A lenda dos amantes do Tempo

19 O sacrifício maior - parte 2: O pesadelo se inicia


Notas iniciais
Prequel de Once Upon a Time. Tudo acontece antes de Regina adotar seu filho Henry e a série começar. Contém spoillers leves. A fic se relaciona com a terceira e quarta temporada mas é possível lê-la sem ter visto as seasons. Geeente desculpa a demora, to com prova ainda ta muuuito difícil escrever. Vou dividir esse capítulo em três porque senão vou demorar 15 dias pra escrever ele todo! Espero que gosteem! Comentem, amo os comentários!

_ Durma bem meu menino, que nada perturbe o seu sono. – sussurrou Regina, colocando Henry cuidadosamente em seu berço.

Ela o observou dormir por um tempo, desconcertada, enquanto pendurados no berço, um boneco de Peter Pan e pequenas estrelas flutuavam sobre o bebê, dançando descontrolados devido à ventania lá fora.

Regina fitou a face de gesso do bonequinho. Uma sensação estranha crescia em seu peito. Um pressentimento, algo inominável e agonizante que se apoderava de seu ser.

A rainha mirou as cortinas se debatendo, o vento rugindo, forçando-se a acreditar que estava tudo bem.

Por fim, foi fechar as janelas, nada convencida.

Maise abriu a porta e com toda a cautela expiou a rua pela milésima vez. Fechou-a instantaneamente, colando as costas na madeira escura, sorrindo como uma garotinha apaixonada.

Ele estava ali. De prontidão.

O guarda, devidamente posicionado em sua carruagem, havia movimentado a cabeça de modo quase imperceptível, o bastante para transmitir a segurança tão desejada pela governanta.

Maise já podia sentir sua vitória. Seu gosto, seu tato, seu som.

Sua felicidade antecipada era tanta que não pode evitar, pensou nela. Qualquer mísera centelha de felicidade a lembrava dela. Sempre.

Saindo do quartinho do bebê, Regina entrou num corredor, desceu a escada e continuaria seu caminho normalmente, se algo não chamasse sua atenção, a forçando a interromper seu trajeto.

Camuflada entre os móveis, perto dos fundos da mansão, estava uma porta lascada e entreaberta. Mas o que a fez se aproximar, devagar e com olhos alarmados foi o que viu lá dentro.

Uma luz avermelhada cobria todo o fiapo de cômodo que conseguia ver. Não vira nada minimamente igual em Londres, até agora.

Sem pensar direito, ela empurrou a maçaneta e entrou.

O manto luminoso estava em toda parte, todo e qualquer o canto daquele suporto quarto, minúsculo e sem graça, composto apenas por uma pequena cômoda e uma cama velha, perfeitamente feita. Tudo era bege e monótono. Não dizia nada sobre quem vivia ali.

E então Regina virou-se. E deu um passo para trás. De choque, boquiaberta e com olhar arregalado.

Flutuando no ar, como se fossem projetadas no mesmo, imagens se movimentavam, uma após a outra, repetidas vezes, num ciclo infinito. Eram como as cenas de um filme vermelho, protagonizados por duas meninas sorridentes e inseparáveis que corriam num campo brincando com um cachorrinho, nadavam no mar, andavam descalças dentro de uma enorme casa, colhiam flores num jardim, jogavam xadrez em noites de tempestade, faziam tudo juntas. A garota ruiva parecia estar sempre ao redor da outra menina, doce e frágil, pronta a ajuda-la no que fosse preciso, como uma protetora.

A forte conexão entre elas era nítida e enchia o quarto.

Regina tentou ler os lábios mudos das duas. Mas por mais que se esforçasse, não conseguia compreender uma única palavra que pronunciavam. Fez uma nova tentativa. Estavam agora debaixo de uma árvore florida, iluminadas pelos raios de sol que circundavam as folhas. A menina morena ficava ainda mais miúda, branca e indefesa sob a luz. Ela posava para a outra, sentada em um tronco. Apenas os olhos verdes da garota de cabelos avermelhados eram vistos. Estava escondida por uma tela, a qual encarava concentrada. Ela movia o braço com delicadeza, lançando esporádicos e cálidos olhares para sua modelo. Num dado momento, ergueu-se e balbuciou alguma coisa.

Caroline...?

Ela repetiu a palavra e a rainha prestou ainda mais atenção, nervosa por não entender o que dizia.

Kathe...

Regina acompanhou cada mínimo movimento de boca.

Katherine.

Quem era aquela pessoa?

A luz fumacenta fazia os olhos de Regina arderem. Emanava das imagens e estava em todos os lugares. A rainha não entendia. Era como estar em outra dimensão, de volta ao seu mundo, mágico ao natural. Não conseguia crer que fosse humanamente possível fabricar aquilo naquela terra, naquele tempo. Nada se encaixava. Estava diante de algo bizarro e inexplicável, de uma exibição fantasmagórica. Quem estava por trás daquilo?

Ela olhou a cama e as figuras dançantes, respetivamente.

As imagens estavam dispostas de forma que qualquer um que estivesse fora do quarto não visse nada. Por outro lado, eram direcionadas para a cama como se quem quer que ali dormisse, deitasse e passasse noites e noites numa melancolia tremenda, exclusivamente assistindo à aquelas meninas.

Quem eram elas?

Ela ouviu um copo se espatifando.

Maise estava na soleira da porta, imóvel, com centenas de caquinhos a seus pés, vidrada em Regina. Ela sequer respirava, como se encontrar a prefeita no local a abalasse tanto que anestesiasse seus sentidos.

_ SAIA DAQUI! AGORA! – ela cuspiu em direção à intrusa como uma besta quase babando de ódio, com a cabeça tremulando enquanto falava e olhos que por um pouco não saltavam de órbita.

Aquele era o rosto da própria insanidade.

_ SAIA!!!

Regina deu alguns passos com a determinação furiosa de uma rainha ferida e sanguinária. O terror impregnou a pálida face de Maise e ela por sua vez recuou para trás, até ficar encurralada contra a parede.

Fuzilando-a sem trégua, Regina fechou seus dedos contra o pescoço da outra mulher.

_ Como ousa?

Os olhos da governanta refletiam o desespero de estar ali, presa e entregue à Regina, e também ódio gratuito, mágoa e amargura. Que abismos aquele olhar escondia?

Antes que pudesse notar as faíscas vermelhas ao redor da mão de Maise, a rainha ouviu a voz de Bernard a chamando. Ela o ignorou até que ele repetisse seu nome pela terceira vez e seu rosto se suavizasse, enfim cedendo.

A governanta havia escapado daquela vez. Somente daquela vez.

Regina saiu, se encaminhando até Bell atordoada com tudo que acabara de acontecer. Ao entrar no quarto dele, fez o que pode para disfarçar sua tensão com um sorriso.

_ Liz quer um beijo de boa noite. – disse o pai, com a filha no colo.

_ Boa noite, meu amor. – disse Regina, beijando a testa esbranquiçada da menina.

Bernard se retirou para por Eliza na cama e a rainha ficou sentada sobre o lençol, sozinha com seus pensamentos. Uma dezena de minutos depois, Bell voltou.

_ O que aconteceu, Regina? — amoroso, ele segurou seu rosto com as duas mãos e ela inclinou-o como se estivesse com a bochecha deitada em seus dedos.

Ela pensou um instante. Estava tentada a contar do santuário macabro instalado naquele quartinho. Mas, Bernard não parecia saber sobre ele. Seria um estresse desnecessário, pelo menos por aquele dia. Falaria depois.

_ Cansaço, acho.

_ Cansada por que? De tanto fazer amor? — rebateu Bell, com um sorriso malicioso nos lábios.

Ela se levantou e ficou na altura dos olhos deles.

_ Por algum outro motivo. Não me canso nunca disso. – respondeu ela, sugestivamente, terminando com uma mordidinha na boca dele.

_ Ah é? — Bernard agarrou a cintura de Regina e juntos caíram na cama.

_ Bernard! — soltou ela, o repreendendo entre risadas — as crianças!

_ Eu sei! Estão ao lado dormindo como dois anjinhos. Não devemos incomodá-los. – ele fez uma careta, fingindo tristeza. _ Se bem que acho que eles não vão notar se eu fazer isso em sua maravilhosa madrasta. – Bell não deixou-a reagir à aquele “ madrasta” , a beijou com destreza, grudando seu corpo definido ao dela, amolecendo Regina, impedindo-a de pensar em suas preocupações, em qualquer coisa para além daqueles lábios, todos seus.

Ela dobrou uma esquina e sem alterar seu ritmo, seguiu, por mais uma rua escura que se estendia a sua frente. Os pés doíam, mas não se permitia desacelerar. Já esperara demais. Aquela chateação era nada perto dos anos inteiros que havia aguardado.

Andava a passos largos, ofegando por baixo de seu capuz, impaciente. Ainda estava longe de chegar, aquela cidade imensa parecia não ter fim, era um empecilho aos seus planos por si só. Apesar disso, estava no caminho certo, rumo ao endereço que Abigail lhe passara, e essa certeza era o bastante para a fazer prosseguir. Tudo que tinha de fazer era continuar a andar, até sua filha, até seu final feliz.

Seu caminhar martelava a calçada vazia, resultando numa melodia irritante e frenética. Dentro de sua cabeça, certos nomes rodopiavam. Wendy... Chapeleiro... Zelena... Regina. Ela não queria partir. Não queria deixar para trás o que quer que fosse que a prendia naquele tempo. Quem a fazia resistir à ideia. Não importava. Ela iria, mesmo à força. À ajudaria, por bem ou por mal, e mais tarde a agradeceria por tê-la arrastado até Oz. Seria grata por tudo que fizera.

E então um singelo som cresceu em meio à noite silenciosa, lhe arrancando de suas divagações, fazendo brotar diminutas lágrimas nos olhos da bruxa que todos achavam, não tinha coração. Enquadradas por uma janela e cortinas abertas, duas menininhas riam, enfiadas em uma casa qualquer, sentadas sobre um imenso tapete persa. A mais velha, uma ruivinha adorável, apontava sua boneca para a outra criança, de cabelos negros como o carvão, que a ouvia admirada.

A cena conseguiu paralisá-la. Cora as observou por um eterno minuto, totalmente entregue ás suas emoções, reparando em cada detalhe das duas, seus rostinhos, os sorrisos, a maneira amável que conversavam e se olhavam.

Ela piscou repetidas vezes. Seus cílios ficaram úmidos.

Era hora de ir em frente.

_ Nos aguarde, Zelena. Estamos chegando...

O luar coloria o rosto de Eliza de prata. Quieta sob as cobertas de sua larga cama, parecia mais pequenina do que já era, quase que mais uma de suas bonecas, espalhadas pelo quarto. A um bom tempo ela estava ali, com o olhar desencantado preso no vento furioso que entrava, pela janela, como um monstro a assustar criancinhas. Papai já havia lhe dado um beijinho de boa noite, contou o resto de uma história e devia pensar que sua menina estava agora sonhando com coisas bonitas, mas ela simplesmente não dormia. Ouvia do fundo de seu jovem peito algo lhe dizendo que não fechasse seus olhos.

Sem saber porque, seguia essa ordem.

Porém como se estivesse enfeitiçada, ela piscou uma, duas vezes, de modo sonolento. E então adormeceu, acordando para o primeiro dos pesadelos que viria a seguir.

_ Estou vendo Liz! Estou vendo! — gritou Wendy, eufórica.

Estavam num lugar onde tudo era natureza e luz. Densas árvores cercaram um lago cristalino, lar de centenas de peixinhos inquietos, de cores vibrantes a bailarem na água . Os raios solares o iluminavam, assim como o topo da cabeça de um deus indiano de pedra, que estava curiosamente enfiada no laguinho e clareava também Wendy, toda radiante em cima do monumento. Eliza sem demoras foi juntar-se à amiga. Fincou seus pés descalços na água, molhando a barra de sua camisola, e correndo, subiu no deus, indo tomar seu lugar ao lado da Darling. Liz se esticou, ficando a ponta do pé, com os dedos sobre a sombranselha, numa tentativa de ver melhor.

_ Vê? — perguntou a outra menina.

_ Sim! — Eliza soltou a palavra com um gritinho.

_ Neverland! — as duas gritaram em uníssono, caindo no riso.

_ Ali! — apontou Liz, surpresa. – Sininho! — ela olhou a outra criança como se mal pudesse acreditar no que via, deliciada com sua sorte.

Eliza se precipitou a seguir a fadinha, que era nada mais que centímetros de magia amarelada a flutuar em meio à troncos e folhas de árvores. Hipnotizada, ela a perseguia, acompanhada de Wendy, adentrando na mata, fascinadas, duas garotinhas de coroa de flores na cabeça sendo rodeadas por borboletas multicoloridas, certas de que a fada às levaria à um mundo mágico, totalmente novo.

E então Liz olhou para trás, buscando Wendy.

Mas...

Seu sorriso sumiu.

Não havia nenhuma Wendy às suas costas. Apenas mato.

Ela desaparecera, simplesmente.

Quando voltou a trazer o rosto para frente, a garota sentiu o solo sob seus pés inseguro. Estava agora parcamente equilibrada num pequeno pedaço de terra. A floresta fora embora. Uma névoa esverdeada tomou tudo. Sininho desintegrou-se em pó, caindo numa espécie de abismo. O vento repentino a fazia bambolear, ameaçando jogá-la também, ali para o abraço da morte. A névoa a impedia de respirar e mesmo assim ela puxou ar dos pulmões, queimando-os como se fossem dilacerados por uma faca em chamas e gritou por um socorro que não viria.

_ Você quer conhecer a Terra do Nunca, Eliza? — uma voz não humana, incrivelmente alta disse. – Ela tentou abrir seus olhos e focalizar quem dizia aquilo em meio a ventania poeirenta, sem sucesso. _ Pois você vai lamentar a vida inteira pelo que fez.

A garotinha começou a chorar, por saber que estava sentenciada pelo resto de seus dias.

_ Chore meu amor, chore. Haverá muito pelo que chorar.

Liz acordou, saltando da cama com um tranco, com um único berro e lágrimas escorrendo por sua face. Ela ficou, afundada em seu travesseiro, imóvel e resignada à sua culpa, que a partir daquele momento seria para todo sempre, uma parte fundamental de seu ser.

Notas finais
Imagens adicionais do capítulo: http://i1172.photobucket.com/albums/r562/magencorrie/image47_zpsa2519854-1_zps88a90f2e.jpg e http://www.dreamtheend.com/wp-content/uploads/2012/06/KAREN-ROBSON-AS-IRMA-AND-ANNE-LAMBERT-AS-MIRANDA-IN-PICNIC-AT-HANGING-ROCK.jpg