinião.

— Tá, mas você acha que ela é inocente como diz o Fe por causa que os homens ficam com medo de chegar ou que é uma vadia já que consegue sair com vários?

— Gente, vocês sabem se ela sai com muitos caras? Vocês sabem se ela não sai com ninguém? Pelo que entendi a namorada do Luís comentou algo esporadicamente e o Fernando está se fundamentando na opinião de um personagem fictício de uma série de mais de dez anos atrás. Vocês precisam entender uma coisa: o que a gente acha que sabe, não sabemos. O que escutamos dizer por aí, não sabemos. E o principal, ela é um ser humano altamente complexo que estamos limitando com poucas informações, basicamente não estamos falando da Cosete, porque não a conhecemos, estamos falando de uma imagem mental que fazemos dela. Uma falácia, um sofisma. Então se for para eu dizer algo sobre essa imagem mental que tenho após vê-la por pouco mais de uma hora eu só posso dizer que é uma linda mulher que por estar tão calada deve estar cheia de diversos pensamentos.

Cosete sentiu o ódio sumir e sua expressão de incredulidade se manteve com as palavras do garoto.

Todos no quarto ficaram em silêncio até que Fernando pigarreia.

— Tanto faz, mas confio em minha intuição. Meu segundo trunfo é que acho que ela está a fim de mim.

Só se você nascer de novo, palhaço!” pensou Cosete voltando a ficar com raiva.

— Sabem... no jantar de hoje eu meio que a peguei olhando para mim, então talvez eu tenha chance.

Os amigos fizeram uma algazarra em chacota a Fernando enquanto Cosete se distanciava da porta para ir ao banheiro.

***

No fim de tarde, Luana estava na frente do colégio do outro lado da rua debaixo de um pé de Ypê amarelo, era o local de encontro “secreto” das amigas quando algo deveria ser conversado em particular sem o uso de celulares. Os aparelhos eram úteis, contudo também podiam trazer grandes problemas se o tema da conversa fosse delicado e estivesse gravado em texto. Ainda que as amigas confiassem umas nas outras sempre havia o risco de perder o celular ou tê-lo roubado.

Cautela nunca é demais.

Cosete tinha pedido para ela esperar pela amiga porque queria falar algo importante. Luana então escutou o pedido e não conseguiu reagir a princípio, tinha ficado. Sua expressão e palavras congelaram até que Cosete tornar a perguntar para a amiga a mesma questão.

— Perdão, achei ter ouvido errado ou estar alucinando. Você quer... o contato de um dos amigos do Luís? Desculpa, eu achei que enfrentaríamos o inferno na Terra antes que algo assim fosse possível.

Já havia se passado mais de vinte minutos depois do horário de término das aulas, o que significava que eram quinze minutos a mais do que o necessário para o colégio ser esvaziado — os alunos têm uma estranha tendência a ir embora o mais rápido possível da escola, igual a presidiários numa fuga alucinada do presídio.

— Muito engraçadinha. Não quero o contato exatamente, digo, quero o número, mas não para isso que está pensando. Não tenho o mínimo interesse romântico nele se é o que está pensando.

Luana sabia de quem Cosete falava, e isso a deixava numa posição comprometedora. Ela não tinha o direito de expor a condição de Íkaros, a própria nem deveria saber porque Luís é um fofoqueiro e não sabe quando guardar informações pessoais, de fato Luana já advertiu Luís a não ficar falando sobre os problemas do amigo que se defendeu dizendo que era inevitável porque Íkaros apresentava a namorada invisível para qualquer um.

Luana não contaria.

— Não é interesse romântico? Eu realmente poderia acreditar em você, só que em todo o tempo de nossa amizade, na grande quantidade de homens e até garotas que vieram atrás de mim pedindo seu contato é a primeira vez que o inverso acontece. O que você quer tanto falar com Íkaros?

Cosete hesitou. Luana ergueu apenas uma sobrancelha num claro olhar de desconfiança.

— Não é o que está pensando, é só uma questão antropológica.

— Hã?

— Quero saber como um cara como Íkaros, que obviamente tem mais massa cinzenta que seu namorado e os amigos nojentos, está andando com eles.

Luana cruzou os braços.

— Não acha que pegou pesado agora? Luís não é tão ruim quanto pensa.

Mas obviamente é ruim o bastante para você o trair” Cosete segurou tal pensamento. Realmente a condição em que Luana se encontrava a deixava muito desgostosa, Cosete não compactuava com aquilo. Ela realmente tinha asco de gente que fazia o que Luana estava fazendo, era só terminar com Luís e ficar com o Enzo, mas aparentemente sua amiga era emocionalmente incapaz de o fazer, assim como também não conseguia parar de ver o universitário.

— São sim, naquele dia em que estava ajudando você e Carminda com a louça, quando eu subi para ir no banheiro passei em frente a porta do quarto e ouvi eles falando dos meus peitos e até me comparando com uma vadia por que eu saio em encontros. Então sim, seu namorado escroto merece meu ranço.

Luana hesitou, depois sentiu uma tensão de raiva por que uma das coisas que mais odiava era seu namorado ficar reparando nas formas da amiga já que Luana não conseguia evitar um sistema comparativo. Parecia automático e inevitável, quando duas pessoas estão sós numa sala e alguém entra você vai olhar primeiro para a mais interessante, para quem se destaca mais. Não era fácil ser amiga de Cosete, muitas de suas colegas a tratavam bem pela frente e a xingavam nas costas, mesmo as outras amigas que estão no grupo do whatsapp se limitam a interagir com a moça loira. Luana é a única que resistiu porque sempre teve Luís, ele sempre foi apaixonado por Luana e isso lhe dava um escudo, todavia se fosse solteira sentiria a “barra” das outras garotas.

Ainda que a lógica, discursos motivacionais, psicossociais e feministas digam que a mulher é mais do que um mero objeto corporal que precisa ser endeusado e adorado, que nunca houve problemas em elas terem um peso diferente da maioria, uma beleza que não seja padrão, que não atraia tanto a atenção dos homens ainda hoje há aquele pequeno sentimento, aquele incômodo, que surge em segundos ao tirarem uma foto ou se virem no espelho e ele é potencializado positiva ou negativamente com a atenção romântica que ganham ou deixam de ganhar.

Vaidade. É inevitável, ela está lá para o bem ou para o mal.

Cosete é linda que dói. Por esse motivo Luana odiava quando pegava o namorado dando olhadas rápidas e discretas para os peitos, a bunda ou as pernas de Cosete. Luana percebia e o ciúme e a inveja eram mais rápidos que a razão e não podia fazer nada a respeito.

— Ok, admito. Eles são homens e falam muita merda. Vou falar com Luís sobre isso, mas você também podia fazer algo a respeito né.

Cosete arregalou os olhos e a alfinetada atingiu um ponto sensível eletrizando a raiva em seu interior.

— Fazer algo a respeito? Tipo o quê? Usar uma burca?

— Não é sobre isso que estou falando – Luana viu que tinha cometido um erro por causa da inveja e precisou pensar com cuidado para não o piorar — é sobre sua imagem. Você tem tanta opção, por que não arruma um namorado? Sabe, Carminda ficaria temerosa se soubesse que você sai com caras que te pagam coisas caras. É perigoso.

Ela errou no argumento.

— Qual o seu problema? Por que um cara me convida para um show ou para comer alguma coisa eu sou uma vadia? Você sabe que eu nunca dei, né? Nem fiz nada nojento e pervertido que seu namorado e os amigos falam! — seu tom de voz subiu um pouco.

— Eu sei que não, não estou falando disso! É sobre a imagem mesmo, Carminda falou uma coisa que é verdade, os homens levam muito em conta a primeira impressão. Se você gostar de um cara ele vai perguntar para outras pessoas sobre o que pensam de você, aí entende né?

Cosete parou em choque. Isso porque sua mente acelerada pela raiva percebeu que a discussão das duas remetia ao que Minerva e Cosete havia aconselhado para Luana, o problema é que Cosete estava agindo como Minerva e Luana usava as palavras de Cosete. Ela levou uma mão à testa.

— O que foi? – perguntou Luana.

Perceber que estava concordando com a prima de Luana piorou tudo. A situação só não foi a outro patamar porque Cosete lembrou do que Íkaros havia falado sobre não conhecermos alguém para termos o poder para julgá-lo. Que o que julgamos e rotulamos é uma imagem residual, uma fração do que vimos e ouvimos sobre tal indivíduo e com isso criamos a ilusão de sabermos muito assim ganhando o poder para emitir uma opinião.

Realmente, a grande maioria pensa como Luana e Carminda, mesmo Cosete por muitas vezes se pegou agindo assim. Ela falava mal de alguém, usufruía de fofocas e se sentia bem com os comentários maldosos que também fazia nem percebendo o quão ignorante estava sendo ou o quão machucava com tais palavras. Essa confusão mental não segurou mais as barreiras da cautela, ela encarou a amiga e disse:

— Poderia parar de ser tão hipócrita? Se preocupar com a imagem? Que porra você está dizendo? Está chifrando seu namorado igual uma filha da puta mentirosa, acha que se descobrirem algum homem vai te levar a sério novamente? Por que levaria? Por que alguém ia querer namorar uma mulher que é infiel, está mentindo na cara dura para alguém que confia nela! Se ela traiu num namoro claro que poderá trair no próximo. Então engula essa porcaria de sermão de boa moça. Você só está com inveja de mim igual a todas as outras filhas da puta recalcadas.

E se foi deixando Luana petrificada e machucada com tais palavras.

***

O delegado Rodrigo estava massageando as têmporas. Sentado na cadeira atrás de sua mesa na delegacia o homem da lei olhava para as imagens de vídeo em seu computador e depois para as folhas de papel com o depoimento dos envolvidos na história. Ele ficou nessa por mais de uma hora após terminar a primeira leitura.

— Por que não faz sentido nenhum, porra!

No começo achou que os policiais militares que tinham intervindo na chamada devem ter relatado algo de errado, depois as testemunhas contavam o ocorrido de maneira irregular como esperado de gente que está na cena do crime e vê a coisa, mas não entende. A diferença é que realmente não tem como entender o que aconteceu naquela praça. Rodrigo levantou de sua mesa e foi até a cozinha pegar uma caneca de café, voltou para sua sala gelada e sentou-se mais uma vez bebendo o líquido fumegante quase todo de uma vez para dar uma energizada nos neurônios.

O caso parecia simples de primeira. Houve uma briga em uma praça entre duas pessoas e várias testemunhas.

Era um local comum que famílias vão: gramado, pistas de corrida e brinquedos de ferro colorido para as crianças, o horário também era o mais cheio, por isso a dor de cabeça com os relatos e com as imagens de celulares que foram gravadas e agora estão rodando as redes sociais. Analisando mais de perto o evento tudo começou por que um homem – na verdade um adolescente de 17 anos — agrediu outro de 38 anos na praça o derrubando no chão dando-lhe vários socos no rosto a ponto de se fazer necessário várias suturas em meio ao sangue e os hematomas.

Se ninguém tivesse feito nada provavelmente teria matado o indivíduo com os próprios punhos. Nesses casos chamam a polícia, levam o menino para prestar depoimento e em seguida o liberam para o processo seguir, afinal ele é menor de idade. Quando Rodrigo leu o depoimento o adolescente disse que sua namorada, sentada no banco da praça ao seu lado, estava sendo assediada e ameaçada por aquele cara, que se encontrava sentado num banco do outro lado a uns vinte metros de distância. O jovem alegou não poder controlar seu ímpeto de ódio e partiu para cima da vítima o machucando com grande violência enquanto gritava “Não chegue perto dela! Não encoste nela! ”

As testemunhas confirmam as ameaças.

— E é onde essa merda fica estranha. – disse o delegado lendo os depoimentos.

Mandaram trazer a namorada do rapaz para prestar depoimento, talvez até para saber se ela já havia denunciado o homem de 38 anos, porém não havia namorada. Testemunhas dizem que o jovem estava sentado sozinho no banco de praça lendo um livro. Quando a mãe do menino foi chamada para buscá-lo, ela veio aos prantos falar com o delegado explicando uma condição peculiar do filho.

Ele tinha severos problemas psicológicos. Fazia tratamento.

Rodrigo prometeu que levaria tudo aquilo em questão no processo, mas ela deveria providenciar a documentação, num caso desses o Ministério Público pode sugerir um acordo com a família pagando os tratamentos médicos da vítima ou até uma indenização.

— Era bem bizarro, mas ainda aceitável. Um adolescente com problemas mentais perde o controle e agride uma pessoa. Totalmente plausível. Porém...

Rodrigo tira o foco dos papéis e olha para a tela do computador no vídeo que rodava, parecia quase um gif porque o homem da lei tinha posto para repetir sempre ao seu término. Dois dias depois quando o episódio estourou e foi parar nas redes sociais uma família veio até a delegacia querendo falar com o responsável pelo caso, era um homem e uma mulher. A mulher em questão parecia um tanto abalada e seu marido mantinha uma carranca feroz. Eles foram até lá com uma gravação, era uma live de uma youtuber que fazia consultoria esportiva e dava dicas sobre exercícios físicos ao ar livre, ela gravava seu próprio rosto falando e ao fundo era possível ter uma imagem de frente da vítima sentada no banco, ele segurava um balão colorido de gás hélio daqueles em formato de coração e chamou uma criança, uma menina de uns sete anos para ali perto para conversar com ele, a criança ficou ouvindo enquanto olhava para o balão, depois o homem deu a peça colorida para ela segurar com a mãozinha esquerda ao mesmo tempo que se levantava e segurava a direita da criança já levando-a para algum lugar quando na imagem surge Íkaros correndo em sua direção, pulando em cima do homem e iniciando os socos.

Os pais contaram para o delegado que não conheciam o sujeito e que naquela hora a mãe da menina estava distraída e não viu sua filha se aproximar do estranho. Eles também enfatizaram que o estranho estava caminhando na direção oposta de onde a mãe da menina se encontrava. Perguntaram para a filha para onde o estranho a estava levando, e ela disse que o sujeito tinha muitos balões além daquele e que daria a ela todos.

Os pais estavam furiosos e também aliviados e agradecidos pelo rapaz. Como não sabiam, eles supuseram que Íkaros tinha identificado o pedófilo e ido salvar a criança.

Rodrigo torna a ler o depoimento escrito de Íkaros.

Em nenhum momento ele menciona a menina, nem sequer indica que o homem estava sequestrando-a. Em todo o relatório o jovem afirmava que estava com raiva por aquele sujeito ameaçar sua namorada de mentira.

Rodrigo estica a coluna e estrala os nós dos dedos enquanto olhava para o teto.

— Uma coincidência muito assustadora. Um caso de agressão se revelou tentativa de sequestro de menor. A vítima é a sequestradora e o agressor é um herói.

Rodrigo respira fundo.

— E também o que fode é esse garoto. Esse é o mesmo Íkaros que alguns anos antes já havia se envolvido em um caso violento que terminara em morte.

***

Ela fumava seu cigarro expelindo a fumaça para o alto, a convidada não gostava do cheiro do tabaco só que, estando na casa da fumante, não podia exigir muita coisa. Sentada em cadeiras de fórmica na área da frente da casa da mulher divorciada as duas se encararam em silêncio por alguns segundos, um clima desagradável e pesado era sentido mesmo numa tarde de um sábado lindo de sol em um céu azul sem nuvens.

— Quer água ou um suco? Eu podia oferecer conhaque e cerveja, mas tenho receio que a moça fitness não compactue com álcool, você mal consegue esconder a expressão de nojo pelo cigarro — disse Minerva.

Cosete pôs as mãos sob a mesa redonda de granito e a encarou. Estava vestindo roupas comuns de corrida, uma calça legging preta e top branco sport com tênis pretos, em dias programados saía cedo para correr porque queria manter o peso e também tinha descoberto a sensação de prazer que o corpo libera após um exercício aeróbico. Naquela manhã, porém, a corrida tomara um rumo diferente e ela tinha ido parar na casa de Minerva.

— Já adianto que você é a última pessoa que eu esperava receber mensagem perguntando se poderia vir aqui conversar. Sendo sincera, desprezo receber pessoas em minha casa, efeito traumático do divórcio eu suponho. O filho da puta do meu ex vivia recebendo gente aqui. Contudo, porém, todavia, embora, mas... minha surpresa foi tamanha ao saber que era você que não resisti.

As duas voltaram a se encarar em silêncio por mais alguns segundos.

— Já terminou com o sarcasmo?

Minerva deu uma boa tragada no cigarro sorriu e acenou com a cabeça concordando.

— Eu... briguei com a Luana.

— Eu sei, ela me contou.

Cosete pensou em ficar surpresa, só que não.

— Eu queria fazer as pazes, mas não sei como. Ela confia em você mais do que a própria mãe logo poderia me dizer uma maneira de ajeitar as coisas? Eu disse coisas muito pesadas para ela e não acho que só “desculpas” resolvam.

— Achei que me odiasse.

— Não te odeio, odeio seu jeito de ver os relacionamentos românticos. Se aceitar isso por que diabos me envolveria com alguém?

Minerva deu uma tragada soprando a fumaça enquanto olhava para uma derrotada Cosete, chegar ao ponto de pedir ajuda para ela mostrava que a amiga de Luana era uma amiga de verdade e que estava preocupada em consertar as coisas. Isso ganhou a simpatia da divorciada.

— Ok, pelo que entendi você não consegue aceitar o atual cenário em que minha prima está. Apesar de seguir o namoro com o amigo de infância ela anda se encontrando com Enzo e nós duas sabemos que depois daquele beijo é só ladeira abaixo. Isso te incomoda? Se sim, por quê?

— Muito. Como assim por quê? Eu não gosto de pessoas desonestas. Mesmo quando um cara me chama para sair eu deixo claro que não estou interessada no namoro, alguns idiotas acham isso ótimo porque pensam que vão conseguir sexo sem compromisso comigo enquanto outros murcham suas expressões de expectativa. Mas é o certo a ser feito, é o que eu queria que fizessem comigo se fosse em lados opostos.

— Então sua visão de vida pautada na sinceridade é sempre o certo?

Cosete arregalou os olhos, confusa.

— Sinceridade sempre é o melhor caminho, por mais que doa. Uma mentira bonita só desperdiça o tempo de vida de uma pessoa que acredita estar vivendo a verdade. Ela está sendo feita de idiota, está sendo enganada e perdendo a chance de conseguir se reerguer o mais rápido possível.

— Seus pais são divorciados também, não é? Sua mãe foi embora com outro cara e você vive com seu pai. Luana me contou.

— Nem vem! Não vai dizer que estou espelhando minha opinião em meus traumas. O que aconteceu na minha vida não muda que o que digo é verdade!

Minerva dá a última tragada e joga a bituca no gramado a frente das duas.

— Primeiro menina, tudo o que fazemos, pensamos e sentimos é baseado em nossos traumas e experiências de vida. Achamos ser seres racionais, mas somos potencialmente emocionais. Você tem uma opinião tão ferrada de sólida quanto a sinceridade porque ela é derivada do lado oposto ao lance do divórcio. Dependendo de como reagir a esse problema, você poderia considerar que o que sua mãe fez foi certo, ela não teve culpa. Se apaixonou por outro cara e não sabia como lidar com seu pai. Medo é um fator que surge muito antes do mau caráter. Contudo, você também pode estar certa e sua mãe foi uma filha da puta que traiu seu pai indo embora e te largando para viver esse novo e emocionante amor. Por isso, vamos começar por aqui. Aceite que tudo deriva de uma experiência passada, não minta para si mesma pensando ser racional ou mesmo madura. Vendo adolescentes como você com peito estufado — metaforicamente falando é claro, não me refiro a suas tetas — expelindo opiniões carregados de arrogância por acreditarem estar certos me deixam puta da vida. Você passou a odiar uma parte de Luana porque ela respinga no que aconteceu em sua família. Ponto.

Cosete hesitou e já ia falar sobre o que era certo e errado quando Minerva continuou.

— E nem vem com essa merda de moralidade, ética do certo e errado. Somos humanos, egoístas pra caralho e usamos a ética somente como um norte para tentar manter esse aglomerado de egos inflados sob controle senão vamos matar uns aos outros.

A loira ficou quieta. Minerva suspirou pesadamente a ponto de a convidada sentir seu bafo de tabaco.

— Luana por sua vez odeia em você o lance mais superficial possível que afeta nós mulheres. Não dá pra negar nosso narciso. Talvez por uma questão animal dada pela evolução as fêmeas buscam atenção dos machos e ter duas fêmeas juntas gera uma intrínseca competição que permeia a razão. Luana tem inveja de você dãããã. Qualquer colega da sua idade com algum narciso e complexo de inferioridade teria. Você não tem culpa, pode dizer realmente que não tem. Nasceu com uma boa genética, se cuida e pronto. Luana achar que você deveria se vestir de modo mais recatado ou com roupas mais grossas e largas é inveja dela. Resumindo nessa porra: as duas estão erradas por que estão pegando seus traumas e espelhando nas amigas.

Cosete não disse nada, Minerva parecia alterada e levantou da cadeira balançando a cabeça.

— Foda-se essa merda, vou beber uma cerveja. Quer?

— Não... e não são nem dez horas da manhã.

— Como eu disse: foda-se, quem determinou as regras do horário para se beber álcool?

Após buscar uma lata de cerveja e tomar um generoso gole Minerva volta a se sentar parecendo mais calma.

— Você é amiga da Luana, mas precisa afastar seus sentimentos pessoais dela se quer manter essa amizade. Luana está experimentando pela primeira vez na vida como é receber atenção de verdade igual a você. Se eu fosse explicar poderia fazer uma analogia sobre o caso daquela guria que estava dando em cima do Luís uma época, lembra?

— Ingrid?

— Sim, acha que Luana ficou meramente com ciúmes por ter outra garota cobiçando seu macho? Não, naquele momento ela teve um rebuliço de emoções. O ciúme é claro, mas também inveja do próprio namorado. Desde que eles começaram a namorar ou até mesmo antes ninguém de fora havia interferido, entende? Luana se pegou pensando como alguém poderia querer o namorado dela ao mesmo tempo que ficava feliz por alguém invejá-la por tê-lo. Ciúme, inveja e felicidade, dá pra perceber a merda que é isso junto na cabeça de alguém?

Cosete pensou em discordar quando Minerva completou.

— Você lembra da sensação boa que é quando passa inveja em alguém? Com certeza já passou por isso, aquela química boa que percorre seu corpo e você se sente superior.

Cosete baixou a cabeça. Já havia acontecido várias vezes.

— O aparecimento de Enzo deu a ela um jorro de novas emoções, agora era Luana a cobiçada. No namoro com Luís após o episódio com Ingrid, minha prima deve ter pensado que não agradava ninguém, que seu namorado que só pensa com a cabeça debaixo seria o único que a via com desejo sexual. Isso afeta o narciso, o orgulho dela como mulher, porque essa sensação de inferioridade é potencializada por ter uma amiga com você muito próxima. Acha que Luana não liga de ver tantos interessados em você e nunca ninguém sequer pediu o contato dela? Luana se agarrou firme na ideia que isso acontecia porque ela tinha namorado, mas quando Ingrid surgiu viu que o título “namoro” não é impedimento algum. Por Deus se nem “casamento” é imagine namoro!

Minerva bebeu vários goles da bebida.

Cosete não conseguia processar tudo o que Minerva estava dizendo, mas algo dentro dela sentia que era verdade e isso a deixava irritada.

— É isso? Devo deixar ela dar para qualquer um enganando o namorado enquanto eu uso uma burca para não ferir a porra do seu ego?

— Não, peituda. Você precisa deixá-la em paz. O que Luana está fazendo é contra a lei? Adultério só é no casamento querida, e hoje pela lei brasileira nem dá mais cadeia. No máximo uma multa. Minha prima não está fazendo nada ilegal. Imoral? Talvez, mas eu te pergunto: isso te afeta pessoalmente? Você conhece ou está a fim desse Enzo? É amiga de Luís para se preocupar assim com ele?

— ... não. – admitiu ela baixando mais a cabeça.

— Então deixe-a em paz. Sua raiva não é com ela ou com a situação e sim com o fato de você não conseguir aceitar o que aconteceu com seus pais. A raiva de Luana para contigo não tem nada a ver com você, tem com o complexo de inferioridade e inveja que ela sente, por isso pode usar as roupas que quiser usar. Vista-se até de modo mais sexy, quem vai ter que resolver seus problemas internos é Luana. A propósito... como consegue respirar?

Luana ergue a cabeça.

— Hã?

— Digo, esse top parece estar espremendo eles a ponto de quase saltarem para cima.

— Será que pode se concentrar na solução do meu problema?

— Que problema? Você e minha prima não tem nada uma contra a outra o que vocês têm são pendências internas que precisam de atenção. No resto vai lá e peça desculpas, tenho certeza que Luana fará o mesmo.

Cosete respirou fundo e de alguma forma se sentiu mais aliviada. Ponderaria com mais calma as palavras de Minerva depois, mas dificilmente discordaria. Quanto mais a fumante falava mais ela sentia que realmente tinha perdido no argumento e que as relações amorosas são dois carentes buscando que cada um atenda suas demandas para preencher o vazio.

— Eu nunca disse isso. – falou Minerva.

Cosete parou. A mulher a tinha acompanhado até a frente de sua casa e ambas estavam na calçada.

— O quê?

— Relacionamentos amorosos em sua maioria são isso, uma troca entre dois egoístas para atender a necessidade de cada um. Só que isso é só a maioria dos casais. Não existe verdade absoluta, assim como há uma maioria deve sempre ter a minoria. É legal ver que está procurando um homem que pense um pouco diferente dos outros, mas precisa ficar com os pés no chão. Não será fácil e você vai se decepcionar bastante.

Cosete alimenta um pouco a faísca da esperança e decidi arriscar com Minerva uma dúvida contando sobre o que ouviu de Íkaros enquanto falava com os amigos dentro do quarto. A prima de Luana franzi o cenho.

— Bizarro que um adolescente pense assim, mas gostei. Está aí, sua melhor aposta.

Minerva vê a hesitação de Cosete.

— O que foi?

— Não sei... talvez esteja me empolgando demais por tão pouco, mas acho que pela primeira vez realmente estou interessada em um cara e... bem... eu não sei, dá até um medo de falar com ele.

Minerva arregala os olhos e olha Cosete de cima abaixo, várias vezes.

— Tá me sacaneando? Já se olhou no espelho? Salvo se esse rapaz for gay, você consegue qualquer um se souber usar seu charme e quando digo “charme” quero dizer seu corpo. Ele pode aparentar ser um pouco intelectual, mas tem um pau entre as pernas e está numa idade que só pensa em trepar. Vai cair fácil.

***

Deitado em sua cama Íkaros tentava ignorar a dor em suas mãos, ambas estavam enfaixadas e doíam muito pelos socos que havia dado no estranho parque, o médico havia dito que não fraturara nenhum osso — o que era um milagre por que os ossos da mão são mais finos que o do crânio então em uma pancada, pela física, ambos recebem o mesmo dano.

Violeta puxou o lençol e se deitou ao seu lado passando o braço por seu peito e encostava a cabeça no ombro.

— Obrigado pelo que fez lá, um pouco irresponsável é verdade. Só que eu adorei, é legal quando uma mulher sente que pode ser protegida por seu homem.

— Eu... eu... – Íkaros olhava para as mãos — sentia que podia matá-lo se ninguém tivesse me parado.

Violeta puxa seu rosto para o lado ficando de frente para o dela.

— Você não fez nada de errado, ele era um homem ruim.

Íkaros sorriu de modo triste.

— Minha mãe estava chorando, ela falava com o dr Bruno no telefone. Parece que vão passar meu caso para um psiquiatra para poderem me prescrever remédios.

— Deixe que façam isso, é só jogar todos fora. Nunca se preocupe, Íkaros. Eu sempre estarei aqui para cuidar de você.

Violeta então o beija de modo inocente, depois outro beijo mais demorado, os dois se encaram por um momento em silêncio e a moça de cabelos roxos monta em cima do quadril do namorado já tirando sua camiseta expondo os seios.

— Acho que vou cuidar bem de você nesse exato momento... meu herói grego.