A lenda do Imperador e o Rouxinol
4 Capítulo 4
Notas iniciais
Cinco anos haviam se passado.
Durante esse tempo, o segredo do príncipe- agora um jovem — continuava bem guardado. Nenhum criado, eunuco ou servo pisava mais em seus aposentos. Ele dispensara todos. Fazia suas refeições noturnas sozinho e vestia suas vestes imperiais sem qualquer auxílio. Não permitia que ninguém cruzasse a soleira de seu quarto sem sua permissão.
Shaka, agora com quinze anos, crescera. Seu corpo dobrara de tamanho, os traços infantis se esvaíam, substituídos pela seriedade e responsabilidade de seu destino. A inocência dera lugar a uma determinação fria. Seu cabelo, outrora curto, agora descia até o quadril, e a constante prática de kata e esgrima, aliada ao peso da armadura, esculpira músculos firmes em seu corpo. Já não era mais um menino. Tornara-se um homem.
Mu, por outro lado, pouco havia mudado. Seu corpo permanecia esguio, quase etéreo, exceto pela altura, que aumentara um palmo. O mau humor que um dia carregara foi suavizado por uma calma beleza, que harmonizava com seus traços. Os olhos, antes desconfiados, agora traziam a serenidade de alguém que aceitara sua condição.
Ao longo desses anos, muitos segredos sobre o rouxinol foram desvendados.
O primeiro segredo, seria obedecido o tempo de transformações de Mu. Ao nascer e ao pôr do sol, permanecia na forma de pássaro, escapando dos olhares atentos dos soldados e servos do castelo. Durante a noite, assumia sua forma humana, a aparência de um jovem que agora aparentava dezoito anos.
O segundo segredo era ainda mais curioso: Mu envelhecia apenas quando estava em sua forma humana. Isso ficou evidente pelo comprimento do cabelo. Quando Shaka ainda era criança, seus fios mal passavam dos ombros. Já o pássaro, mesmo em sua infância, possuía cabelos longos, que cresceram lentamente—menos de um palmo em cinco anos. Ele envelhecia apenas seis horas por dia. Isso significava que, ao longo de um ano inteiro, ele envelheceu apenas três meses. Durante os mais de oitenta anos que passara preso na forma de rouxinol, seu corpo humano não envelhecera nem um único dia.
O terceiro e último segredo era o mais perigoso. Durante a lua cheia, os poderes de Mu se tornavam instáveis. Seu corpo enfraquecia como se sua energia vital escoasse com a luz prateada do céu. Até mesmo nas manhãs em que a lua ainda era visível, sentia-se debilitado. Mas Shaka, já quase pronto para assumir o trono, aprendera a cuidar dele. Nessas noites, não se sabe o porquê das forças de Mu se esvaírem durante o período da lua cheia, esse mistério nem o próprio pássaro soube decifrar. O Príncipe ausentava-se de suas funções e aulas, dedicando-se inteiramente ao pássaro. Ele jamais o deixaria sofrer sozinho.
A rotina do príncipe se tornara inseparável da presença de Mu. Das vinte e quatro horas do dia, passavam todas juntos. Não importava se era durante estudos, refeições ou até mesmo na hora do banho e do descanso. A relação entre eles era algo que escapava à compreensão dos servos do castelo. Era uma conexão profunda, uma devoção silenciosa, algo além das palavras.
Tamanha era a fama do príncipe e seu rouxinol que o hábito se espalhou por toda a China. Cada casa passou a possuir uma gaiola com um rouxinol, acreditando-se que a ave traria boa sorte, saúde e felicidade. Mas nenhum pássaro cativo poderia compreender a verdade por trás dessa crença. Pois felicidade era a única palavra capaz de descrever o que Shaka sentia ao lado de Mu.
Durante esses cinco anos, Shaka ensinara seu companheiro a ler e escrever. Embora Mu não tivesse grande apreço pelo pincel, entendeu que era uma necessidade humana e aceitou as lições particulares que o príncipe lhe oferecia.
Aprendeu também a empunhar uma espada, ainda que não fizesse sentido para um pássaro. As lições eram repletas de risos, até o dia em que Mu, desajeitado, derrubou um vaso decorativo de trezentos anos. Em meio à confusão, escondeu-se atrás do biombo de madeira, soterrado por uma pilha de roupas, enquanto Shaka recebia a bronca em seu lugar. O príncipe, frustrado, declarou que Mu jamais voltaria a tocar em uma espada dentro dos aposentos reais.
Aquela foi a ocasião mais próxima de alguém descobrir o segredo que ambos compartilhavam. O estrondo do vaso quebrando alertou os guardas, que vasculharam o quarto inteiro em busca de um intruso. Mas, como sempre, o segredo do príncipe permaneceu intacto.
E assim, os anos seguiram seu curso, enquanto a lenda do príncipe e seu rouxinol continuava a crescer.
...
— Aulas de música? Para quê, eu já não canto para você todos os dias?
— Sei que é uma loucura, mas é fundamental para ser Imperador ser experiente em algum instrumento musical. Seja de corda, sopro ou percussão.
— Por que você inventa cada história, Shaka? — Disse enquanto comia um pêssego.
— Eu posso pedir aos serviçais um de cada instrumento para que eu teste. Tentar aprender um pouco e levar para cá para te ensinar.
— E por que eu tocaria um instrumento se é você que quer aprender? — Encarou o loiro que sorria. Shaka amadurecia, ficava mais sério, mas não conseguia perder seu sorriso travesso disposto a ter tudo que desejava. — Entendi, você quer que eu toque para você na mina forma humana.
— Sim! — Seus olhos azuis brilharam
— Então falava tudo de uma vez, mania essa de falar tudo fracionado ou pela metade.
— He he...
Naquela noite comiam na cama uma tigela de pêssegos bem rosados.
...
No dia seguinte, por indicação direta do Imperador regente, o jovem príncipe Shaka receberia uma nova professora de música. Era uma adição à já exaustiva rotina de estudos e responsabilidades que marcava sua vida no palácio. A escolhida era Shina, uma mulher de aparência marcante: seus cabelos negros, volumosos e brilhantes caíam como uma cascata sobre os ombros, emoldurando um rosto sereno e determinado. Seu vestido verde profundo destacava-se por detalhes minuciosos de serpentes prateadas bordadas ao longo da peça, conferindo-lhe uma aura enigmática e imponente.
O primeiro encontro aconteceu no salão privativo do palácio, um espaço reservado onde Shaka poderia transitar livremente, longe dos olhares curiosos da corte. O ambiente era repleto de instrumentos musicais que o príncipe nunca havia visto antes: harpas, liras, tambores de diferentes tamanhos, cordas exóticas e flautas de variados materiais. O ar era impregnado por uma curiosa mistura de madeira polida e a suavidade do incenso queimado ao fundo.
Shina começou a explorar os instrumentos, tocando um a um com uma destreza que logo prendeu a atenção de Shaka. Ele observava com curiosidade genuína, ainda que tentasse manter sua postura digna e contida, como era esperado de um herdeiro. No entanto, quem demonstrava o entusiasmo mais puro era Mu, o pequeno pássaro que sempre acompanhava o príncipe, saltitando de um lado para o outro.
Quando a professora pegou uma flauta de bambu e soprou as primeiras notas suaves e melódicas, Mu ficou eufórico. Pulava de um ombro a outro de Shaka, piava incessantemente e, em um momento particularmente atrevido, chegou a bicar levemente o rosto do príncipe, como se estivesse tentando dizer algo. Shaka, surpreso, sorriu de canto, um raro vislumbre de sua expressão mais leve. Não demorou para que ele entendesse: Mu escolhera aquele instrumento.
— Parece que sua decisão já foi tomada, e não foi pelo senhor, jovem mestre. — comentou Shina com um sorriso discreto, segurando a flauta entre os dedos.
— Acredito que sim — respondeu Shaka, estendendo a mão para pegar o instrumento.
Assim começaram as aulas. Os primeiros dias foram desafiadores. O loiro apesar de sua inteligência e disciplina, não estava acostumado ao movimento ágil e delicado que a flauta exigia. Seus dedos, treinados para a escrita e o manuseio de armas, pareciam desajeitados nas pequenas aberturas do bambu. Contudo, ele perseverava, enquanto Mu, sempre atento, permanecia empoleirado em uma viga próxima ou no encosto de uma cadeira, observando cada movimento com um olhar que parecia quase humano.
Durante as noites, após as exaustivas lições diárias, Shaka se recolhia em seus aposentos, levando consigo a flauta. Ele passava horas tentando reproduzir as melodias que ouvira de Shina. O som ora saía desafinado, ora interrompido por seus dedos errantes, mas ele não desistia. O príncipe sabia que aprender aquele instrumento era mais do que uma simples habilidade; era um momento de paz em meio à pressão constante de sua posição.
Com o passar dos meses, os esforços começaram a dar frutos. Shaka progrediu significativamente, mas foi Mu quem o surpreendeu. O pequeno pássaro, ao que parecia, estava absorvendo as lições tanto quanto o príncipe. Um dia, enquanto Shaka praticava no salão, Mu começou a tocar uma melodia que ele próprio acabara de tocar. Shaka, bastante demonstrativo, sentiu um calor no peito ao ver o progresso de seu fiel companheiro.
— Parece que conseguimos, Mu — sussurrou ele, enquanto o vento noturno trazia consigo a promessa de um futuro ainda mais melódico.
...
Shaka cantarolava a mesma melodia que o rouxinol roxo cantava antes de dormir. Curioso, Mu interrompeu a canção com curiosidade.
— O que está fazendo?
— Apenas cantando. — Deu de ombros. — Sabia que hoje se fez cinco anos que você chegou até aqui e cantou para mim. É uma bela canção de ninar.
— Você está dizendo que minha música te causa sono? — Torceu as sobrancelhas.
— Não, tolo. Estou querendo dizer que seria uma boa ideia tocar essa melodia com instrumentos, dar cores e letras a ela.
— Eu não canto, Shaka. Posso tocar a flauta para você, mas cantar não, se é isso que está pensando.
— Você tinha dito a mesma coisa cinco anos atrás. Que iria pensar no caso e até agora e não me deu a resposta. Não estás a lembrar?
— Então daqui a mais cinco anos eu lhe respondo, eu ainda estou pensando no seu caso.
— Mas é sério — Se ajeitou na cama ficando mais próximo dele. — Por que você não canta como homem?
— Por que eu não sou cantor.
— E se eu convocar um professor de cant- Fora interrompido com uma mão empurrando sua cabeça o jogando na cama de barriga pra cima. — Ei!
— Não invente moda Shaka. Um dia quem sabe eu cante para você, mas por enquanto apenas na forma de rouxinol, e no máximo na flauta.
— Ah... — decepcionado. Foi vencido, nem tudo no mundo conseguia conquistar quando queria quando quisesse.
...
— Shaka... Se os outros do castelo não podem ver seu rosto sem um véu... Por que você não o usa enquanto está em aula? — Perguntou sem checar se o mesmo estava acordado.
— ...Por respeito aos mestres e professores. São as únicas pessoas que não podem se curvar ao Imperador. — Estava semi-dormindo e semi-acordado.
— Então por conta disso você não se esconde. — Virou-se para direção do loiro.
— Sim, exato. Por forma de respeito a eles eu não oculto meu rosto. Dizendo um ditado antigo: “Numa terra em que não há professores, não pode haver imperadores.” Por isso.
Mu ficou apreensivo, mas fora um bobo sentimento de preocupação que teve. Confiou na segurança 24 horas que Shaka tinha em sua guarda. Nada ruim aconteceria com ele se mantivesse seguro no palácio.
Mal sabe que estava certo esse tempo todo.
...
Enquanto o silêncio da noite envolvia o exterior do palácio, uma figura encapuzada movia-se com destreza pelas sombras. Desviando habilmente dos guardas reais, seus passos eram leves e precisos, como os de um felino em caça. O manto escuro que vestia fundia-se com a escuridão, tornando-a quase invisível sob a luz pálida da lua.
Pulou pelos telhados das construções adjacentes ao palácio, seus movimentos fluidos e ágeis, como se conhecesse aquele terreno melhor do que ninguém. Não era um ato de simples curiosidade ou acaso; havia uma intenção clara em cada passo. Após atravessar o perímetro mais vigiado, chegou a uma área distante e isolada, onde as luzes do palácio mal alcançavam. Ali, em meio ao abandono e ao silêncio, erguia-se um antigo casebre de pedra, aparentemente esquecido pelo tempo.
A figura encapuzada parou por um instante, inspecionando os arredores. Não havia sinais de guardas ou espiões, apenas o som do vento soprando entre as árvores e o murmúrio distante de água corrente. Certa de que não fora seguida, empurrou a pesada porta de madeira que rangeu baixinho, e entrou.
No interior, a escuridão era ainda mais densa, iluminada apenas por uma pequena lamparina que tremeluzia no centro do espaço. As paredes de pedra, úmidas e frias, emanavam um ar de segredo e mistério. Então, com um movimento lento e deliberado, a figura puxou o capuz para trás, revelando seu rosto.
Era uma mulher de beleza impressionante. Seus lábios cheios e bem desenhados destacavam-se contra a palidez de sua pele, enquanto seus cabelos negros e brilhantes caíam como um manto emoldurando seu rosto. Os olhos, intensos e penetrantes, pareciam guardar segredos que poucos poderiam desvendar.
No interior do casebre, outras três figuras aguardavam. Diferente dela, estavam completamente cobertas de preto, dos pés à cabeça, incluindo máscaras que ocultavam seus rostos. Apenas suas posturas indicavam que estavam atentos, como predadores à espreita. Não disseram uma palavra, mas seus olhares se voltaram imediatamente para a recém-chegada, como se estivessem esperando por ela.
— Shina... O que conseguiu? — disse o primeiro com voz polida
— O Príncipe tem cabelo dourado como ouro e olhos azuis como o céu. Há uma dúzia de guardas fazendo vistoria nos últimos andares da torre que se encontra.
— Já se fizeram 4 meses que você não nos dá notícias. Queremos saber mais sobre a planta do palácio. — O segundo tinha a voz mais grossa e enraivecida.
— Acha que sou uma amadora? Você me ofende insinuando que eu faço meu trabalho pela metade ou mal feito.
Então retirou de sua bolsa vários papéis enrolados e dobrados aos sujeitos que espalharam no chão, os desenhos formavam uma figura completa do interior do castelo real.
- Shina, a Víbora. Vejo que fez um bom trabalho. — Disse o terceiro com uma voz delicada.
A primeira fase do grande plano estava concluída.
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