A lenda de Hefesto e o mito das gemas ardentes
2 Primeiras rachaduras
Notas iniciais
Pompeia
— Céus! Céus! Mas o que é isso? – Gritava um homem de meia idade que saia correndo de uma pequena área arborizada nas proximidades da vila em que morava. O homem parecia nervoso, suava frio e tropeçava várias vezes enquanto corria para longe dali enquanto seu coração estava a mil. A única coisa que queria era encontrar alguém que pudesse lhe ajudar com o que tinha acabado de presenciar. Esbaforido e em um lapso de pensamentos sãos, decidiu que a melhor coisa a se fazer era se direcionar às escadarias que se estendiam ao topo de uma grande colina bem íngreme, onde no seu topo se localizava o templo de Hefesto. Talvez o deus pudesse o ajudar, ou incrimina-lo, ou quem sabe... Só sabia que não poderia guardar o que acabara de ver para si, principalmente devido aos fatos que têm acontecido nos últimos tempos.
Estava imerso em algum discurso que tentava organizar na sua mente conturbada, frente ao medo a e ao desespero que inundava seus pensamentos. Quanto menos espera, foi subitamente parado abruptamente por um rapaz negro de cabelos azuis que descia os degraus tranquilamente:
— Mas o que está acontecendo? Você está bem? – Perguntou o jovem tentando entender a situação do velho em pânico.
— Senhor, senhor.... Oh céus! Eu não acredito... não consigo acreditar! Aconteceu de novo!
— Você precisa ficar calmo e falar o que fez você ficar assim. – O rapaz falou com um tom de voz mais incisivo, mas ainda tranquilizador, segurando nos dois ombros do homem.
— Há um corpo... nas árvores, enforcado. É um rapaz, eu acho. Estava morto quando eu cheguei, eu juro! – O homem entrecortava as palavras com sua falta de fôlego.
— Tudo bem, tudo bem. Me leve até lá. E fique calmo.
E assim os dois tornaram a descer os poucos lances de escada que o homem havia subido, iludindo-se de que já havia percorrido vários metros. Agora respirando melhor, conseguia olhar melhor quem o havia parado. Um conhecido da vila, por ser um dos guerreiros que fazem parte da guarda exclusiva do deus Hefesto. Se não estava enganado, seu nome era Hoz.
Era um homem bem alto para a idade, de quase dois metros de altura, pele negra, cabelos azuis escuros e traços árabes bem marcados. Pelo que ouvira falar, ele era muito conhecido pela sua força física descomunal, mas acompanhada de uma personalidade que poderia ser gentil demais para um guerreiro.
— Então, como que você o encontrou?
— Bem, senhor... eu fui atrás do coelho da minha neta que havia fugido em direção ao bosque e... não andei muito atrás do bichinho quando me deparei com o corpo. Cheguei a tocar uma das pernas para checar se ao menos estava quente, mas não. Era frio, inchado e rígido. No momento eu entrei em pânico, porque nunca havia visto ninguém assim. Me desculpe, senhor, pelo meu desespero.
— Não precisa se desculpar, sua reação é completamente compreensível.
Tornaram a ficar em silêncio, aproximando-se do local onde supostamente estaria o corpo. Na entrada do pequeno bosque, o homem hesita e olha como se implorasse por piedade ao rapaz.
— Me desculpe, senhor... mas eu não consigo.
— Tudo bem, pode ficar aqui, eu entro sozinho.
Nesse momento um pequeno amontoado de pessoas já havia se formado na entrada do bosque, principalmente após os gritos do velho. Hoz apenas ignorou o burburinho e adentrou mata adentro, não demorando muito para encontrar a vítima. Era um rapaz bem jovem, quase um adolescente, amarrado pelo pescoço e pendendo do galho mais grosso de uma árvore, que penetrava numa pequena clareira. Era uma cena tão simples quanto macabra. Ele se aproximou com a finalidade de examinar o corpo, mas era como se uma energia muito negativa estivesse inundando toda a clareira, cuja intensidade aumentava à medida que se aproximava do corpo. Era algo que se assemelhava sutilmente a uma presença cósmica maligna.
— Não pode ser... – Murmurou consigo mesmo enquanto examinava o corpo de perto. Tocou em sua perna e a única coisa que pode sentir foi a mesma energia e frieza que estava em volta, só que dessa vez emanando do rapaz. Tirou a mão rapidamente após tocá-lo, como se tivesse tomado um choque.
— Assim como os outros.
Cuidadosamente o guerreiro tirou o jovem pendurado e usou sua capa para cobrir o cadáver para sair dali com o mínimo de dignidade ao defunto, mas ao carrega-lo, sentiu que aquele corpo era muito frio, parecendo estar mais do que morto...
Assim que saiu da mata, uma senhora estava aos prantos e gritando, sendo segurada por outros populares. Seus esforços foram inúteis pois assim que Hoz deu às caras, a moça franzina parecia mais forte que qualquer guerreiro que treinasse por lá, soltando-se rapidamente dos homens que a seguravam.
— Meu filho! Meu filho! Não pode ser meu filho, por favor! Ele nunca, nunca foi desse jeito! Era um menino feliz! Não fez mal a ninguém sequer, por favor, diga que não é meu filho!!!
— Anis! Anis! Você precisa se controlar! Não nos faça passar tamanho vexame na frente de um dos guerreiros do senhor! – Dizia um homem mais ou menos da mesma idade da mulher desesperada, que estava segurando um dos braços da mulher novamente.
— Eu não ligo! Só quero ver o rosto do meu filho!
Hoz se aproximou da mulher e ainda num tom de voz bem controlado, perguntou:
— Senhora, posso mostrar o rosto dele para que você possa confirmar que é seu filho... Mas talvez não seja a mesma pessoa e isso pode ser muito ruim para você.
— Por favor, eu só quero vê-lo!
O rapaz descobriu apenas o suficiente do corpo para que a mulher visse o rosto, já inchado e deformado com uma nítida fenda em seu pescoço, formada pela pressão exercida pela corda.
— NÃO! Não pode! Não! Anak, não!!! – A mulher tornou a gritar e chorar desesperadamente. Não demorou muito para que ela perdesse as forças e cedesse a um desmaio nos braços de um dos aldeões.
Poucas horas se passaram e Hoz havia entregue o corpo do rapaz à casa funerária da vila, para que assim tomassem as medidas necessárias. Partiu então em direção ao templo central o mais rápido que podia, a fim de relatar tudo que tinha acontecido. Abriu as portas em um empurrão e entrou correndo para dentro do prédio, quando foi imediatamente chamado atenção.
— Ei! Quantas vezes eu tenho que dizer para não entrar correndo assim aqui dentro? Com essa sua força bruta você ainda vai quebrar as portas!
— Hélios!
— Então, qual é o motivo da pressa? Já falo pra você que Marco está ocupado na forja.
— Hélios, droga... desculpa. — o rapaz titubeou um pouco antes de continuar — Mas aconteceu de novo e do mesmo jeito, mais um suicídio com aquela energia estranha.
— Hum... – Hélios suspirou coçando o cavanhaque — Marco não vai gostar disso. Como que aconteceu?
Hoz apenas repetiu tudo que tinha visto e sentido dentro da pequena clareira. Aquela não era a primeira morte por suicídio que havia acontecido. Na verdade, esta situação havia se tornado mais rotineira do que todos gostariam, sendo a quarta morte em menos de três meses, iniciando subitamente e sem explicação, já que as vítimas não davam um sinal sequer de serem de quererem dar fim a própria vida. Isso fez com que Hélios desde o início suspeitasse que aquilo não era puramente uma pandemia de depressão, mas sim alguma coisa que não era puramente humana.
Todos os casos guardavam algo em comum: a presença de uma energia estranha, melancólica e vingativa ao mesmo tempo. Era uma presença muito sutil, mas que podia ser sentida por qualquer um que dominasse o cosmo e, para indivíduos mais sensíveis, como o próprio Hefesto, aquilo havia se tornado uma praga que estava empestando seu santuário. Isso explicava as inúmeras horas na forja, a fim de esquecer por algum tempo aquela sensação fúnebre que pairava a todo instante.
— O filho da dona de um comércio.... Você achou algo suspeito?
— Nada. O rapaz na verdade estava bem contente por enfim assumir os negócios da família, não parecia haver nada de estranho para familiares e amigos. Consegui até mesmo um diário dele, revirei tudo e não havia absolutamente um indício de depressão ou algo assim.
— Certo... – Hélios franzia o cenho e mordia a ponta do dedão, um tique que ele tinha quando estava nervoso.
— E o que a gente faz agora?
—Talvez fosse importante comunicar isso ao Marco, mas precisamos ter uma conversa mais séria e objetiva, já passamos da hora de começar a investigar essa... coisa.
— Irmão?
Entrando timidamente pelo portão principal do templo, uma garota loira assim como Hélios apareceu, com uma expressão de preocupação muito marcada nos seus enormes olhos azuis claros.
— Aphelias? O que faz aqui?
— Eu soube do novo caso e não pude deixar de pelo menos vir aqui ver como você está.
— Eu estou bem, irmã. Não há o que se preocupar agora.
Aphelias era a irmã mais nova de Helios, que, apesar de ser bem mais nova, não aparentava ter grande diferença de idade. Ela tinha um ar calmo e ingênuo desde a infância e muito pouco havia mudado até a idade adulta. No entanto, também era uma das guerreiras que lutava na guarda pessoal de Hefesto, com um cosmo tão elevado que superava as barreiras de sua idade e aparência, sendo reconhecidamente o braço direito de Hélios, o capitão de todos os demais.
— Não existe essa história de “não me preocupar”! Sou a sua irmã e luto sempre ao seu lado. Essa energia é uma ameaça a nossa paz e é lógico que eu vou me importar.
— Aphelias, olha... – disse Hélios coçando os olhos num sinal de visível preocupação – Deixe que eu cuido disso por enquanto. Vou marcar uma reunião extraordinária com Marco hoje. Vocês façam o favor de chamar os demais, tá bom? Começamos pontualmente em trinta minutos.
— Certo! – Hoz já se dirigia à saída, mas Aphelias insistia em ficar.
— Irmão, permita-me ficar com você, por favor! Você não pode simplesmente me jogar de lado desse jeito se quiser que eu assuma seu lugar um dia!
— Aphelias, não precisa...
— Eu insisto!
Hélios se viu encurralado, pois a insistência da irmã era por uma boa causa, afinal ele já pretendia passar a liderança dos cavaleiros assim que os demais tivessem idade suficiente para tal. Aphelias era uma das que mais se empenhava para carregar seu legado, então era mais que justo deixar ela participar dos seus assuntos pendentes.
— Hélios, eu consigo fazer isso sozinho, eu prometo. Aphelias pode ir com você! – Disse Hoz com um sorriso confiante no rosto.
— Se você se responsabiliza, então eu fico mais tranquilo. Vamos, Aphelias!
E assim os três saem do templo. Hoz, com uma força surpreendente, consegue saltar da beira da falésia onde se encontrava para chegar o mais rápido nos campos de treinamento, onde possivelmente os demais estavam. Não demorou muito para encontrá-los, pois já conseguia ouvir os xingamentos e gritos de longe.
— O que foi? Vai arregar agora é? – Gritava uma garota com longos cabelos castanho avermelhados se colocando em pose de combate.
— Arregar? Talvez você devesse escolher melhor suas palavras antes de perder todos esses dentes! – Já retrucava um rapaz alto e bem magro, que usava um moicano vermelho bem chamativo, o qual terminava numa trança longa que quase tocava no chão.
— Hélios já deixou bem claro que arrancar dentes é proibido, Heike e Ikaika. – Uma outra amazona estava junto a eles, aparentemente prestando-se como mediadora do treino.
— Hélios deveria ser menos bunda mole, ele corta toda a diversão de treinar desse jeito! Pode nem derramar umas gotinhas de sangue mais! – Disse Ikaika batendo o pé no chão.
— O que os olhos não veem, o coração não sente. Ele nem vai reconhecer você depois que eu acabar, Kai! Então não tem problema! – Disse a garota, soltando uma risada bem alta.
— Isso é o que nós vamos ver, queridinha!
E em menos de um segundo, os dois já estavam em um embate no qual trocavam golpes tão rapidamente que era difícil acompanhar com os olhos. Seus formatos se reduziram a dois vultos que apareciam e desapareciam pelos cantos do campo de treinamento. No entanto, num pequeno lapso de tempo, a garota aparentava ter sumido.
— Cadê você, sua vagabunda!?
— Aqui atrás, seu merda!
Num movimento tão veloz que se misturava ao vento, Heike apareceu atrás do rapaz, desferindo um chute tão forte que o fez ser arremessado uns quinze metros até chocar-se com a rocha mais próxima.
— Puta que pariu, Heike! – Gemia Ikaika enquanto se levantava da pedra e limpava o cascalho da roupa – Acho que depois dessa eu não vou conseguir andar.
— Gostou, queridinho?
— Se eu gostei? Olha aqui sua vaca... – Ele ainda cambaleava um pouco antes de olhar para ela — VOCÊ É SIMPLESMENTE FENOMENAL!
— Ora ora, obrigada.
— Eu nem vi quando você sumiu, realmente seus treinos extras estão funcionando!
— Você também melhorou muito, Kai! Primeira vez que não começo dando um knockout!
— Pois é, eu também ando treinando um pouquinho pra não entrar em coma toda vez que a gente resolvesse brigar. Falando nisso, Vênus, eu durei quanto tempo?
— Oito segundos e quarenta e três centésimos. Melhorou quase um segundo, Ikaika!
— Olha aí! Eu arrasei mesmo apanhando feito um corno!
— Você ainda não viu o que é apanhar da minha mão, Kai! Ou pés... Ah sei lá!
Os dois começaram a rir quando subitamente foram interrompidos pelo rapaz de cabelos azuis que, com certeza, não tinha nenhuma vontade de saber qual era a piada.
— Pessoal, eu sinto interromper, mas vamos ter uma reunião extraordinária hoje!
— Hoz, que cara é essa, garoto? – Ikaika imediatamente mudou sua feição para algo mais sério.
— Novo suicídio, nos mesmos conformes dos demais.
— Puta merda – Heike parecia visivelmente incomodada com aquilo.
— Onde foi, Hoz? Conseguiu sentir algo? – Vênus se aproximou dele.
— No bosque ao lado da vila. A mesma energia de todos os outros casos, Vênus. Mas parece que a cada morte que passa, ela penetra cada vez mais no santuário.
— Não parece, ela está, Hoz.... Desde o último caso, comecei a senti-la sem nem mesmo estar perto de um dos corpos.... Confesso que já temia pelo pior... e acho que perdemos tempo demais.
Vênus, assim como Marco, era extremamente sensível a qualquer energia que se propagasse, por menor que fosse, pois, sua habilidade envolvia uma conexão profunda com a natureza, principalmente com as plantas. Sua cegueira acabava por ajudá-la a ser muito mais interligada com o meio do que os demais cavaleiros, o que consequente havia feito os últimos três meses se tornarem um verdadeiro inferno para ela.
— Isso já está passando dos limites! Eu não aguento mais ficar de braços cruzados aqui esperando enquanto Hélios e Marco ficam só vendo algo matar pessoas! O que quer que essa desgraça seja, não é normal!
— Hélios parece bem mais preocupado dessa vez, Heike. Acredito que agora não ficaremos sem fazer nada.
— Eu espero mesmo que a gente faça algo desta vez, de preferência algo que nos faça finalmente sair desse lugar! Ficar aqui fora só fingindo que nada está acontecendo já é demais – Ikaika se aproximava do grupo, perdendo completamente o tom de brincadeira – E sabe mais? Nós devíamos pedir para que Marco rompa o selo das nossas armaduras! Estamos aqui há anos treinando e não as usamos uma vez sequer, sempre com aquela história de que não estamos prontos ou que elas estão inacabadas e blá blá blá. Eu não tenho mais a MENOR paciência!
— A gente não vai conseguir resolver nada aqui, temos que encontrar Hélios imediatamente. Vamos logo! – Disse Hoz enquanto já saía correndo do campo de treinamento, seguido pelos demais.
A espera por uma ordem direta de Hefesto era agoniante, pois eles sentiam que aquela perda de tempo iria custar muito caro mais para frente. O fato de Marco ainda não querer encarar que seu paraíso estava caindo aos pedaços era algo que acabava por fazê-lo estagnar na descrença e querer fingir que nada estava acontecendo ou que o problema não era tão grave assim. Eles até compreendiam seu lado, pois cada grão daquele santuário foi erguido por ele e ver o início da ruína da sua criação deve fazer com que qualquer pessoa negue a realidade. Mas agora, não dava mais.
Pessoas estavam morrendo.
O santuário estava morrendo.
E eles, como os guerreiros que construíram aquela terra, tinham que impedir, estando dispostos a se sacrificar por ela.
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