Notas iniciais
Eu sigo a noite, não consigo suportar a luz. Quando eu começarei a viver outra vez? Um dia eu partirei, deixarei isso tudo para trás. O que maisO seu amor pode fazer por mim? Quando o amor terminará para mim? Por que viver a vida de sonho a sonho? E temer o dia que o sonho acabará?... Moulin Rouge

O pequeno espelho refletia uma mulher linda, e atormentada.

Regina acertou seu batom vermelho e fitou seus olhos negros.

Eram frios e tristes.

Em momentos tensos como aqueles, quando queria respostas, ela recorria aos espelhos, fitando sua imagem bela e amarga, que nada lhe revelava, por incontáveis minutos.

_ Regina? — chamava Archie da soleira da porta.

Ela respirou fundo e entrou no consultório.

Archie estava visivelmente sonolento. Havia uma xícara de café fumegante na mesinha ao lado de sua cadeira.

Regina ligara a meia noite. Não conseguia dormir e não podia esperar.

_ Por favor, sente-se.

A prefeita se acomodou na poltrona, estrategicamente pousada frente ao psicólogo. Fincou as unhas em seus joelhos e olhou para o carpete, exalando constrangimento.

_ Não se preocupe, está tudo bem.

O silêncio tomou conta da sala. Archie a encarava, com sua expressão patética habitual, a espera de alguma palavra, alguma reação. Regina continuava com os olhos pregados no chão, sem saber por onde começar. Ela endireitou-se na poltrona, ficando perfeitamente ereta. Mesmo perturbada, a áurea de rainha não a abandonava.

_ Eu... disse ela piscando repetidas vezes. _ eu... tenho um problema. – soltou de uma vez.

Archie assentiu, a incentivando a prosseguir.

Regina desviou momentaneamente o olhar, trazendo o de volta rapidamente, cheio de angústia.

_ Eu preciso de ação!

O rosto do psicólogo exibia incompreensão.

_ Eu preciso... viver! — exclamou ela, irritada, se remexendo em seu lugar.

Archie nada disse.

_ Entendo.

Regina o olhou com incredulidade, o fuzilando.

_ Todos os dias são iguais. E estou sozinha em todos eles. Nada muda, nunca. – confessou a mulher, fugindo mais uma vez dos olhos de Archie. _ Eu vejo a vida passar por mim. E, não há nada que eu possa fazer para mudar isso. Estou amaldiçoada.

As palavras de Regina soavam como uma sentença.

Archie não a compreendia, ninguém em Storybrookes poderia compreender.

Pensara que ter todos sob seu controle lhe traria paz, que vê-los vivendo vidas artificiais, que não eram deles, sem consciência da desgraça em que viviam a faria feliz. Como se enganou. Andava pelas ruas da cidade, em meio a tanta gente, e tudo que sentia era a solidão, seu peito vazio.

Archie pensou um instante.

_ Mas... há tantas saídas, Regina.

Regina o fitou com pálida esperança.

_ Se abrir aos outros, fazer amizades...

Ela bufou.

_ EU NÃO QUERO AMIGOS! — Disparou, raivosa.

Ele prosseguiu:

_ Você deve dar uma chance a você mesma, para a felicidade...

Regina negou freneticamente.

_ Que pode ser tanta coisa, um animal de estimação, livros...

Ela sabia o que viria a seguir, cerrou as pestanas, aguardando.

_ Uma criança.

Uma lágrima rolou.

Era impossível. Impossível.

Archie se levantou e começou a abrir as persianas das janelas, desajeitadamente. Regina o assistiu, em choque.

_ E mais — disse ele, enfático, apontado o jardim e as montanhas lá fora _ há um mundo inteiro a sua espera. Pronto a abraça-la. Você só precisa se permitir.

Regina encarou a paisagem, com o pensamento longe, perdida num breve desvaneio.

Ele não podia compreender, não havia quem pudesse.

Depois levantou-se, majestosamente, e lançou um feitiço sobre o homem, apagando aquele encontro de sua memória.

Ninguém nunca saberia de suas dores, suas fraquezas. Muito menos a veria chorar.