A lenda dos amantes do Tempo
1 Um apelo
Notas iniciais

O pequeno espelho refletia uma mulher linda, e atormentada.
Regina acertou seu batom vermelho e fitou seus olhos negros.
Eram frios e tristes.
Em momentos tensos como aqueles, quando queria respostas, ela recorria aos espelhos, fitando sua imagem bela e amarga, que nada lhe revelava, por incontáveis minutos.
_ Regina? — chamava Archie da soleira da porta.
Ela respirou fundo e entrou no consultório.
Archie estava visivelmente sonolento. Havia uma xícara de café fumegante na mesinha ao lado de sua cadeira.
Regina ligara a meia noite. Não conseguia dormir e não podia esperar.
_ Por favor, sente-se.
A prefeita se acomodou na poltrona, estrategicamente pousada frente ao psicólogo. Fincou as unhas em seus joelhos e olhou para o carpete, exalando constrangimento.
_ Não se preocupe, está tudo bem.
O silêncio tomou conta da sala. Archie a encarava, com sua expressão patética habitual, a espera de alguma palavra, alguma reação. Regina continuava com os olhos pregados no chão, sem saber por onde começar. Ela endireitou-se na poltrona, ficando perfeitamente ereta. Mesmo perturbada, a áurea de rainha não a abandonava.
_ Eu... disse ela piscando repetidas vezes. _ eu... tenho um problema. – soltou de uma vez.
Archie assentiu, a incentivando a prosseguir.
Regina desviou momentaneamente o olhar, trazendo o de volta rapidamente, cheio de angústia.
_ Eu preciso de ação!
O rosto do psicólogo exibia incompreensão.
_ Eu preciso... viver! — exclamou ela, irritada, se remexendo em seu lugar.
Archie nada disse.
_ Entendo.
Regina o olhou com incredulidade, o fuzilando.
_ Todos os dias são iguais. E estou sozinha em todos eles. Nada muda, nunca. – confessou a mulher, fugindo mais uma vez dos olhos de Archie. _ Eu vejo a vida passar por mim. E, não há nada que eu possa fazer para mudar isso. Estou amaldiçoada.
As palavras de Regina soavam como uma sentença.
Archie não a compreendia, ninguém em Storybrookes poderia compreender.
Pensara que ter todos sob seu controle lhe traria paz, que vê-los vivendo vidas artificiais, que não eram deles, sem consciência da desgraça em que viviam a faria feliz. Como se enganou. Andava pelas ruas da cidade, em meio a tanta gente, e tudo que sentia era a solidão, seu peito vazio.
Archie pensou um instante.
_ Mas... há tantas saídas, Regina.
Regina o fitou com pálida esperança.
_ Se abrir aos outros, fazer amizades...
Ela bufou.
_ EU NÃO QUERO AMIGOS! — Disparou, raivosa.
Ele prosseguiu:
_ Você deve dar uma chance a você mesma, para a felicidade...
Regina negou freneticamente.
_ Que pode ser tanta coisa, um animal de estimação, livros...
Ela sabia o que viria a seguir, cerrou as pestanas, aguardando.
_ Uma criança.
Uma lágrima rolou.
Era impossível. Impossível.
Archie se levantou e começou a abrir as persianas das janelas, desajeitadamente. Regina o assistiu, em choque.
_ E mais — disse ele, enfático, apontado o jardim e as montanhas lá fora _ há um mundo inteiro a sua espera. Pronto a abraça-la. Você só precisa se permitir.
Regina encarou a paisagem, com o pensamento longe, perdida num breve desvaneio.
Ele não podia compreender, não havia quem pudesse.
Depois levantou-se, majestosamente, e lançou um feitiço sobre o homem, apagando aquele encontro de sua memória.
Ninguém nunca saberia de suas dores, suas fraquezas. Muito menos a veria chorar.
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