A lenda do Imperador e o Rouxinol
6 Capítulo 6
Notas iniciais
Antes de amanhecer, Mu estava com olheiras na pele branca do rosto, acordara o loiro e explicou que apenas naquele dia queria ficar no quarto pois não dormiu direito a noite e estava com muito sono. Não falara sobre o pesadelo. E então se transformou em pássaro
Shaka fez seus afazeres sem Mu, pelo estranhamento dos criados que questionaram a ausência do pequeno animal.
“Ele não estava se sentindo bem hoje, então deixei no quarto.” — respondeu a todos que perguntavam a mesma coisa.
Ao final do entardecer o plano se consolidara. Os ninjas adentraram ao palácio e renderam três servos, matando-os sem jorrar sangue e escondendo o corpo numa área afastada do jardim. Shura e Máscara da Morte quebraram o pescoço de dois jardineiros, ao serem flagrados por uma testemunha, uma jovem garota que colhia flores para ordenar os vasos do palácio que estava no lugar e hora exata, tivera o crânio atravessado por uma agulha arremessada por Afrodite.
Uma morte rápida e indolor.
— Vai servir essa para você? — Perguntou Shura se referindo a jovem.
— Como uma luva. — respondeu com duas agulhas apoiadas em seus lábios.
Roubaram suas vestes antes de que o sangue manchasse o tecido e se disfarçaram de serviçais eunucos da corte imperial.
Enquanto a última aula de Shaka era sobre música, Shina observou tudo da janela de onde estava discretamente vendo os corpos sendo escondidos no meio das plantas do jardim. A invasão havia dado início. Então liberou o jovem mestre para seus aposentos.
— Mas já? Está cedo ainda? — Disse olhando para a janela e fora interrompido pela professora.
— Claro jovem mestre. Acredito que queria retornar ao seu quarto para presença de seu rouxinol. Não é mesmo? — Ardilosamente tentou manipula-lo para seu agrado.
Shaka vencido, concordou com a professora, vestiu seu véu e estava sendo acompanhado pela farsante até a porta do salão até fora, no corredor que dava acesso a ala sul do palácio.
Mas algo fez com que Shaka se atrasasse e um alerta foi acionado no castelo. Fazendo ele ser levado a um local seguro pelos guardas, visão essa sendo testemunhada pela mulher.
“Imbecis” — falou inaudível. Tinha que dar algum jeito de abortar a missão.
Os três ninjas adentram o castelo e rendem facilmente os soldados que estavam fazendo a guarda que questionaram o porquê eunucos de baixa patente estava nos andares superiores do Palácio.
Shura com uma espada. Afrodite com agulhas e Mascara da Morte com garras de lâminas em suas duas mãos.
Fora uma carnificina. Logo então se disfarçaram-se trocando de roupas e se misturando no meio da confusão.
...
O quarto estava mergulhado em um silêncio tranquilo, quebrado apenas pelo som ritmado da respiração de Mu. Ele repousava na beira da cama, os olhos fechados, entregando-se ao sono que lhe fugira durante a noite. Dormira pela manhã e pela tarde, compensando as horas roubadas pela insônia.
Quando o sol finalmente se despediu no horizonte, uma transformação sutil tomou conta dele. Ainda deitado sobre o colchão, despertou lentamente e, com movimentos calmos, vestiu um robe branco de seda que deslizava suavemente sobre sua pele.
Ele pretendia aguardar Shaka ali, mas o tempo passou, e o outro ainda não havia retornado. Com um suspiro leve, decidiu que poderia esperar na mesa, ocupando-se com sua música. Pegou um pedaço de papel e começou a escrever a letra, tentando encaixar as palavras na melodia que ecoava em sua mente.
No entanto, seus dedos vacilavam. O papel manchado de tinta e os erros constantes o faziam recomeçar, uma vez após a outra. O processo, que normalmente lhe trazia paz, agora era permeado por inquietação.
A única coisa que o preocupava, no entanto, não era sua falta de inspiração, mas o atraso de Shaka. Ele nunca demorava tanto. E, pela primeira vez em cinco anos juntos, Mu não cantou para ele antes do anoitecer.
...
Ninguém estava vigiando a torre do quarto do Príncipe, pois sabiam que ele estava em um lugar seguro no subsolo. Isso foi caminho aberto aos ninjas que adentraram facilmente no quarto.
— Afrodite, faça as boas-vindas. — Ordenou.
— Claro, Shura. — Ele pegou uma agulha grossa e introduziu no buraco da fechadura destrancando o cadeado em questão de menos de um minuto.
Ao adentrar se viram com a figura de quimono branco e cabelos compridos. Por conta da luz das velas parecia mais claro que o normal. Se assustou com a entrada repentina de três pessoas, e não era de Shaka.
Não se escondera, pois abaixou a guarda. Esperava que fosse o loiro entrando.
— Ora ora, então é esse o Príncipe da beleza inigualável de um Deus? — Disse o brutamontes com deboche e ironia.
Mu não falou nada, estava com muito medo. Fugir era uma opção, se conseguisse, mas fora agarrado por dois deles a força.
— Então, é este o Principe? — O jovem teve o braço segurado fortemente por um deles. – Não se passa de um frangote, olhe isso. — Apontou ao magro braço sem músculos que o pássaro tinha. Estava realmente o machucando.
— Acredito que sim, estamos no lugar e hora correta. E a descrição bate com o que foi dito. — Afrodite forçou que Mu o olhasse de perto com o castiçal próximo do rosto.
— Cabelos como ouro e olhos claros na cor azul. É o correto, vamos logo. — Disse Shura.
Máscara da Morte deu um soco tão forte no estomago do pássaro que o mesmo desmaiou de dor sem poder reagir a nada.
Amordaçaram e o amarraram em cordas bem firmes dos pés, mãos e tronco. Arrancaram o grande tapete do chão e o enrolaram no interior.
Trocaram de roupa novamente para se disfarçarem de criados de baixa patente, assim não desconfiaram de nada três pessoas carregando um objeto grande como um rolo de tapete até os fundos do palácio onde ficavam as carruagens e estábulos.
Como combinado semanas antes, Shina já havia deixado uma carroça e uma mula velha bem simples para não levantar suspeitas. Saíram tranquilamente pelo portão sul.
O plano estava dando certo, mas Shura desconfiava. Estava fácil demais, e isso era sinal de problemas, mas deixou de lado com as implicâncias de Máscara da Morte que comemorava antecipadamente.
Shura era o cérebro do plano, Afrodite as mãos habilidosas e enquanto Máscara era resumido a força bruta.
O plano realmente era bom, porém, roubaram o jovem de cabelos claros errado. Só havia um castiçal de vela acesa no momento, não dando para distinguir com pouca iluminação a cor dos cabelos e olhos.
Enquanto isso no subsolo que Shaka desconhecia a existência se preocupava com Mu, não vendo a hora dessa confusão acabar e zelar pela segurança dele.
Somente ordenara sem êxito algum que ninguém adentrasse em seu quarto. Mas de não estava em posição de exigir algo no momento. Pediu repetidas vezes para sair daquele lugar e teve o pedido negado várias vezes.
Não só ele estava lá, mas o Imperador em exercício também estava em outro cômodo. Os boatos era que estava havendo uma invasão no palácio, e pela segurança de todos do alto escalão deveriam ser mantidos no subsolo escondidos. 5 soldados faziam a guarda dentro da saleta onde Shaka estava. E haviam mais concentração de soldados no exterior formando uma fortaleza impenetrável.
“Mu, por favor. Fique bem...” — Orava bem baixinho pelo seu amigo a todos os Deuses existentes pedindo pela sua proteção.
...
O salão subterrâneo era um cômodo austero, iluminado apenas pelas chamas vacilantes de tochas dispostas estrategicamente nas paredes de pedra. O ambiente era frio, e o odor de umidade misturado com cera queimada impregnava o ar. No centro, sentado em um trono improvisado de madeira escura, estava o provisório Imperador em exercício, Saga. Ao seu redor, uma dezena de soldados o cercava, dobrando em número a escolta do jovem príncipe que aguardava em outro ponto do castelo. Apesar da tensão no ar, Saga permanecia tranquilo, os olhos fixos no vazio, como se estivesse em um transe. Ele sabia que sua vida estava em risco, mas não demonstrava medo.
Nos cinco anos em que governara, Saga carregava um segredo tão obscuro quanto as sombras que se projetavam nas paredes daquele subsolo. Ninguém sabia que o homem no trono não era Saga, mas Kanon, seu irmão gêmeo. Um usurpador.
Os dois irmãos gêmeos haviam crescido sob o peso da injustiça. O antigo Imperador, em um gesto que desafiava qualquer lógica, ignorara os filhos legítimos e mais velhos para nomear como sucessor um jovem desconhecido, escolhido apenas por sua beleza e por sua semelhança com o próprio Grande Mestre em sua juventude. Esse ato de favoritismo fez brotar nos corações dos gêmeos a semente da revolta.
O escolhido, Shaka, era pouco mais que uma lenda para o povo. Suas aparições eram raras, e tudo o que se sabia sobre ele eram descrições de sua beleza etérea: cabelos dourados como raios de sol e olhos azuis que pareciam refletir o céu. Para muitos, essa escolha não passava de um capricho; para Kanon, era uma afronta imperdoável.
Na juventude, os gêmeos ouviram sussurros e cochichos pelos corredores do palácio. Servos comentavam com sarcasmo o favoritismo do Grande Mestre. "Um rosto bonito vale mais que linhagem", dizia. Essa humilhação moldou os irmãos, mas de maneiras diferentes. Enquanto Saga tentava provar seu valor com lealdade, Kanon alimentava a fúria e a ambição em silêncio.
No leito de morte, o Grande Mestre decretou que Shaka deveria ser mantido seguro até atingir a maioridade, temendo que sua nomeação desencadeasse intrigas e traições. Sua ordem, porém, teve o efeito oposto. Durante os cinco anos que se seguiram, Kanon, sob o disfarce de Saga, moveu as peças de um jogo mortal. Contratou uma corte de assassinos e eliminou todos os descendentes hereges do antigo Imperador, numa estratégia calculada para extinguir qualquer vestígio da linhagem passada.
Entre as vítimas, estava o próprio Saga, seu irmão mais velho. Relutante em apoiar o plano do mais novo de eliminar o príncipe Shaka, ele se tornou um obstáculo. Kanon, frio e decidido, fez o que considerou necessário. Com Saga "fora de seu caminho", ele assumiu sua identidade, aproveitando-se da perfeição de seus traços idênticos para enganar a todos.
Agora, com Shaka se aproximando da maioridade em menos de três anos, a instabilidade no reino crescia como uma tempestade no horizonte. Cada dia que passava tornava o segredo de Kanon mais vulnerável, e ele sabia que um único deslize poderia ruir tudo o que havia construído. Sentado em seu trono, cercado por soldados, ele planejava seu próximo movimento com a precisão de um estrategista. A paciência era sua aliada, mas o tempo, seu inimigo.
Aquela era o momento que Kanon iria se livrar de vez de Shaka da pior e mais humilhante forma.
...
Fora jogado ainda inconsciente ao chão de mal jeito. Com o impacto acordara.
Tentou sentar ou se levantar para saber onde estava e não conseguia se mover, seu abdômen doía. Seus braços e pernas estavam amarrados com muita força prendendo a circulação. Estava tão escuro que não enxergava um palmo a sua frente.
Em sua boca havia uma apertada mordaça de pano que estava bem úmida, de sua baba. Mesmo empurrando-a com sua língua não conseguia mover, estava dentro de sua boca.
Impossibilitado de se mover, falar ou até mesmo gritar se desesperou-se.
“Oh, finalmente acordou” — disse uma voz misteriosa.
De onde vinha a voz? Onde estava? O que aconteceu?
Com um impulso, mil lembranças retornaram a sua cabeça.
Estava no quarto de Shaka quando três pessoas encapuzadas apareceram, o renderam e depois disso desmaiou, acordando naquele lugar.
Um barulho de isqueiro foi ouvido e então uma pequena chama foi criada o suficiente para iluminar um rosto que nunca vira na vida e nos fundos notou duas silhuetas de pessoas. Estava escuro demais para ver o que era.
“Bom dia, princesa adormecida. Teve bons sonhos?” — Disse tão próximo que seu hálito era horrível.
Quem era aquela pessoa? Pensava repetidas vezes sem chegar a nenhuma conclusão. Estava com muito medo que mal conseguia piscar.
...
A noite parecia não ter fim. O frio do subsolo abraçava os sobreviventes, e o silêncio só era quebrado por murmúrios e respirações tensas. Foi apenas com o nascer do sol que os portões se abriram, permitindo que todos deixassem aquele refúgio claustrofóbico. Lá fora, a cena era desoladora. Os jardins, outrora belos e bem cuidados, estavam marcados por poças de sangue e corpos inertes. Alguns deles foram descobertos em um aposento real próximo à entrada da torre sul.
Mas o dever principal havia sido cumprido: a corte estava salva. Todos os nobres, cavaleiros e servos de importância haviam saído ilesos. Entre eles, o príncipe Shaka, que fora encontrado em seus aposentos, trancado desde o início da confusão. Não havia sinais de arrombamento em sua porta ou janelas, e o ambiente parecia intocado. No entanto, a expressão do jovem príncipe denunciava que algo estava terrivelmente errado.
— Mu... Onde está Mu? — murmurou ele, quase inaudível, enquanto seus olhos vasculhavam o quarto.
Os guardas que o escoltavam trocaram olhares confusos. Para eles, tudo parecia normal: a mesa com papéis, a poça de tinta seca que provavelmente fora derrubada por descuido, e um castiçal caído ao chão. Mas para Shaka, o vazio era ensurdecedor. O lugar que Mu ocupava estava ali, vazio. O pássaro, seu companheiro inseparável, havia desaparecido.
— Tragam-no de volta. Agora! — ordenou com sua voz mais firme do que jamais fora.
— Alteza... é apenas um pequeno pássaro. Não deve ter ido longe — respondeu um dos soldados, tentando soar reconfortante, mas o comentário só serviu para atiçar a ira de Shaka.
— Apenas um pássaro? — A voz do príncipe ecoou pelo corredor. Ele nunca havia levantado o tom antes, nem mesmo em momentos de maior tensão. — Ele não é apenas um pássaro! Ele é meu amigo! Meu companheiro! Vocês não entendem... Ele é minha vida!
Os guardas recuaram, surpresos. O loiro tremia, dominado pela ansiedade. Ele nunca havia sentido tanta impotência, tanta dor. Havia algo em sua expressão que não permitia argumentos. Finalmente, os soldados cederam.
— Faremos o possível, Alteza — disseram, embora fosse evidente que não davam real importância à tarefa tratando assim mais um desejo sem sentido de um Príncipe mimado.
Shaka não descansou. Ordenou buscas imediatas pela cidade, mobilizando parte da guarda real para localizar seu amigo. Ele se recusava a acreditar que o pássaro havia simplesmente desaparecido. Mu era especial, e mais do que isso, era um vínculo precioso em sua vida. Enquanto os outros viam apenas uma ave, Shaka via algo único, insubstituível.
As buscas deveriam ter caráter de urgência pelo dia, pois temia que alguém encontrasse seu parceiro em forma humana durante a noite. Mas nada adiantou naquele dia. Se transformando então em uma semana de busca sem algum sinal ou informação sobre o pássaro.
Por dias, o príncipe aguardou ansiosamente notícias, mas nenhuma pista surgia. As buscas se expandiram: primeiro nos arredores do castelo, depois pelos bairros mais próximos da cidade, e, por fim, nas matas que circundavam os limites do reino. Nada. Mu parecia ter sumido sem deixar rastros.
As semanas foram implacáveis. Cada dia sem respostas aprofundava a angústia de Shaka. Ele passava horas em seu quarto, fitando o lugar onde Mu costumava descansar. Aquele vazio parecia crescer, consumindo-o pouco a pouco. A mesa com tinta seca e o castiçal derrubado se tornaram símbolos de sua dor. Ele não sabia mais se havia um significado oculto naquelas cenas ou se tudo não passava de um reflexo de seu desespero.
Os dias viraram semanas, e o desaparecimento de Mu tornou-se um mistério que ninguém conseguia solucionar. Shaka se isolava cada vez mais, rejeitando qualquer tentativa de distração ou consolo prejudicando até mesmo seu desempenho em seus estudos. Apenas uma pergunta permanecia em sua mente que não faziam questões de sumir: “Eles levaram mesmo ele? Ou ele conseguiu fugir?”
Mas no fundo, ele sabia. Mu não o havia abandonado. Algo de ruim tinha acontecido, algo além de sua compreensão.
E, ainda assim, ele se agarrava à esperança. Porque sem ela, sem Mu, ele temia perder não apenas seu melhor amigo, mas também a si mesmo.
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