A lenda do lobo albino

1 Ao redor da montanha


“Era uma vez, em uma aldeia aos pés de uma montanha, um velho camponês que vivia só. O senhor havia perdido seu único filho e sua esposa para a peste que um dia castigou a aldeia. E um dia aquele senhor encontrou em seus jardim um filhote de lobo marrom. O velho homem olhou muitas vezes para o lado mas não encontrou nenhum sinal de outros lobos, então acabou levando o pequenino para seu casebre. O homem cuidou do lobo como se fosse seu filho e o lobo o amava como um pai. Se passaram anos e o lobo cresceu e o velho acabou falecendo. Após sua morte o lobo uivou incessantemente durante um mês impedindo os aldeões de se aproximarem do corpo, que já estava podre. E foi na tentativa de aproximação que todos os aldeões foram mortos pela fera. Com seus dentes afiados e suas garras que rasgavam os corpos com muita facilidade, o lobo matou todos os aldeões e destruiu todas as casas, exceto pela casa do velho. E ali o lobo ficou, ao lado do esqueleto do velho até sua velhice, quando uma bruxa que morava no alto da montanha desceu e fez uma proposta ao lobo. ‘Seja o guarda da montanha, que eu lhe concederei a imortalidade e um poder magico’. O lobo aceitou a proposta da bruxa e prometeu proteger a montanha pela eternidade que ele ganhou.”

— E é por isso, meus pequenos que não devemos nos aproximar da montanha. O lobo albino pode atacar vocês para proteger a bruxa. — disse a velha senhora de pele marrom, apontando para as crianças, que formavam um semicírculo no chão de barro.

— Mas anciã, ele não era marrom? — perguntou uma das crianças.

— Quando a bruxa concedeu os poderes para o lobo, ele ganhou uma cor albina como a da lua.

— Anciã. — chamou um menino de mais ou menos 8 anos, com os cabelos castanhos, olhos negros e pele alaranjada, vestindo uma camisa branca uma bermuda marrom e um capuz negro.

— Lá vem as perguntas do Chapéuzinho. — disse uma das crianças com tom debochado.

— Fale, pequeno Kyuri.

— Por que o lobo matou os aldeões tão de repente? Ele não cresceu na aldeia?!

— Pequeno Kyuri, lobos não são gente. Lobos se apegam aos seus donos e a ninguém mais. No momento em que se sentiu ameaçado, o lobo agiu por instinto.

— Mas ainda...

— Chega Chapéuzinho! — exclamaram as crianças em uníssono, fazendo Kyuri se calar.

Depois da chamada que recebeu das crianças, Kyuri se isolou no canto da sala onde se encontravam e logo sua avó chegou na casa da anciã para leva-lo para casa. Kyuri foi por todo caminho calado e cabisbaixo, o que era incomum para um garoto enérgico que nem ele. A pobre senhora estava preocupada com seu neto, mas preferiu ficar quieta e ir em silencio pelo resto do caminho. Quando os dois chegaram em casa a senhora questionou o pequeno sobre seu desânimo e o garoto repetiu a pergunta que havia feito para a anciã. A senhora deu uma resposta parecida com a da anciã, o menino abaixou a cabeça e, com uma expressão triste, foi direto para seu quarto. O menino ficou amuado por meses, seu aniversário de 9 anos chegou e Kyuri ainda estava triste com aquilo. O próprio menino pediu para sua avó que em seu aniversário não tivesse nada como de praxe desde seu primeiro ano, quando seus pais morreram. Kyuri morava apenas com sua avó, mãe de sua mãe, e não tinha amigos por causa de sua fama, “Chapéuzinho preto, o estranho”. O dito capuz preto era um acessório que seu pai usava para casar, ficava grande no menino, mas ele não se importava com isso. E além do capuz negro maior que a sua estatura, Kyuri sempre teve alguns pensamentos diferentes dos das pessoas da aldeia, ele sempre discutia sobre os costumes, as tradições e as lendas de seu povo e por essas coisas que o pequeno ganhou a fama de estranho.

Todas as pessoas da aldeia achavam que Kyuri era esquisito e alguns diziam que ele tinha conluio com a bruxa da montanha. Esses boatos do envolvimento de Kyuri com a bruxa foi crescendo até que um bando de pessoas se juntaram para coloca-lo na fogueira. A anciã sem saber o que fazer, e ouvindo os pedidos chorosos da avó do pequeno, mandou o garoto para a floresta colher frutas e disse aos aldeões que se ele tivesse qualquer envolvimento com a bruxa, ela desceria da montanha atrás do pequeno. O povo aceitou a proposta e mandaram três homens seguirem o garoto em segredo. O garoto foi e voltou junto dos três homens, que afirmaram que o comportamento normal do menino e o não envolvimento dele com a bruxa. Mas mesmo com a afirmação dos homens ainda tinham pessoas com uma pulga atrás da orelha, foi então que a anciã propôs que refizessem o mesmo teste duas vezes por mês e disseram ao menino que fosse colher as frutas duas vezes na semana. O pequeno não se opôs, pois no fundo estava esperando encontrar o lobo na floresta, e ia feliz todas terças e quintas colher as frutas. Logo na primeira semana Kyuri percebeu que havia gente lhe seguindo, mas fingiu que não tinha percebido e continuou colhendo as frutas. Ao longo de três meses ele notou a frequência com que aqueles mesmos três o seguiam e começou a tomar cuidado na sua busca pelo lobo albino. Foi no quarto mês de colheita, em um dia que não estavam o seguindo, que Kyuri escorregou em uma poça de lama e se perdeu de seu caminho. Machucou o joelho e os cotovelos, e ainda perdeu as frutas na lama, mas sem se importar com seus machucado e com o sangue que escorria de seu joelho, Kyuri continuou andando tentando achar o caminho de volta. Ele deu meia volta e caminhou, se perdeu, voltou para onde havia caído, mas já não conseguia achar o caminho. Kyuri estava completamente perdido no meio da floresta, até que viu a luz da lua vindo de trás de uma moita, Kyuri desesperado correu em direção à luz e o viu. Ali estava ele, com mais de 1, 80 m, imponente, majestoso, exalando uma magnifica aura de tranquilidade e serenidade, sendo banhado pela luz da lua no meio da clareira, com os pelos brancos, num tom igual o da lua, e sedosos, o focinho negro mirava a lua e seus olhos dourados, semiabertos em êxtase, miravam a lua cheia. Pouco a pouco Kyuri foi se aproximando, até que o lobo percebeu a presença do pequeno e deu um pequeno pulo para trás e começou a rosnar.

— Calma senhor lobo. Eu não quero te machucar. — disse Kyuri se aproximando lentamente, enquanto mancava com o joelho sangrando, e o lobo recuava cada vez mais. — Eu só quero perguntar uma coisa. — o lobo de repente parou de recuar e esperou o menino se aproximar. Kyuri se ajoelhou de frente para o lobo, reclamando um pouco ao encostar o joelho no chão, e o encarando perguntou: — Por que o senhor matou aqueles aldeões?