A lenda da guerreira.
1 ................... O primeiro encontro.
No ano de 878, a Grã-Bretanha do século IX era dividida em vários reinos. A Nortúmbria era um desses reinos. No próspero principado de Crydee, na cidade de Cymru se erguia o imponente castelo de mesmo nome que a cidade. A casa real de Lord Borik, Príncipe Regente e irmão do rei. O povo o aclamava como O Nobre, por ser um homem bom e justo.
A cidade despertava logo nos primeiros raios da manhã. Algum tempo depois Gabrielle acordava espreguiçando-se demoradamente. Era a hora em que Lady Marna, a tutora da princesa, entrava no quarto acompanhada de mais duas aias que traziam vasilhames, toalhas e água para o ritual de higiene matinal; pacientemente aguardando que a princesa se levantasse. Quando acordava de bom humor a princesa se punha a cantarolar sentada na cama, enquanto Lady Marna penteava seus longos cabelos dourados e os trançavam, enfeitando-os com pequenas flores azuis e brancas colhidas no jardim real. Assim que terminava a tarefa de vesti-la é que abria a janela do quarto deixando entrar a brisa fresca da manhã juntamente com os fracos raios de sol; e somente depois de todo o ritual é que a princesa se dispunha a descer de seu aposento e ir para o desjejum.
Criada cercada de vontades pelo pai viúvo e pela cuidadosa Lady, a princesa era temperamental, na maioria das vezes lembrando mais uma criança mimada e impertinente do que a distinta moça da corte. O pai sabia que a criação da menina era de grande responsabilidade, pois ela era sua única herdeira.
A princesa era linda e graciosa, seus olhos eram de um verde raramente encontrado em todo reino, sua pele parecia ter a suavidade de uma pétala de rosa. Embora só tivesse 17 anos, já começava a demonstrar a distinção daqueles que nascem para governar, bem como a beleza de sua falecida mãe. O comprido vestido azul escuro bordado com detalhes brancos em todo decote, no busto e nos punhos, contrastava lindamente com o cabelo loiro e a pele branca.
Lord Borik já a aguardava e observava a graciosidade com que a filha se dirigia a mesa. Na mesa farta estavam servidos pães quentinhos, leite, frutas e pequenas tigelas de mingaus. Após os cumprimentos matinais e se acomodarem, o pai diz:
— Você está cada vez mais parecida com sua mãe! – Quando a via assim ele se emocionava. Gabrielle não se lembrava da mãe, que morreu no difícil parto do último filho do casal, que por infelicidade também morreu logo após o nascimento.
Para aprimorar sua educação Lord Borik pediu que um amigo de longa data, que tanto o apoiou em momentos difíceis após a morte da esposa, o ajudasse a passar ensinamentos que ela precisaria como uma futura Princesa Regente. E assim três vezes por semana, o bom e paciente abade Tully, vinha de bom grado trazer os ensinamentos à princesa.
Tully gostava da princesa apesar de seu temperamento, a julgava inteligente, ativa e perspicaz. Às vezes achava difícil responder as perguntas cada vez mais numerosas e curiosas. Apenas coçava a barba já grisalha como se pensasse nas respostas algumas vezes embaraçosas.
Algumas vezes a princesa achava difícil manter sua atenção nos ensinamentos do abade, quando na verdade gostaria de estar passeando a cavalo ou simplesmente olhando os soldados treinarem na arena.
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Cyrene era uma mulher de personalidade forte que comandava a cozinha com austeridade. Sob seu comando estavam nove pessoas que corriam de um lado para o outro preparando as constantes e fartas refeições para a corte. Tinha três filhos, Toris, Lyceus e uma linda filha chamada Chennai.
Enquanto Chennai preparava a mesa do desjejum, seus irmãos vinham sentar-se a mesa com os rostos ainda enevoados de sono, mal-humorados como sempre pela manhã. Toris era o mais velho dos três. Mais apegado à mãe ajudava-a na cozinha sempre que possível, mesmo nas tardes de folga. Enquanto Chennai e Lyceus passavam suas tardes livres entre jogos, pescarias e aventuras como irmãos inseparáveis e melhores amigos também. Assim os anos se passaram; Chennai e Lyceus se tornaram jovens habilidosos na arte da luta, devido às horas que passavam treinando suas aptidões.
Enquanto sovava a massa do pão, Cyrene pensava na responsabilidade da criação da filha, ainda mais para uma mulher viúva.
Chennai era uma moça diferente, não se interessava por bordados, cozinha, nem casamento, para horror de Cyrene. Mesmo durante os dias comuns sem folga, a jovem sempre arranjava um jeito de ir observar os soldados treinando na grande arena próxima ao castelo. Assuntos sobre combate, manejo de espadas, luta, lanças, arcos e cavalos fascinavam a jovem. Cyrene achava um absurdo a filha se interessar por esse tipo de coisas.
— Em algumas situações da vida, táticas de combate podem ser necessárias. – Toris dizia rindo, enquanto ele e a mãe observavam Chennai e Lyceus lutando.
— Que desperdício de tempo. Em que isso vai ser útil para ela? — Questionava Cyrene.
— Escapar do marido, por exemplo. — Toris gargalhava e deixava Cyrene mais preocupada ainda.
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Em breve chegaria o dia do Solstício de Verão, época em que todos partilhavam igualmente das dádivas da colheita. Cyrene sabia que aquele era um momento oportuno para que Chennai conhecesse alguns dos inúmeros rapazes que participariam do festival. Embora namoros fossem comuns, não deixavam de ser rigorosamente vigiados. Contudo nesse período as mães não eram tão cuidadosas, pois viam os rapazes como possíveis genros. Por sua vez Chennai achava a insistência de sua mãe uma tolice. O que realmente a fascinava eram os torneios que aconteciam nesse período.
Lyceus sempre acompanhava Chennai nas festividades e sempre via os rapazes elogiando a beleza da irmã. Enquanto as outras garotas se insinuavam usando seus dotes naturais para apanhar um jovem marido, Chennai por sua vez não se entusiasmava com os comentários lisonjeiros e deixava para trás vários admiradores apaixonados. Muitos amigos de Lyceus insistiam que ele os aproximasse de sua irmã, mas ele se limitava a sorrir e desconversava do assunto. Percebia que sua irmã tinha seus próprios planos de vida.
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Em todos os sextos dias das semanas, todos os jovens que trabalhavam no castelo tinham permissão para passarem a tarde como quisessem. Tanto os rapazes quanto as moças, todos os que estivessem com idade de serem aprendizes, trabalhavam do nascer ao pôr do sol todos os dias. Os rapazes trabalhavam nos serviços pesados de abastecer as lareiras do castelo e os fornos da cozinha com lenha. Cuidar dos estábulos e cavalos, manter as armaduras dos soldados polidas, suas armas limpas, afiadas e guardadas, e vários outros serviços que se fizessem necessários. Já as moças trabalhavam à serviço das damas do castelo, limpando, lavando e costurando, além de ajudarem na cozinha. Mas nos sextos dias das semanas todos se reuniam no pátio do castelo, próximo ao jardim da princesa; grande parte dos garotos jogava um bruto esporte com uma bola de couro entre empurrões, gritos, pontapés e murros ocasionais. A finalidade era conseguir chutá-la para dentro de um grande barril, pontuando assim a sua equipe.
Já as meninas sentavam-se no muro baixo junto ao jardim, entretendo-se com as fofocas sobre as senhoras da corte. Quase sempre vestiam suas melhores saias e blusas ou vestidos. Os dois grupos faziam questão de se ignorarem, mas ambos eram pouco convincentes nisso. Exceto Chennai que demonstrava claramente estar entediada com o jogo e desinteressada das fofocas do castelo.
Como era habitual Lyceus estava no centro da balbúrdia, gritando e rindo acima do barulho. Entre cotoveladas e pontapés, parecia ferozmente feliz. Ninguém sabia a origem do jogo, nem sequer se existiam regras, mas os rapazes jogavam com uma intensidade digna de uma batalha.
Durante o jogo Lyceus pôs um pé na frente de Martin, um cavalariço encrenqueiro, filho do Mestre da Cavalariça do castelo, no exato momento em que ele ia derrubar seu companheiro de equipe que estava com a bola. Martin esparramou-se no chão sob o riso dos demais. Pôs-se em pé de um salto e afastou os que estavam próximos a Lyceus de modo a ficar na frente dele. Fulminado-o com o olhar, berrou: — FAÇA ISSO DE NOVO E QUEBRO SUAS PERNAS!
Martin era alto e forte para seus 17 anos, seus ombros largos lhe davam aparência de homem já feito. Embora Lyceus não fosse franzino, não chegava à altura do queixo do outro rapaz. Essa ameaça não passaria em branco, com o sangue já quente pela disputa, Lyceus, se atirou sobre Martin e com o braço ao redor do pescoço do adversário, levou o punho direto na boca do rapaz que sentiu o lábio sangrar com aquele primeiro golpe. No momento seguinte os dois rolavam pelo chão. Não demorou muito para que o peso e o físico de Martin fizesse a diferença, montando no peito de Lyceus, Martin esmurrava o rosto de Lyceus com seus enormes punhos, sem piedade.
A visão de Lyceus começava a nublar quando deixou de sentir o peso no peito. Num breve instante o mundo voltou a ficar nítido. Lyceus viu quando Chennai com um olhar furioso, segurando firmemente o colarinho da túnica de Martin o levantou e com um violento soco no nariz o arremessou para trás. — JÁ CHEGA! – ela berrou.
Estendendo a mão para o irmão, Chennai o ajuda a se levantar. Apoiando o rapaz cambaleante ela começa a se dirigir para o castelo. Com o sangue escorrendo pelo nariz quebrado, Martin se ergue com intenção de novo ataque, quando uma voz feminina o faz parar.
— Creio que isso já foi o bastante, não concorda? – Diz a princesa acompanhada por quatro soldados, duas aias e Joxer, seu fiel escudeiro.
Chennai vira-se e pela primeira vez vê a princesa tão próxima. Olhar para Gabrielle foi uma experiência avassaladora. Por breves instantes ela sentiu como se o tempo tivesse parado quando seus olhares se cruzaram. A princesa resplandecia num longo vestido vermelho com bordados em dourado, um delicado cinto de ouro com rubis incrustados combinavam com a cor do vestido, o generoso decote deixava ver parte de seus carnudos seios. Os longos cabelos loiros trançados caiam sobre seu ombro esquerdo e uma delicada guirlanda de flores amarelas, brancas e vermelhas adornava sua cabeça. Seus olhos verdes esmeralda lembravam um lago de águas límpidas e profundas, e seus lábios lembravam as apetitosas cerejas da estação.
O gemido de Lyceus faz Chennai sair do estado de torpor em que se encontrava. A princesa também parecia paralisada pelos profundos olhos azuis que a encaravam.
— Onde vocês moram? – Perguntou a princesa.
Sem conseguir desviar o olhar de Gabrielle, Chennai respondeu: — Moramos na vila, senhora. Mas trabalhamos no castelo.
— Ah sim. São serviçais. – A princesa observou. Esboçando um sorriso ordenou que um guarda ajudasse a levar Lyceus para o castelo para o tratamento que fosse necessário.
Chennai ficou observando o escudeiro conduzir a princesa para longe do local da briga. Joxer virando a cabeça abriu um sorriso debochado de orelha a orelha e Chennai sentiu o sangue ferver.
................... A “Escolha”.
A ligeira brisa da tarde agitava as folhas dos altos carvalhos e diminuía o calor do dia. O leve perfume das flores se misturava com o odor da floresta. Chennai e Lyceus andavam devagar pelo caminho, com destino ao rio para mais uma pescaria.
— Acha que mamãe ficou zangada conosco? – Chennai pergunta.
Lyceus tentou sorrir e respondeu: – Acho que sim; e para falar a verdade, hoje na cozinha só íamos atrapalhar mais do que ajudar.
Chennai concordou. Tinha derramado um pote de mel ao levá-lo para o confeiteiro. Depois deixou cair um tabuleiro cheio de pães quentes ao tirá-lo do forno. – Hoje fiz papel de boba, irmão. – A jovem diz com os olhos baixos.
Lyceus sorriu. Era um belo jovem, de cabelos castanhos quase aloirados e vivos olhos azuis. Sempre com um sorriso no rosto, era estimado no castelo, apesar da tendência para se meter em confusão. O olho esquerdo roxo e inchado só entreabria, um maxilar extremamente dolorido que estalava sempre que mexia de um lado para o outro e um corte no lábio eram os resultados da briga com Martin.
— Não foi pior do que eu. Você não se esqueceu de pendurar as carnes da caça no alto. – Ele diz como consolo para a irmã.
Chennai abre um grande e perfeito sorriso e diz: — Pelo menos os cães de caça do príncipe estão satisfeitos. – Os dois gargalharam apesar da dor que Lyceus sentiu.
Chegando ao rio prepararam as iscas, lançaram as linhas e se acomodaram na sombra. Lyceus observava a irmã estranhando seu silêncio. O ar de quem estava com o pensamento muito distante do local.
— O que se passa com você, irmã? – Pergunta Lyceus, rompendo o longo silêncio.
Chennai abandonou os devaneios ao ouvir a voz do irmão. – Nada..., bem..., quer dizer, não sei! – Respondeu.
— Tenho te notado estranha desde o dia da briga. O que aconteceu? – Lyceus insiste.
Após um pesado silêncio e um profundo suspiro ela respondeu: — Às vezes fico pensando no que mamãe vive me dizendo; que já estou na idade de casar, que tenho dons naturais para arranjar um marido, mas...
— Você já pensou em ter um marido? – Lyceu perguntou interrompendo a irmã bruscamente.
A pergunta desconcertou Chennai.
— Eu..., eu nunca pensei nisso. Às vezes tento imaginar o que seria ter uma família. – Ela responde. A conversa estava tomando um rumo que a perturbava. – Bem..., mais cedo ou mais tarde iremos casar e ter filhos. É isso que é esperado de nós, não é?
Olhando para Lyceus com seriedade Chennai pergunta: — Somos irmãos e acima de tudo amigos, não somos?
Lyceus foi apanhado de surpresa; assustou-se. Nunca vira Chennai tão séria, mas responde: — Claro que somos amigos, minha irmã. Não importa o que seja nada irá mudar nossa união, aconteça o que acontecer.
Parando por alguns instantes a jovem sentiu que tremia, pois essa era a primeira vez que falava do assunto com outra pessoa. Engolindo em seco, respira fundo e diz: — Lyceus..., eu..., estou confusa. Eu não consigo compreender o que há de errado comigo. Sinto que estou decepcionando mamãe. Por ela eu aproveitaria as tardes das nossas folgas para conhecer os rapazes do povoado, mas eu não consigo ser como as outras garotas... Eu me sinto uma perfeita idiota.
Alguns minutos de silêncio se passam. Eles olham as águas do tranquilo rio. Finalmente Lyceus rompe o silêncio: — Chennai me responda sinceramente. Está envergonhada porque a princesa viu você bater em Martin?
— Suponho que sim. — Chennai responde desconcertada.
Lyceus gritou: — Aí está! Eu sabia. É a princesa não é?
A expressão de espanto de Chennai foi inevitável: — Como..., como você desconfiou?
— Ora irmã, quando você a viu ficou paralisada, não percebeu quem não quis. Parecia que só existia aquela divina criatura à sua frente... E imagino que você está gostando dela. — A observação de Lyceus deixa Chennai totalmente desconcertada, sentindo o rosto corar, envergonhada baixa os olhos.
— A princesa é muito bonita, mas sei qual é o meu lugar. — Chennai pareceu preocupada. — Acha que ela percebeu alguma coisa?
Lyceus abriu um malicioso sorriso. — Ela não sabe tenho certeza. — Fez uma pausa. — Se for cega e se as duas aias já não tiverem falado disso para ela uma centena de vezes.
Uma expressão desolada tomou conta do rosto de Chennai. — O que ela deve estar pensando disso?
— Quem vai saber? Mas pelo que percebi, ela também ficou abalada. — Observou o rapaz.
Extremamente constrangida, ela muda de assunto. Fingindo sua isca ter sido fisgada, ela grita: — Esse é dos grandes!
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A noite estava muito quente, Chennai resolveu respirar ar fresco, deixando o barulho da cozinha para trás. O céu estava coberto de estrelas. Observando cuidadosamente os arredores, ela se dirige furtivamente para a arena. Na escada que levava à entrada do grande castelo, orgulho da cidade, olhos curiosos a espreitaram na escuridão. Havia muitos meses as constantes e furtivas escapadas da jovem de seus afazeres na cozinha, para ver os soldados na arena vinham sendo observadas.
Caminhava já próxima dos estábulos; o vulto a seguia como uma fera persegue sorrateiramente a presa. Passando os olhos pela arena certificando-se que não havia ninguém, ela entra. Dirige-se para um barril onde eram guardadas as espadas para serem afiadas e retira uma delas.
Nas sombras, os olhos atentos seguiam os movimentos firmes e ágeis que a jovem fazia, embora sem a técnica necessária para um bom espadachim. Após alguns minutos Chennai pegou uma segunda espada e girava ambas no ar com agilidade. Segurando uma espada no alto, perto do rosto e a outra junto ao quadril, como se estivesse aguardando uma investida de um adversário imaginário.
Admirado com o modo como a jovem segurava as espadas, saindo das sombras Kurgan, o Mestre de Armas e capitão da guarda perguntou: — O que faz aqui?
Chennai se assustou e ficou completamente desconcertada. Tinha sido surpreendida, não existiria desculpas para uma serviçal da cozinha estar ali e muito menos aquela hora.
— Desculpe-me senhor. — Ela responde colocando as espadas de volta no barril, se voltando para sair de cabeça baixa.
Kurgan a segura firmemente pelo braço impedindo sua saída e diz: — Você sabe que pode ser castigada por ter abandonado seu serviço na cozinha? — Sem nenhuma palavra Chennai ergue a cabeça. Kurgan se depara com um par de olhos brilhantes e um lindo rosto de feições fortes.
— Tenho observado você já algum tempo. Vem sempre assistir os soldados treinarem e parece que você gosta de armas, não é? — Insiste o capitão.
Chennai não responde, seu rosto ficou corado de vergonha, mas continua encarando Kurgan. Alguns instantes se passam e ela murmura: — Sim senhor, eu gosto sim.
— Huum. — O capitão a olhava de cima a abaixo, avaliando a jovem. Forte, ombros largos, corpo rígido, e altura que se comparava a sua.
— Volte para a cozinha menina. Vamos esquecer que você esteve aqui, está certo?! — Diz o capitão.
A jovem agradece e se afasta sob o olhar do homem. Quando dá alguns passos, ouve a pergunta: — Moça, qual o seu nome?
Voltando-se rapidamente ela responde: — Chennai. — E parte correndo.
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Era o Solstício de Verão. Todos os rapazes e moças serviçais do castelo estavam reunidos no pátio. Para todos eles o dia da “Escolha” era o dia mais importante do ano. Lyceus ajeitou o colarinho da túnica, para parecer mais apresentável perante o Príncipe, os membros da corte e seu futuro Mestre. Chennai por insistência de Cyrene vestiu seu melhor vestido. Era azul da cor de seus olhos. O vestido apertado moldava seu belo corpo, atiçando a imaginação dos homens e rapazes; penteou os longos cabelos negros deixando-os cair sobre os ombros naturalmente.
Os escolhidos seriam designados ao posto de aprendiz. Era um ritual, cujas origens se perderam no tempo. O grande medo que assombrava os jovens era não ser escolhido por nenhum Mestre ou Dama da corte. Caso isso acontecesse, teriam que procurar um ofício em outra cidade ou povoado, abandonando amigos e família.
O arauto do príncipe surge no patamar da escadaria do castelo. O silêncio desceu sobre o agitado pátio. Uma pequena porta do lado esquerdo abre-se e os Mestres saem do castelo. O mesmo procedimento acontece do lado direito com as Damas da corte. Todos se enfileiram aguardando o príncipe e sua comitiva.
As gigantescas portas de carvalho do castelo começaram a se abrir. Vários guardas trajando roupas de cerimônia e portando estandartes com bandeiras vermelhas com o símbolo de um leão coroado estampado, assumiram suas posições nos degraus.
— Ouçam todos! — Gritou o arauto. — Sua Graça, Borik de Cymru, Príncipe do reino da Nortúmbria, Senhor de Crydee... — O príncipe aguardava pacientemente a apresentação. Finalmente Lord Borik entra com elegância, mas os passos firmes de um guerreiro. Era alto, forte, ombros largos, tinha uma espessa barba negra bem aparada e as têmporas grisalhas; tinha uma aparência bem mais jovem do que realmente era.
O arauto volta a anunciar: — A Princesa Gabrielle, filha da Casa Real.
A linda moça que aparece usava um longo vestido branco com bordados dourados no decote, que se espalhavam por todo vestido e nas mangas compridas. Seus cabelos estavam soltos. Da delicada tiara pendiam contas cor de âmbar. Um cinto de ouro delicadamente trabalhado com âmbar incrustado adornava sua cintura, desenhando curvas que fariam qualquer cavaleiro perder seu rumo. Discretas pulseiras trabalhadas com a mesma pedra e metal do cinto completava o harmonioso conjunto. Os olhos verdes com a tonalidade de esmeraldas brilharam de alegria quando ela deu o braço ao pai. Numa das fileiras laterais, como sempre, podia se ver Joxer, boquiaberto admirando a princesa.
Assim que toda corte estava presente o príncipe falou: — Hoje, começa o festival do Solstício de Verão. É o dia da Escolha. Se alguém entre vocês desejar ser liberado da função de aprendiz que se apresente agora! — A pergunta fazia parte das formalidades. Minutos se passaram, mas ninguém se manifestou. O príncipe fez sinal para o arauto prosseguir.
O arauto anunciou o primeiro dos Mestres que chamou por três rapazes. Em seguida uma Dama escolhia suas três aprendizes. A “Escolha” prosseguia sem problemas, cada um dos escolhidos se juntava ao seu respectivo Mestre ou Dama. O número de jovens não selecionados ia diminuindo, até que pouco tempo depois restavam apenas Lyceus, outro rapaz, Chennai e mais três moças.
Chennai sentiu o coração parar ao ouvir Lady Sophia, a dama encarregada da mordomia do castelo, chamar pelas três moças.
Em seguida o Mestre de Armas deu um passo à frente, chamou Lyceus e em seguida o outro jovem, que se colocaram ao lado do capitão. Chennai sentiu um aperto no peito ao perceber que não restava nenhuma Dama da Casa Real que já não tivesse escolhido sua aprendiz. Sentiu-se humilhada com todos os olhares voltados para ela. Parada em pé, sozinha no pátio, reprimindo as lágrimas, aguardava apenas que o príncipe fizesse o encerramento da cerimônia.
Fez-se uma pequena pausa. Quando Lord Borik começou a falar, Kurgan interrompeu o príncipe.
— Vossa Graça, o senhor me permite? — Pediu o capitão.
Todos os olhares caíram sobre o Mestre de Armas, que deu um passo em direção ao príncipe. — Preciso de uma serviçal no serviço de limpeza dos alojamentos e chamo Chennai ao meu serviço.
Uma onda de murmúrios passou por todos ali reunidos. Algumas vozes diziam que não era adequado uma mulher num ambiente exclusivamente masculino. O príncipe os silenciou com um severo olhar. Ninguém se atreveria a contrariar Lord Borik.
— Kurgan a sua escolha é no mínimo o que poderíamos chamar de estranha. Você tem consciência do que está pedindo? — Questiona o príncipe.
— Sim meu senhor, estou ciente disso, mas se Vossa Graça permitir, gostaria de ter essa moça aos meus serviços. — Insistiu o capitão.
Um silêncio se fez sentir. Lentamente os olhares se voltaram para Chennai. E o príncipe diz: — Muito bem Kurgan, permito que essa jovem lhe preste serviço.
Chennai ficou paralisada. Imaginava-se exercendo qualquer outro tipo de ofício dentro do castelo, menos na limpeza dos alojamentos dos soldados. Saindo do estado de choque percebeu que o príncipe pacientemente esperava que ela se colocasse ao lado do capitão.
Dando por encerrada a cerimônia o príncipe diz: — Declaro que cada jovem aqui presente está agora aos cuidados dos respectivos Mestres e Damas da corte, aos quais deverão obedecer a todos os assuntos referentes ao seu aprendizado e as leis do reino. — Virou-se e ofereceu o braço à filha. A princesa pousou delicadamente a mão no braço do pai; e enquanto entrava no castelo, a princesa observou com o canto do olho a jovem de vestido azul que se mantinha de olhos baixos ao lado de seu novo mestre. Retornando ao castelo seguiram-se as Damas, as aprendizes e o restante da corte.
Voltando-se para seus três escolhidos Kurgan disse com os olhos fixos em Chennai: — Espero que eu não tenha cometido um erro. — E se dirigiu com os três para o alojamento dos soldados.
................... O treinamento.
Antes que o primeiro raio de sol ameaçasse aparecer no horizonte Kurgan batia na porta do aposento de Chennai localizado próximo ao seu. — Vamos menina acorde! Isso tem que estar limpo antes dos soldados voltarem da arena. — Berrava.
Kurgan mantinha vigilância sobre ela. Os soldados a olhavam de maneira luxuriosa. Os dias foram se passando com essa rotina infernal. Lyceus participando dos exaustivos exercícios e treinamentos, enquanto Chennai se esforçava em manter o alojamento limpo. O capitão ordenava que os pesados catres fossem mudados de um lado para outro diariamente. Os quatro baldes cheios de água eram todos carregados ao mesmo tempo na armação de madeira apoiada sobre os ombros. Os trabalhos se tornavam cada vez mais forçados. Kurgan exigia que Chennai cortasse lenha em toras médias para alimentar os fornos da cozinha e as lareiras do castelo. Um trabalho que era exclusivo dos rapazes serviçais do castelo.
Terminada a limpeza, Chennai era colocada para trabalhar junto com os soldados removendo pedras e troncos caídos junto da estrada que dava acesso à cidade. Mês após mês, era a mesma rotina que Chennai cumpria sem reclamar, mas no seu íntimo a revolta crescia. No final do dia seus braços e mãos estavam trêmulos e inchados pelo esforço e o corpo completamente dolorido. Uma noite após os términos dos trabalhos Kurgan encontrou Chennai com os braços mergulhados num barril com água fria.
— Venha comigo. — Ordenou Kurgan.
Se dirigiram para a arena. O capitão joga uma espada para a jovem. A destreza de Chennai tinha desaparecido com as dores nos músculos. Suas mãos tremiam, seu braço mal aguentava o peso da espada. Com o passar do tempo, com os músculos já acostumados ao esforço, Chennai já respondia aos golpes de espada de Kurgan com a mesma agilidade que tinha antes. Foi um ano exaustivo para a jovem. Aos poucos Kurgan foi substituindo os trabalhos braçais de Chennai pelo treinamento junto com os soldados. A revolta contida foi substituída por sorrisos amigáveis. Chennai já controlava com habilidade a espada, seus golpes eram rápidos, precisos e violentos. A pontaria com a lança era certeira. Atirava flechas com precisão. Parecia ser um dom natural calcular o ponto exato da curvatura do arco. A jovem mulher passou a resistir aos fortes golpes do capitão sobre seu escudo. Kurgan sentiu que Chennai estava preparada quando durante um treino ela o atingiu no nariz com o escudo e conseguiu derrubá-lo.
— Muito bem! — Ele murmurou enquanto limpava o sangue.
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No dia seguinte, ainda era madrugada, Kurgan se surpreende ao chegar à arena e já encontrar Chennai treinando no campo dos lanceiros. Kurgan observou a força com que Chennai arremessava as lanças, muitas delas chegando a traspassar os alvos. Chennai vê o capitão parado na borda do campo.
— Está bem assim senhor? — A jovem pergunta.
— Huum, nada mal. — Responde o capitão.
— Com espada sou melhor que com a lança. — Diz a jovem se gabando.
— Ora, é mesmo? — O capitão tirou uma espada de dentro do barril e jogou outra para Chennai. — Que tal me mostrar um pouco da sua habilidade? — Exclama Kurgan com um debochado sorriso.
Chennai parte para o ataque. Com golpes precisos as espadas se batiam. Chennai tinha uma ótima mobilidade e surpreendia Kurgan com movimentos inesperados. Os soldados vão chegando e se acomodam para assistir a luta. Era visível que Chennai não era uma adversária para ser menosprezada. Até que um golpe de Chennai faz um corte no gibão de couro do capitão, na altura do peito.
A luta para. Kurgan examina o corte na roupa e devolve o olhar para a jovem que observa preocupada. Mas um sinal afirmativo de cabeça, como se aprovando o ocorrido, tranquiliza Chennai. A pequena luta prosseguiu se tornando uma diversão para os que assistiam e para os que participavam.
A princesa também se tornara frequentadora da arena; assistia admirada a habilidade da mulher. Gabrielle se questionava o que estava acontecendo com ela. Pegou-se admirando a serviçal.
— Ela é linda e forte não acha princesa? — A voz de Joxer a desperta.
— Não tinha reparado nisso. — Após uma pausa. — Acho muito estranho uma mulher participar de lutas. — Gabrielle responde com falso desdém.
Incomodada com o olha fixo do escudeiro a princesa pergunta irritada: — Por que está me olhando?
Ele responde timidamente: — Estou apenas admirando sua beleza.
Joxer era um rapaz metido a valente que fora posto como escudeiro da princesa por indicação de Lord Borik. O capitão nunca entendeu o porquê da escolha. Ele tinha os cabelos negros e curtos e um ar de bobo da corte; a constante comprovação de quem não conseguia pensar com clareza nem com muita inteligência já seria motivo suficiente para não mantê-lo na corte; vivia contando bravatas e isso irritava Kurgan, que nada podia fazer para tirá-lo de perto da princesa. Já o vira várias vezes admirando de forma luxuriosa as moças que trabalhavam no castelo. Sabia que conseguia cortejar algumas, mas Kurgan podia apenas pedir que Deus as protegesse daquele homem.
Kurgan coçava a barba bem aparada e passava os olhos negros por Joxer cada vez que o encontrava. Pelo que o capitão sabia aquele paspalho era parente de alguém ligado ao Nobre Borik e que por pedido desse alguém o tinha colocado na corte.
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Num breve momento Chennai vê a princesa, e se distraindo baixa a guarda. Numa sucessão de furiosos golpes de espada e usando toda sua perícia o capitão derruba Chennai com um violento golpe do escudo, imediatamente imobilizando-a com o pé sobre seu peito; encostando a lâmina na sua garganta ele ensaia um sorriso, dando a luta por encerrada.
Ajudando a jovem a se levantar, com um amigável tapa em seu ombro ele diz: — Você está muito bem, o seu erro foi se distrair. Numa batalha isso não pode acontecer. Você só pode vencer o inimigo se não cometer erros.
Limpando a terra da roupa Chennai olha para ele envergonhada. — Desculpe senhor, isso não vai mais acontecer. — Sentiu-se ainda pior ao ver a princesa e Joxer assistindo da tribuna.
Kurgan dá um de seus raros sorrisos e diz: — Não se deixe abater. A propósito, gostaria de aprender a montar? — Perguntou o capitão.
O estado de espírito de Chennai mudou imediatamente. — Sim, sim, claro! — Respondeu entusiasmada.
— Lord Borik decidiu que gostaria que a princesa fosse acompanhada por uma mulher nos seus passeios, alguém de confiança, e eu indiquei você. — A cabeça de Chennai estava rodando. Não só aprenderia a montar, uma habilidade geralmente limitada a nobreza, como também estaria na companhia da princesa!
— Quando começo? — A jovem pergunta eufórica.
— Hoje mesmo. — Responde o capitão. — Vá ver Aragon, Mestre da Cavalariça. O príncipe já deu ordens a ele, e você começará suas lições imediatamente.
Com uma única palavra de agradecimento, Chennai deu um salto e correu até os estábulos.
................. Descobrindo o sentimento.
Chennai cavalgava em silêncio. Os cavalos andavam devagar pelo ensolarado caminho. Uma leve brisa trazia o aroma das flores da estação. O sol de verão provocava reflexos nas árvores que balançavam lentamente. Grandes nuvens brancas vagavam pelo céu.
Enquanto olhava a princesa que cavalgava a sua frente, Chennai lembrava-se que ficara no pátio sob o sol, esperando quase duas horas que a princesa aparecesse. Lord Borik instruiu Chennai detalhadamente sobre a responsabilidade que tinha para com a senhora do castelo.
O estado de espírito de Chennai passou de deslumbramento para irritação. A princesa recusava-se a responder a qualquer tentativa de conversa, limitando-se a dar-lhe ordens e insistindo em chamá-la de “garota”, ignorando vários lembretes delicados de que seu nome era Chennai. Após o que pareceu uma eternidade cavalgando caladas, a princesa dirige-se a ela: — Vamos parar aqui.
Chennai desce do cavalo e antes que se aproximasse a princesa já tinha desmontado com agilidade. Gabrielle entregou-lhe as rédeas de sua montaria. Examinou o local e num tom autoritário falou: — Passemos para o almoço.
Chennai amarrou os cavalos e retirou o cesto e a manta presa a sua sela. Forrando o chão, colocou o cesto sob a manta e o abriu. Um apetitoso aroma de frutas, queijo e pão invadiu as narinas da jovem.
— Leve os cavalos até o riacho para que bebam. Você poderá comer no caminho de volta. Eu a chamo quando terminar! — Disse a princesa com arrogância.
Chennai conduz os animais até após uma curva do riacho, resmungando sua irritação. Sabia que não devia deixar a princesa sozinha, mas se sentia bem em se afastar daquela criatura pedante. Enquanto os cavalos pastavam, ela acomodou-se junto ao tronco de uma árvore e esperou. O barulho das águas e a calma da floresta trouxe uma sonolência tranquila.
De repente um grito faz Chennai despertar sobressaltada. Num reflexo empunha a lança e corre até onde a princesa estava, e com horror vê a princesa sendo perseguida por um urso. Correndo a toda velocidade Chennai sentia um verdadeiro terror, um grito de fúria se formou na sua garganta. Sem tempo para mais nenhum recurso, ela se põe de frente para o animal, com os pés solidamente plantados no chão, levantando a lança, enfiou-a no peito da fera. A força do próprio ímpeto do animal fez com que a arma lhe atravessasse o coração. O urso tombou estrebuchando com um terrível urro.
Com mais uma estocada Chennai se certifica que o animal estava realmente morto. Com a respiração ofegante e olhando em volta procura pela princesa, mas não a vê em lugar algum. Chama por ela, mas não tem resposta. A sensação de pânico vai tomando conta dela. Chama insistentemente por Gabrielle até que ouviu soluços abafados vindos de uma grande moita. Afastando as folhagens, deu com a princesa encolhida atrás dos arbustos. Tinha os olhos arregalados de pavor e seu vestido estava sujo e rasgado. Assustou-se ao ver Chennai; ficou de pé com um salto e atirou-se nos braços da serviçal, encostando a cabeça em seu peito. Grandes soluços faziam seu pequeno corpo estremecer enquanto se agarrava a túnica de Chennai.
Chennai abraçou desajeitadamente a princesa aterrorizada e disse: — Está tudo bem. O animal está morto. A senhora está a salvo!
Gabrielle não a largou. Sem pensar, Chennai abraçou a princesa com mais força sentindo o contato suave e afetuoso da garota que tremia em seus braços. Um sentimento de proteção, de carinho brotou dentro de seu peito.
Alguns minutos se passaram nessa situação. A princesa ouvia o coração de Chennai bater forte. A sensação de aconchego, de segurança, de carinho era um sentimento novo para ela. De repente, como se tivesse voltado do choque Gabrielle afastou-se, perturbada pelas emoções que tinha sentido enquanto Chennai a abraçava.
Assumiu novamente o papel de princesa. Se esforçando para recuperar o porte aristocrático, enxugando as lágrimas, arrumando as roupas e os cabelos. Embora fungando, ordenou autoritária:
— Fico feliz de ver que não está ferida garota, agora vá buscar os cavalos, vamos voltar para o castelo!
Chennai ao ouvir a frase se retrai visivelmente e sentindo toda raiva, frustração e humilhação do dia vir à tona, explodiu.
— ME ARRISQUEI A SER FERIDA OU MORTA TENTANDO MANTER VOCÊ VIVA. — Estava berrando agora. — EU RECEBI ALGUMA PALAVRA DE AGRADECIMENTO? NÃO! SÓ OUVI PALAVRAS ARROGANTES.
Gabrielle recuou, o rosto lívido, com ar de quem tinha levado uma bofetada. A princesa sentiu-se insultada e maltratada. Chennai não tinha culpa dos acontecimentos daquela tarde, mas devido seu temperamento mimado, ela descontava tudo em quem estava mais próximo. Seus lábios tremeram como se estivesse prestes a se desfazer em lágrimas novamente e esbravejou: — Não admito que falem assim comigo!
Chennai continuou extravasando a raiva: — NÓS QUE TRABALHAMOS NO CASTELO, PODEMOS TER ORIGEM HUMILDE, MAS PELO MENOS TEMOS EDUCAÇÃO PARA AGRADECER ALGUÉM QUE MERECE.
Gabrielle olhou para ela calada. Assustada com a expressão de raiva que parecia fazer os olhos azuis de Chennai faiscar. Após alguns minutos a princesa diz: — Desculpe-me. Chennai.
Surpresa com a resposta, Chennai sente a raiva se esvair como por encanto. Sacudindo a cabeça como querendo afastar a última sombra de ira, ela cai em si e diz: — Eu é que peço desculpas, Vossa Alteza. Não tinha o direito de gritar daquela maneira. Por favor, me perdoe.
A expressão de Gabrielle mudou de imediato: — Não, Chennai. Você teve todo o direito de dizer o que disse. É verdade que lhe devo a minha vida e agi de forma horrível. — Aproximando-se de Chennai coloca sua mão sobre a dela e agradece.
Chennai ameaça estender o braço para tocá-la, mas a consciência da posição social de Gabrielle interrompe o gesto. A princesa percebendo a mudança de intenção sorri, sem desviar os olhos de sua salvadora. Chennai estava se sentindo constrangida sob seu olhar e virou-se na direção dos cavalos.
— É melhor nos apressarmos. Vamos chegar ao anoitecer. — Diz Chennai. E começaram a retornar, com a princesa cavalgando ao seu lado.
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As tochas da muralha já estavam sendo acesas quando as duas mulheres chegaram. Os guardas vieram correndo na direção delas, seguidos por Lady Marna que corria segurando o vestido marrom, avançando como uma ursa para defender o filhote. Envolvendo a princesa num sufocante abraço logo que ela desce do cavalo. Imediatamente as duas foram cercadas pelas damas da corte, enchendo as recém-chegadas de perguntas. Antes que o tumulto acalmasse Lady Marna atacou Chennai.
— Como você se atreve a permitir que a princesa chegue nesse estado? Com o vestido todo rasgado e sujo? Eu mesma vou açoitá-la. Você desejará nunca ter visto a luz do dia de hoje.
Recuando diante do ataque, Chennai foi tomada pela surpresa, incapaz de dizer uma palavra. Os guardas avançaram e seguraram Chennai pelos braços.
— Deixem-na em paz! — Gritou Gabrielle abrindo caminho entre Lady Marna, os guardas e Chennai. E continua: — Ela salvou minha vida! Quase morreu para me salvar! — As lágrimas começaram a brotar em seus verdes olhos. — Ela não fez nada de errado e não admito que a ameacem!
A pequena multidão em volta delas olhava para Chennai com um respeito recém-adquirido. A princesa apoiou a mão no braço de Chennai e começaram a andar. Todos se afastaram deixando as duas mulheres exaustas caminharem até a porta do palácio. Lord Borik correu até a filha, abraçando-a e conduzindo-a para dentro do castelo.
Parada no patamar da escadaria Chennai via a princesa falando com o pai, Lady Marna e acompanhando de perto Joxer ouvia tudo com visível espanto no rosto.
Com aversão a esse tipo de recepção, Chennai tentava seguir para seus aposentos, tudo que queria era um banho e uma boa noite de descanso, mas a curiosidade do povo que a cercava não deixava. Todos fizeram reverência à Lord Borik que retornava juntamente com a princesa e Lady Marna, seguidas pelo escudeiro.
— Minha filha me contou sobre o seu feito. Gostaria de ouvir seu relato. — Disse o Príncipe Regente.
Chennai relatou tudo que tinha acontecido, com algumas interrupções entusiasmadas de Gabrielle. Por fim Lord Borik disse: — Chennai, nem sei como recompensar o serviço que você prestou a minha família. No entanto descobrirei uma forma adequada de agradecer-lhe.
Numa explosão de entusiasmo Gabrielle abraça o pescoço de Chennai, obrigando-a a se curvar, já que era bem mais alta que a princesa. Envergonhada a moça procurava uma maneira gentil de escapar do abraço.
Lady Marna parecia prestes a desmaiar e Lord Borik tossiu intencionalmente, fazendo sinal para que a filha se retirasse. Enquanto Joxer lançou um olhar raivoso e invejoso para Chennai.
Lord Borik dirigiu-se a Kurgan: — Leve essa jovem para o aposento dela. Parece cansada. Vou dar ordem para que lhe levem comida. Amanhã quero que ela venha me ver após a refeição da manhã. — E virando-se para Chennai: — Mais uma vez, obrigado.
Quando o príncipe e a comitiva se afastaram Kurgan, Aragon e Lyceus deixaram que a alegria que sentiam transparecesse. Lyceus tinha cercado Chennai curioso e cheio de perguntas. Quando a poderosa voz de Kurgan se fez ouvir: — Você não tem trabalho a fazer?
Lyceus se retira para o alojamento orgulhoso de sua irmã. Terão tempo para conversar.
................... A Escudeira.
Chennai avança, tal como Kurgan lhe recomendara, fazendo uma reverência apropriada perante a realeza. O Senhor de Crydee, sentado no trono sorriu para a jovem e gesticulou para o abade Tully. O Sacerdote tira um documento da manga de suas vestes e o entrega ao arauto que desenrolou o pergaminho e leu em voz alta:
— Que todos os habitantes de nosso reino saibam: Visto que a jovem Chennai, do castelo de Cymru, do principado de Crydee, mostrou uma coragem exemplar ao se arriscar a ficar gravemente ferida ou até mesmo em perder a própria vida em defesa da princesa Gabrielle, e visto que somos eternamente gratos a jovem Chennai de Cymru, é meu desejo que ela seja reconhecida por todos do reino como nossa estimada e leal súdita, e também é meu desejo conceder-lhe um lugar na corte como escudeira exclusiva da princesa Gabrielle.
Chennai sentiu os joelhos bambos. O salão irrompeu em vivas. Cyrene assistia a cerimônia da porta da cozinha que dava para o imenso salão. As lágrimas de emoção escorriam pelo seu cansado rosto e o coração batia forte no peito, prestes a explodir de orgulho da filha que agora era membro da corte.
A pequena multidão afastou-se quando o Príncipe Regente se aproximou, com a jovem princesa apoiada em seu braço e Lady Marna e Joxer a segui-los. A princesa estava visivelmente radiante. Mas Joxer forçou um sorriso para Chennai com uma expressão de inveja.
Com uma desajeitada mensura Chennai diz: — É uma honra, Vossa Graça. Não sei o que dizer.
— Pois não diga nada. Minha família encontra-se entre as mais antigas do reino da Nortúmbria. Como possuidor de sangue real muito me preocupam os assuntos relacionados ao dever e a honra. Você agora é membro da minha corte, e como tal em assuntos relacionados ao dever você responde a Kurgan, mas em questões relacionadas à honra, você responderá a mim. Este salão ostenta os troféus e os estandartes dos nossos triunfos. Seja na paz ou na guerra. A nossa herança é gloriosa e nunca conhecemos a mancha da desonra. Nenhum membro desta corte envergonhou este salão e espero o mesmo de você.
Chennai acenou afirmativamente com a cabeça. Não conseguia dizer uma palavra. Em razão de tudo que passara nas últimas horas, seus pensamentos ainda tentavam se coordenar.
— Agora tratemos de outro presente. — Disse Lord Borik.
Chennai prendeu a respiração aguardando o que mais poderia acontecer.
— Aguardo-a para ceia Chennai. Como membro da corte deixará de fazer as refeições na cozinha. — O príncipe sorriu. — E você sentará sempre ao lado de minha adorada filha. — E dirigindo-se para Lady Marna ordena: — Providencie roupas apropriadas e um aposento para ela nas dependências do castelo. — Virando-se sai do salão acompanhado dos demais. Exceto Lady Marna.
Chennai quis fugir, embora se esforçasse em não demonstrar, a expressão de constrangimento ficou claro em seu rosto. A jovem empalideceu. Lady Marna se aproxima observando a jovem atentamente.
Ainda em choque com a notícia, a nova escudeira murmurava para si sem se dar conta da presença da Lady ao seu lado. — Eu? Jantar no salão nobre? Com a princesa?
Lady Marna riu se divertindo com o estado de quase pânico da jovem mulher. — Calma menina, qual o motivo de tudo isso? — Ela pergunta.
Com um visível desconforto Chennai confessa: — Não sei comer com os nobres. Tenho medo de fazer algo errado.
Lady Marna fica encantada com a humildade da moça em admitir sua falta de requinte dos modos da corte e começa a instruí-la sobre como se comportar à mesa.
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Ao entrar no novo aposento Chennai encontra suas novas vestes sobre a cama. A jovem escudeira ficou parada olhando a roupa; a voz de Lady Marna as suas costas a assusta. — O que foi? Não lhe agradou?
Chennai gaguejando diz: — É..., é muito bonita, nunca pensei em vestir algo assim.
— Talvez a cor não lhe agrade, mas é o que temos de imediato. Amanhã mandarei nossas artesãs fazerem roupas sob medida para você. – Diz a Lady com os olhos cravados na escudeira e num tom autoritário continua: – Tome um banho e trate de se vestir. Seria uma grosseria fazer Lord Borik esperar.
Chennai não estava preparada para a pompa que encontrou quando cruzou a pesada porta de carvalho do castelo. Guardas postados na entrada, enfileirados portando lanças, e entre eles Lyceus. Ao passar por ele piscou o olho com ar de cumplicidade. Tochas iluminavam suavemente o imenso salão. Vários tapetes vermelhos guiavam os convidados na direção das mesas repletas de iguarias. Na grande mesa que ficava na horizontal, dois degraus acima das outras, sentavam-se Lord Borik, a princesa e Lady Marna. Uma grande bandeira vermelha pendurada atrás com o leão coroado estampado decorava o salão.
Todos os olhares se dirigiram para a porta. O salão foi silenciando. Nunca na corte tinha se visto uma mulher num traje de escudeiro. Chennai vestia um gibão de couro preto com o brasão de Cymru no lado esquerdo do peito e por baixo do comprido gibão, uma túnica de seda também preta. Um cinturão de couro ricamente trabalhado rodeava sua cintura. A silhueta alta e imponente de Chennai impressionou até o próprio príncipe. Seus cabelos negros caíam naturalmente sobre os ombros emoldurando seu belo rosto e realçando os lindos olhos azuis. Gabrielle ficou paralisada com a maravilhosa visão. O coração disparou.
Chennai aproxima-se e faz uma reverência para os componentes da mesa. Lord Borik com um gesto indica a cadeira vazia que esperava pela sua ocupante, o mais novo membro da corte, a escudeira da princesa.
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O dia amanheceu ensolarado. Chennai sentou-se no banco de pedra sob o caramanchão admirando as sebes e as fileiras de roseiras que escondiam boa parte das alamedas do jardim real. O som de uma voz feminina a tira de seus devaneios. Do outro lado, caminhando na sua direção vinha a princesa acompanhada das duas aias e do escudeiro. As aias tentavam esconder os sorrisos, pois Chennai virara uma espécie de celebridade no castelo. Gabrielle mandou-os embora: — Gostaria de falar a sós com a escudeira Chennai.
Joxer hesitou, olhando para Chennai com raiva, mas fez uma reverência e saiu. As aias olharam por cima do ombro para a princesa e a escudeira, dando risadinhas, o que aumentou ainda mais a irritação de Joxer.
Chennai levantou-se fazendo uma mensura para a princesa. Gabrielle ordenou: — Ora pare com isso e sente-se. Essas bobagens são cansativas, já basta o Joxer!
Chennai senta-se. Gabrielle acomoda-se ao seu lado e ficaram em silêncio por alguns instantes. Por fim ela disse: — Há vários dias que não a vejo, tem andado muito ocupada?
A escudeira sentiu-se pouco à vontade, ainda confusa com a garota e seus modos imprevisíveis. A princesa só havia se mostrado cordial com ela depois que ela a salvara do urso, alimentando os mexericos da criadagem do castelo.
— Ando ocupada com os treinamentos. — Chennai responde.
— Você passa tempo demais treinando naquela arena horrível. — Reclama a princesa.
Chennai não considerava a arena nem um pouco horrível. Sentia-se bem quando estava lá. — Podemos ir cavalgar se Vossa Alteza desejar. — Responde a escudeira.
Gabrielle sorriu. — Gostaria muito, mas creio que Lady Marna não permitirá.
Chennai ficou surpresa. Depois que salvara a princesa, pensou que a mãe substituta da princesa já a considerava uma acompanhante adequada.
— Por que não? — Chennai questiona.
Suspirando Gabrielle responde: — Ela diz que quando você era uma simples serviçal, você sabia o seu lugar. Agora que pertence a corte, ela desconfia que você tenha ambições. — Um sorriso tímido aparece nos lábios da princesa.
— Ambições? Como assim? — Chennai perguntou sem entender.
— Ela pensa que você pode me influenciar em algumas “escolhas”. — Gabrielle responde timidamente com o rosto em brasa.
De repente Chennai compreendeu e olhando atônita para a princesa responde: — Ah..., oh Vossa Alteza! — Levantou-se de um pulo. — Eu jamais faria tal coisa..., quer dizer, não..., nunca pensaria em..., quer dizer...
Gabrielle levantou-se bruscamente e olhando para Chennai esbraveja irritada: — Você é uma idiota! — Levantando levemente o comprido vestido verde, afastou-se num rompante.
Chennai sentou-se mais desorientada do que nunca. Era quase como se... Deixou o pensamento se perder. Quanto mais lhe parecia impossível a princesa estar gostando dela, mais essa perspectiva a deixava ansiosa. A princesa era uma garota de natureza instável.
................... A visitante.
Chennai despertou zonza e desorientada com alguém batendo à porta de modo suave, mas persistente. Levantou-se devagar e cambaleou até a porta, perguntando-se quem precisaria entrar em seu quarto no meio da noite. Abriu a porta com um puxão.
Um vulto passou por ela rapidamente, que se virando deparou com Gabrielle, envolvida num manto.
— Feche a porta! Pode passar alguém e ver a luz no corredor. — Sussurrou a princesa.
Chennai obedeceu ainda zonza. Foi até o braseiro e com um pequeno galho acendeu o lampião que iluminou grande parte de seu aposento.
Chennai tentava coordenar os pensamentos enquanto Gabrielle olhava ao redor do quarto; examinava as botas jogadas pelo chão e as roupas displicentemente jogadas sobre uma cadeira ao lado da cama.
Despindo-se do manto, a princesa senta na cama desarrumada e diz: — Quero falar com você.
Chennai arregalou os olhos, encarando-a fixamente, pois Gabrielle vestia apenas uma camisola leve de algodão. Ainda que a cobrisse dos ombros aos tornozelos, o tecido era fino e colava-se ao seu corpo com uma sensualidade inquietante. De repente a escudeira se deu conta que era a princesa que estava no seu quarto.
— Princesa?! O que a senhora deseja? Se Lady Marna souber disso vai pedir minha cabeça numa bandeja. — Chennai exclama num murmúrio angustiado.
— Não se você tiver inteligência de manter a voz baixa. — Respondeu Gabrielle com petulância.
Chennai se dirige a cadeira pegando as roupas e as botas espalhadas pelo quarto, disfarçando o nervosismo. A princesa observou seu aspecto desgrenhado. O desconforto da escudeira aumentava a cada minuto. O fato de Gabrielle ser uma visita que não fora convidada era uma sutileza que Lord Borik e Lady Marna não iriam considerar como desculpa.
— Princesa, a senhora não pode ficar aqui. Vai me colocar numa encrenca que nem consigo imaginar. — Chennai disse nervosamente.
— Não saio até lhe dizer o que vim dizer. — Diz a princesa com tom decidido. — E pare de ser tão formal, pode me chamar de Gabrielle.
Chennai sabia que era inútil discutir. Já vira muitas vezes aquele olhar. Com um suspiro resignada disse: — Está certo. O que você quer?
— Isso são modos de falar comigo? — A princesa responde com ar de ofendida.
Chennai reprimiu um suspiro de impaciência. — Certo, peço perdão. Por favor, o que deseja de mim?
Gabrielle deu um tapinha na cama ao seu lado. — Venha, sente-se aqui. — Chennai obedeceu, tentando ignorar o nervosismo de estar sendo manipulada por aquela garota caprichosa.
Os olhos verdes da princesa brilhavam de contentamento com essa aproximação. Com um beicinho dramático, disse:
— Sabe que no fundo eu a invejo. Você pode fazer coisas interessantes, como lutar com espadas e praticar arco e fecha. Ser uma dama digna é entediante. Meu pai teria um ataque se me visse com uma espada nas mãos.
Com a impaciência crescente na voz Chennai pergunta: — Princesa, por que veio?
Gabrielle permaneceu em silêncio, pensativa.
— Princesa, o que você... — A pergunta foi interrompida quando a princesa num rompante cobriu sua boca com a dela. Chennai ficou aturdida demais para reagir. O beijo não foi retribuído. Gabrielle afastou-se rapidamente, deixando-a boquiaberta, e perguntou: — Então?
Chennai não conseguia pensar em nada para falar. Depois de alguns instantes se limitou a gaguejar ainda em estado de choque: — Foi..., é..., foi bom.
Gabrielle levantou-se e encarou a escudeira de cima, com os olhos faiscando em um misto de raiva e vergonha. Cruzou os braços e começou a bater o pé de nervoso e disse furiosa: — Bom?! É só isso o que tem a dizer?
Chennai a observou. Naquele momento a imagem adorável da princesa resplandecia sob a luz tênue do lampião, as feições intensas e lindas, o cabelo loiro solto em volta do rosto e o tecido fino apertado junto ao peito devido aos braços cruzados. Provocou uma variedade de emoções até então sufocadas.
A falta de reação de Chennai contribuiu para a impertinência da jovem princesa. — É a primeira vez que beijo alguém, e tudo que você consegue dizer é que foi “bom”? — E continua. — Vim aqui me entregar a você. Arriscando-me ser banida para um convento até o fim da minha vida! E tudo que você faz é me tratar como uma simples serva de cozinha? — E completou: — Pensei que você sentia algo mais por mim.
Gabrielle pôs as mãos na cintura, o que repuxou sua camisola para uma posição perturbadora que mostrava os bicos dos seios em relevo sob o tecido e a leve sombra escura dos pelos de seu sexo; a princesa olhava para a escudeira de cima a baixo com uma expressão irritada.
Subitamente Chennai percebeu que havia uma grande dose de drama misturada a uma irritação verdadeira. Forçando os pensamentos a se afastarem da onda ardente que começava a sentir com a visão a sua frente ela diz: — Sente-se, por favor. Vamos conversar. — Procurando no mais profundo de suas entranhas controlar o desejo de abraçar Gabrielle.
A princesa hesitou, mas acabou voltando a sentar-se ao lado da escudeira. Um pouco desajeitada Chennai pegou suas mãos. Foi afetada de imediato pela proximidade da garota, pelo seu calor, pelo cheiro do cabelo e da pele. As sensações de desejo cresciam descontroladamente umedecendo seu sexo.
— Gabrielle, desde que te vi naquele dia da briga de meu irmão, não consigo mais tirar você dos meus pensamentos. Eu gosto muito de você. Quando não estou contigo meu peito fica vazio, como se minha alma fosse me abandonar a sua procura.
A princesa ficou surpresa. Seus olhos brilharam. A expressão de satisfação da princesa ao ouvir a declaração deixou Chennai mais aflita.
A escudeira continua: — Na maior parte do tempo vivo em conflito com meus sentimentos quando você está por perto. Mas sei qual é o meu lugar. É esse o problema.
A decepção apareceu no lindo rosto da princesa, pois era óbvio que não era a resposta que ela esperava. Em seguida se levantando e colocando-se em pé na frente de Chennai, ela responde:
— Não sei o que dizer. Quase todos os rapazes que conheço, e não são poucos os nobres mais velhos, fazem de tudo para que eu lhes dê atenção e você... — Gabrielle manteve-se calada por algum tempo, pensativa.
Chennai a olhava trêmula de desejo, sem coragem de romper o silêncio. Repentinamente Gabrielle segurando o rosto da escudeira entre as mãos voltou a beijá-la, rompendo a frágil compostura de Chennai, que dessa vez respondeu ao beijo. O contato dos macios e quentes lábios da princesa a empurrava para uma situação que rapidamente ficaria fora do seu controle. Nunca ninguém tinha despertado um sentimento tão forte nela.
— Eu vou fazer o que você me pedir, Chennai. — Disse a princesa sussurrando com os lábios ainda roçando nos seus.
Chennai sentia seu sexo palpitar, suas entranhas gritavam que tirasse a camisola de Gabrielle e se entregassem a carícias mais ousadas. Ansiava por sentir a pele quente e macia de Gabrielle sob a sua, explorar seu corpo virgem de toques de outras pessoas. Com o coração disparado, Chennai vai abrindo os botões da camisola e vagarosamente desce a roupa expondo os seios de Gabrielle. Os mamilos levemente mais escuros que a pele encantou a escudeira. Os bicos dos seios rígidos foram delicadamente lambidos e depois sugados. As mãos de Gabrielle se entranharam nos cabelos de Chennai que suspirava de prazer. As mãos da escudeira já deslizavam pelo ventre da princesa, encontrando os pelos que escondiam aquela gruta de prazer já quente e molhada.
De repente uma violenta batida na porta às assusta. De um pulo Chennai se levanta e ofegante se dirige rapidamente à porta, enquanto Gabrielle se recompõe abotoando rapidamente a camisola. De imediato a imagem de um carrancudo Lord Borik e o machado do carrasco acabaram com grande parte do entusiasmo da escudeira. Chennai abre a porta de um puxão, olha para ambos os lados do corredor, mas o encontra vazio. Respirando fundo, tentando de todas as formas afastar o desejo de si Chennai retorna para junto de Gabrielle e diz: — Princesa, por favor vá embora.
Gabrielle ignorou seu pedido, distribuindo beijos pelo rosto de Chennai. Tentando impedir uma calamidade, a escudeira com um esforço descomunal afasta-se. — Princesa, por favor, alguém esteve aqui, talvez Lady Marna tenha sentido sua falta no quarto. Por favor, vá embora! — Disse a escudeira.
Os olhos da princesa faiscaram, mas o bom senso dizia que Chennai tinha razão. Então a princesa se aninhou com suavidade nos braços da escudeira, abraçando-a com força e colocando seu rosto no peito de Chennai.
Chennai se sentia maravilhada com a sensação de tê-la nos braços. Seus corpos tremiam, e Gabrielle diz: — Você foi a única pessoa de quem me aproximei tão intimamente.
Com delicadeza, Chennai levantando o rosto da princesa e não resistindo à visão da boca apetitosa levemente aberta voltou a beijá-la, que reagiu abraçando-a com mais força e respondendo ao beijo apaixonadamente. Chennai sentia o calor do corpo dela através do fino tecido da camisola e ouvia seus suaves suspiros junto ao ouvido, sentindo-se deslizar de volta ao fogo irracional que ainda queimava em suas entranhas. Percebendo que seu corpo voltava a reagir, mesmo com a respiração descontrolada e o coração descompassado, tomando coragem, separou-se com delicadeza do abraço da princesa. Forçou-se a afastar de Gabrielle, com um profundo suspiro e tristeza na voz, disse:
— Eu acho que você deve voltar para seus aposentos.
Gabrielle sentia seu corpo queimando de desejo. Chennai lutou com imenso esforço para se controlar e repetiu o pedido que a princesa voltasse aos seus aposentos. Pegou o manto jogado no chão e vestiu a princesa. Levando-a até a porta, abriu uma fresta e examinou atentamente o corredor. Certificando-se não ter ninguém por perto, deixou-a sair. Do lado de fora, Gabrielle virou-se e disse em voz baixa:
— Sei que você deve me achar uma garota boba e vaidosa, e há momentos que sou mesmo, mas a verdade é que eu te amo Chennai.
Antes que a escudeira conseguisse falar. A princesa desapareceu no corredor, sem perceber que Joxer as espreitava na escuridão, atrás da cortina no final do corredor.
Chennai fechou a porta com cuidado e apagou o lampião. Deitou-se na cama, contemplando a escuridão. Ainda sentia o perfume da princesa no ar que a rodeava, e relembrar o toque de seu corpo quente e macio sob suas mãos deixou todo seu corpo tremendo. Agora que Gabrielle tinha ido embora e com ela a necessidade de se manter controlada, Chennai permitiu que o desejo a invadisse. Enquanto se acariciava podia ver o rosto de Gabrielle ardendo de desejo por ela. Cobrindo os olhos com o braço, resmungou baixinho: — Eu vou me odiar amanhã.
................... Confessando a paixão.
Chennai correu para o jardim com o coração pulando de alegria. A princesa lhe enviara um recado pedindo que a encontrasse em seu jardim, próximo às escadas. Era a primeira vez que se veriam desde que ela saíra precipitadamente do último encontro que tiveram. Gabrielle tinha dispensado seus serviços já à vários dias. Não queria que continuassem separadas, apesar dos conflitos que sentia.
A jovem escudeira começava a sentir uma direção na sua vida — ainda que não tivesse certeza quanto ao seu destino se continuasse nesse rumo. — Agora ela estava certa do que diria a Gabrielle, caso ela começasse a mencionar sobre uma espécie de “entendimento” entre as duas.
Chegando ao jardim, ao dobrar o canteiro das rosas parou, pois em vez de Gabrielle era Joxer quem estava lá.
— Bom dia Chennai. — Cumprimenta o escudeiro.
— Bom dia. — Ela responde olhando ao redor.
— Está esperando alguém? — Joxer perguntou.
— Bem, na verdade, esperava ver princesa. — Responde Chennai.
Os ombros de Joxer caíram demonstrando um sentimento de frustração ele diz: — Perdi meu posto de escudeiro da princesa. Agora as atenções são todas para você... Eu a invejo.
Chennai se surpreende com a declaração. De súbito soou um sinal na sua cabeça. Tomada por um sentimento de pena, viu que o pobre escudeiro estava apaixonado pela princesa.
— Desculpe-me Chennai, mas é que não consigo mais dormir à noite, fico pensando nela. Fico ansioso aguardando os poucos momentos de ficarmos juntos. Desde que você a salvou, só ouço seu nome. — Após uma pequena pausa ele continua: — Eu é que sou um tolo. Ela é uma garota determinada, disso na há dúvida. Mais do que ninguém, faço o que a princesa quer, mas ela agora me ignora. As mudanças no coração dela são incompreensíveis.
— Você a ama de verdade, não é? — Pergunta a escudeira.
Ele confirmou, balançando a cabeça. Chennai se aproxima e colocando as mãos amigavelmente sobre os ombros do escudeiro diz: — Acredite Joxer, não sei se estou em posição de ser invejada.
— Ora essa! — Disse uma voz ríspida. Viraram-se e deram com Gabrielle, ladeada por duas aias, observando os dois. — Como os dois parecem estar tão entretidos um com o outro, não irei interromper. — Gabrielle estava corada de ciúme. — Com licença! — Virou-se passando pelas aias velozmente.
Os dois paralisados ainda a ouviram dizer em voz alta: — Escudeiros!
Chennai e Joxer trocaram olhares, sem entender o que teria provocado o rompante da princesa. Joxer vira-se e segue atrás da princesa, deixando Chennai perdida com seus pensamentos.
CAPÍTULO 8 ................... O torneio.
De toda Nortúmbria a cidade de Cymru era conhecida pela tradição de gerar guerreiros. Kurgan, passava horas ensinando os futuros soldados as táticas de defesa e ataque e o mais importante, a nunca baixar a guarda. Chennai ouvia as instruções, maravilhada, absorvendo cada palavra dita.
Enquanto a observava treinando, o capitão notou que Chennai tinha muitas habilidades. Seria interessante se ela participasse do torneio. Apenas precisava expor sua sugestão e obter autorização de Lord Borik.
Na manhã seguinte Kurgan dirigiu-se ao castelo e encontrou Lord Borik descendo as escadas para o salão nobre para o desjejum. Com uma reverência o capitão o cumprimenta: — Bom dia senhor.
— Bom dia capitão. Está tudo bem? — Pergunta o Príncipe Regente.
— Sim senhor. Gostaria de expor uma ideia que tive, se me permite. — Diz o capitão.
— Claro. Acompanhe-me. — Responde o príncipe.
O grande salão estava iluminado pela quente luz da manhã que entrava pelas janelas em arco. A mesa de madeira estava fartamente servida. Lord Borik indicou com um gesto que Kurgan se servisse. Servindo-se apenas de uma fruta, o capitão disse:
— Senhor venho observando Chennai já algum tempo. Ela tem se destacado nos treinamentos com os soldados... — Kurgan arrisca: — Como em breve teremos o torneio. Se o senhor permitir gostaria de colocá-la como membro da nossa equipe.
O príncipe ergueu as sobrancelhas, surpreso. Recostou-se na cadeira alta e imponente na cabeceira da longa mesa. Permaneceu calado por alguns minutos; finalmente disse: — O torneio é uma competição exclusivamente de homens. Você esta ciente que ela pode ser gravemente ferida ou até morrer?
— Sim senhor estou ciente dos riscos, mas ela é diferente. Ela nasceu para ser guerreira. A destreza com que maneja as armas e o escudo é impressionante; tenho que admitir que estou surpreso.
Lord Borik pensou por mais alguns instantes, uma mulher disputando um torneio soava como um sacrilégio; finalmente rompendo o silêncio disse: — Kurgan, você não seria o Mestre de Armas e capitão da minha guarda se fosse imprudente e irresponsável. Confio na sua avaliação. Eu concedo minha permissão. Será interessante! — E completa: — Mas que ninguém saiba da participação dela.
...........................................
A arena começou a encher logo após a ceia da manhã. A construção era imensa e arredondada. Flores eram jogadas em todos que entravam para assistir as apresentações. Os estandartes com os símbolos dos ducados estavam espalhados pela arena.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Kurgan reuniu os competidores e os encorajou. Disputariam provas com guerreiros mais velhos e experientes e que provavelmente fariam de tudo para ganhar o torneio.
Na tribuna de honra Lord Borik sorria diante do espetáculo; acenou autorizando a abertura do torneio. Guerreiros representando seus Ducados, como diziam os brasões em seus escudos, combateriam uns com os outros até que saísse apenas uma equipe vencedora em cada modalidade. As trombetas anunciam a entrada dos guerreiros em seus cavalos imponentes em elegante marcha e uma chuva de pétalas de flores de todas as cores caía sobre os competidores.
A primeira equipe a se apresentar foi a do Ducado de Deira, representado pelos dragões em seus estandartes e escudos. O príncipe aplaudia animado. Enquanto a princesa amuada mostrava seu mau humor, queixando-se constantemente de não estar acompanhada de sua escudeira. Exigindo que o pai mandasse alguém procurá-la. Era inaceitável tamanha desfeita para com ela.
— Filha esqueça Chennai, vamos aproveitar o torneio. — Dizia pacientemente Lord Borik.
Mas a princesa estava intransigente, não aceitava nenhum argumento que o pai lhe apresentava. Finalmente vencido pela teimosia da filha, chama Kurgan, que também assistia a competição. Sem intenção de atender a filha, Lord Borik sussurra algo ao ouvido do capitão. Mas a resposta não foi ouvida pela princesa, pois a multidão gritava euforicamente com a entrada da equipe de Cymru.
— Já ordenei que a procurassem, agora vamos nos divertir. — Disse o Príncipe Regente desviando o assunto e evitando o olhar fixo de Gabrielle.
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Lyceus respirava profundamente tentando se acalmar, lembrando-se dos ensinamentos do capitão. Não deviam ter medo. Um cavaleiro de armadura prateada percebendo a hesitação do jovem emparelha-se a ele dizendo algumas palavras. A expressão de assombro de Lyceus é visível, como se estivesse vendo um fantasma.
A armadura prateada reluzia sob o sol da manhã. O elmo cobria-lhe totalmente o rosto, deixando a mostra apenas os olhos de um profundo azul. Surgiram murmúrios sobre quem seria o tal cavaleiro de porte tão imponente, as damas da corte sussurravam entre si e sorriam para o cavaleiro, ansiosas para que alguma delas fosse contemplada com a faixa que trazia amarrada no braço, como era costume nas competições. Mas o participante não tirava os olhos da princesa, que evitava olhá-lo.
As trombetas soam. As equipes dos ducados mostram suas habilidades na prova de arremesso de lanças nos alvos fixos e móveis. Mas a precisa pontaria da equipe de Cymru não tendo errado nenhum alvo se torna a vencedora da modalidade.
Em seguida, entrou a equipe de espadas do Ducado de Deira, todos sorrindo maliciosamente por terem de enfrentar jovens inexperientes. Os homens do ducado eram grandes e de aparência hostil.
Quando os grupos começaram a se enfrentar, os cavaleiros de Deira logo sentiram que tinham errado na avaliação. As táticas e força da equipe de Cymru eram tamanhas que um a um, eles foram derrubando os adversários de seus cavalos, o que causou uma enorme euforia na plateia.
Um cavaleiro se destacava pela agilidade com que se esquivava dos golpes, curvando o corpo com rapidez. Sabia o momento certo de virar o cavalo, usava o escudo com perícia e girava a espada com uma destreza digna do próprio Kurgan.
A cada vitória o misterioso cavaleiro olhava para a tribuna buscando o olhar da princesa que fingia ignorar o desconhecido. Mas algo no cavaleiro chamava sua atenção, talvez o imponente porte, a habilidade, a força. Ela não sabia explicar. O desconhecido a intrigava.
A competição continuava dia após dia; Cymru nunca tinha visto uma demonstração de força e habilidade como aquela. Encerrando as competições do festival as equipes designavam um representante para as provas individuais. Após cada prova, uma breve pausa e as trombetas voltavam a soar.
O cavaleiro misterioso é designado para três modalidades. Entra aplaudido pelo público. A princesa já olha com atenção para o participante. A prova do arremesso de lanças nos alvos fixos foi ganha com facilidade. A prova seguinte consistia em ao longo do percurso da arena, o competidor a cavalo deveria alcançar um arco e a aljava com flechas presos a um tronco e acertar todos os alvos móveis presos em um carro puxado por cavalos.
A competição seguia com a plateia vibrando intensamente com a precisa pontaria do cavaleiro misterioso. Lord Borik e Kurgan trocavam olhares de cumplicidade e satisfação a cada lance certeiro. Restava o confronto de espadas com o campeão do Ducado de Gwent. Um gigante de espessa barba e cabelos negros e de malévolos olhos azuis acinzentados. Invencível em todos os torneios que participou.
O campeão de Gwent entrou na arena vestido com a armadura completa, a cota de malha por baixo do gibão amarelo com o símbolo de uma grande águia negra no peito, elmo e pesadas botas de ferro de cano alto. Em um braço levava um largo escudo com o mesmo símbolo e com o outro segurava uma afiada espada, que sem piedade, já tirara a vida de muitos homens nos torneios e em batalhas.
O campeão de Gwent, conhecido como “O Montanha”, e o cavaleiro de Cymru saúdam Lord Borik e a princesa na tribuna de honra. As trombetas tocam iniciando o combate. Os dois guerreiros se afastam; montados em seus cavalos circulavam pela arena, se observando, depois de alguns minutos ambos partiram para o ataque.
O Montanha empunhando sua espada instigava o cavalo, gritando e exibindo toda sua fúria. O choque acontece. As espadas se cruzavam num embate incansável. A força e a destreza dos dois guerreiros eram iguais. Esquivavam-se dos golpes com reflexos inacreditáveis. As estocadas eram defendidas com agilidade.
As espadas se chocavam com tanta força, que por vezes podia se ver faíscas saindo das lâminas. Algumas vezes se aproximavam num contato de corpos, que eram imediatamente separados pelos empurrões dos escudos. Em um descuido o cavaleiro misterioso é atingido pela espada adversária que corta a malha e atinge seu braço junto ao pulso. Em seguida com um golpe do escudo o elmo do cavaleiro de Cymru é arrancado com a violência da pancada, revelando o rosto do cavaleiro.
A plateia se levanta como uma só pessoa. O urro de surpresa ecoa na arena. Lord Borik e Kurgan não se surpreendem, mas a princesa se levanta de um pulo, se debruçando na tribuna. O grito aflito rasga sua garganta: — CHENNAI.
Ouvindo a voz de Gabrielle, Chennai se desconcentra e o escudo do Montanha desce pesadamente sobre seu pulso ferido; a dor violenta a faz largar a espada. O urro do público é ouvido à distância.
Após o choque da surpresa o cavaleiro de Gwent ridiculariza Chennai e toda cidade, berrando:
— O que é isso? Cymru agora está mandando mulheres para os torneios? Será que aqui só existem covardes que se escondem atrás de mulheres? — e continua: — Não existe honra nenhuma em matar essa desprezível criatura. Ela não merece que eu suje minha espada com seu sangue podre.
Chennai sentia o ódio borbulhar em seu sangue. Aquela não era mais uma simples disputa esportiva. Não se tratava apenas de um desafeto, era a defesa de sua honra e da honra da cidade. As palavras de Lord Borik soavam em seus ouvidos: “... Este salão ostenta os troféus e os estandartes dos nossos triunfos. Seja na paz ou na guerra. A nossa herança é gloriosa e nunca conhecemos a mancha de desonra. Nenhum membro desta corte envergonhou este salão e espero o mesmo de você.”.
Quando parecia que não teria mais sucesso no confronto, Chennai recuou até a entrada da arena e começou a galopar. Segurando-se no pescoço do animal, apertou as pernas no lombo, curvou-se, e com a cabeça quase roçando no chão, pegou o punho da espada e se endireitou jogando o corpo para esquerda. A manobra surpreendeu até mesmo Kurgan.
Aragon, o Mestre da Cavalariços sorria satisfeito, não conseguia disfarçar o orgulho de sua aluna.
Com os olhos faiscando de ódio Chennai investe contra o cavaleiro de Gwent derrubando-o do cavalo. A guerreira foi tomada por um instinto animal. Agora ela era uma criatura selvagem lutando com intenções assassinas. Ela pula do cavalo e com uma fúria descomunal atacou, obrigando o Montanha a cambalear de costas; numa sucessão de furiosos golpes de espada e usando toda sua perícia a guerreira atacava empurrando o guerreiro para o meio da arena. Com uma agilidade espantosa girando o corpo e a espada ela aplicou um único golpe usando toda força que tinha. A lâmina cortou profundamente o braço do homem acima da dobra do cotovelo. O braço que segurava a espada baixou, sem qualquer força de movimento.
O cavaleiro de Gwent viu a derrota chegando, mas lutou contra ela, largando o escudo trocou a espada de mão tentando acertar Chennai. Mas ela o golpeou uma, duas, três vezes com golpes poderosos usando as duas mãos e toda força que ainda lhe restava. Assustado com a ferocidade da mulher o cavaleiro tropeça e cai de costas. Com um violento golpe a guerreira arranca a espada da mão dele.
Com o pé sobre o peito dele, Chennai levanta a espada com as duas mãos acima de sua cabeça e desfere o golpe final. A multidão se levanta com um urro, em seguida o silêncio desce na arena. Ela fica alguns instantes parada observando o homem estendido no chão, depois dá alguns passos para trás. Atordoado o cavaleiro olha a espada cravada no chão a poucos centímetros de seu pescoço.
O homem levanta-se temeroso, cambaleando olhou bem no rosto de Chennai e apoiado em um dos joelhos, curva-se perante ela, num total reconhecimento de sua derrota.
Cansada, arfando fortemente, quase sem fôlego Chennai pega a espada e caminha até a tribuna e se ajoelha apoiada na espada inclinando respeitosamente a cabeça para os integrantes da Casa Real. O público permanece em silêncio total, como se paralisado por algum feitiço. Até que Lord Borik levanta-se e vagarosamente começa a aplaudi-la. Em seguida Kurgan e Aragon também batem palmas e as palmas vão contagiando o ambiente até que toda a arena está de pé euforicamente aclamando a guerreira.
Gabrielle olhava Chennai gritando seu nome emocionada. Os olhos verdes lacrimejavam de alegria.
A lenda da mulher guerreira começou a se espalhar naquele dia, juntando-se a fama de Boudicca, a rainha bretã.
................... Alegrias, segredos e más notícias.
Na noite daquele mesmo dia, Kurgan celebrava a vitória do torneio com todos os seus guerreiros e agora com sua guerreira mais comentada. Era uma noite quente e de alegria, com muitas risadas, comida e bebida farta, com os cumprimentos de Lord Borik. Como o alojamento estava muito quente Chennai sai para respirar ar fresco. Deixando o barulho dos festejos para trás. Estava com um sentimento de felicidade incompleto. Passando os olhos pelo imponente castelo que contrastava com o céu estrelado, ela olhava para a torre onde ficava o aposento de Gabrielle. É claro que a princesa jamais iria participar dessa comemoração. Resolveu se recolher, pois as várias taças de hidromel já faziam um leve efeito. A entrada pelo jardim encurtava o caminho até a ala onde ficava seu aposento. Quando já estava próxima da porta se assustou com alguém a observá-la. No entanto seu susto se transformou em alegria, mesmo que contida, pois a dona daqueles olhos era Gabrielle. Sentada sob o caramanchão, ela sorriu.
— O que faz aqui? — Chennai perguntou.
— O mesmo que você, tomando ar. — A princesa responde. Olhando para o curativo no pulso de Chennai, ela pergunta: — Dói muito?
A suavidade na voz de Gabrielle soa como música aos seus ouvidos. Chennai responde sem desviar os olhos da princesa: — Só quando movimento a mão, mas vai curar logo.
— Todos estão comentando sobre você. — Disse a princesa.
Com um sorriso encabulado Chennai baixa os olhos. — Você quer caminhar um pouco? — Pergunta timidamente.
Gabrielle levanta-se seguida por Chennai, caminham sem rumo certo pelas dependências do jardim até chegarem a um ponto mais alto onde conseguiam ver as silhuetas escuras das montanhas além dos muros da cidade. Chennai não cansava de olhar os fios loiros dos cabelos de Gabrielle que voavam com a brisa leve, enquanto ela admirava o céu estrelado. Conversavam sobre os comentários da corte e sobre o torneio. Gabrielle por sua vez não parava de notar o modo como Chennai tirava os negros cabelos esvoaçantes da frente dos brilhantes olhos azuis que a intimidavam.
— O que pretende fazer agora já que é tão famosa? — Pergunta a princesa, intimidando Chennai com o olhar.
Chennai abre um belo e perfeito sorriso que deslumbra Gabrielle. Timidamente ela responde: — Sinceramente não sei, esse assunto de ser tão conhecida na cidade é estranho para mim... Chego a ter saudade da minha vida de antes.
O olhar de espanto de Gabrielle provoca risos em Chennai. A conversa segue sem se concentrar em assuntos específicos. Em certo momento a princesa segura a mão de Chennai. A guerreira tomou as mãos da princesa entre as suas e beijou-as. Gabrielle sente um arrepio.
Chennai resolveu ousar. Era hora de sentir mais uma vez os lábios da princesa. Ambas pediam por esse instante já algum tempo. Chennai tomou seu rosto entre as mãos e o acariciou, admirando cada curva, as linhas das sobrancelhas, o nariz, o queixo e os lábios cor de cereja. Curvando-se Chennai a beija. Nenhuma cereja do mundo teria aquele sabor, aquele aroma ou seu calor. A guerreira abraçou-a e ergueu seus pés do chão.
De um recanto escondido do jardim, olhos curiosos espreitavam as duas, assistindo a cena que confirmou suas suspeitas.
Gabrielle se sentia inebriada pela voz aconchegante de Chennai em seu ouvido. Mas a falta de Gabrielle foi sentida por alguém no castelo que a chamava insistentemente. Seria prudente que ela voltasse ao seu aposento. Com o corpo trêmulo a princesa se afasta. Chennai preferiu ficar do lado de fora e observou a graciosidade do andar de Gabrielle, acompanhou-a com os olhos até ela sumir pela porta. Com o coração aos pulos ela não parou de relembrar aquele momento.
Chennai dormiu mal a noite inteira, pensando na doce princesa e em como a vida podia pregar peças como essa. Ela agora era nobre, mas nunca poderia demonstrar em público seu amor por Gabrielle.
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Na noite anterior sem que ninguém visse, um cavaleiro esbaforido que viajava a vários dias, chegou em Cymru procurando pelo Príncipe Regente. Trazia uma mensagem urgente do Rei. Seu cavalo cansado e com os cascos gastos foi logo levado para o estábulo. Levado a presença de Lord Borik o homem arfando disse:
— Perdoe-me por meu estado Vossa Graça... — Diz o homem.
— Calma homem, respire fundo. Qual é seu nome? — Responde o príncipe.
— Meu nome é Nenius. O Rei me incumbiu de trazer uma mensagem para Vossa Graça. Os nórdicos invadiram a Mércia e informações seguras garantem que virão para Cymru.
A notícia soou como uma maldição aos ouvidos do príncipe. Ele sabia que o verdadeiro destino dos nórdicos era tomar Wessex e todo sul da Bretanha; e Cymru estava no caminho deles.
Agradecendo as informações Lord Borik dispensa o mensageiro. Manda chamar seus comandantes. Quando Kurgan e Aragon entram no recinto encontram o príncipe andando aflito de um lado ao outro. Os dois são informados da notícia e suas feições ficam apreensivas.
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Conforme os dias se passavam a constante vigilância de Joxer e Lady Marna dificultava cada vez mais qualquer tentativa de privacidade entre elas. Incomodada com a situação, Chennai nada tola, percebeu o perigoso ciúme do escudeiro e os olhares indecifráveis de Lady Marna. Fez um acordo com a princesa; que não seriam mais vistas conversando durante os treinamentos e nas dependências do castelo só andariam juntas quando a princesa requisitasse seus serviços. Teriam que se ver em outro lugar, escondido de olhos curiosos e invejosos.
No convívio em família Gabrielle se tronou mais distante. Na mesa com o pai e Lady Marna, a conversa se resumia em comentar algum fato curioso e a responder as perguntas que lhe fossem feitas, e não durava mais que isso. Lord Borik estranhava o comportamento da filha e perguntava a si mesmo o que estaria acontecendo, uma vez que o falatório entre ela e Lady Marna sempre fora uma situação normal.
No dia seguinte o príncipe procura por Lady Marna, pois ela sendo mulher talvez a princesa tivesse lhe confidenciado alguma coisa. Muito embaraçada a mulher se cerca de rodeios; respondia as perguntas de Lord Borik cautelosamente.
A Lady percebeu que o príncipe era um homem cego para os assuntos do coração alheio; lembrou-lhe que a princesa crescera, já era uma mulher quase feita e dona de um coração indomável.
— Senhor abra os olhos! É evidente que ela está apaixonada. — A Lady fala visivelmente embaraçada.
A expressão do príncipe se transforma numa mistura de surpresa e incredulidade. — Apaixonada? Mas ela é uma criança! Não pode ser... Como eu nunca reparei nisso? — após uma pausa ele continua. — É o Joxer? Sempre o vejo cercando Gabrielle de atenções...
Evitando o olhar do príncipe, Lady Marna não respondeu e de olhos baixos encabulada, procurando esconder o malicioso sorriso, continuou bordando. Lord Borik levanta-se e começa a andar pelo aposento da Lady com uma expressão preocupada.
— Essa agora..., mais uma preocupação. — Diz o príncipe.
— Desculpe-me príncipe, mas ela já escolheu alguém. O senhor não pode mandar no coração da menina. — Lady Marna responde num tom firme.
Ele saiu pensativo. Gabrielle passa por ele no corredor trajando sua roupa de montaria, saudando-o com um sorriso. A fisionomia tensa do pai fez a moça entender que ele tinha algo a lhe falar; mas ele não se sentia preparado para conversar sobre o assunto que o afligia.
— Aonde vai? — Pergunta o Lord.
— Cavalgar, por quê? — Responde a princesa.
— Com Chennai? — Gabrielle riu de lado, para evitar detalhes. — Sem esperar resposta ele continua: — Tenho uma reunião com meus comandantes e assuntos sérios para decidir. Hoje não será possível, mas temos que conversar.
Gabrielle sentiu peso nas palavras do pai e seu olhar preocupado. — Os nórdicos voltaram, não é? — A princesa perguntou e ficou séria.
Isso surpreendeu o príncipe. Achou que guardava bem o segredo sobre a chegada do mensageiro. — Como soube disso? — Ele perguntou.
— Ah pai, isso é segredo. — A princesa responde sorrindo. Escondendo que vira o mensageiro chegando e sendo imediatamente levado à presença de seu pai, correu para escutar atrás da porta.
O príncipe notou que a filha olhava além dele. Virando-se, viu Chennai se aproximando. O traje de guerreira lhe assentava elegantemente. O corpo bem marcado pela apertada roupa de couro, com a espada embainhada às costas, lhe dava um ar imponente.
— Bem, desejo a vocês um bom passeio. Tenho assuntos urgentes a tratar. — Diz o príncipe se despedindo da filha com um beijo na testa. — E recomenda: — Cuide bem da minha menina Chennai.
— Cuidarei Vossa Graça..., cuidarei. — Responde a guerreira.
................ Prenúncio de uma guerra.
Mensageiros traziam notícias cada vez mais aterradoras sobre o inimigo. Cidades eram invadidas, pilhadas e destruídas. As atrocidades contra o povo eram constantemente relatadas nas mensagens.
Um batedor exausto chegou à porta do castelo quando o dia ainda não começara a raiar. Amparado pelos guardas foi levado até Lord Borik e contou que uma imensa força nórdica tinha ultrapassado a fronteira de Mércia com Crydee e agora marchavam com fúria para a cidade.
O Príncipe Regente refletia enquanto andava preocupado pelo salão, observado por Kurgan e Aragon. O experiente capitão sugeriu que antes de deixar que se aproximassem dos muros da cidade, era melhor reunir uma tropa e irem em direção a eles. O Lord discutiu alguns pontos, mas aprovou a estratégia. Imediatamente Kurgan e Aragon saíram para reunir os soldados, cavalariços e o maior número de homens e jovens possível, além de provisões, armas e montarias.
Chennai acordou com batidas fortes na porta. Ela abre a porta e se depara com Lyceus afoito: — O capitão está convocando todos os guerreiros. Temos que nos reunir no pátio imediatamente. Vamos rápido, se arrume.
Enquanto Chennai e Lyceus se apresentavam no lugar ordenado. Toris fugia furtivamente pelo portão, abandonando definitivamente a cidade.
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As portas do castelo se abriram e de lá saíram Lord Borik, Kurgan, Aragon e o abade Tully. Atrás deles vinha a princesa, seguida de Lady Marna e Joxer. O silêncio desceu sobre o local. O príncipe parecia examinar cada rosto. Sabia que muitos daqueles jovens nunca tinham estado numa batalha e teriam seu batismo de uma forma muito sangrenta. Sabia que viria a perder muitos homens, mas precisava de cada músculo disponível, de cada fibra de coragem.
O príncipe começa um discurso exaltando a honra e a coragem de todos ali presentes; dizendo que se orgulhava de todos eles e que o destino de um reinado era o destino de seu povo; instigava o ódio contra os invasores, e que o orgulho, a cidade e a bandeira de Cymru não irão cair. Terminado o discurso Lord Borik se ajoelha apoiado na espada curvando a cabeça, gesto que foi seguido por todos que estavam no local, para receber a benção do abade Tully. Apenas uma pessoa não manteve a cabeça baixa, insistindo em olhar a princesa.
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Mas pai por que Chennai tem que ir? — Gabrielle perguntava desesperada, com os olhos marejados.
— Minha filha... — O príncipe pensou por um instante. — Ela é uma guerreira treinada, hábil, forte e corajosa. Precisamos de todos. Fui informado que os nórdicos tem um exército em torno de mil e cem homens e nós somos oitocentos, com a vantagem dos muros da cidade. Não podemos dispensar nenhum guerreiro que tenha condições de lutar.
— Mande o Joxer no lugar dela. — Gabrielle exclama tentando um último recurso quase em prantos.
O príncipe sofria ao ver aquele rosto triste a sua frente, mas tinha que manter uma promessa, e com tristeza na voz diz: — Minha filha... — Lord Borik pensou por um instante e prosseguiu. — Eu a amo mais que tudo nesse mundo... Acredite que se pudesse atenderia seu pedido de bom grado, mas dei minha palavra a certa pessoa e a cumprirei enquanto for vivo.
— Mas o que...? Não estou entendendo. — A princesa questiona confusa.
Após alguns instantes de silêncio. O príncipe segurando a filha pelos braços e encarando-a com seriedade diz: — Filha... Não sei qual vai ser o resultado dessa batalha. Poderei morrer nesse confronto, portanto não quero manter esse segredo que pesa em meus ombros, mas quero que me prometa que não saíra dessas quatro paredes, entendeu?
A princesa se assusta, poucas vezes tinha visto o pai falar tão sério com ela. Prometendo manter sigilo, ela ouve a revelação que a deixa estarrecida. Gabrielle empalidece. Seu coração quase para.
Após alguns minutos recuperando-se do choque, com um fio de voz a princesa pede: — Pai..., antes de vocês partirem quero me despedir de Chennai. — Pediu a princesa com as lágrimas escorrendo pelo rosto.
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Enquanto Lord Borik discursava Chennai procurava o olhar de Gabrielle. A princesa evitava olhar para a guerreira, se esforçando como nunca em manter a aparência que sua condição de realeza exigia. Após o discurso Kurgan ordena que todos voltem para o alojamento ou para suas casas e se despeçam de suas famílias, pois partiriam antes do sol voltar a raiar.
Todos foram aos poucos se dispersando, mas Chennai permaneceu parada no pátio olhando o castelo. As memórias do encontro no jardim e do passeio da manhã anterior, onde finalmente ela e a princesa tinham se entregue a carícias mais ousadas não a deixavam em paz. De repente a voz de Lyceus a tira do devaneio em que estava. — Chennai, por que essa cara?
Com um profundo suspiro ela responde: — Não é nada. Só estava pensando.
Nesse instante um serviçal se aproxima. — Escudeira Chennai, a princesa quer que vá imediatamente ao seu encontro. Ela a aguarda em seus aposentos. — E retorna ao castelo.
O exército partiria antes do nascer do sol do dia seguinte. Seria sua última chance de ver e se despedir de sua amada. Com o coração amargurado a escudeira entra no quarto da princesa e a encontra encostada ao parapeito da janela olhando o horizonte.
A princesa ouve o barulho da porta se fechando, vira-se e depara com Chennai; corre e se atira em seus braços chorando. Embora tentasse se controlar a guerreira sente as lágrimas brotarem nos seus olhos. — Isso não pode estar acontecendo. — Chennai dizia a si mesma. Sentia como se seu coração estivesse sendo arrancado do peito e o nó na garganta a sufocava.
Permaneceram abraçadas por algum tempo sem dizer nada, apenas sentindo a insuportável dor da perda. Com esforço Gabrielle se controla e entre fungadas diz:
— Eu não sei o que fazer..., estou perdida. Não tenho como evitar que você vá. — Gabrielle envolve o pescoço de Chennai e com desespero na voz embargada diz: — Vamos fugir agora! Podemos sair da cidade ainda essa noite. Vou mandar preparar os cavalos.
O contato de seus corpos era um martírio para Chennai que responde: — Não posso. Só Deus sabe como gostaria de ficar contigo, mas não posso. Eu sou uma guerreira, e como tal não posso fugir das ordens de Kurgan, nem do príncipe. Lembra-se que jurei fidelidade a eles quando fui nomeada sua escudeira? É uma questão de dever e honra defender nossa cidade.
Num rompante se desvencilhando dos braços de Chennai a princesa diz: — Esqueça esse código de honra estúpido. Eu não quero te perder. Não agora! — Desesperada, percebendo que seus argumentos eram inúteis, aninhando-se no peito da guerreira, Gabrielle cai novamente num choro intenso. Entre soluços a princesa gagueja: — É o que acontece..., com as coisas que você ama... Às vezes, elas simplesmente te deixam.
Numa última tentativa Gabrielle apela: — Como sua princesa eu ordeno que...
Chennai interrompe a frase com um beijo apaixonado e doloroso de despedida, que foi correspondido na mesma intensidade. Não havia nada mais a dizer. Gabrielle sabia que ela jamais retrocedia quando tomava uma decisão.
— Tenha cuidado. Prometa que vai voltar para mim... Eu te amo. — Diz a princesa entre soluços.
— Eu prometo meu amor. Nada vai nos separar. — A guerreira diz emocionada. Com relutância elas se afastam. Acariciando seu rosto e beijando sua testa, sem mais nenhum gesto de carinho com um profundo e sofrido suspiro Chennai se despede:
— Adeus Gabrielle!
Sufocando a dor que rasgava sua alma, a guerreira se encaminha para a porta. O nó na garganta está apertando, sufocando, a angústia explodindo no peito. Chennai ouve os soluços que se perdem quando fecha a porta. Não tendo mais forças para se conter, grandes soluços amargurados saíram-lhe da garganta e as lágrimas escorreram pelo seu rosto descontroladamente.
................... A invasão nórdica.
A milhas de distância da cidade, do alto da colina oposta via-se o impressionante número de nórdicos que desciam a colina numa fúria bestial, berrando e batendo os machados e espadas nos escudos. O príncipe fazia questão de estar entre as primeiras fileiras, junto com Kurgan e Aragon. Os guerreiros já estavam com suas lanças em punho ou com os arcos já armados. Chennai parecia segura, mas Lyceus respirava fundo como tentando se acalmar. Com o consentimento do príncipe foi disparada a primeira saraivada de flechas sobre os nórdicos. Muitos homens caíram, mas nada parecia pará-los. Em seguida Lord Borik ordena que a tropa descesse a colina ao encontro do inimigo.
Os trotes vigorosos dos cavalos foram abafados pelos gritos de raiva dos nórdicos. O choque entre as duas forças acontece. O exército de Cymru era bem treinado e causava pesadas baixas nos nórdicos, apesar da inferioridade numérica. Toda a planície se transformou num mar de sangue. Viam-se pedaços de corpos por todo lado. Chennai tinha sangue nos braços e no rosto. Lutava com uma selvageria assustadora, massacrando quem se aproximasse. Mas mesmo com a destreza e agilidade dos soldados de Cymru, o inimigo ainda era maioria e logo começaram a impor sua superioridade. O príncipe ordenou que recuassem e mudou de estratégia. Ordenou que a cavalaria desse cobertura aos que estivessem a pé. Aragon reorganiza a força de ataque da cavalaria. Chennai já puxava as rédeas para obedecer às ordens quando viu Kurgan acenando para ela. Agitava os braços com a espada na mão. A guerreira corre até ele, que joga um corpo sobre o lombo do seu cavalo e dá um forte tapa na anca do animal. Olhando para trás ela vê Kurgan derrubando mais alguns nórdicos e montando no cavalo de Lyceus. A cavalaria e os soldados recuavam cada vez mais.
Assim que conseguiu uma distância segura, Chennai olha para trás tentando identificar o corpo que trazia consigo. Era Lyceus. Não acreditou no que via. No mesmo momento ela desmonta e puxa o corpo que cai mole em seu colo. O rosto sujo, o nariz coberto de sangue. Tinha um grande e profundo corte no peito e uma lança quebrada na barriga. Chennai entra em desespero. Ficou paralisada diante do corpo inerte do irmão. Lyceus abriu os olhos azuis e pegou sua mão. Ele estava frio... Um soldado chega neste instante, ofegante e diz:
— Ele foi derrubado do cavalo... e foi ferido por dois nórdicos. Quando vi, era tarde demais!... Não pude fazer nada.
Chennai sentiu uma dor profunda na alma. Onde ela estava que não pôde salvá-lo? — Ela se questionava. Tudo ao seu redor pareceu ficar em silêncio. A guerreira via apenas o rosto do irmão.
— ... diga a mamãe... que hoje lutei por ela... E que eu a amo muito... — Lyceus diz num último esforço.
A cabeça do jovem pendeu pesada para trás e seus olhos se fecharam definitivamente. Chennai sentiu que parte dela morria ali também. O coração parecia que ia explodir. Ela grita alto, agarrada ao corpo do irmão. Sente a cabeça rodopiar..., segurando o punho da espada como se a estivesse estrangulando, ela se atira sobre os nórdicos. Aragon tentou impedi-la, mas com uma fúria bestial ela já estava cravando a espada no pescoço de um, degolando outro, derrubando outro com golpe de escudo, rasgando barrigas e peitos. Com o rosto coberto de sangue ela parecia gostar do cheiro e do gosto da morte. Ela era a encarnação da morte. Kurgan veio ao encontro de Aragon e ordenou que levasse o corpo de Lyceus para a cidade. Com muito custo Kurgan conseguiu trazer Chennai de volta a razão, totalmente transtornada ela não ouvia as ordens do capitão.
Eles retornam para a cidade; o portão tinha acabado de ser fechado e mal tinham descido do cavalo, quando Aragon perguntou: — Lord Borik não veio com vocês?
Kurgan e Chennai se olharam atônitos. Ninguém sabia do príncipe desde a batalha. Kurgan estava ao seu lado no começo, mas o perdera de vista. Chennai pega um cavalo descansado e volta para o campo no mesmo instante, sendo seguida por Kurgan e Aragon. Tinham de encontrar o príncipe. Já tinham percorrido mais de uma milha quando se deparam com um grupo de nórdicos, roubando um homem que jazia com uma lança enfiada no peito. Os homens tiravam sua armadura, suas armas e suas valiosas vestes. Chennai reconhece o cadáver. Era o príncipe. Com gritos de fúria ela e os dois guerreiros atacaram o grupo com uma fúria bestial. Degolando, decepando braços, rasgando costas, rostos e peitos inimigos. O grupo foi exterminado sem piedade.
Voltaram para a cidade, acompanhados de alguns homens, a maioria feridos, que encontraram pelo caminho. Em seus rostos podia se ver o cansaço e o ódio misturados num semblante de dor. Um cavalo branco com alguns ferimentos e mancando trazia no dorso o corpo do príncipe.
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Chennai não conseguia pensar direito. Estavam dispostos no pátio do castelo os corpos dos que puderam ser resgatados do campo de batalha e entre eles seu querido irmão. Em choque a guerreira ficou no alojamento a noite inteira, sem se mexer, sentada num canto de parede, ainda suja, cansada e sem acreditar no que havia acontecido. Os corpos seriam enterrados em uma vala comum do lado de fora da muralha para evitar que doenças se alastrassem pela cidade. Chennai pede a Kurgan que autorize que seja dado a Lyceus um enterro mais decente do que ser enterrado daquela forma. E assim foi concedido o pedido da guerreira. O corpo de Lyceus foi enrolado em um tecido, sua espada colocada sobre seu corpo e enterrado próximo ao caminho da cidade. Chennai e Cyrene choraram juntas a perda do ente querido.
Um mensageiro é enviado ao Rei, avisando da morte de seu irmão durante a batalha. No castelo era providenciado o funeral do príncipe. Uma comitiva acompanhava o corpo de Lord Borik para o túmulo preparado as pressas. Nem mesmo o abade Tully conseguia esconder sua emoção. Gabrielle e Lady Marna choravam ao lado do túmulo e Joxer respeitosamente aguardava mais distante. Uma cruz foi esculpida com dizeres de saudades embaixo de seu nome. Um canto triste, as flores e o vento frio marcaram a despedida ao Príncipe Regente.
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Espiões acompanhavam todos os movimentos do inimigo. Impossibilitados de tomarem a cidade devido as grandes baixas que sofreram também atacando as muralhas, os nórdicos enfraquecidos recuaram para uma cidade próxima que haviam tomado recentemente. Chennai sugeriu que se montasse um esquema tático com a quantidade de homens que restaram do exército de Cymru; um contingente em torno de quinhentos e noventa homens. Kurgan e Aragon aprovaram a ideia e assim foi feito: As reservas de comida do inimigo foram envenenadas e diques foram criados nos riachos que abasteciam a cidade com água limpa e fresca. Com a cidade sitiada, só restava aguardar. Alguns homens foram perdidos nessas empreitadas, mas os resultados foram satisfatórios. O número de guerreiros nórdicos foi bastante reduzido. Com mortes, doença, fraqueza e o moral baixo espalhando-se entre o inimigo, o exército liderado por Kurgan atacou.
Um enxame de guerreiros furiosos entrou e derrubou tudo no seu caminho. Chennai, Aragon, Kurgan e soldados a cavalo aproveitaram o caos para entrarem profundamente na cidade. Derrubavam os nórdicos com golpes impiedosos, passando suas espadas sobre cabeças, peitos, barrigas e costas inimigas. O som de metais se chocando, os gritos de ódio e dor dos feridos de ambos os lados se misturavam num caos indescritível. Finalmente encurralados pelo exército de Cymru, os nórdico se renderam. Os soldados queriam degolar os sobreviventes para que não restasse nenhum nórdico, mas Kurgan com sua experiência e controle, ordena que os prisioneiros sejam levados para Cymru.
— A princesa decidirá o destino deles. — Ordena o capitão. E assim foi feito. Pouco mais de cento e oitenta homens foram enfileirados no pátio do castelo.
— O que quer que façamos com eles, Vossa Graça? — Perguntou Kurgan.
Do alto do patamar Gabrielle observava aqueles nórdicos selvagens que causaram tanta morte e devastação à sua terra. A morte de seu pai se desenrolou na sua cabeça nesse instante, mas os ensinamentos que aprendera com o pai e o abade Tully pesaram mais que os sentimentos de vingança.
— Leve-os para o calabouço. Eles serão usados na reconstrução das cidades e povoados destruídos.
Seguiu-se um tempo de reconstrução no principado de Crydee.
................... Selando um destino.
A comitiva do Rei e mais um reforço de cem soldados chega ao castelo com um dia de atraso. Apressado o Rei subiu até o interior do palácio, espantado ao ver no pátio dezenas de corpos serem transportados nas carroças para serem enterrados. O Rei procurava ansioso por sua sobrinha. Encontrou-a recolhida na capela do castelo. Como se sentisse estar sendo observada virou-se e encontrou o rosto pesaroso do tio. Em lágrimas ela correu para o afetuoso abraço. Já não parecia mais uma garota mimada e inconsequente e sim uma mulher crescida, marcada pela perda de seu pai.
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Nos dias que se seguiram o Rei, temporariamente alojado no castelo de Cymru, enviou tropas lideradas por Aragon e Kurgan, por todo território de Crydee, para destruírem todos os assentamentos nórdicos que restaram a fim de que suas presenças fossem totalmente eliminadas do principado. Com o inimigo erradicado da região, o Rei retorna ao seu castelo.
Um ano se passou. Era hora de esquecer o luto. Retornando numa visita à Cymru, o Rei oferece um banquete em que a graciosa princesa sentava ao seu lado; em determinado momento ele levanta-se; é feito silêncio no grande salão.
— Felicito a todos aqui presentes. Recentemente assistimos a acontecimentos terríveis. Aonde vimos vidas de corajosos soldados e súditos serem arrebatadas de seus entes queridos... — O discurso prossegue por vários minutos até que foi finalizado: — Por isso, na presença de todos, pelo poder a mim investido, quero anunciar que Gabrielle é agora a Princesa Regente de todo o território de Crydee, e sobre sua tutela estão todas as cidades e povoados nele existentes, bem como seu povo.
Um surto de uivos, vivas e palmas explodiu no salão e ecoou por todo castelo.
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Gabrielle agora com a maioridade é abençoada e coroada pelo Santo Padre, assumindo definitivamente o principado de Crydee. Mesmo com algumas divergências entre os ducados seguiu-se uma época de tranquilidade em todo reino da Nortúmbria.
Lady Marna se angustiava ao ver que Gabrielle sentia uma dor profunda que se recusava a revelar. Joxer tentava de todas as maneiras agradá-la, mas a cada dia que passava ela se tornava mais calada e triste, imersa em sua solidão. A princesa nunca tinha entendido certos princípios que o abade Tully tinha lhe passado, mas agora com o peso da responsabilidade compreendia que nem tudo pode ser feito à nossa vontade. A vida a separara de Chennai. A guerreira se tornara temida por suas habilidades e respeitada em todo reino. Uma lenda viva. Por seus atos de bravura na batalha, o Rei nomeou Chennai para o comando da tropa de fronteira com Anglia do Leste. Área que vivia em constante conflito com os Saxões.
A princesa percorria cada cidade avaliando o que estava sob sua tutela. Mesmo retornando cansada das viagens, Gabrielle criara o hábito de passear pelos jardins do castelo antes de se recolher. Ela sentava-se sob o caramanchão e deixava seus pensamentos se perderem em lembranças de seu pai e do quanto fora feliz nos momentos que passara nos braços de Chennai. Subitamente lembra-se da promessa que o pai fizera. — Sou uma idiota, porque não pensei nisso antes! — Esbravejou consigo mesma. Seu rosto se ilumina com um sorriso. Corre para o castelo com um entusiasmo a muito tempo não visto, surpreendendo Lady Marna. Obstinada, ela ordena que a Lady prepare tudo, pois no dia seguinte bem cedo partiriam para a corte do Rei. Não sabia se seus pedidos seriam atendidos, mas um pouco de drama, bons argumentos e chantagem sentimental..., quem sabe daria certo?! E sorriu ao se lembrar que Chennai sempre dizia que ela era insuperável nisso.
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Gabrielle retorna à Cymru com a promessa do Rei de avaliar seus pedidos. Já se passara um mês desde sua viagem à corte e até o momento não tinha nenhum sinal se o Rei iria atendê-la. A ansiedade a consumia, mas tinha que esperar. Não seria nada indicado pressionar uma resposta de seu tio.
O sol ameno iluminava o entardecer. Como de hábito Gabrielle se encontrava perdida em lembranças, sentada sob o caramanchão. Uma sombra vai se formando no chão de pedra. Era uma silhueta alta, porte forte de guerreiro. O vulto para na escada barrando a luz do sol.
— Gabrielle. — A voz firme foi reconhecida imediatamente.
A princesa parecia não acreditar no que via. — CHENNAI! — Grita e corre até ela.
Se abraçam com força, unindo o elo que o amor concretizou. Sorrisos e lágrimas se misturavam na euforia do reencontro. Elas se beijam com ardor apaixonado.
— Deveriam procurar um lugar mais reservado. — Disse Lady Marna que se aproximava.
Elas se separam assustadas; embaraçadas gaguejam algumas palavras, tentando justificar o ato. Mas a Lady se limitava a olhá-las sem dizer nada. A fisionomia séria da Lady tornava a situação cada vez mais constrangedora. De repente Gabrielle se dá conta que ela agora era a Princesa Regente, não tinha mais necessidade de uma tutora vigiando seus passos e não admitiria mais interferência na sua vida pessoal.
— Lady Marna, a senhora... — A princesa teve a frase interrompida por uma risada da mulher. Gabrielle e Chennai se entreolharam espantadas, sem entender o que estava acontecendo.
— Não se preocupe princesa, eu sei o que se passa entre vocês. — E olhando para ela com ternura continua: — Gabrielle eu cuidei de você desde seu nascimento. Eu a amo como uma filha que não tive; sei que já fez sua escolha. Meu único desejo é vê-la feliz. Peço que me veja como uma amiga leal que guardara seu segredo até a morte.
A surpresa deixa as duas mulheres atordoadas, com os rostos corados e caladas por minutos. Até que Chennai interrompe o silêncio. — Como..., como a senhora soube?
— Ora Chennai, sou uma mulher vivida. Já vinha observando suas trocas de olhares a muito tempo. Confesso que no início fiquei chocada, mas basta observar quando estão juntas que existe uma força inexplicável entre vocês. É como se suas almas tivessem nascido para ser uma só.
O levantar de uma sobrancelha denuncia a desconfiança de Chennai. — Se a senhora entende a nossa relação por que pôs tantos obstáculos antes?
— Eu tinha que zelar pela princesa. Percebi que ela estava apaixonada por você. Não queria vê-la sofrer por uma relação sem futuro. — Responde Lady Marna.
Gabrielle e Chennai sentiam uma mistura de surpresa, nervosismo, embaraço e confusão.
E se dirigindo para a princesa a Lady continua: — Quando percebi sobre vocês, dobrei a vigilância sobre Joxer, para que ele não a seguisse o tempo todo e por ciúme viesse a comentar coisas com seu falecido pai. Mas nem sempre era possível vigiá-lo. — E a Lady completa: — Mas a partir de amanhã vocês não terão mais que se preocupar com ele.
O olhar da princesa brilha. Eufórica ela gagueja: — Então..., o Rei atendeu meu pedido?
Lady Marna confirma com um sorriso e um balançar de cabeça. — Confesso que senti o coração apertado ao ver a tristeza com que ele recebeu a notícia, mas são ordens do Rei.
Gabrielle não se controla mais e pula no pescoço de Chennai que sem entender o motivo de tanta alegria olha para ambas procurando uma explicação.
— Agora se me permite Alteza, vou cuidar dos meus afazeres e deixá-las a sós, pois sei que vocês tem muito que conversar e, por favor, procurem não se expor tanto em público, é perigoso. — Diz a Lady ensaiando um sorriso e completa: — E não se atrasem para a ceia.
Chennai olhava atônita para a princesa. Por fim ela diz: — Você pode me explicar o que está acontecendo?
A princesa não cabia em si de contentamento, seu rosto estava iluminado por um sorriso radiante, os olhos readquiriram o brilho da felicidade. Ela questiona Chennai. — O Rei não mandou me entregar nenhum documento?
— Oh sim, é mesmo. Com tudo que aconteceu acabei me esquecendo, me perdoe princesa. — Responde a guerreira entregando uma carta lacrada com e selo real.
— Não estamos em público, não me chame assim, por favor. — Pediu Gabrielle, com voz suave. Ela abre a carta e lê saboreando cada palavra. Quando termina pressiona a carta contra o peito com um profundo suspiro de alívio. Olha para Chennai que continua esta cada vez mais confusa.
— Venha, você deve estar cansada da viagem, vou mandar preparar um banho, roupas e acomodações para você, meu amor. — As últimas palavras soam como uma música divina nos ouvidos de Chennai que se deixa conduzir como uma criança.
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Durante a ceia procuram falar sobre fatos que aconteceram durante o tempo que ficaram separadas. Por ordem da princesa Chennai é colocada num espaçoso aposento logo abaixo do seu. Por fim acham por bem se recolherem, pois a noite já ia adiantada. Ambas se despedem e se encaminham para seus respectivos aposentos.
A porta foi aberta logo após a terceira batida. O vulto encapuzado entra rapidamente. Chennai tranca a porta, caminha até o vulto e abaixa o capuz descobrindo o lindo rosto que se ilumina com um sorriso sem igual. Os olhos verdes brilham de alegria. Chennai a ergue do chão rodopiando abraçada a Gabrielle. As duas estão extasiadas de felicidade. Chennai a coloca delicadamente no chão e beija Gabrielle com paixão e desejo. A princesa corresponde com o mesmo furor. As roupas vão sendo despidas entre carícias de lábios, línguas e mãos. Suspiros apaixonados junto aos ouvidos causam arrepios, línguas ávidas examinam cada contorno de orelhas, seios, ventres e coxas. E por fim bocas e mãos encontram as grutas úmidas de seus sexos. E a noite de prazer se inicia. A entrega dos corpos com sofreguidão se dá por várias vezes até que num último êxtase de orgasmo elas se entregam a um cansaço reconfortante e incomparavelmente maravilhoso. Chennai acomodando-se na cama deu um profundo suspiro, beijou a franja molhada de suor de Gabrielle e aninhou a pequena princesa em seu peito. Gabrielle suspirou profundamente e sorriu.
Chennai permaneceu calada, com olhos fechados acariciando os sedosos cabelos de sua princesa. Sentiu que estava sendo observada por Gabrielle. Por fim rompendo o silêncio a guerreira falou: — Agora que as coisas estão no lugar. Você poderia me explicar essas coisas que aconteceram?
Gabrielle abre um belo sorriso e começa dizendo que iria quebrar uma promessa que fizera ao seu pai de jamais revelar um certo segredo, mas ela confiava totalmente em Chennai e não fazia sentido manter segredos com a pessoa a quem ela entregara sua alma, seu corpo e seu coração.
— Joxer é meu primo. — Revela a princesa.
Chennai arregala os olhos. O berro de surpresa não conseguiu ser controlado. — O QUÊ?... SEU PRIMO?
— Por Deus, quer que todo castelo ouça? — A princesa repreende.
— Desculpe-me, não pude evitar..., eu jamais imaginaria tal coisa... Seu primo? Tem certeza? — Disse Chennai murmurando ainda incrédula.
— Ora essa, é claro que tenho. Meu pai me disse que ele é filho bastardo de meu tio com uma aia de sua corte. Como o Rei não queria escândalos pediu que meu pai o abrigasse na nossa corte e meu pai manteve a palavra. — Responde a princesa.
Chennai fica pensativa; após alguns segundos diz: — Gabrielle, ele a ama.
— Mas eu não o amo. O máximo que sinto por ele é uma afeição de amigo, nada além disso. Afinal fomos criados juntos desde crianças. — Gabrielle respondeu.
— E o que Lady Marna quis dizer que não teremos que nos preocupar mais com ele? — Chennai pergunta.
— Nessa última viajem, fiz uma proposta ao meu tio. Com o falecimento de meu pai, eu estaria desobrigada da promessa de manter Joxer aqui, ele já é um homem feito. Portanto propus o retorno dele para a corte do Rei.
Chennai se surpreende com a esperteza da princesa. — Ele pode ser seu tio, mas é o Rei, esqueceu-se disso? Até mesmo você deve obediência a ele. — após uma pausa. — E se ele ordenasse a permanência de Joxer na corte?
— Ele pode ser o Rei, mas apelei para seus sentimentos. Ele não tem herdeiros, a rainha não pôde lhe dar filhos. Então nada mais justo que aproximar pai e filho, você não acha? — Gabrielle dá uma risada.
Chennai esta cada vez mais espantada com a loira. — Você me deixou sem palavras. — A guerreira responde sorrindo. Aconchegando Gabrielle em seu colo, Chennai fica em silêncio, pensativa. Os minutos se passam. A princesa estranha a quietude de sua amada.
— Em que você está pensando? — A princesa questiona.
Após um profundo suspiro, Chennai responde com a voz triste: — Seria maravilhoso se pudéssemos permanecer juntas, mas em dois dias terei que retornar a Anglia do Leste.
— Você não vai mais voltar para Anglia. O Rei autorizou seu retorno para corte. — Informa a princesa.
A surpresa é tamanha que Chennai dá um pulo na cama. No mesmo instante o estado de espírito de Chennai mudou completamente. — Ele autorizou? Como assim?... Do nada? — Ela pergunta desconfiada.
— Mostrei ao Rei que Crydee é um território muito extenso. Estou cada vez mais ocupada com os assuntos do principado, e necessito de uma pessoa de confiança ao meu lado para me ajudar. Você é respeitada em todo principado e serviu meu pai fielmente, então não existe pessoa mais indicada para ser minha Conselheira. — Gabrielle revela.
Passado o choque da notícia Chennai dá uma sonora gargalhada, admirada com a astúcia de Gabrielle.
— Pelo amor de Deus, você quer acordar o castelo todo? — Reclama a princesa.
Chennai não responde se limita a abrir seu lindo sorriso agradecido e beija as mãos de Gabrielle, demorando-se para poder sentir o cheiro daquela pele macia; em seguida abraça sua princesa e carinhosamente a beija. Lágrimas de emoção brotam nos seus olhos.
— Serei eternamente grata minha princesa, minha vida..., meu amor. — Diz Chennai.
— Quero apenas que você nunca me deixe e que me ame como sempre te amarei até o fim dos meus dias. — Responde a princesa com brilho de felicidade nos olhos cor de esmeralda.
— Meu amor será eternamente seu. Estarei sempre contigo minha amada. — Chennai responde entrelaçando os dedos firmemente com Gabrielle.
Um apaixonado beijo sela um compromisso de amor eterno, incondicional e único entre uma princesa e uma guerreira.
Continua...
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