A lenda do Imperador e o Rouxinol
7 Capítulo 7
Notas iniciais
Do ponto de vista dos ninjas, o plano fora executado com maestria. O castelo sofreu poucas baixas, e o objetivo principal – fazer o Príncipe desaparecer sem que ninguém notasse – fora cumprido sem dificuldade. Tão fácil quanto roubar doce de uma criança, como zombou Máscara da Morte.
Fora das muralhas do palácio, Mu encontrava-se aprisionado em uma favela distante. As construções rústicas de pedra e palha se amontoavam precariamente, formando um labirinto de vielas escuras. A lua nova brilhava tímida no céu, incapaz de iluminar as ruas sinuosas. No meio das sombras, uma figura encapuzada movia-se com destreza, como se conhecesse cada atalho daquele submundo.
A mulher deslizou para dentro de um casebre sujo e, com um movimento ágil, retirou o capuz e a máscara que ocultavam sua identidade. Seus traços delicados e a estatura mediana traíam sua verdadeira natureza. Shina, a professora de música do Príncipe, era muito mais do que aparentava.
Ela era uma Kunoichi, uma assassina treinada na arte da infiltração e espionagem. Conhecida entre os seus como Víbora, fora encarregada de obter informações valiosas sobre o loiro por ordens de Kanon.
Kanon, o Imperador provisório, era um estrategista impiedoso. Desde que assumira o trono, tornara-se um cliente fiel dos ninjas assassinos, encomendando a morte de cada opositor ao seu regime. Ele eliminava sem hesitação todos que ameaçavam sua sucessão definitiva, incluindo seus meios-irmãos e, principalmente, aquele que se colocava como a maior pedra em seu caminho: Shaka.
Shina escapara do palácio sem ser vista, pouco antes de as portas serem seladas. Frustrada, pensou em descontar sua raiva nos incompetentes que haviam permitido que a missão fracassasse. Mas antes que pudesse agir, Máscara da Morte interrompeu seus pensamentos.
— Pegamos o Príncipe — disse ele, triunfante. — Ele está aqui.
Shina piscou, confusa. Era impossível. Ela mesma testemunhara o momento em que ele fora capturado e levado na direção oposta à torre onde ficava seu quarto. Um erro desse nível era inconcebível.
Uma fagulha de desconfiança nasceu em seu peito. Precisava ver com seus próprios olhos.
Com passos firmes, abriu a porta do cativeiro e encarou a figura amarrada diante dela. Seu coração parou por um instante.
Não era ele.
O homem atado pelas cordas a reconheceu de imediato. Seus olhos arregalaram-se, e ele tentou gritar.
Shina estreitou os olhos, uma expressão dura tomando seu rosto. Algo estava terrivelmente errado.
— Quem é essa pessoa? — Questionou aos três. — Isso é uma mulher?
— O príncipe, como descrito. Cabelos claros e olhos azuis. E estava sozinho no aposento real — Disse Shura.
Shina respirou fundo duas vezes e novamente voltou então ao seu estado normal.
— Eu vou perguntar mais uma vez. Quem é essa pessoa? E o que vocês estavam fazendo quando a trouxeram para cá?
Shura teve um péssimo pressentimento e começou a suar pela testa. Os outros dois não haviam absorvido o que estava acontecendo, continuando na mesma resposta de que era o tal Príncipe loiro de olhos azuis.
— Vocês pegaram a pessoa errada. Vocês só tinham um trabalho a fazer. — A mulher se aproximou de Mu que continuava tentando gritar, mas parou quando percebeu que ela era cúmplice de seus sequestradores. Puxando uma madeixa de cabelo com força, machucando o cativo e mostrando a verdadeira cor do cabelo. Eram roxas de tom mais claro, e não amarelas. Os três congelaram. — Isso é amarelo para vocês? — Sem cuidado algum soltou o cabelo do mais novo que agonizou de dor.
Shura tentava recapitular todos os passos em sua cabeça. Falhara na missão. Não haveria um gordo pagamento dessa vez. Não tinha como ter dado errado a missão. Cumprira todos os requisitos.
Porém eles não contavam que os corpos no jardim fossem facilmente descobertos por outros jardineiros transeuntes pelo local. Que alertaram a segurança do palácio imediatamente. Ainda não sabiam onde o verdadeiro Príncipe estava, só saberiam no dia seguinte e o tempo estava correndo enquanto eles estavam ali.
— Se ele estava sozinho no quarto do Príncipe loiro, poderia ser um concubino? — disse Afrodite.
— Idiota, o que uma imitação de Imperador faria com um prostituto sendo menor de idade? — Máscara se enojou. Não curtia essas coisas.
— Não importa quem ele é agora ou o que estava fazendo no quarto. Livrem-se dele imediatamente.
Dois deles sorriram, matar era suas especialidades. Um deles estava caminhando ao pássaro desembainhando sua espada quando fora interrompido por Afrodite.
— Espere Shura. Talvez esse concubino de aparência exótica possa ser útil para nós.
— Está falando de pegar o dinheiro do resgate? Quem em sã consciência gastaria dinheiro para dar ouro em troca de um prostituto? — Disse Máscara.
— Vejam bem. — O mais belo caminhou até o rapaz amarrado no chão. — Sua beleza não se compara a minha, mas devo admitir que tem um certo valor se continuássemos com o plano secundário.
Um fio de razão fora puxado nos outros três. Seria então uma possível solução para corrigir os erros da missão?
— Coitadinho, veja como esses brutamontes trataram você. — disse confortando sua mão na cabeça do rapaz. — Essas manchas vão demorar para sumir na sua pele tão clara e macia – apontou para seus pés atados — Seu cabelo tão liso que reluz a luz da lua. Me faz ter vontade de arrancar seus olhos. Mu tentou se afastar, mas fora interrompido com a mão do ninja que puxou sua cabeça pelos cabelos com mais força. — Não é isso mesmo querido Shura. Ele consegue ser bem mais belo do que eu. — Pigarreou.
— Fale o que você quer logo.
— Que tal levarmos ele ao vendedor de escravos no lugar do Príncipe? Damos um jeito nele depois, agora temos este rapaz deliberadamente belo para substitui-lo. Não é isso mesmo, o plano esse tempo todo não era pegar e vender o Príncipe de cabelos dourados e lucrar com sua venda? Está certo que o dinheiro que receberíamos da missão era muito bom, mas aposto que aquele gordo colecionador não pagaria pouco por uma joia rara de cabelo claro. Quem sabe devêssemos dar uma proposta de umas centenas de sacolas de ouro em troca. Nos preocuparemos com Príncipe depois e lucramos em dobro no futuro.
A solução que Afrodite dera era perfeita. Eles explanaram tudo que fariam com Shaka sem se importar com sua presença, era reduzido a insignificância, e agora seu pior pesadelo estava tomando forma. Se por acaso aqueles ninjas descobrissem que podia se transformar em rouxinol seria pior ainda. Seria trancafiado numa jaula pelo restante de sua vida.
Os quatros saíram do quarto deixando Mu no breu escuro junto com seu medo de ser escravizado e aprisionado novamente. Tinha que agir logo e voltar ao castelo imediatamente para salvar Shaka do perigo eminente que estava sujeito ficando preso lá. Mas agora tinha que se salvar primeiro.
Tentou se movimentar bem devagar, as amarras estavam tão fortes que prendiam sua circulação deixando mãos e pés dormentes.
Descobriu uma frecha no telhado, bem pequena, mas o bastante para um pássaro de pequeno porte passar. Era o suficiente. Esperaria até o amanhecer para fugir das amarras e do cativeiro. Temeroso sem saber de garantia alguma se conseguiria alçar voo com os braços machucados pelas amarras.
Horas se passaram desde que o jovem fora deixado sozinho, bastava esperar o amanhecer para fugir e retornar ao palácio, pensava. Seria uma tarefa bem fácil de se fazer. Seu corpo iria diminuir se livrando das cordas e mordaça, voaria até o telhado e em seguida encontraria um jeito de regressar de onde fora roubado pelos encapuzados.
Só que.
Não contava que eles apareceriam novamente a saleta ainda de noite. Um deles, Shura (havia decorado o nome e rosto de cada um) estava com um frasco branco e trapos de panos na mão indo em sua direção.
— Confie em mim. Isso vai ser bem mais eficaz do que um soco na boca do estomago. — disse cordialmente até sufocar o jovem purpuro com aquela substancia desconhecida, fazendo-o perder as forças de lutar e resistir até então apagar-se caindo no chão.
Seus captores o pegaram e colocaram-no dentro de um baú de madeira trancado a chave. O carregara a pé até pegarem estrada rumo ao porto da capital.
Embarcariam ao amanhecer rumo ao Oeste.
...
Depois daquela fatídica noite, quando o caos invadiu o palácio há sete dias, o silêncio preenchia o palácio. O rouxinol roxo, o companheiro inseparável do jovem Príncipe Shaka, havia desaparecido misteriosamente. Os serviçais, que acreditavam se tratar de apenas um belo e raro pássaro, não podiam imaginar a verdadeira importância daquela criatura. Somente Shaka conhecia a verdade: o rouxinol não era um simples animal, mas a forma alada de Mu, seu fiel amigo e confidente, com cabelos da mesma tonalidade púrpura das penas da ave.
A cada dia que passava, a angústia crescia, alimentada pela dúvida e pelo medo do destino de seu companheiro.
A ausência de Mu era insuportável. O lado vazio da cama parecia um eco de tudo o que Shaka perdera. As conversas sussurradas à noite, o canto suave do rouxinol que o confortava nos momentos de pressão, e até mesmo os silêncios compartilhados eram agora memórias dolorosas.
Na manhã do oitavo dia, um homem idoso apresentou-se no portão do palácio. Trazia consigo uma pequena gaiola coberta por um tecido de seda surrado. Disse ter encontrado o famigerado rouxinol roxo que todos comentavam. A notícia correu rápido, e Shaka, consumido por um misto de esperança e desconfiança, ordenou que o homem fosse levado à sua presença imediatamente.
Quando o tecido foi removido, Shaka prendeu a respiração. Lá estava um rouxinol de plumagem lilás dentro de uma gaiola. Mas algo estava errado. Aproximando-se, ele notou as diferenças: as penas eram de um roxo uniforme, sem as marcações brancas que adornavam o corpo de Mu. Mais importante, os olhos—os olhos! —não eram os mesmos. Não havia a vivacidade, o brilho esverdeado que sempre o fitava com carinho. Este não era Mu.
“É um farsante”, declarou Shaka com um tom firme e carregado de ira. O idoso mal teve tempo de reagir antes que os guardas o segurassem. Shaka, com os olhos faiscando de fúria, ordenou que fosse levado e punido por tentar enganar o futuro imperador. Sua voz, pela segunda vez, carregava a autoridade de quem estava destinado a liderar. Os serviçais e conselheiros ficaram em silêncio, espantados com a postura resoluta do Príncipe.
Quando o salão se esvaziou, Shaka se aproximou da gaiola. Embora soubesse que aquela ave não era Mu, a visão do rouxinol o fez sentir uma pontada de dor. Ele abriu a gaiola com cuidado e soltou o pássaro, que voou para longe, desaparecendo no horizonte.
A cada dia ia se transformando em semanas, meses. Shaka não apenas se tornava mais determinado; ele se aproximava do líder que estava destinado a ser. O Príncipe loiro não era apenas um jovem aristocrata; ele estava trilhando o caminho certo de se tornar um Imperador.
...
10 horas se passaram desde o embarque no rio.
Como previra, seu corpo diminuiu de tamanho se libertando das amarras, mas ainda estava aprisionado dentro do baú. Recobrou a consciência já na forma de ave, ficou preso por algum tempo dentro das vestes que vestia quando humano, mas conseguiu sair.
Suas asas, pezinhos e barriga estavam doloridos, mas conseguia esticar as asas que tinha bastante espaço. Tinha que aguardar agora eles abrirem o caixote ainda de dia para que seu plano de fuga desse certo. Esse era a primeira opção. Mas teria problemas e passaria por risco se eles abrissem e o encontrassem nu sem as amarras.
Uma hora teriam que abrir para alimenta-lo, pensou. Não que aqueles 4 assassinos fossem cruéis o bastante de deixa-lo um dia inteiro sem comer. Ou então sua segunda hipótese: eles perceberiam o baú mais leve e então destrancariam para averiguar. Essa seria a sua deixa e voaria para longe. Não sabia onde estaria, mas daria um jeito se sobreviver e lutar contra as amarras da escravidão.
...
Shaka se recusava a continuar suas aulas e rotinas. Então assim dispensando mais um dia a sua professora de música. Um oficial vindo diretamente do Imperador em exercício disse que as aulas da informante estavam suspensas no momento.
Shina inconformada acatou a ordem e disse que se retiraria do palácio ainda mesmo naquele dia.
Nessas semanas Shaka recebera de presente de outras figuras importantes do império várias aves exóticas. De todas espécies e tamanho. Desde pavões brancos dos olhos vermelho, gigantes grous coroados e até mesmo aves que vieram de outros países e continentes, como araras e um pássaro negro que conseguia imitar perfeitamente a voz humana.
Agradeceu, porém, recusou gentilmente a todos os presentes voltando para seu estado depressivo.
Nenhum pássaro mais caro ou mais bonito do mundo substituiria o espaço em branco e vazio que Mu deixou.
Na calada da noite, um vulto percorria pelos telhados do castelo imperial. Com garras nos punhos escalou até o último andar da torre norte, onde ficava o maior cômodo do palácio: os aposentos reais do Imperador Kanon.
A janela estava aberta e a sombra negra adentrou. Retirou sua máscara e mostrando que era a Kunoichi com alcunha de Víbora.
Ambos conversaram sobre a falha e desastrosa missão que fora assassinar e sumir com o corpo de Shaka.
Shina ocultaram o fato de que roubaram uma outra pessoa desconhecida dos aposentos reais do príncipe e que este estava sendo transportado para o mais longe possível do território chinês para ser vendido como mercadoria bem cara.
O plano de Kanon não tivera êxito, o príncipe estava vivo e chorando pela perda do pássaro idiota dele. Agora não teria como repeti-lo, pois, a guarda imperial estava cercando 24 horas por dia. Dispensando-se apenas no ato de dormir.
Shina dá uma sugestão de dobrar o número de Shinobis no castelo de forma gradativamente discreta. Enquanto fazia o Príncipe loiro definhar pouco a pouco.
Kanon prestava atenção no plano com atenção. Estava gostando daquilo que ouvia.
...
Embora fosse difícil respirar por estar muito abafado, Mu conseguiu tirar um breve cochilo, que fora interrompido com movimentação externa.
Sabia que ainda era dia pois estava em forma de rouxinol. Fora que pelas frestas da fechadura do baú conseguia ver a iluminação do lado de fora.
Descobrira nesse tempo de meditação que seu plano possuía falhas, e essa seria se por acaso eles abrissem o baú dentro se um ambiente fechado, sem rota de fuga como janelas abertas. E também, como se fez tanto tempo fora das amarras de gaiola de ferro quase se esqueceram que não conseguia se transformar em humano enquanto estivesse dentro de uma. O problema maior seria se transformar em humano logo em seguida, dificultando sua fuga e provocando sua eventual e temida morte.
Não era de orar, mas rezava que a sorte estivesse ao seu lado.
Sentia mais movimentações no exterior do baú. Eles estavam mudando de posição e sentiu um baque, como se fosse arremessado num lugar.
— O baú, ele está mais leve. -Ouviu bem baixinho não conseguindo distinguir a voz de quem falou.
— Do que está falando. Ele ficou trancado esse tempo inteiro.
— Eu não estou mentindo, veja você mesmo. O baú está leve. Um adolescente pesa. E tenho a certeza que não tem nada dentro dele.
— Impossível. Estivemos de guarda esse tempo inteiro, não tem como ele ter escapado.
O pássaro sentiu o baú ser movido de lugar em diversas posições.
Momentos de silêncio se firmará sem conseguir ouvir nada no exterior.
— Abre essa merda agora.
Barulho de correntes friccionando a madeira do baú foram ouvidas bem alto pelo interior da caixa. Depois o buraco da fechadura fora tampado e aberto.
Tinha que ser agora ou nunca mais teria sua amada liberdade. Se preparou.
O baú fora destrancado e aberto. A iluminação vinda de fora era tanta que não estava com seus olhinhos de pássaro acostumado com a claridade, mas alçou voo da mesma maneira.
“AGORA!” – Piou alto.
Voou para o alto em direção ao sol, ainda estava desorientado de onde estava, olhando para baixo viu que estava no leito de um rio, viu rapidamente uma carroça com o baú aberto, três figuras vestidas de roupas civis e uma pequena canoa embarcada na margem.
Afrodite, que estava mais próximo do baú sacou suas grossas agulhas arremessando-as em direção ao pássaro. Mas como estava contra o sol, acabou errada o alvo. Uma vergonha, já que era especialista em assassinato a longa distância
Longe de seus sequestradores, adentrou a floresta adentro. Sozinho, cansado e com as asas doloridas de tanto voar depressa, respirava de bico aberto.
De noite chegara e virou humano, desamparado, sem saber onde estava, em qual direção deveria ir e com medo constante de ser pego novamente pelos seus ninjas. Nessa noite não dormiu, temendo pelo pior.
...
..
.
Fale com o autor