A lenda do Imperador e o Rouxinol
5 Capítulo 5
Notas iniciais
Saga era um imperador em exercício, conhecido por sua bondade e senso de justiça que conquistavam tanto seus súditos quanto seus aliados. Filho do Imperador passado nomeado como “Grande Mestre” com uma de suas concubinas reais. Seu regime era marcado por um equilíbrio raro entre força e empatia, algo que o tornava respeitado em tempos de incerteza e conflito. Ele governava com um firme desejo de proteger os mais vulneráveis, priorizando políticas que promovessem a igualdade e o bem-estar geral.
Fisicamente, Saga era imponente, mas sua presença irradiava calor e humanidade. Seus cabelos escuros e negros, bem repicados, eram uma de suas marcas registradas, balançando suavemente ao vento enquanto ele caminhava pelos corredores do palácio ou discursava em público. Seu olhar era profundo e reflexivo, muitas vezes expressando tanto a força necessária para liderar quanto a compaixão que o tornava amado pelo povo.
Embora fosse bondoso, ele não hesitava em tomar decisões difíceis quando necessário, sempre equilibrando seu desejo por justiça com a realidade do poder que exercia. Sua liderança inspirava lealdade, não pelo medo, mas pela admiração genuína daqueles que viam nele um símbolo de esperança e renovação. Sob o governo de Saga, as terras prosperavam e as pessoas acreditavam em um futuro mais brilhante.
O Imperador era uma figura controversa, uma dualidade viva que inspirava amor e ódio em igual medida. Para aqueles que viviam sob sua proteção ou se beneficiavam de suas políticas, ele era um líder bondoso, um governante justo que carregava o peso do império nos ombros com dignidade. Seus discursos eram inspiradores, e sua visão de um reino próspero, onde a igualdade era a base da sociedade, encantava grande parte da população. Mas, para seus opositores, Saga era um tirano disfarçado de salvador.
Sua bondade, frequentemente exaltada por seus aliados, era vista como uma fachada pelos críticos. Para eles, suas políticas eram severas demais, sua mão firme era interpretada como opressiva, e seu controle sobre o império, uma demonstração de autoritarismo. Diziam que, por trás dos cabelos negros bem repicados e do sorriso carismático, existia um líder que não hesitava em esmagar qualquer resistência com força implacável.
As lendas sobre sua suposta crueldade cresciam entre os círculos de oposição. Havia relatos de prisões lotadas de dissidentes políticos e regiões inteiras silenciadas à força por soldados leais ao imperador. Muitos o acusavam de usar o bem-estar público como pretexto para centralizar cada vez mais poder, moldando o império à sua imagem e destruindo tradições que não se alinhavam com sua visão.
Saga era, então, tanto herói quanto vilão, dependendo de quem contasse sua história. Sua liderança era complexa, marcada por conquistas extraordinárias e decisões polêmicas que o tornaram uma figura eterna no imaginário de seu povo, seja como um visionário amado ou como um tirano temido.
A sucessão do trono no império era um tema de constantes debates e especulações, especialmente pelo fato de Saga estar governando como regente provisório até que o verdadeiro herdeiro, o príncipe Shaka, atingisse a idade mínima para assumir o poder. Essa transição era aguardada com ansiedade e, em algumas esferas, com preocupação, pois representava um momento de incerteza para o futuro do império.
Shaka, o jovem príncipe, fora escolhido pelo imperador anterior em um ato considerado tanto nada tradicional quanto visionário. Ele era visto como um prodígio desde a infância, com uma inteligência afiada e uma sabedoria que transcendia sua pouca idade. Contudo, por ser ainda muito jovem, o conselho do império determinou que ele só poderia assumir o trono após atingir a maioridade oficial, marcada para acontecer dentro de cinco anos. Durante esse período, Saga foi nomeado como imperador em exercício, tanto para preservar a estabilidade do reino quanto para preparar Shaka para o fardo de governar.
A relação entre Saga e Shaka era objeto de curiosidade e intriga. Enquanto Saga era visto como um governante experiente e pragmático, Shaka carregava o peso de expectativas grandiosas. Muitos acreditavam que ele representava o futuro do império, um líder que poderia trazer uma era de renovação e paz definitiva. Outros, no entanto, temiam que o jovem herdeiro, mesmo sendo o escolhido, carecesse de experiência para enfrentar os desafios complexos do poder.
Havia também murmúrios sobre como Saga encarava a transição. Embora oficialmente comprometido com a sucessão, seus críticos insinuavam que ele não abriria mão do trono facilmente. Alguns apontavam que sua governança cada vez mais centralizadora poderia ser um indício de sua hesitação em não deixar o poder. Por outro lado, os partidários de Saga o defendiam, argumentando que ele estava apenas fortalecendo o império para entregá-lo em mãos seguras.
A chegada da maioridade de Shaka prometia ser um marco histórico, com o potencial de unir ou dividir ainda mais o reino. Enquanto uns aguardavam com esperança, outros temiam que o jovem príncipe fosse uma incógnita cujo impacto só seria conhecido quando finalmente se sentasse no trono. O destino do império estava, sem dúvida, prestes a mudar de maneira irreversível.
...
— Eu adoro esta história. — Disse lendo um pergaminho deitado na cama.
— Do que se trataria esta história? — O pássaro não estava no colchão, e sim na mesa escrevendo algo com pincel e papel.
— É sobre um Imperador que não teve filhos e também não tinha parentes. Ele convocou todos os meninos de idade de 10 a 15 anos para ser seu sucessor com apenas uma semente.
— E como ele fez isso? A semente era mágica ou- fora interrompido.
— Não não, a semente não tinha nada demais. — Se ajeitou na cama enrolando o pergaminho. — Nos dias seguintes foram reunidos mais de 100 mil garotos no palácio imperial. E ele deu a cada um uma semente de uma planta que somente ele sabia dizer qual era.
Mu parou o que fazia quando percebeu que Shaka estava atrás de si.
“Em 1 ano iria crescer a mais bela flor, e quem trouxesse ela bem cuidada seria o meu sucessor no trono”.
— Disse enquanto atravessava seus dedos nas longas madeixas purpuras, trazendo-as para perto de si.
— E então? — Guardou o pincel.
— Acontece que em 1 ano dado o prazo do Imperador, a semente de um jovem órfão e pobre não crescera. Não importava se ele gastasse o dinheiro de pedinte no mais forte adubo. Ele escolhera um pote torto de argila para planta-la. Então 1 ano se passou e no palácio estava reunido todos os 100 mil garotos com as mais belas flores, de todas as cores e tamanho. Mas o Imperador recusou todas.
— hmm... — Shaka continuava a brincar com seu cabelo. Não se importava com isso.
— Então estava chegando ao pôr do sol e o pobre garoto tinha vergonha de apresentar seu jarro sujo de terra sem nenhuma planta, nem se quer uma graminha brotou ali. Ele fora o último da fila, de 100 mil garotos, a dele foi a que fez o Imperador mudar sua postura no trono. O Imperador surpreso saiu de seu trono e caminhou até onde o garoto estava. Pegou seu humilde jarro com as mãos e observou de perto.
“Por que este vaso está vazio?” — questionou a realeza.
“Por mais que eu me esforcei, não cresceu nenhuma planta na terra” — disse envergonhado.
— Então o Imperador disse que aquele pobre e mal vestido menino seria seu sucessor por conta da sua humildade, pois o segredo era que todas as sementes que entregou aos candidatos estava queimada e nunca brotaria nada. Todos farsantes, revelando suas índoles mentirosas, mas o garoto não. Ele foi verdadeiro desde o início. Então aquele pobre menino que morava nas ruas fora convidado a passar o restante da sua vida no palácio, recebendo treinamento até alcançar sua maioridade e se assumir o trono com o título do “imperador mais humilde e justo”.
Mu ficara pensativo, era uma bela história, Shaka adorava histórias antigas, sempre lendo para ele.
— Por acaso este conto tem a ver comigo? — Perguntou.
— Não, por que? É sobre sementes e honestidade.
— Shaka, por favor. Imperador: você. Semente: Rouxinol. — Fez a analogia gesticulando.
— Poderia ser, mas eu estava contando a você que me vejo mais no garoto do que vejo você como semente. — Fez uma cara triste porque o outro não deixou mais mexer em seu cabelo.
— Elabore. Não compreendi direito.
— Como eu disse, eu não vim de linhagem real, não sou filho do Imperador anterior. Eu fui escolhido a dedos por ele para assumir.
— E onde você estava antes de vir para cá?
— Em um templo budista. Fui criado por monges e levado como um garoto com um ar de beleza exótica. Isso foi há quase 5 anos. E faltam apenas três para minha maioridade. E você, o que está fazendo? — Mudou de assunto, seus olhos foram para os papéis espalhados na mesa.
— Nada demais, apenas algumas coisas sem importância alguma.
— Como não? Você está escrevendo histórias? Poemas? O que?
— Apenas nada, Shaka. Ei!! — Shaka pegou o papel de cima da mesa e correu pelo quarto que fora seguido pelo outro. — Devolva Shaka! — Disse contendo sua voz. Se gritasse de verdade os guardas do lado de fora estranharia uma segunda voz e adentraria.
Toda vez que conversavam ou riam tinha que ser de voz bem baixa. Pelo lado de fora tinha a ideia de que Shaka conversava sozinho com o rouxinol.
Shaka tentara ler os garranchos de escrita de Mu, que aprendera a escrever recentemente, ainda não tinha total coordenação motora nas mãos para usar o pincel. Conseguira identificar numa única página palavras como “Outra vez”, “Azul do céu”, “Sonho quebrado” e “em pedaços”.
— O que isso quer dizer?
— Quer dizer que você não pode ir pegando as poucas coisas que eu tenho sem permissão.
— Não quis te deixar com raiva. Eu apenas quero saber o que estava escrevendo. — E eu disse, não é nada. Apenas estou... — Se silenciou vencido. — Eu estava escrevendo algo sobre música.
— Uma letra de música? Eu pensava que era uma história. — Disse animado. Era impossível esconder as coisas do loiro devido às limitações de privacidade e espaço que ambos tinham. — Como é a melodia? Calma, agitada... Como?
— Eu não sei, não conheço outros tipos de música... — Parou de falar quando viu brilho nos olhos azulados. — O que foi?
— Você está dizendo que está formando letras que se encaixem na melodia que você canta como rouxinol?
— De minha boca não saiu nada disso.
— É verdade isso Mu!? Opa. — Ele estava tão animado que não se conteve quando foi mais perto do outro, o outro num susto caiu para trás levando o pássaro consigo. Sorte que ambos caíram no enorme colchão que fica no meio do extenso quarto. O loiro ficando por cima do mais velho com os rostos de ambos bem próximo um ao outro.
Essa foi a segunda aproximação bem de perto de ambos. A primeira foi no dia que se conheceram, não de forma apropriada. Mu pulara encima de si fechando sua boca e torcendo seu braço para que não fugisse ou gritasse. E agora era Mu que queria gritar e não podia.
Reprimindo o estranhamento do corpo, ambos foram saindo da posição sem falar nada. Aquilo fora estranho para os dois. O sentimento, as sensações de descoberta.
— Me desculpe. — disse o loiro entregando o papel amarrotado ao pássaro.
— Tudo bem. Isso era apenas um esboço mesmo.
Shaka pensou que Mu se enganara sobre suas desculpas. Mas deixou por assim mesmo.
Eles não se falaram até na hora de dormir naquela noite.
...
Silhuetas negras ligeiras passavam entre as edificações e telhados da cidade não tão longe do palácio imperial com acrobacias.
A cidade estava com uma belíssima iluminação amarela por conta dos preparativos do ano novo lunar. Mas ninjas sabiam agir como sombras entre a população.
Dia da invasão do palácio e plano para matar o Príncipe era orquestrado por três ninjas
Pousaram todos ao mesmo tempo no telhado sem emitir algum som em seus passos. — Área leste e sul verificadas. Há guardas por toda parte – Disse o mais alto removendo sua máscara revelando um homem de cabelos negros, com a iluminação da cidade ficaram com tonalidade verdes.
— Duvido que uma dúzia de soldados merrecas consiga segurar nós três. — Disse o segundo estalando os dedos, ele tinha uma barbicha no queixo.
— Afrodite, você conseguiu? — Disse o primeiro se referindo ao terceiro que tinha um rosto e cabelos ondulados iguais de uma mulher. Ele tirou do interior da do quimono preto uma espécie de dobradura de papel em formado de grou.
Desmanchando o papel tinha um breve texto escrito em tinta preta nele. Os ninjas conseguiam enxergar no escuro e aquilo foi brincadeira de criança em ler. Era como uma página de diário que adicionava informações à medida que iria descobrindo algo novo.
“Os guardas vão estar se revezando em número de quatro.”
“Porta do quarto não possui chave, apenas um ferrolho grande.”
“Principe vai para o quarto na torre sul antes do pôr do sol”
“Portão sul estará trancado e sem vigia durante a queima de fogos.”
“Entrem pelo portão Sul, haverá uma carroça disponível e sem uso”
E então o papel fora amassado e guardado.
— Vejo que a víbora fez um bom trabalho, mas estas informações não são o suficiente para uma invasão. — Disse o mais polido.
— Ora Shura. Atente-se as datas de oportunidade. O festival lunar se inicia em duas semanas – Disse o que tinha aparência andrógina.
— Poderia ser amanhã a data estimada que não iria funcionar se fossemos seguir essas pistas rasas.
— Do que está falando? — Disse o mais esquentado entre os 3 — Nós já temos as plantas do castelo, o mapa do tesouro que nos guia até o moleque. Já temos informações o suficiente para invadirmos e – fora interrompido.
— Máscara da Morte. O que você está querendo é que a missão caminhe para o destino oposto do sucesso: o fracasso. Temos duas semanas para recolher todas as informações que temos e colocar tudo em ordem.
— Talvez devêssemos mais contato com a chefia. — Sugeriu Afrodite. — Colocar mais homens dentro do palácio, além da Shina. Ela está há 6 meses lá dentro e só reuniu isso?
— Vamos com calma.
— “Vamos com calma”. — Caçoou com uma voz afinada — O objetivo não é dar um sumiço no Príncipe? Não é como se já não tivéssemos feito esse trabalho no passado.
— Vá então, se você pensa que dá para fazer uma missão suicida. Lembre-se Máscara da Morte, que você tem pouco conteúdo em sua cabeça e cérebro em seus músculos. Não é porque matamos facilmente centenas de vezes que vamos conseguir a sorte grande de primeira com esse Principe.
— Afrodite tem razão. — Disse Shura. — Invadir agora o castelo seria questão de suicídio. Vamos esperar o dia oportuno durante o festival lunar. Temos que agir ao anoitecer que é quando o Príncipe fica nos aposentos e desprotegido.
Depois de entrarem em um consenso, as três sombras saltaram do edifício e não foram mais vistas.
...
Mu estava preso em um mar de escuridão. Tudo ao seu redor era tão opressivo quanto a própria ausência de luz, e ele mal conseguia distinguir onde terminava o vazio e começava o terror. Quando seus olhos finalmente se ajustaram, percebeu que não era ele mesmo — não como o conhecia. Suas mãos não estavam lá, nem seus pés. Ele era pequeno, frágil, um rouxinol de penas arrepiadas e olhar inquieto.
O som de passos ecoou. Eles vinham de algum lugar distante, mas cada vez mais próximos, cada vez mais ameaçadores. De repente, uma figura emergiu das sombras: um homem alto, envolto por um manto de escuridão. Seu rosto era um borrão de traços desumanos, mas o que mais chamava atenção era o facão em sua mão. Grande, gasto e manchado, parecia sussurrar promessas de violência.
O homem parou diante da gaiola onde Mu estava preso, a encarando com olhos que pareciam chamas opacas. Com a voz grave e rouca, que reverberava como trovão, ele perguntou:
"Por que não canta?"
Mu tremeu, as pequenas garras que substituíam suas mãos apertaram o poleiro com força. Queria falar, queria gritar, mas sua garganta estava seca, presa em um nó de medo. A pergunta se repetiu, desta vez mais agressiva, mais monstruosa.
"Por que você não canta?"
O silêncio de Mu parecia ecoar mais alto do que qualquer som que ele pudesse emitir.
Frustrado, o homem ergueu o facão e bateu na gaiola, produzindo um som metálico que parecia cortar o ar como um grito. A gaiola balançou, mas não cedeu. Mu tentou voar, instintivamente buscando escapar, mas as grades eram implacáveis. A gaiola era apertada demais, não havia espaço para as asas se abrirem.
"Já que você não canta, não tem valor aqui."
A sentença foi dita com a frieza de quem já havia decidido o destino de muitas vidas. O homem então abriu a pequena porta da gaiola, sua mão imunda e cheia de pelos se enfiando no espaço diminuto. Os dedos ásperos agarraram Mu com força, apertando-o como se quisessem esmagar a vida de dentro dele.
O coração de Mu disparava, batendo tão forte que ele temia que explodisse. E então, ele viu a lâmina do facão se aproximando, reluzindo de forma ameaçadora mesmo na escuridão. Ele quis gritar, mas nenhum som saiu. A lâmina desceu.
Mu despertou com um sobressalto. Seu corpo estava encharcado de suor, o peito subindo e descendo descontroladamente enquanto ele tentava recuperar o fôlego. Olhou ao redor, reconhecendo finalmente seu quarto, as paredes familiares, a luz fraca que entrava pela janela. Ainda assim, ele sentia as grades da gaiola, o aperto da mão e o frio da lâmina como se fossem reais.
Olhou ao seu lado e encontrou Shaka dormindo de costas para si. Ainda lembrava do pesadelo, cada palavra que aquele monstro falava era como se fosse no mundo real.
Não sabia que horas da madrugada eram, perdera toda a vontade de voltar ao sono depois disso.
“Eu nunca mais vou estar dentro de uma gaiola novamente”. Concluiu em pensamento com os olhos fechados, mas sem dormir.
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