A is for Love

1 Toda forma de A


Notas iniciais
Oioioioi!

Nem acredito que já estamos no dia 19, nem que essa é a 4ª (de 6) fics que estou entregando para esse projeto.
Hoje, em específico, é um dos dias que eu mais estava ansiando, depois da estreia de TFIAS, por partilhar com escritoras incríveis e por ser um dia repleto de fics Ace.
Ano passado, Thaís escreveu uma obra-prima, delicada e sensível, sobre o Charlie ser assexual, e ela nem mesmo sabe, mas essa fic foi um gatilho para que eu fosse atrás de me entender.
Depois de anos me sentindo muito como a Lily se sentiu aqui, foi por conta de uma fanfic que eu passei a perceber que talvez eu fosse uma letra A. Essa fic é um pouco de sentimentos pessoais, um pouco de medos pessoais e um pouco de normalizar falar sobre assexualidade.
Daí surgiu A is for Love, que precisava ser sobre meu casal favorito, que me trouxe de volta à escrita, e que tem amor de sobra para dar.
Deixo um beijo para a Prongs, a Saint Jily e a Morgan, que postaram hoje também e vieram encher esse fandom de histórias sobre amor. Em todas suas formas!

Espero que gostem!

uma playlist de mpb que inspirou essa fic

Todas as coisas têm um começo, e isso é um fato.

Mas muitas vezes tende-se a achar que os começos são lentos e preparados. Que tudo acontece vagarosamente e de maneira planejada. Nem sempre é verdade.

Às vezes, as coisas simplesmente começam. Os fatos e acontecimentos se despencam um a um e, quando se vê, a história já está na metade e nem se sabe como chegou ali; a maioria das pessoas não percebe que está vivendo o começo de algo, apenas vive.

E, assim como Hitler invadir a Polônia não foi entendido como "o começo da segunda guerra mundial" até muitos anos depois, quando historiadores revisitaram isso, Lily Evans não tinha como saber que ter ido àquela estúpida festa de fechamento do ano letivo seria o começo de uma série de paranóias.

— Espera… vamos recapitular tudo com calma, porque acho que estou perdida. — disse Alice, a melhor amiga de Lily, enquanto servia um copo de suco na cozinha. — Você chamou Severus para ir com você à festa.

— Isso.

— Como um encontro?

— Isso. — repetiu Lily, sentada na bancada.

— Então vocês dançaram, beberam… e ele simplesmente surtou no final? — perguntou Marlene, a outra melhor amiga, esperando ficar pronto o lanche que preparara.

— É… quer dizer, não. Mas sim. — disse, confusa.

— O que aconteceu, afinal?

— Ele me chamou de esquisita. Porque eu não quis ficar com ele.

Marlene revirou os olhos, desaprovando o rapaz com uma careta.

— Ficar beijar, ou ficar transar? — Lily corou diante da pergunta.

— Os dois. Nenhum deles, no caso.

— Nojento! — concluiu Alice.

— Mas achei que você estivesse querendo alguém…

— Eu estou, Lene!

— Mas não ele? — perguntou Alice e Lily concordou com a cabeça. — É, eu entendo… ele tem cara de que é meio grudento. E que não lava o cabelo direito.

Marlene soltou uma gargalhada. Definitivamente Severus tinha cara de quem não lavava o cabelo com frequência. E de que justificava saúde para tal nojeira. James e Sirius o detestavam e há meses o chamavam de Jake Gyllenhaal como piada interna. Se James soubesse que Lily saíra com Severus, implicaria com ela até o inferno.

— O problema não é ele… eu acho.

— Qual o problema, então?

Lily passou a mordiscar a boca antes de falar, como que ponderando se deveria dizer o que se passava em sua cabeça, assim, levantou-se e foi preparar seu próprio sanduíche, porque achava que seria mais fácil tocar no assunto se não estivesse de frente para as amigas.

— É só… sabe, eu… eu não sei bem como colocar. Acho que eu devo estar ficando meio doida, na verdade. Mas depois do que o Severus falou ontem, eu fiquei pensando muito… devo ser defeituosa, só pode!

Marlene e Alice explodiram em risadinhas e Lily corou, ficando quase do tom de seus cabelos ruivos.

— Não ri, gente! Eu falando sério! Eu acho que eu vim… sei lá, com um defeito nos sentimentos! Eu não sei gostar das pessoas, amar… sei lá!

— Que isso, Lily! Que papo é esse? — Alice perguntou, sendo a primeira a levar o assunto a sério.

— É sério! Eu não se-

— Lil, você é a pessoa mais carinhosa que eu conheço. Não tem essa. — pontuou Marlene.

Lily prendeu os cabelos, pensando em como iria verbalizar as ideias que tinha na cabeça, porque, quanto mais repensava naquilo, mas fazia sentido que ela tivesse uma avaria severa no seu lado afetivo.

— Não sei explicar, gente… só, não é como todo mundo. É diferente.

— Diferente como?

Ela parou um pouco para pensar.

— Diferente tipo, eu acho as pessoas bonitas, legais… só não… sabem? Não me atraio por elas, no geral, eu acho. É como se as pessoas não… não fossem interessantes, ou… Faz sentido?

Alice fez uma expressão confusa, enquanto Marlene simplesmente negou com a cabeça.

— Você não acha que só está colocando, tipo, um padrão alto demais? — conjecturou Marlene. — Porque ninguém vai ser, tipo, um senhor Darcy da vida, sabe? Mas não quer dizer que sejam pessoas ruins, embora, claro, você só vai descobrindo isso ao longo de estar ficando com a pessoa, e tal…

— Acho que você tem medo de se decepcionar, Lily. — acrescentou Alice. — Mas isso faz parte, amiga. Ter o coração partido e tudo…

Quando ela pensou em compartilhar aquelas ideias, ela já sabia que seria difícil que Alice e Marlene a entendessem, mas não achava que seria tanto. Não era sobre inseguranças, ou expectativas altas. Era só que… parecia que ninguém que Lily conhecia em aplicativos ou festas fazia seu olho brilhar. Ou seu corpo arder, tampouco; já que era o que Marlene costumava dizer que sentia.

— É só que eu não consigo me ver namorando ninguém que conheço casualmente, entendem? E pensar em beijar alguém que eu não sei nada sobre, que conheci naquele segundo, numa festa, é tão… esquisto, sei lá!

— Se fosse o Harry Styles… — comentou Marlene e Alice deu risinhos.

Lily não teve coragem de dizer que, por mais que adorasse as músicas, o estilo, e mesmo achasse o ex-One Direction um perfeito exemplar do sexo oposto em todos os aspectos, ela não conseguia pensar em beijá-lo. Não de repente, pelo menos. Não em uma ocasião aleatória como era a hipótese.

— Você não acha que pode ser uma insegurança? Por nunca ter namorado, sabe? — Alice retomou o assunto.

— Pode ser… — ela deu de ombros. — Mas eu não sinto como se fosse. Eu só… não sei, me sinto esquisita até de pensar em ficar com essa galera com quem eu saio às vezes, sabe?

E realmente era "às vezes", porque Lily quase nunca saía sem os amigos, para encontros ou conhecer gente.

— Então por que sai com eles? — perguntou Marlene, como se fosse óbvio. — Saia com quem você queira pegar, amiga, pelo amor de Deus!

— E se eu não sentir que quero pegar ninguém? — perguntou, quase constrangida, e Marlene a olhou como se ela fosse um ET. — Eu sou completamente maluca, não sou?

As três caíram na risada, sem qualquer conclusão.

— Você é só tímida e insegura, Lil. Vou doar um pouco da minha autoconfiança para você, e aí… já era! Caiu na rede, a pescadora Evans estará pegando — resumiu Marlene e ela riu.

O assunto mudou, porém, Lily não parou de se sentir um peixe fora d’água com aquilo. Parecia que ela era, de fato, uma esquisita, como dissera Severus, como se não soubesse achar seu lugar naquela caixinha complexa que era a vida amorosa.

Cada vez mais estava se convencendo de que a sua irmã estava certa em chamá-la de anormal, considerando que era exatamente assim que se sentia naquele aspecto de sua vida. Já fazia alguns anos que ela se achava deslocada no tema sexualidade. Sentia que perdera o timing para ter as dúvidas que tinha e que suas inseguranças não cabiam mais.

Marlene fora a primeira a ter um beijo, com 11 anos, e Alice namorava um amigo delas, Frank, desde o ensino médio, somando quase seis anos juntos.

Sirius, Remus e James, os outros três membros do grupinho especial de amigos de infância que eles eram, também tinham suas cotas de experiências. Todos eles conheciam suas sexualidades e lidavam bem com isso, e Lily sentia como se fosse uma espectadora de algo que não entendia como funcionava.

Não tinha ideia de como expressar que ela não ficava desesperadamente agoniada por não ter transado naquele mês (Deus permitisse que Marlene nunca descobrisse que Lily ainda era virgem!), ou que ela não se lembrava de já ter sentido algo como seus amigos, que saíam para baladas e arrumavam parceiros de uma noite.

Na verdade, Lily se sentia estúpida de admitir que, aos vinte e um (quase dois) anos, ela não tinha tido mais do que alguns crushes inocentes na época de escola (todos não retribuídos e muito sofridos), e alguns beijos que conseguia contar nos dedos de uma das mãos. E nenhum deles a tinha feito sentir calafrios e borboletas no estômago como todos os livros de romance diziam que ela devia sentir.

Lily não sabia sequer o que questionar em si mesma, e foi exatamente por conta disso que as coisas começaram.

•••

— Por favor, me diga que as praias de Ibiza não estavam tão boas sem mim e por isso você voltou! — comentou James assim que ela passou pelo desembarque, puxando-a para um abraço.

— Eu não quero aumentar seu ego, mas claro que não estavam. — Lily riu. — E você acabou de perder esses óculos de sol.

Os óculos que antes estavam na gola da camisa polo de James rapidamente pararam no rosto de Lily e o rapaz achou graça, pegando a pequena mala dela e levando para o estacionamento.

Lily realmente adorava viajar, mas nada se comparava a voltar para casa, principalmente depois de dias com sua família insuportável por parte de pai. Nada era tão relaxante quanto saber que não precisaria mais ouvir piadinhas sobre seu corpo — que tinha sobrepeso, sim, mas era completamente saudável! — ou sobre ter exagerado em batatas fritas.

Ela estava de férias!

— Seus pais realmente só vão voltar mês que vem?

— Pois é… eles vão ajudar a Petúnia a alugar um apartamento para durante a especialização e aí adiaram a passagem para o dia dois. — explicou Lily, entrando no banco do passageiro e colocando a mochila nos pés.

— Sabe o que isso significa? — Lily negou, dando de ombros enquanto James passava pela cancela de saída do aeroporto. — Sua festinha de 22 no dia trinta!

— Ah, qual é, eu falei que não queria festa!

— Shiiiu! A Marlene já planejou tudo, e você vai fazer carinha de surpresa e fingir que eu não contei para você… agora anda, faz algo de útil e coloca uma música para a gente aí, vai…

James era quase uma cópia de Lily quando se tratava de gostos. Compartilhavam o vício em sagas de fantasia e livros de ficção policial e, até mesmo, tinham escolhido carreiras próximas, na área da saúde. As preferências musicais não eram uma exceção e tudo que um costumava achar e gostar, apresentava para o outro.

Naquela época, a descoberta do momento era a bossa nova e foi o que eles foram ouvindo até a casa de James, na rua dela, com os vidros do carro abaixados e sentindo o vento agradável do começo da tarde.

Com ele era sempre assim: música boa, cantoria e muitas risadas. Abraços gostosos, leveza e aquela felicidade em forma de calafrios, que se espalhava até a boca do seu estômago, com um quentinho no peito por ter um melhor amigo desse jeito, que a fizesse tão especial. Às vezes, era como se só ele conseguisse compreender Lily totalmente.

— Eu vou roubar essa mulher para mim. — cantarolou ele com o sotaque carregado, enquanto estavam em um sinal fechado.

— Pensa bem, se ele nem sabe o nome dela, como pode ligar a qualquer hora? — pensou Lily, fazendo James rir. — Essa letra não faz o menor sentido!

— Licença poética, ruiva… aliás, falando nisso! — ele puxou um caderno de desenho do banco de trás. — Dá uma olhada nos meus rabiscos novos…

— E mais uma vez James Potter não estudando anatomia para ficar desenhando… — riu, folheando até a última página desenhada.

— Ei, arte é uma forma de terapia.

— Mas não de fisioterapia. — frisou ela. — A universidade vai cobrar, James… aliás, você vai conseguir pegar aquela matéria comigo?

— Eu espero. É bom um fisioterapeuta ter alguma noção de enfermage-

— Meu Deus, que absurdo! — ela exasperou, interrompendo o raciocínio dele. — Esse desenho está perfeito!

James tinha reproduzido uma das fotos mais curtidas de Lily no instagram, em forma de desenho colorido com técnica de pontilhismo. Uma foto que Marlene tirara de Lily rindo contra o por do sol, um copo de café em uma mão e o queixo apoiado na outra. O garoto sempre fora talentoso, exímio desenhista desde a escola, mas aquele era um desenho fenomenalmente bem executado.

— A modelo ajuda. — ele comentou, piscando. — Você gostou? Eu fiz este como um teste, para o seu presente.

— Você nem é de verdade, James Potter! Você é, tipo, um personagem de filme de romance da Disney, interpretado pelo Tom Holland, de tão perfeito! Você fez um desenho meu em pontilhismo! Em fucking pontilhismo, James!

— Me diga o que eu não faço por você nessa vida, ruiva? — sorriu para ela, esperando o engarrafamento.

Lily sorriu, fazendo um carinho no braço dele e gravando um vídeo instantâneo para postar, exibindo o desenho e o desenhista, que ria com os comentários dela e cantava bossa nova.

•••

A ideia de uma festa na piscina como comemoração de aniversário realmente não estava nos planos de Lily, mas não era como se ela estivesse reclamando do que Marlene e Alice tinham organizado, pelo contrário. Ela estava adorando ser mimada daquela forma.

Os pais de James tinham gentilmente cedido a casa de campo para aquela dúzia de jovens se reunirem e aproveitarem o aniversário de Lily, porque eles tinham visto a menina crescer, e as famílias Evans e Potter eram tão amigas que eles fizeram questão.

Havia cervejas, drinks, e uma decoração cuidadosamente feita à mão por Alice em tema de luau, fruto de suas habilidades de quem cursava pedagogia. Nada mais agradável do que bebidas geladas, vento fresco das noites de verão e rodas de conversa.

— E lá vem a convidada menos especial da noite. — brincou Sirius quando ela saiu de dentro de casa com uma bandeja de petiscos em mãos e o vestido florido esvoaçando ao vento fresco.

— Nossa Lilypad. — James segurou a mão de Lily e a fez dar um giro em torno do próprio eixo. — A menina que arremessava areia no meu cabelo, fazendo vinte dois.

— Você merecia, Potter. — riu-se, sentando-se ao lado de Sirius e deixando que ele desse um beijo no topo de sua cabeça e cheirasse seu cabelo perfumado e escovado.

À beira da piscina havia sofás e pufes confortáveis e uma pequena churrasqueira, que preparava hambúrgueres. James dedilhava músicas indecifráveis no violão, conversando com Dédalo Diggle, amigo dos tempos de escola, e Remus. Lily se juntou a eles e logo também Marlene e Alice vieram, com seus copos de bebidas, acompanhadas de Frank, Dorcas (que estudava com Lily e beijava Marlene há alguns meses), Héstia (a namorada de Dédalo) e Emmeline (também da faculdade de Lily).

Às conversas se emendaram várias bebidas, música alta, e o luau virou uma espécie de balada privada, com os jovens todos dançando juntos. Remus e James se revezavam com Lily, e a impediam de ficar apenas sentada observando e cantando.

— Eu tenho vergonha! — gemeu ela, quando James a puxou pela terceira vez.

Dançar não era muito a sua arte. Aliás, nenhuma arte era a sua. Lily era dos esportes, da natação e do tênis, medalhista e tudo. Ela costumava brincar que ela era a parte esportiva que faltava ao lado artístico de James.

— E eu não ligo! É seu aniversário, Lil… ninguém vai julgar a aniversariante! — respondeu ele.

Logo Sirius apareceu com um copo de drink com vodca, a bebida favorita de Lily, em mãos, com decoração e canudo metálico colorido. Sirius era o charme, o carisma e a alma das festas, e era impossível negar qualquer coisa a ele quando sorria com um copo de bebida na mão.

— Para você não dizer que eu não gosto de você, ruiva. — estendeu para ela e Lily riu, abraçando Sirius e bebendo com ele.

— Basta um centavo de confiança para ela, você sabe… — James piscou e ela mostrou a língua como uma reprovação.

Eles estenderam a comemoração por horas e cantaram parabéns à meia noite, quando finalmente era o aniversário de Lily, colocando o hino internacional dos vinte e dois anos de Taylor Swift para tocar alto na caixa de som. Remus trouxe cobertores para todos, à beira da piscina, e James ficou tocando violão, harmonizando a conversa durante a madrugada.

Os casais estavam aninhados juntos e não demorou para o assunto ser a vida amorosa dos que estavam solteiros. Marlene, alterada, insistiu algumas vezes que Lily deveria ter chamado algum paquera para dar uns bons pegas e passar um aniversário acompanhada, fazendo-a ficar desconfortável.

Desde o começo das férias, Lily tinha enfiado no fundo de sua cabeça aqueles pensamentos sobre ser esquisita e seu lado defeituoso. Mas, como toda boa insegurança, ali estavam eles, prontos para retornarem ao menor gatilho que alguém pudesse dar. Todos passaram a dar opiniões e pitacos, comentando sobre amigos que poderiam apresentar a ela, e tudo só parecia pior a cada segundo. Ninguém aparentava notar que Lily estava desconfortável, apenas absorvendo a conversa.

— Alguém está quase dormindo aqui. — comentou Frank muito depois, em voz baixa, acariciando os cabelos de uma Alice sonolenta. — Eu acho que vamos entrar, gente.

— Meninas em um quarto, meninos no outro, Frankie. — Marlene apressou-se a lembrar, ao que ele concordou. — A gente vai dormir também, né, amor?

Dorcas concordou com a cabeça, deixando um beijinho no pescoço de Marlene e, pouco depois, elas também foram se recolher, assim como Héstia e Dédalo. Sirius e Emmeline sumiram algum tempo depois e, a tirar pelos olhares que tinham trocado a noite toda, não tinham ido dormir.

Lily esperava que Marlene não fosse se importar, agora que estava quase comprometida, porque, antes de Dorcas, ela tinha uma amizade com benefícios com Sirius e sempre houvera a dúvida sobre ela gostar ou não dele. Aparentemente não, ou já o superara.

E Lily nem conseguia sequer gostar de alguém. Patética e esquisita.

— Vocês não vão entrar? — perguntou James, afundando as mãos no bolso do moletom, bocejando pela sonolência que o ar gelado do amanhecer provocava.

— Vou já. — Lily respondeu, encarando a piscina, pensativa.

— Logo menos, Prongs. — acrescentou Remus, quando James o olhou.

— Boa noitinha para vocês então. Feliz aniversário, Lil.

James agachou-se perto de Lily e beijou o topo de sua cabeça, afagando os ombros da menina, e assim foi embora. Lily conseguia sentir os olhares de Remus sobre ela, enquanto compartilhavam o silêncio da madrugada com alguns grilos.

— Não tem nada de errado com você.

Ela não soube o que dizer, então ficou quieta.

— Não tem nada errado com você, Lil. — Remus esticou-se e tocou no joelho dela, para chamar a sua atenção. — Ei, é sério. Não liga para o Sirius e os pitacos dele na sua vida amorosa, ele é um babaca, às vezes.

Lily soltou o ar pelo nariz, como uma risada sem humor, e cruzou as pernas sobre o sofá, voltando-se para Remus.

— Não, tá tudo bem. Sirius não foi babaca… eu… eu sou esquisita mesmo, Rem.

— Você não é esquisita.

— Fala sério, eu sou completamente anormal! — retrucou ela, revirando os olhos e sentindo a chateação daqueles pensamentos. — Quantas pessoas de vinte e dois anos você conhece que nunca namoraram ninguém, Remus?

— Para de falar assim de você mesma, Lily! Eu conheço, sim, outras pessoas que nunca namoraram, e é perfeitamente okay. Ninguém pode julgar você por não quere-

— É esse o problema! — ela se exaltou, falando alto. Quando notou, fez uma pausa, voltando a falar depois. — Eu quero gostar de alguém! Eu só… só sou anormal demais para ser como todo mundo, para gostar e ficar com alguém…

— A gente vai cortar essa autodepreciação e vai conversar com calma. — ele se mudou para o lugar ao lado de Lily no sofá, aninhando-a em um abraço. — O que tá passando nessa cabecinha?

Sempre Remus, com seu delicado essencial, sua paciência e seu jeito ponderado e tranquilo de avaliar os problemas.

— Marlene contou para você?

— O que aconteceu com Snape? Foi Alice quem contou, mas sim. Que ele chamou você de esquisita… ele é um morcegão amargurado e obcecado, Lil… se James souber, juro que ele quebra o focinho de Snape por você. Ele só quer um motivo, no caso. — ela riu pelo nariz.

— É, eu sei… mas ele não está todo errado. Snape, no caso. Eu acho que estou ficando maluca, Remus… mas eu juro que não consigo me entender, eu sinto que… sinto que…

— Quê?

Lily respirou fundo e hesitou, como se doesse falar daquilo.

— Por que eu não consigo gostar de ninguém? Por que eu não consigo olhar para alguém bonitinho e querer dar uma chance para ele?

— Você se vê… não sei, sozinha?

— Não! Não é isso. — Lily mexeu no cabelo com nervosismo e Remus fez um cafuné, para acalmá-la. Então ela continuou a falar. — Você sabe como eu amo romances e carinho… e como eu sempre quis isso de namorar com um cara legal e todos aqueles clichês…

— Mas…? — pontuou Remus.

— Mas eu só… não consigo. Quase sempre não consigo sentir vontade de ficar com alguém, e, meu Deus, muito menos transar. Acho que nunca vou conseguir ter vontade de transar na minha vida! — o rosto dela ardeu com a confissão que nunca tinha feito. — E é horrível me sentir um alien esquisito perto da Lene e da Alice…

Remus ficou em silêncio, apenas ouvindo, assim Lily continuou a falar sobre seus sentimentos e experiências.

— Eu senti nada quando beijei a primeira vez, e poucas vezes depois foi bom, nas festas do ensino médio. Não é possível ser assim! Tem como alguém não gostar de ninguém, mas querer gostar?!

— Gostar e sentir atração são coisas diferentes. — ele comentou. — Lil… por acaso, você já leu algo sobre assexualidade?

A palavra não lhe era estranha, mas dizer que sabia do que se tratava seria um exagero.

— Já ouvi algo, eu acho. Mas eu não sou, tipo, um ponto morto de marcha de carro, sabe? — Remus deu uma gargalhada com a comparação, e Lily sorriu. — É sério, eu gosto de carinho, gosto das pessoas… eu amo você, e Sirius, Lene, Alice, James…

— Lily, assexualidade não tem nada a ver com amar ou não. E primeiro que existem, tipo, um zilhão de tipos de amor. Assexualidade tem a ver com não sentir atração sexual, ou senti-la parcialmente… alguns dizem que até condicionalmente, então é um espectro bem amplo.

— É uma… síndrome? Preciso ir ao… médico? Psicólogo? — Remus riu com a cara de preocupação de Lily.

— É completamente normal, Lily. É uma orientação sexual… como qualquer outra.

— E você acha que eu sou isso? Assexual?

— Só você pode saber se é, Lil… eu levei anos para saber que era.

— Achei que você era bi! — comentou, chocada, e Remus riu.

— E eu sou. Sou os dois. Quer dizer, tudo depende do seu referencial. Sou bissexual e minha atração sexual é condicionada por um vínculo emocional… Demissexualidade, que chama. Alguns dizem que é um espectro da assexualidade, outros que é algo separado, mas acho que não faz diferença rotular, sabe? — Lily assentiu, atenta. — Em resumo, eu tive muito poucas experiências, mas todas eram com pessoas emocionalmente próximas de mim.

Alguma coisa se mexeu dentro de Lily. Algo girou e pareceu ficar mais próximo de se encaixar com todas as outras partes dela, e, de certa forma, Lily se sentiu acolhida, feliz que existisse algum recorte do mundo amoroso em que ela pudesse ser normal.

— Tipo… — ela hesitou, mas se havia um momento em que poderia perguntar o que pensava, era aquele. — Tipo você e o Sirius?

Remus sorriu e desviou o olhar antes de responder e Lily teve certeza de que ele se chateara com a intromissão.

— Uhm, você é bem espertinha, eim? Sim, foi fácil me atrair pelo Sirius porque temos um vínculo forte e ele é alguém especial…

— Mas não deu certo? — Lily perguntou, embora de certa forma soubesse a resposta.

— Deu muito certo, como uma ficada por um tempo. — Remus hesitou, como que escolhendo as palavras, mas não parecia mal pelo assunto. — Mas nunca daria certo de outro jeito. Sirius é… é solto, e livre, e toda a história de ele não se rotular… Sirius não é o tipo de pessoa que almeja um namoro, ou coisinhas românticas… mas não quer dizer que ele não ame. Faz sentido?

Lily ficou um tempo pensando naquilo, incerta se conseguia entender o conceito do que Remus estava falando.

— Acho que sim, faz — disse por fim. — A gente devia ir dormir… tenho certeza de que James preparou algo para mais tarde.

— Não seria o James se não preparasse. — ele sorriu cúmplice. — Mas, hey, Lil… você devia mesmo ler sobre assexualidade. Não é nada saudável se sentir anormal, esquisita, muito menos se forçar a fazer algo que você não gosta, por uma convenção… é sobre se sentir bem com você mesma, no fim das contas.

Ela não conseguia pensar numa vez em que Remus tivesse estado mais certo.

•••

Todas as coisas acontecem em etapas. Isso também é um fato.

Os reis franceses primeiro gastaram horrores, então isso levou a uma Revolução. A revolução deu importância aos postos militares, o que fez Napoleão liderar milhares e, posteriormente, se coroar Imperador da França. E se Maria Antonieta não tivesse dito aos pobres para comerem brioches (apesar de nunca ter, de fato, dito isso), então a Inglaterra não teria vencido a batalha de Trafalgar, e Londres não teria aquela praça linda.

Da mesma forma, primeiro Lily leu muito.

Leu sites, blogs, definições da psicologia, artigos acadêmicos. Depois, entrou para a seara dos vídeos no YouTube, com depoimentos, bate-papos e até mesmo palestras de simpósios de psicologia sobre gênero e sexualidade. E, por fim, Lily estava certa de que era assexual.

Porém, não estava tão certa assim de que queria compartilhar isso com alguém, porque ainda parecia estranho. Afinal, nunca tinha passado na cabeça de Lily fazer parte do grupo de pessoas que precisava "se assumir", quando entendia sua sexualidade.

Essa era outra questão que a consumia, o fato de algumas pessoas precisarem se assumir e outras não. Sua irmã não precisara chegar aos pais e dizer que era heterossexual, e a ideia de que Lily precisava fazer aquilo sobre sua sexualidade — que certamente não seria compreendida pela família — a fazia querer sumir. Ela tinha caído de paraquedas na comunidade LGBTQIA+ e alguma coisa fazia Lily achar que as outras letras eram muito maiores que o A invisível de sua orientação.

Às vezes, Lily achava que se o alfabeto das sexualidades fosse ordenado por relevância e visibilidade, seu A teria a colocação de um Z. Invisível e estigmatizado como doença, trauma, e mesmo falta de ‘um parceiro ideal’, que a faria amar sexo.

Ninguém queria falar sobre pessoas que não sentiam atração. Todos agiam como se essas não existissem, como se fossem elementos a serem curados ou consertados. Ou pior, agiam cientes de que elas existiam, apenas ninguém queria falar sobre.

Exceto, talvez, Remus. Por isso, ele foi a primeira pessoa para quem Lily contou sobre a sua descoberta e ficou muito feliz pela amiga. Sem dúvidas aquilo havia aproximado os dois, de maneira que, quando as aulas da faculdade retornaram, Remus e Lily estavam tão próximos quanto ela sempre fora com James.

— Posso sonhar em saber o que os dois fofocam sem mim? — James brincou um dia, quando encontrou-os para um café após a aula.

— Sonhar pode, agora saber… — ela devolveu a brincadeira, rindo quando James fez uma careta e sentou-se ao seu lado, fazendo um cafuné.

O pescoço de Lily esquentou pouco depois e seu coração ficou levemente mais acelerado.

— Chega de café, por hoje. — comentou, empurrando a xícara para longe e voltando a fazer anotações em seu caderno. James fez menção de se afastar, para que ela não sentisse tanto calor. — Não, tudo bem. Pode continuar.

James deu um sorrisinho quase tímido e continuou a mexer no cabelo ruivo dela, desenhando em silêncio ao seu lado, e nenhum deles percebeu as olhadelas e os sorrisos irônicos de Remus, à frente dos dois, lendo um texto para sua aula do dia seguinte.

•••

— Oi, onde você está?

— Em casa? O que houve?

— Eu acho que estou ficando maluca. Você pode vir aqui?

— Lil… é meia noite, o que foi?

— Só vem, Rem… por favor! É sério!

Levou dez minutos para Remus chegar na casa de Lily, porque eles moravam próximos, e quando ela abriu a porta, de pijamas e enrolada em um roupão, Remus não entendeu coisa alguma. Ela, com certeza, não parecia maluca.

— O que aconteceu? — ele começou, mas Lily tapou a boca dele e o levou até seu quarto, recusando-se a contar algo no corredor.

— Shiu! Todo mundo dormindo! — ela o repreendeu assim que fechou a porta do quarto. — Calma, seu curioso!

— Curioso não, preocupado. Olha a hora que você me liga! O que aconteceu? — insistiu, enquanto Lily mordiscava a almofadinha do dedo, nervosa.

— Eu acho que estou gostando de alguém.

Remus abriu um enorme sorriso surpreso, quase caindo na gargalhada. Porque, após toda a situação de Lily se descobrir e se entender em termos de sexualidade, ali estava ela, falando de gostar de alguém.

— Isso é incrível!

— Não é, não! — corrigiu ela, com a expressão quase risonha de desespero. — Como você soube que não era assexual completo? Porque eu sou, mas não sei mais se sou… eu, eu acho que sinto… coisas, Remus.

Lily queimou de vergonha ao dizer aquilo. Só o auge do desespero por se entender poderiam ter feito ela ligar para Remus àquela hora da madrugada para falar que sentia coisas por alguém. Como o ótimo amigo que era, Remus caiu na mais espalhafatosa gargalhada que conseguiu, fazendo Lily cobrir sua boca em repreensão, corada até o último pedaço aparente de pele.

— Lil… assexuais podem sentir desejo, você sabe, não sabe? — ela concordou. — Então fica calma. Não entra em parafuso. Conta mais, quem é? Como você percebeu que gosta dele? Ou dela, não sei.

Ela ficou absurdamente quieta e corada durante um tempo e Remus precisou insistir algumas dezenas de vezes para que ela contasse antes que Lily começasse a história.

— Sempre tinha existido uma sensação boa com ele, sabe? Mas é uma amizade muito especial e antiga, e eu não pensava absolutamente em outra coisa. Eu me sentia um bichinho defeituoso, lembra?

— Superamos essa fase há quase três meses, para de enrolar, Lil. — brincou Remus, acompanhando com atenção.

— Depois eu achei que tinha entendido o que era ser assexual e achei que fosse… porque, sabe como é… o ponto morto da marcha de carro. — Remus riu novamente e Lily mordiscou o dedo, constrangida. — Mas ele é muito inteligente e eu acho que nunca tinha parado para pensar como acho isso interessante nele, tem essas borboletas dançando no meu estômago, e ultimamente um calor…

Remus não precisou de esforço algum para notar como os olhos de Lily estavam brilhantes e acesos, ela sorria de nervosismo e empolgação enquanto falava.

— … um calor pelo pescoço. E eu sinto que poderia ficar olhando ele falar sobre o que gosta por horas, alguma coisa mudou no jeito como eu o acho bonito… agora é um bonito…- ela corou. — Um bonito atraente... você acha que eu sou maluca, não acha? Eu sou assexual, eu sei!

— Eu não acho nada que você seja maluca, Lil. — Remus sorriu para ela. — E quem foi que disse que uma vez definida a sua sexualidade você nunca pode mudar de opinião? Você é um personagem do The Sims, por acaso?

Ela riu com a comparação.

— É que eu não acho que eu seja não assexua-

— Alossexual. — ele corrigiu.

— Isso. Eu não acho que seja, sabe? É… sei lá, parece que é só com ele!

— Que você não vai me dizer mesmo o nome?

Lily parou e pensou, refletindo sobre as pontuações de Remus e sobre tudo o que tinha lido e estudado.

— Eu posso ser mais de uma coisa?

— Lil, você pode ter, absolutamente, qualquer sexualidade que achar que tenha. Não é uma ficha de bingo que você tem um número de coisas para marcar.Não existe um check list de assexualidade! Você pode estar em qualquer lugar da área cinza. E, claro, existem definições e algumas polêmicas, gente que gosta de cagar regra… mas, no geral, você se define como quiser.

Na cabeça dela, tocava um filme em velocidade acelerada. Todos os crushes da época de escola eram sempre extremamente nerds, ou o jeito com que sua cabeça infantil ficava apaixonada por personagens inteligentes em desenhos e filmes.

Certo, talvez isso fosse mais um padrão preferencial.

Por outro lado, passou também a lembrança das inúmeras fanfics românticas que Lily tinha imaginado com alguns amigos e conhecidos ao longo da vida. Como seus crushes e interesses, ainda que nunca nada além da vontade de trocar carinho ou um beijo, sempre tinham sido por pessoas próximas.

— Rem… — ele concordou, esperando que Lily continuasse. — Eu acho que estou apaixonada por um amigo. E, talvez, eu… eu possa me dizer demissexual? Talvez?

— Apaixonada por um amigo e demissexual... Perfeito! — resumiu Remus em seguida, fazendo Lily dar uma espécie de riso nervoso, afetada pela nova percepção.

— Uhm… é? Eu acho… É, tipo, simples assim? Eu gosto dele, quero beijá-lo, e sou demisssexual?

— Sim, é simples assim. — sorriu Remus. — Você pretende contar para o senhor misterioso?

— Ah… não sei. — Lily se encolheu, meio sem graça. — Não acho que ele me veja assim e pode achar estranho… e eu nem saberia como chegar nele, de qualquer forma. Eu não… não tenho um passado muito bem-sucedido em questões amorosas… vai ver eu nem sei beijar.

Remus riu, porque tudo que Lily dizia parecia ser um enorme absurdo, fruto de pura insegurança.

— Eu tenho certeza de que James vê muito você desse jeito, Lily. E que, mesmo se ele tivesse que dar aulas para ensinar você a beijar, ele não acharia nada ruim.

Os olhos de Lily se arregalaram para Remus e ela estava sorrindo surpresa, chocada de uma forma boa, embora incrédula.

— Como… como você sab-

— Faz semanas que eu notei, Lily. Na verdade, faz anos! James gosta de você há, pelo menos, uns três anos… e todo mundo sempre achou que era questão de tempo você notar que gostava dele também. Vocês são iguaizinhos e têm uma energia tão boa juntos. — ele sorria ao contar aquilo, e Lily mais ainda.

brincando! O James, ele… ele gosta… de mim?

— James é apaixonado por você, Lily! Todas aquelas músicas que ele escreve, os desenhos seus que ele faz… acho que ele nunca falou com você sobre porque… enfim, você tinha suas questões com a sua sexualidade e não parecia muito interessada em relacionamentos… talvez ele achasse que não era recíproco e não quis estragar nada.

Nem parecia real. James era tão… James! Parecia uma fanfic clichê que ele estivesse interessado em Lily há tanto tempo e agora ela percebesse que estava afim dele também. James era a pessoa favorita de Lily no mundo inteiro e tudo o que ele dizia a fazia se sentir especial e querida.

James fazia Lily sorrir, sonhava seus sonhos com ela, tinha estado em todas suas conquistas, mesmo as mais idiotas, como aquele curso de confeitaria em que Lily produzira um bolo que se quebrou antes da foto final.

James tinha levado Lily ao seu primeiro encontro, com dezesseis anos, e comprado sorvete quando ela chegara em casa aos prantos por ter sido, não apenas um péssimo primeiro beijo, mas um péssimo encontro como um todo. James era o tipo de melhor amigo que emprestava seu moletom para Lily esconder a mancha do uniforme quando seu absorvente vazava, na época do colégio.

Era para James que Lily queria ligar sempre que algo novo acontecia, com quem gostava de passar seu tempo livre, dar risadas e ver filmes. Quando pensava bem, parecia que, afinal, sempre tinha sido James. E, agora, Lily percebia também que queria beijá-lo. Talvez, em algum futuro, pudesse sentir que queria outras coisas também.

Por um lado, parecia um tempo perdido não ter notado isso antes e, por outro, Lily sentia que nunca poderia ter notado que estava apaixonada por James se não tivesse entendido a si mesma primeiro. Se não tivesse entendido como amava, como se atraía e, principalmente, como era perfeitamente normal ser como era.

Lily não era estranha. E não era à vontade de transar com alguém que se devia resumir uma sexualidade.

— James gosta de mi-

— James é apaixonado por você, Lil. James é o maior gado de você! Se você pedir que ele busque algo no fim do mundo, eu tenho certeza de que ele vai.

— James é apaixonado por mim. — ela se corrigiu. — E eu estou apaixonada por ele. Eu estou apaixonada pelo meu melhor amigo, Remus!

Remus riu, dizendo que sim, e Lily riu também e então estavam os dois rindo de algo que nem sabiam bem o que era, dançando alguma música clichê sobre estar apaixonado, que Lily colocou no celular.

•••

— Um smoothie de banana e cacau — ele estendeu o pedido de Lily para ela, entrando no carro. — e um smoothie de frutas vermelhas para mim. Ah! Nada melhor para relaxar após uma prova.

Ele havia parado no estacionamento de uma das cafeterias favoritas de Lily, mas, como o local estava lotado, cada um fez seu pedido e eles ficaram no carro. Lily até preferia, porque estava tendo uma mini taquicardia pelo assunto que queria falar com James.

— Que foi? — ele perguntou sorrindo, quando a viu mordiscando o canudo. — Que riso solto é esse, eim?

— Nada.

— Ah, para, Lily! Eu conheço você como a palma da minha mão… o que há? — insistiu, mexendo a bebida no fundo do copo.

Lily hesitou um segundo, e então reuniu coragem.

— Tenho uma coisa para contar.

— Opa! Fofoca nova, adoro! Conte! — ele girou-se no banco, para ficar de frente para Lily, que riu.

— Eu meio que descobri algo sobre mim… sobre meu jeito de gostar de pessoas. — ela começou. — E isso me levou a perceber que estou gostando de alguém.

O olhar de James se perdeu por alguns segundos e ele ficou sério, o que deixou Lily tensa.

— Ah… nossa! Que… que legal, Lil! E o que descobriu? Você é… lésbica, não sei?

Ela não se conteve e caiu na gargalhada, nervosa.

— Não, não. — disse, rindo e arrumando o cabelo atrás da orelha. — Eu notei que… uhm.. você sabe que eu sou meio… tímida. Não sou de namorar muito.

— Uma dama recatada. — ele brincou.

— É… quase isso. E conversei com Remus… pesquisei muito, achei uma coisa, depois achei outra, depois mudei de ideia… e por fim, eu concluí que sou demissexual.

— E você vai ter que traduzir isso para mim. — ela riu do jeito com que James estava reagindo.

Lily fez uma explicação breve sobre a demissexualidade e sobre os espectros da assexualidade, ao que James pareceu acompanhar, embora meio confuso.

— E eu claramente tenho padrão de quedinha por pessoas inteligentes, também.

— Acho que já ouvi isso… sapi-

— Sapiossexualidade. Não sei se é bem uma sexualidade, não tem um consenso, então não diria assim… mas é, quedinhas platônicas. — ela se enrolou. Era difícil até para ela mesma entender as polêmicas que havia sobre esses termos todos.

— Então… não sente atração sexual?

— Posso sentir, se existir um vínculo emocional. Sabe? — James assentiu. — Tudo o mais é como qualquer pessoa, gosto de carinho... e me apaixono. — ela enrubesceu, porque o assunto estava convergindo para James. — E eu me dei conta de que estou apaixonada por alguém. Por um amigo.

James soltou o ar com força e piscou algumas vezes, meio desnorteado. Então ajustou os óculos e falou algum tempo depois.

— Ah… massa. Legal mesmo, Lil. Um amigo. Ahm… eu acho que talvez tenha algo para falar também. Já que você está gostando de alguém e eu não quero atrapalhar iss-

— Esse amigo é muito especial. É querido e eu não sei como nunca tinha notado que gosto del- — ela o interrompeu, sorrindo corada, esperando que ele deduzisse.

— Isso é ótimo, Lil! De verdade, ótimo. Só… só que eu preciso contar algo. Porque eu meio que guardo isso há um tempo e agora que você gosta de alguém, eu não que-

— James, meu amigo é muito talentoso. Ele é dedicado, doce e temos gostos tão parecidos! Estamos na mesma área e na mesma fas-

— Lily! Lily, é sério, é muito importante o que estou dizendo, por favor! Eu acho ótimo que você esteja gostando de alguém, só que eu não vou poder ser a pessoa que escuta sobre isso, porque eu-

— James! — ela estava gargalhando daquela situação de estarem falando um sobre o outro. — James! James me escuta! — segurou nas mãos dele, para que parasse de gesticular e a ouvisse. — James, eu gosto do meu melhor amigo. Do meu melhor amigo.

Ele a olhava confuso, sem entender porque Lily estava fazendo aquela cena.

— Você afim do Moony?!

— James… meu melhor amigo. — ela repetiu depois que parou de rir, olhando fundo nos olhos de James. Segundos depois, ela pôde notar a compreensão passando pelo rosto dele.

— Ah… é sério isso, Lily? Você….gosta de…?

— De você, é claro, seu obtuso! — ela deu um tapinha no ombro dele, corando violentamente. — Você não me deixa falar.

— Porque eu tava tentando dizer que maluco por você, Lil! Há muito tempo! Anos! — ele riu, atrapalhando o cabelo espetado. — É… é sério mesmo? — Lily confirmou. — Ah, caramba!

Ele segurou o rosto de Lily e deixou um beijo na testa dela, sorrindo bobamente.

— Evans, você nem tem noção de quantas vezes eu imaginei um momento assim. — confessou, falando baixinho e olhando fundo nos olhos de Lily, que sorria igualmente entregue.

Meio segundo depois, as mãos de James seguravam o rosto de Lily com delicadeza e seus lábios encostaram nos dela com a sofreguidão de quem desejava aquele beijo por uma vida toda.

Lily, que sempre tinha achado beijos esquisitos e meio mortos, sentiu-se acesa por dentro, como um fogo de artifício prestes a estourar, e achava que ia derreter no paradoxo de calor queimando em seu peito e o frio em sua barriga ao sentir as mãos de James a puxarem para mais perto.

Algum tempo depois, separaram-se com sorrisos apaixonados, dando risinhos da situação, meio envergonhados depois de expostos seus sentimentos mais intensos.

— Então… boatos de que você guarda esse segredinho de gostar de mim há um tempo, uhm? — ela provocou, fazendo James rir e roubar um selinho.

— É… fiquei cozinhando meus sentimentos aqui enquanto uma certa ruiva não me dava bola.

— Ei! — ela riu indignada e James gargalhou, puxando-a para deitar a cabeça em seu ombro. — Em minha defesa, eu nem entendia a mim mesma…

—Demissexual.- ele repetiu, pensando sobre o que Lily tinha comentado. — Meio intimidador, não é?

— Só se você não fosse você, ou se fosse um babaca que resume namoro a sexo. — Lily comentou, em um tom que mesclava riso e seriedade. James a olhou, negando veementemente com a cabeça.

— Meu deus, não! Quer dizer, é claro que você é… urgh! Uma super gostosa, convenhamos, Evans! — ele corou, gesticulando para Lily e a fazendo rir, colocando a cabeça contra o peito dele. — Mas tenho certeza de que vamos dar um jeito… achar nosso jeito de fazer funcionar.

— E só porque eu não sinto necessidade, não quer dizer que não possa… sabe? Tentar, um dia. Quem sabe? Eu posso gostar. — ela corou, dando uma piscadinha e fazendo James dar um risinho malicioso em concordância, fazendo cócegas nas costelas de Lily.

— Tudo ao seu tempo, não precisamos ter pressa.

Por um tempo, ficaram ali abraçados juntos, um curtindo a companhia do outro, conversando sobre nadas e aproveitando a felicidade de saberem que se amavam.

— Sabia que, na verdade, foi meio que você quem me levou a entender essa demissexualidade. Quer dizer, não diretamente, mas influenciou...

— Ei, então isso aí está errado. — brincou James, olhando-a sério. — Você não é sapiossexual, nem demissexual… nada disso!

— E eu sou o quê então, James? — riu, imaginando o tipo de piadinha que ele faria.

Porque Lily conhecia James como a palma de sua mão e sabia que uma piadinha de humor duvidoso viria.

— Você é, tipo, eussexual. Jamessexual. — ela explodiu em risos. — E considerando que eu estive gostando de você pelos últimos três anos… estou concluindo que eu devo ser Lilysexual também.

— Você é péssimo, James Potter. — ela complementou, ligando o som do carro em uma música de bossa nova que ela adorava. — Mas é, devo ser Jamessexual, caidinha por você.

— Que bom. Porque estranho seria se eu não me apaixonasse por você.

James a beijou ainda uma outra vez, e Lily queria que aquele momento não terminasse, porque agora aquela sensação era boa demais para ser evitada. A melhor forma de atração que já sentira.

As coisas todas tinham um começo, e era maravilhoso estar plenamente consciente, desta vez, de que uma fase maravilhosa estava se iniciando, cheia de descobertas sobre afeto e letras diversas de sexualidades.

A Rainha Elizabeth I sofrera um estigma social por nunca ter casado e, supostamente, morrido virgem, e Lily achava que a compreensão das sexualidades poderia ter poupado aquela monarca de muito sofrimento pessoal.

Lily amava pessoas diversas, de formas diversas, e era tão igual quanto qualquer outra pessoa, com qualquer outra forma de amar. E, no fim das contas, só importava isso, porque a assexualidade — e todo o seu espectro -, ela definiu para si mesma, começava com A.

A de Amor.

E ela estava batendo o martelo bem ali, era válida toda forma de atração. E de Amor.

Notas finais
Notas finais, o pesadelo de toda fanfiqueira.
Vejo vocês nos comentários ❤❤
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!