A lenda do Imperador e o Rouxinol
1 Capitulo 1
Notas iniciais
No céu enevoado das montanhas, erguia-se o Palácio do Imperador Celestial, uma joia arquitetônica no coração da China antiga. O palácio ocupava o cume de uma colina cercada por um mar de nuvens, como se os deuses tivessem escolhido aquele local para erguer sua morada na Terra. Ao longe, os telhados em camadas, cobertos por azulejos de porcelana esmaltada em tons de dourado e esmeralda, brilhavam como fogo sob os primeiros raios do sol nascente. Cada beirada desses telhados terminava em graciosas curvas ascendentes, sustentadas por pequenas estátuas de criaturas míticas sagradas – dragões, fênixes e qilins – que pareciam estar em à espreita para proteger o local sagrado.
Nos anais da corte imperial chinesa, havia uma figura incomum e fascinante que capturava olhares por onde passava: Shaka. herdeiro do trono do imperador, o príncipe era uma raridade, dono de uma beleza que misturava traços orientais com características inesperadas de terras distantes. Seu cabelo dourado como o sol caía em longas ondas sobre os ombros, algo incomum e quase mítico na tradição chinesa, onde os fios escuros predominavam. Seus olhos, de um azul profundo e translúcido, lembravam o reflexo do céu sobre as águas mais puras, uma visão que muitos viam como um presságio divino, porém pouco os mostrava por segredo de estado. Sua beleza era tão preciosa que não poderia ser vista pela plebe.
Por ser muito jovem, não podia assumir o trono, mesmo na ausência do falecido imperador, o mesmo que falecera há tempos, mas em seu testamento escolhera a dedos o menino para ser seu sucessor. Por cuidado extremo ao herdeiro. Fora trancado nos aposentos do fabuloso castelo, tendo disciplina e aprendizado adequado para um líder da nação.
Em seu aniversário de 10 anos recebera um pergaminho de histórias, pois havia pouco o que fazer no período que não estava estudando. Embora fosse proibido de interagir com serviçais e nem mesmo tinha alguém de sua faixa etária.
Pergaminho sobre pássaros, removera com cuidado a fita de cetim vermelha que o lacrava e leu sobre um vendedor de pássaros que há 300 atrás encontrou uma espécie de Rouxinol que possuía o canto mais belo entre os pássaros.
“O vendedor, que mais passou a vida inteira ouvindo canto de outros pássaros, nunca tinha ouvido um tão especial. Logo tratou de captura-lo, mas demorou dias, semanas e meses e o pássaro sempre escapava.
Na noite de lua cheia quando finalmente conseguiu encurralar o pássaro em seu ninho, percebeu que ele não cantava mais. Parecia doente à medida que estava enjaulado.
Tentou então vende-lo, mas ninguém queria um pássaro que não cantasse, pensou em solta-lo. Mas antes que isso acontecesse, o vendedor adoeceu e acamado, longe da gaiola não conseguiu soltar a ave de volta a natureza.
Quando o homem ia perecer o canto do pássaro afastou do abraço da morte, a mais bela canção que já ouvira, curando-o e livrando-o do fim de sua vida. Foi como um canto do Deus da cura transformado em música.
A partir de então, o canto do Rouxinol era mantido como a melodia mais bonita entre os pássaros, capaz de curar um homem moribundo da morte. “
Shaka lera aquela história fascinado, não conhecia o canto de um Rouxinol e queria descobrir se o canto desse pássaro era tão marcante assim ou se era apenas lenda.
Ordenou que seus servos trouxessem um rouxinol até ele, mesmo não sendo Imperador ainda, mas possuía esse poder e usava quando precisava, e queria agora um Rouxinol.
Os servos ordenaram que capturassem um rouxinol, então várias lojas de vendedores de aves foram reviradas do avesso em busca da ave. Todos os rouxinóis confiscados e levados ao palácio. Inclusive outras províncias da China souberam que o jovem Príncipe desejava a tão popular ave e viajaram até a capital na esperança que o herdeiro comprasse a mais bela ave de todo império. Quase já não se viam mais rouxinóis nos parques e floresta pois estavam caçando-o em peso.
Aquilo havia virado uma competição, e Shaka queria apenas saber o canto da ave.
1 mês depois, haviam mais de 300 gaiolas se diversificavam no palácio imperial, de ouro, prata, ferro, madeira, elaboradas com arabesco ou até mesmo as mais simples. Algumas aves não resistiram e pereceram durante o transporte.
O jovem Príncipe com vestes da nobreza e um véu cobrindo seu rosto, desceu e observou cada um dos pássaros.
Era uma cacofonia de sons tão belo que ficara maravilhado com tudo aquilo, mas só desejava apenas um pássaro para cantar em seu aposento. E como faria para escolher a ave que possuía o canto mais belo entre as 300?
Caminhou entre as gaiolas, primeiro as mais enfeitadas, as que eram feitas de ouro e prata, encrustadas com joias e pérolas, uma mais bela do que a outra. As de madeira de pinheiro e mogno eram bonitas. Tinha até uma gaiola grande que tinha mais de 10 rouxinóis dentro. Porém, o jovem Príncipe não queria comprar gaiolas e nem queria mesmo uma quantidade grande, queria apenas um único pássaro, passando reto por elas e indo em direção as mais simples, causando indignação entre os vendedores.
Quando pensou que havia finalmente escolhido um rouxinol que não parava de cantar, apareceu uma figura corcunda e mal vestida com uma gaiola feita de galhos e madeira. -Por favor, majestade, tenha piedade em ver o que eu trago ao senhor hoje.
Guardas afastaram a figura imunda fazendo com que ele esbarrasse em duas gaiolas de madeira, quebrando-as e libertando um dos pássaros.
O voo fora observado por todos do salão, que rodou em círculo até encontrar uma janela e ser livre.
- Por favor, veja o que eu tenho a lhe mostrar, é importante. Esse rouxinol é diferente dos outros. Está na minha família há gerações.
O idoso fora atacado pelo dono da gaiola danificada com o pássaro fugido. Shaka observada através do véu sem se importar, mas ordenou que parassem com a confusão, revelando a sua voz a todos presentes.
O ancião agradeceu e de joelhos mostrou a pequena e humilde gaiola. Chegava a ser ofensivo mostrar aquilo ao sucessor do Imperador do jeito que estavam.
Porém, em seu conteúdo havia uma ave de tonalidade lilás, era uma outra espécie? O homem levou outra ave ao príncipe? Quem ele queria enganar. Deveria receber a morte, outros vendedores cochichavam.
A tonalidade do pássaro era linda, era mais clara que quimonos índigos e mais bonito do que uma lavanda. Shaka se aproximou do idoso e pegou a pequena e mal feita gaiola.
Era um pequeno rouxinol roxo que não cantava, apenas prendia sua visão ao herdeiro, piscando algumas vezes, aproximou-se de outra gaiola e estendeu a menor. Comparando um rouxinol comum e um exótico tom purpura confirmando que era mesmo da mesma espécie.
- Onde conseguiu este exemplar? — Ordenou que respondesse.
- Ele está em minha família há gerações, desde que meu pai era criança.
- Uma ave tão pequena assim não vive tanto tempo assim. Você está agindo como um impostor.
- Eu juro, eu dou a minha palavra em troca de minha vida. Esta ave só canta a noite como uma coruja, o seu canto é o mais belo que alguém já ouviu antes.
Um burburinho entre os comerciantes se iniciou com bajulações, mas fora sessado pelos guardas.
- De onde você veio? Responda.
- Vim do Sul, de uma província chamada Tibete
- E o que pretende fazer em troca desta ave?
- Se eu conseguir vende-lo ao senhor, eu poderei ter dinheiro para ajudar minha família.
Sem mais palavras. O jovem herdeiro ao trono se virou levando consigo a gaiolinha com a ave que quietamente permanecia em silêncio. Para indignação de todos presentes, o rouxinol purpuro fora escolhido, e todos no salão deveriam sair imediatamente.
- Muito obrigado majestade, você será lembrado pelos meus descendentes de minha família.
O idoso corcunda recebera uma sacola de moedas de ouro após isso. O jovem Príncipe se recolhera em seus aposentos do palácio. Estava feliz com seu novo companheiro e ansioso pela noite para ouvir seu canto. Teria que providenciar uma gaiola adequada e espaçosa a ele. Sorriu por debaixo do véu.
Longe dali uma história trágica aconteceu aos arredores do castelo. Um latrocínio, um senhor de idade fora assassinado e seus pertences roubados, o culpado nunca fora pego.
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