A linguagem das flores
1 Capítulo 1
Notas iniciais
O desafio é do "Clichê às avessas", cujo plot é o número 4 - onde a pessoa que você gosta chega na sua floricultura... Joga vintão (nesse caso quatrocentos ienes) no balcão e pergunta como mandar alguém ir se foder na linguagem das flores. Asanoya parecia perfeito pra esse plot e pra presentar a machadorisos, rainha dos fluffly e melhor confeiteira do site ♥
Pois muito que bem, parabéns de novo e aqui está seu presente atrasado (Sorry pelo atraso). Você, mulher, é maravilhosa, nunca duvide disso. Orgulho da família virtual, um doce e uma graça de pessoa, com as melhores piadas e os melhores áudios e melhor voz e melhores fics que merecem ser biscoitadas TODO DIA, TODA HORA!
Quem diz o contrário, não importa quem seja, é louco e sofre de falta de porrada na cara, inclusive me voluntario pra resolver esse problema aí.
É isso, espero que goste do singelo presente, rainha ♥
O sininho pendurado na porta tocou estridentemente, indicando um novo cliente. Asahi levantou a cabeça e encarou de maneira perplexa a figura nanica que adentrava sua floricultura, exalando uma presença e intensidade anormais apesar da pouca altura. Sentiu-se corar, porque ali, bem na sua frente, estava seu maior crush desde o ensino fundamental: Yuu Nishinoya, o jogador de vôlei mais lindo e gostoso da Karasuno.
Via-o de vez em quando nas quadras ou andando pela cidade, e sempre se perdia na beleza do garoto, se perguntando como alguém podia ser tão lindo e tão maneiro ao mesmo tempo. Era realmente muito injusto que algumas pessoas nascessem tão perfeitas assim! Apesar de ter todas essas ideias a respeito de Nishinoya, nunca conseguira reunir coragem para chegar nele. Sua covardia o irritava bastante, mas não era como se pudesse se livrar dela tão facilmente.
— Ei — chamou ele do outro lado do balcão, conseguindo ultrapassá-lo apenas por alguns centímetros. Ignorando esse detalhe, o cliente jogou quatrocentos ienes no balcão e encarou o floricultor com olhos afiados. — Como é que eu mando alguém ir se foder na linguagem das flores?
Asahi arregalou os olhos, abriu e fechou a boca procurando uma resposta, e por fim engasgou com a própria saliva, tendo um acesso de tosse tão forte que Nishinoya achou necessário pular o balcão para ir lá estapear as costas do moço, distribuindo golpes fortes e impiedosos enquanto gritava para que ele não morresse antes de lhe dar uma resposta.
— Eu estou bem, obrigado — respondeu Azumane, rouco, erguendo a mão para sinalizar que não ia morrer. — Me desculpe, é que isso foi bem inesperado.
— Oh, certo, eu devia ter sido mais sutil — reconheceu Yuu, sorrindo brevemente. — Mas é que… ah, ele me tira do sério, aquele vagabundo nojento!
— Quem? — arriscou Asahi, curioso.
— Ushijima, é claro! — respondeu em tom de obviedade. — Quem ele pensa que é pra dizer que Oikawa é fraco? Aquele merdinha, vai se arrepender de subestimar Aoba Jousai e o Karasuno!
— Entendo… rivalidade de times, não é? Já tive minha época — sorriu Azumane, parecendo subitamente nostálgico.
— Você também joga? — Nishinoya pareceu genuinamente curioso, medindo o floricultor de cima abaixo.
— Jogava, mas hoje em dia estou meio fora de forma — respondeu sem graça, coçando a nuca.
— Deveria voltar! Nosso time bem precisava de uma presença forte, acho que vou falar com Daichi… mas enfim, como eu posso mandar alguém ir se foder na linguagem das flores? — tornou a indagar, novamente com aquele ar determinado.
— Eu não sei, acho que não há como fazer isso — ponderou Asahi, sério.
— Tem que ter! Você é floricultor, tem que saber! — teimou Yuu, inconformado.
— Eu posso pesquisar… — mentiu Azumane, apenas para tranquilizar aquele mini furacão agitado.
— Certo, então. Volto amanhã pra obter minha resposta — decidiu Nishinoya, sorrindo satisfeito. Pegou seus ienes, pulou o balcão novamente e saiu da floricultura de forma repentina, tal como havia entrado.
Asahi apenas ficou ali, parado, encarando a porta com uma cara de paisagem. Gostaria de ter tido uma chance de conversar normalmente com seu crush, aquela tinha sido uma ótima oportunidade que ele perdera mais uma vez graças a sua covardia. Irritado, balançou a cabeça, imaginando que nunca mais algo assim aconteceria.
Não poderia estar mais enganado.
***
Asahi tentou não deixar o queixo cair, mas foi bem difícil ao ver ele ali na tarde seguinte, suado e com o rosto corado. Ao que parecia, tinha acabado de sair de um treino.
— Vim atrás da minha resposta — disse Yuu, sorrindo confiante e determinado.
"Que tipo de pessoa fica linda depois de se acabar num treino? Mas que… droga! Isso é tão injusto…" — choramingou Asahi
mentalmente, avaliando seu cliente. Então se lembrou que não tinha pesquisado nada, e que provavelmente Nishinoya o engoliria vivo por isso — de um jeito que ele não gostaria.
— Ah, você estava falando sério? — indagou o floricultor, coçando o pescoço num gesto envergonhado.
— Claro que estava falando sério! — retorquiu Yuu, indignado, levando as mãos até a cintura. — Você não pesquisou, então?
— Não? — devolveu Asahi, incrédulo. — Achei que estivesse óbvio que era uma missão impossível!
— Ninguém chega em mim para dizer que algo é impossível! — declarou Nishinoya, numa postura de presidente das impossibilidades que se tornaram possíveis.
Que diabo de conversa era aquela, afinal? Céus, será que Azumane não podia ter uma conversa normal com seu crush? Aliás, será que seu crush não podia ser normal, só para variar um pouco?
— Mas eu não cheguei em você, você que-... — o floricultor ainda tentou argumentar, mas foi interrompido pelo erguer da mão de Yuu.
— O cliente sempre tem razão, devia saber disso — lançou-lhe um sorriso convencido. — Já que me prometeu algo que não podia cumprir, me deve um lanche por me fazer perder tempo, principalmente porque dizem que tempo é dinheiro. Que horas você sai?
— Ãhn… sete da noite — respondeu, meio incerto enquanto coçava a nuca.
— Certo, sete horas estarei aqui, então até mais, moço das flores que não sabe a linguagem das flores — declarou Yuu, sorrindo e acenando um "tchauzinho" enquanto saía da floricultura.
O floricultor estava boquiaberto. Que diabos tinha acabado de acontecer? Seu crush tinha simplesmente marcado um encontro — aquilo era um encontro, não era? — entre eles, sem perguntar absolutamente nada! Só marcara o encontro e ponto final, nada de perguntas, flertes, brincadeiras. E ainda tinha tido a cara de pau de avisar que Asahi quem teria que pagar!
Mesmo enquanto refletia sobre o absurdo da situação, Azumane não pôde deixar de pensar em quão másculo aquilo havia sido. Nossa, Yuu era mesmo intenso e tão, tão gostoso!
O resto do dia passou lentamente entre um cliente brega e outro, aqueles que sempre vinham em busca das rosas ou algo clichê e chato. E enquanto atendia os bobocas — esse era o único xingamento que ele conhecia —, Asahi só conseguiu choramingar sobre a lentidão com que as horas passavam e sobre o quão a noite demorava para chegar.
***
O relógio marcava seis e meia quando Asahi fechou a loja, apenas porque o movimento tinha enfraquecido durante o decorrer do dia. Não tinha muita convicção acerca do seu encontro, pois além de muito inseguro, achava que tudo tinha acontecido repentinamente demais para ser sério. Só ficaria ali até às sete para não se arrepender depois.
Distraído com alguns crisântemos, Asahi não se virou ao ouvir o sininho da porta de entrada balançar, embora tenha revirado os olhos de forma impaciente. Quase sempre tinha algum imbecil entrando apesar da placa indicando "fechado" lá fora. Às vezes o floricultor se perguntava qual o problema com leitura que as pessoas tinham.
— Desculpe, mas nós estamos fechados no momento — avisou, sem sequer se virar para encarar quem quer que fosse o boboca.
— E você me disse sete horas! — uma voz animada e familiar retrucou, fazendo o coração de Azumane saltar até a garganta.
Pego de surpresa, ele se atrapalhou em sua tentativa falha de se virar rapidamente, derrubando uns três vasos da prateleira no processo. Os vasos se espatifaram no chão, espalhando terra e pétalas de crisântemo.
— Que desastrado! — exclamou Yuu rindo, as mãos nos quadris enquanto observava a bagunça de forma crítica.
— Eu… Hãn… me de… desculpe — se atrapalhou ele, abaixando-se para juntar os cacos dos vasos de cerâmica.
— Não foi a mim que você prejudicou, é melhor pedir desculpas para as plantas. Pobres dálias! — Exclamou Nishinoya, abaixando-se para ajudar Asahi.
— São crisântemos — corrigiu o outro, rindo de forma discreta.
— Ah… bom, são parecidas demais, não é mesmo? — retrucou Yuu, sem se deixar abalar, juntando montinhos de terra com as mãos em concha e pondo num vaso vazio ali perto.
Azumane apenas assentiu enquanto pegava as flores caídas. Na verdade, ele achava que não se pareciam coisa nenhuma, mas o jovem achou que esse detalhe não importava muito. Ficaram num agradável silêncio por alguns minutos, até que a parte mais evidente da bagunça fosse disfarçada. Logo, só um pouco de terra e estilhaços de cerâmica manchavam o chão branco de mármore, mas isso poderia ser resolvido depois.
— Ah, me desculpe por isso, suas mãos estão imundas! — lamentou Asahi, encarando Yuu de forma culpada.
— Isso não é nada — respondeu Nishinoya tranquilamente, batendo as mãos uma nas outras e sacudindo em seguida para se livrar da sujeira. — Vamos?
Azumane piscou, surpreso. Por que seu crush tinha que ser tão repentino sempre? Era desconcertante!
— Ãhn… sim, vamos. Só deixa eu… — começou ele, e saiu resmungando, sumindo por trás do balcão ao se abaixar para procurar algo. Quando surgiu novamente, estava sem avental e segurava uma flanela limpa, a qual jogou para seu companheiro. — Enxugue suas mãos aí, sim?
Yuu obedeceu, limpando as mãos o máximo que pôde, embora o resquício de terra ainda manchasse suas unhas. Asahi parecia tentar arrumar o cabelo, resmungando inconformado a cada coque feito que se desprendia sozinho. Quando ele finalmente conseguiu prender seu cabelo, sorriu adoravelmente para seu crush — que estava admirando-o discretamente.
— Estou pronto — avisou.
— Então vamos logo — sorriu Yuu, animado. — A propósito, como posso te chamar?
— Sou Azumane Asahi, mas só Asahi já está bom — respondeu enquanto trancava a floricultura e guardava as chaves no bolso da jeans.
— Certo, eu sou Nishinoya Yuu, mas você pode me chamar só de Noya — disse o baixinho, antecipando a próxima pergunta do seu acompanhante.
Eles ficaram em silêncio enquanto caminhavam pelas ruas de Miyagi, observando as estrelas despontarem no céu, brilhando timidamente enquanto este escurecia lentamente, a cor lilás tornando-se azul escuro aos poucos. A lua ainda era só um espectro transparente no alto. A noite estava perfeita, e o encontro — se é que aquilo era mesmo um —, tinha tudo para ser perfeito.
— Então, para onde vamos? — Asahi indagou, quase lamentando por precisar cortar o silêncio tão agradável.
— Não se preocupe, é bem perto — esclareceu Noya, sorrindo. — Mas e então, você disse que jogava vôlei, não é?
— Sim, jogava — Asahi assentiu em concordância. — Parei porque o time se desfez e… bom, tenho dificuldade para me entrosar em outros times com pessoas desconhecidas e tudo mais — coçou a nuca de forma envergonhada.
— Ah, se você não pode se entrosar com o time, ele não é pra você! Aposto que o nosso seria perfeito — declarou Yuu, de forma muito confiante.
— Não sei, não — teimou Azumane. — Além do mais, você nem sabe se jogo bem, talvez não seja bom para seu time.
— Besteira — retorquiu, estalando a língua no céu da boca. — Eu reconheço um bom jogador quando vejo um.
— Me sinto lisonjeado, espero não frustrar suas expectativas — brincou Asahi.
— Ah, não vai — dito isso, Noya mediu seu acompanhante com um descaramento tão grande que ultrapassava todos os limites permitidos da "cara de pauzice".
Vendo-se centro de toda aquela atenção, Asahi corou furiosamente, sentindo-se aquecer do pescoço até o topo da cabeça, o rosto todo queimando. Yuu percebeu esse detalhe sob a luz fraca dos postes e riu sem reservas.
— Bom, estamos chegando — declarou de repente, apontando para uma lojinha ali perto. — Sou um cara bondoso, então vou cobrar pouco pela sua negligência com seu cliente.
— Ah, sim, muito obrigado por toda essa bondade para com minha pessoa — zombou Asahi. Normalmente, não faria piadas nem conversaria tão descontraidamente com alguém, mas Noya o deixava tão confortável que tudo entre eles apenas fluía de forma natural.
— De nada — devolveu Yuu, fazendo uma reverência baixa antes de puxar o outro para dentro da lojinha.
Lá dentro, um loiro fumante encarava as cinzas no cinzeiro, parecendo muito concentrado. Ignorou os jovens enquanto eles andavam pelo espaço, Noya enfiando nos braços de Asahi sacos de salgadinho e refrigerante.
— Você tem alguma preferência? — indagou ele, encarando algumas opções de sabor com indecisão.
— Oh, não, prefiro deixar por sua conta — Azumane respondeu, negando de forma tranquila. Era verdade, ele mesmo não tinha muitas preferências, comida era sempre comida.
— Certo, então — Yuu deu de ombros, escolhendo o sabor churrasco. — Facilita as coisas pra mim.
Se Asahi não estivesse tão encantado com o despojamento de seu acompanhante, diria que ele era folgado. Mas quem se importava com esses detalhes quando tinha alguém com aquele rosto, aquele corpo, aquela voz, aquele tudo bem na sua cara? Simplesmente não tinha como reclamar, muito pelo contrário, o floricultor estava muito feliz pelo baixinho ser tão bom de atitude — até porque se não fosse pela iniciativa do outro, talvez eles nunca acabassem saindo juntos.
— Você de novo? — indagou o moço do caixa, encarando Noya com olhos estreitos. — Achei que tinha dito pra você e sua turma comerem direito, pirralho.
— Nós estamos, é só por hoje — respondeu o menor, em tom quase implorativo.
— Certo — concordou o homem, passando as coisas pelo caixa enquanto encarava os jovens.
Asahi tomou a frente e pagou pelas coisas, que deram pouco mais que quatrocentos ienes. Depois pegou as sacolinhas e esperou Noya se juntar ao seu lado. Quando saíram da loja, o silêncio foi mais uma vez quebrado pelo mais comunicativo dentre eles.
— Que cavalheiro você é — Yuu disse, piscando os olhos de forma quase afetada. — Não precisava ter me levado a sério, a gente podia rachar.
— Não, o cliente sempre tem razão, esqueceu? — retrucou Asahi, sorrindo enquanto piscava um olho.
— Por falar nisso, e minha mensagem? Eu ainda quero mandar, e você teve o dia todo pra pesquisar. Achou algo? — Noya seguiu rumo ao clube ali perto e andou até os degraus que levavam a entrada, sentando ali. A visão do céu naquele ponto era perfeita.
— Na verdade, eu nem preciso pesquisar pra saber que é impossível — confessou Asahi, sentando-se ao lado do outro. — As flores são pra mandar mensagens bonitas ou de conforto, no máximo algo melancólico. Não tem como ofender alguém com flores, porque elas são delicadas e especiais demais pra servirem um fim desagradável como esse. Se existe alguma flor assim, provavelmente não está dentre as da floricultura Crisântemos Preciosos.
— Você parece entender bastante do assunto, e gostar de flores — comentou Noya, parecendo genuinamente interessado enquanto encarava o acompanhante, por pouco não rasgando o saco de salgadinho de forma errada por isso.
— Gosto sim, por causa da minha avó. A floricultura é dela, na verdade, mas eu trabalho de tarde para ajudá-la, não por necessidade, mas por vontade mesmo. Quando eu era pequeno, ela me contava histórias e sempre me dedicava uma flor diferente para enumerar minhas qualidades — Asahi contou, o tom nostálgico surgindo na voz.
— Isso é muito bonito — declarou Yuu, parecendo emocionado enquanto enfiava um punhado de salgadinho na boca, oferecendo para o outro em seguida. — Crisântemos Preciosos é um nome simbólico, não é?
— É, sim — confirmou Asahi. — Crisântemo é a flor nacional do Japão, por isso vovó escolheu esse nome, ela tem muito orgulho das suas origens.
— Entendi, muito legal tudo isso. Você gosta de vôlei tanto quanto gosta de flores, Asahi-san? — a pergunta foi feita num tom empolgado.
— Ah, sim… — respondeu Azumane, meio incerto.
— Se você quiser, ainda tem vagas no time do Karasuno, na verdade nós temos poucos jogadores — continuou Noya, casualmente, sem deixar de se empanturrar de salgadinho.
— Como eu disse, ando meio fora de forma, e tem a floricultura…— Parou uns instantes para refletir. — Mas eu posso tentar alguns treinos, sim, nem que seja só pra ver se estou muito enferrujado — acrescentou.
Não pôde explicar muito bem o calor gostoso que sentiu ao ver o sorriso iluminado que Noya lhe dirigiu. Asahi tinha lá seus traumas do vôlei graças a última equipe com a qual trabalhara — onde a pressão era muita e a comunicação uma lástima. Mas ali, observando o sorriso de Nishinoya e a animação dele, Azumane sentiu que o esforço valeria a pena. E se não gostasse, podia simplesmente deixar para lá, sabia que seu novo amigo compreenderia.
O silêncio que recaiu estava longe de ser desconfortável. Na verdade, era acolhedor e, de alguma forma, dizia mais sobre como eles apreciavam a companhia um do outro do que palavras poderiam expressar. Ali, lado a lado, Asahi e Yuu comeram salgadinho de churrasco e tomaram suco de laranja enquanto admiravam a beleza estonteante da lua, que quase ofuscava as estrelas, tão brilhante estava naquela noite. Azumane pensou talvez fosse o brilho do sorriso alheio que a contagiava.
Como as horas tinham passado rápido e já estava tarde, ambos se despediram ali mesmo, com um aperto de mão e uma promessa de se verem no dia seguinte.
Asahi não imaginava, mas a partir daquele dia, ele nunca mais poderia viver sem Nishinoya.
***
Uma semana depois, o clube de vôlei da Karasuno elogiava efusivamente o novo jogador, que possuía altura e força, sendo um diamante bruto a ser lapidado pelos treinos. Asahi ficava sem graça, mas não podia negar que adorava aqueles elogios, principalmente quando eles vinham de Noya.
Os encontros entre ambos estavam muito mais frequentes, eles passavam a tarde toda juntos, treinando incansavelmente. Aquele time repleto de harmonia e companheirismo — e piadas infames, porque isso faz parte de um bom trabalho em equipe — certamente inflara novamente a chama ardente de jogador em Asahi. Ele não tinha percebido o quanto aquilo fazia falta até retornar para a quadra e para a ação.
— Ei, Asahi-san, eu vou com você até a floricultura! — gritou Noya, sorrindo, correndo atrás do amigo maior.
— Vai se cansar à toa, não precisa, Noya-san — respondeu Azumane, corando, enquanto balançava os braços em uma dispensa educada.
Queria a companhia de Yuu? Claro que sim. Mas ao mesmo tempo, não queria que ele se esforçasse e se cansasse por alguma ideia de proteção ou seja lá o que fosse que o levava a fazer aquelas ofertas todos os dias, as quais sempre dispensava.
— Não é questão de você precisar, é questão de eu querer — teimou Noya, dessa vez não se deixando abalar pela recusa do outro.
Vendo que seu amigo estava irredutível, Asahi deu de ombros. Tinha se acostumado a pensar em Noya como uma boa amizade naquela semana de convivência, embora seu crush ainda estivesse firme e forte ali, dizendo que não era o suficiente, que amigos não se beijavam nem andavam de mãos dadas. Mas todo dia ele tentava calar esses sentimentos, inseguro demais para acreditar que tinha chance — principalmente depois de ver a asa que Yuu arrastava para Kyoko, a assistente linda deles.
Com esses pensamentos lhe dominando a mente, mal percebeu quando chegou na porta da Crisântemos Preciosos. A casa que dividia com sua avó ficava no andar de cima, então ele sempre precisava atravessar a floricultura antes de adentrar seu lar.
— Bom, obrigada por me acompanhar, Noya-san — agradeceu Asahi.
— Eu não vim só por isso, você não precisa de guarda costas — declarou o outro, direto.
Mas é claro que Azumane não entendeu nada, porque além de tímido e ruim em tomar atitudes, ele era lerdo demais. Continuou encarando o outro com cara de paisagem, pelo menos até ser empurrado contra a porta da floricultura, sendo prensado ali. Nishinoya — que esperara por aquele momento desde a primeira vez que vira Asahi — o puxou pela gola da camisa e aproximou seus rostos.
— Será que se eu usar a linguagem das flores pra dizer que quero te beijar, você vai me entender? — Perguntou Yuu, ignorando o arregalar de olhos alheio.
Ficaram ali, se encarando, os rostos a poucos centímetros de distância, até que Asahi finalmente a cobriu. Ele não era de tomar muitas atitudes na vida, mas quando o fazia, nunca era de má vontade. Por isso, só o roçar de lábios não lhe foi suficiente, então ele tratou de agarrar Noya pela cintura, colando os corpos também, aprofundando o beijo. Foi a sua língua que pediu passagem primeiro, num afobamento de quem espera por algo há anos.
E embora tivesse ficado surpreso por essa súbita tomada de atitude vinda de Asahi, Yuu não ia ficar para trás. Pensando nisso, ele tratou de se esticar mais, pondo-se tanto nas pontas dos pés que sentiu-se uma bailarina. Suas mãos passearam até a nuca do outro, desfazendo o coque usual para deixar os dedos se infiltrarem ali, trazendo-o mais para si, aprofundando o beijo.
Eles nunca saberiam dizer quanto tempo se passou entre um beijo e outro, entre tantos olhares profundos e sorrisos trocados nos intervalos de cada ósculo. O tempo e espaço pareciam não existir, o mundo parecia só um borrão atrás deles.
— Eu… preciso entrar… vovó já deve estar preocupada — Asahi se obrigou a dizer, ainda que contra sua vontade.
— Tudo bem — concordou Noya, lhe dando vários selinhos. — Eu também preciso ir, amanhã tenho aula.
— Certo, então a gente se vê amanhã? — indagou Azumane, embora já soubesse a resposta.
— Claro, eu vou defender todas suas cortadas amanhã — Yuu anunciou com um daqueles sorriso de ofuscar a lua.
— Com certeza — concordou Asahi, sorrindo.
Foi um sacrifício se despedir, porque toda hora eles voltavam correndo um para o outro para um último selinho. E entre esses últimos, eles provavelmente devem ter trocado vinte selinhos até enfim se obrigarem a seguirem seus caminhos.
Quando Asahi entrou na Crisântemos Preciosos, ele acendeu a luz e encarou as flores com mais amor do que lhes dedicara em toda vida. Entre todos os perfumes que elas tinham lhe trazido, agora ele ele podia acrescentar na lista o melhor dos melhores: o cheiro de Nishinoya.
***
4 anos depois
Na universidade, o ritmo era muito mais pesado. Infelizmente, agora ele não podia nem dedicar seus finais de semana a Crisântemos Preciosos, como fizera durante todo o colegial.
Aquela era uma oportunidade rara de desfrutar do aconchego da floricultura da avó, do aroma das flores. De costas para a porta de entrada, ele alinhava os vasos de orquídeas, admirando as cores das pétalas. Sua paz logo foi encerrada pelo sininho da porta que indicava a entrada de alguém.
Revirando os olhos, Asahi respirou fundo, se preparando para lidar com o imbecil que não sabia ler a placa indicando "fechado" na porta. Mesmo depois de tantos anos, ele não aprendera a prever as surpresas que um certo alguém podia lhe reservar.
— Eu gostaria de saber — começou o tal "imbecil". — Como se pede alguém em casamento na linguagem das flores.
Azumane se virou, sorrindo surpreso e muito feliz, esquecendo completamente das flores. Abriu os braços e se lançou contra o nanico, levantando-o um pouco.
— O que faz aqui? Não ia voltar só nas férias? — indagou depois de encher seu amado de beijos e abraços.
Noya tinha recebido uma oportunidade incrível como bolsista em Tóquio, e tratou de aproveitar, com o apoio de todos os seus amigos e principalmente de Asahi.
— Não pude esperar, aproveitei que estou relativamente livre de provas por enquanto. É só um bate volta, queria muito te dar um beijo e descobrir a resposta pra minha pergunta.
— Que pergunta? — Azumane estava confuso.
— A que eu fiz quando cheguei, óbvio.
Silêncio. Eles ficaram quietos, se encarando. Asahi estava desacreditado, enquanto Noya parecia totalmente determinado e muito sério.
— Eu já imaginava que você ia me olhar com essa cara de bobo, porque no fundo você não entende nada da linguagem das flores, Asahi — debochou Yuu, parecendo divertir-se muito. — Mas eu já pesquisei e sei quais flores eu quero.
— Certo, e quais são elas? — Indagou Azumane, meio emocionado.
— Girassóis, camélias vermelhas, lavandas e flores de cacto, por favor — pediu, numa reverência baixa.
— Lealdade e longevidade, amor, fidelidade e luxúria — Asahi recitou os significados de cada uma das flores na ordem que foram pedidas.
— Isso mesmo, tudo que eu desejo que haja no nosso casamento — confirmou Noya, sorrindo. — E vamos logo com isso, não tenho o dia todo!
Piscando, ainda muito atordoado, Asahi saiu pela floricultura, reunindo três flores de cada espécie, completando aos poucos depois. Quando formado, o buquê estava colorido e vivo, repleto de perfumes, belezas exóticas e promessas.
Noya tomou o buquê da mão do namorado e o ofereceu para ele novamente, com um dos joelhos no chão.
— Asahi Azumane, você aceita casar comigo, juntar os trapos num apartamento entre as duas cidades e acordar todos os dias antes das quatro da manhã só pra ir estudar, e a tarde se matar nos treinos de vôlei, com o único benéfico de morarmos juntos e vermos nossas caras amassadas de madrugada todos os dias? — ele pediu, alto e claro, sorrindo daquele jeito que não mais ofuscava a lua, mas sim o sistema solar inteiro.
— Eu… é claro que eu aceito, seu bobo — Asahi estava em lágrimas quando puxou Noya para cima e o enlaçou num abraço apertado cheio de amor. — Eu te amo tanto, Yuu, você não faz ideia.
— Claro que faço, só porque eu te amo mais não significa que eu não saiba do seu amor — riu o menor, apertando-se mais naquele abraço.
— Eu te amo mais, seu mentiroso.
E enquanto eles discutiam sobre quem amava mais, Asahi se viu agradecendo as flores pela zilhonésima vez, por terem trazido para sua vida a mais bela e cheirosa delas: seu Yuu Nishinoya.
Fale com o autor